A Nova Era – Semana 190: it’s lights out and away we go

A sociedade civil se unindo contra a democracia, o Judiciário se unindo a favor das eleições e o voto evangélico.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #190 do governo Bolsonaro.


The following takes place between aug-16 and aug-22


Gestos

Graças a Bolsonaro, a posse de Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral deixou de ser só mais um evento burocrático do dia a dia da elite do Judiciário.

O evento, que contou com a participação de grandes nomes da política nacional, se tornou um ato em defesa das eleiçõesnão faltou análise apontando que a fala de Moraes durante a sua posse foi um recado contra o golpismo.

Bolsonaro não bateu palmas para as palavras de Moraes a favor das urnas e de eleições livres, mas horas antes, em Juiz de Fora (MG), o presidente deixou claro que o lado dele não é o lado da democracia. A cara feia de Bolsonaro no evento, como sempre, não foi só genética.

Apaziguando

Alexandre de Moraes quer pacificar as relações entre o Tribunal Superior Eleitoral e os militares. Após um longo período de conflitos com Edison Fachin e Luís Roberto Barroso, há uma forte esperança de que as Forças Armadas terão menos dificuldade para lidar com o novo presidente da Corte. Mas, para todos os fins é importante lembrar que, até mesmo em um país como o Brasil, militar só palpita em assuntos que envolvem o uso de armas.

Senhores do Whatsapp

Se a elite política e judicial se une a favor da democracia, parte do grande empresariado brasileiro quer brincar de golpe e reviver 1964 fora de quatro paredes. Em um grupo de Whatsapp, donos de empresas como o Grupo Coco Bambu e a Mormaii falaram abertamente que preferiam um “golpe do que a volta do PT”.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) pediu ao STF que a Corte avaliasse a prisão dos citados na matéria, mas até o final da edição deste texto, ficamos apenas com mandados de busca nas casas dos envolvidos. Não foi dessa vez que eles brincaram de os Novos Inconfidentes.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O voto está nas igrejas I

Mulheres e evangélicos. Esses são os dois grupos que estão na mira dos candidatos nas eleições de 2022 e que representam 1/3 do eleitorado. É como se fosse Minas Gerais em forma de brasileiro: quem vence esses grupos, ganha o Planalto.

Bolsonaro já começou a sua estratégia para ganhar o voto dos evangélicos e das mulheres ao seu modo: isenção de imposto potencialmente ilegal para pastores, a presença da primeira-dama, Michelle, em atos de campanha, e insinuações de que a mulher de Lula, a Janja, é seguidora de religiões afro-brasileiras (o que não é um crime, mas funciona contra o petista).

O voto está nas igrejas II

Já Lula começou a semana afirmando que não realizaria uma campanha pautada pela religião. Depois, afirmou que Bolsonaro está “possuído pelo demônio” e que é um fariseu. Independentemente da estratégia que o petista for utilizar, há um grande caminho pela frente: Bolsonaro já consolidou o voto evangélico em boa parte desse eleitorado utilizando como base fatores (família, pânico moral e questões de liberdade individual) que Lula terá muita dificuldade para rebater sem sair demais da esquerda.

40 minutos de horror

Jair Bolsonaro foi o primeiro presidenciável a participar das entrevistas de 40 minutos do Jornal Nacional, na TV Globo. Em resumo, o presidente negou tudo o que disse nos últimos dias, semanas, meses e anos, negou que xingou ministros do Supremo ou que tenha imitado pessoas com falta de ar por causa da covid-19 e se comprometeu a respeitar o resultado das urnas. Quem não conhece o presidente que o compre.


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A Nova Era – Semanas #184 e #185: briefing de golpe

A aprovação da “PEC kamicaze”, mortes políticas e o ensaio de um golpe.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #185 e #186 do governo Bolsonaro.


The following takes place between 06-jul and 18-jul


Investigue-se

O Tribunal de Contas da União investigará o ex-presidente da Caixa Econômica Federal Pedro Guimarães. O inquérito deverá apurar se as acusações de assédio sexual e moral são verdadeiras ou não. As suspeitas também são investigadas pelo banco, pela Justiça Criminal e pela Justiça Trabalhista.

Ajudando o pobre hoje

O Governo Federal conseguiu aprovar, na Câmara e no Senado, a “PEC das bondades/kamicaze/eleitoral”. Ao todo, o Planalto pretende gastar R$ 50 bi com aumentos temporários no Auxílio Brasil e ajuda para taxistas, caminhoneiros e donos de empresas de ônibus. Tudo isso com o apoio da vastíssima maioria dos deputados e senadores — mesmo com o texto final sendo absurdamente inconstitucional.

Os únicos políticos que votaram contra a PEC foram o senador José Serra (PSDB-SP) e a bancada do Novo. Todos estes votaram certo, mas por motivos diferentes. Houve quem votasse contra por não gostar de pobre, mas também teve voto contra pela parte de quem sabe que não precisa apoiar essa PEC por estar em fim de carreira e por gostar de pobre.

Para aumentar a miséria amanhã

Via de regra, as maiores dificuldades enfrentadas pelo governo para aprovar a PEC foram os pedidos de ordem da oposição e o processo que convenceu o deputado federal Danilo Forte (União-CE), relator da PEC na Câmara, a não alterar o texto que veio do Senado. Arthur Lira (PP-AL) fez tudo o que esteve ao seu alcance (mesmo que isso envolvesse alguns dribles nas normas do Congresso) para aprovar o texto antes que os parlamentares entrassem em recesso.

Judicialize-se

Antes que o texto chegasse à Câmara, o Ministério Público pediu para que o Tribunal de Contas da União avaliasse a legalidade do projeto. O objetivo do MP é impedir que a PEC cause um furo no teto de gastos, o que significa, efetivamente, acabar com o projeto. A Confederação Nacional de Municípios também foi contra a medida, mas por outras razões.

Fatura

O fato é que os poucos que tiveram a coragem de votar contra a PEC fizeram certo. Sim, falar para o eleitor que deixar ele sem comida hoje, ajuda ele a ter comida amanhã, não é fácil. É simplesmente irreal esperar que essa explicação funcione fora de partidos de nicho, como é o caso do Novo.

Mas a PEC de Bolsonaro causará uma piora dos fundamentos fiscais do país ao longo dos próximos meses que será capaz de anular o efeito dos benefícios aprovados antes mesmo que eles cheguem aos bolsos dos beneficiários — no melhor dos cenários. No pior dos cenários, teremos desancoragem da meta de inflação, alta do dólar, queda da Bolsa, piora do risco-país e aumento da taxa de juros. Tudo isso enquanto o planeta corre o risco de ter que lidar com uma recessão global.

2022 prometeu e está entregando muita desgraça. Mas 2023 promete ser ainda pior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Barbárie

Enquanto gritava “Aqui é Bolsonaro!”, o agente penitenciário Jorge José da Rocha Guaranho invadiu uma festa e assassinou a tiros o aniversariante, Marcelo Arruda. Arruda era tesoureiro municipal do Partido dos Trabalhadores e resolveu decorar a sua festa com fotos do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. Guaranho, por outro lado, não era um convidado da festa e sequer conhecia a vítima, mas tinha como intenção matar todos os presentes da festa e votar em Bolsonaro nas próximas eleições.

Quem pariu Mateus que o embale

Lula lamentou a morte de arruda. Ciro Gomes pediu que Deus trouxesse conforto às duas famílias. Simone Tebet lembrou que “adversários não são inimigos”.

Bolsonaro, presidente apoiado pelo assassino? Afirmou que o apoio daquele que já tirou foto com os seus filhos era dispensado e que atitudes políticas violentas são coisas de gente de esquerda. O presidente não explicou, porém, onde é que afirmar que é necessário “fuzilar a petralhada” é uma postura comunista.

Como quem já não tinha desafinado bastante o soneto, o presidente também resolveu ligar para familiares de Marcelo Arruda. Os parentes escolhidos não estavam na festa de aniversário em que Arruda foi morto e eram apoiadores de Bolsonaro. Mesmo assim, o presidente considerou interessante convidá-los para uma entrevista voltada para “despolitizar” uma morte política.

Crime político sem política

Este não foi o primeiro, o segundo ou o terceiro caso de violência política no Brasil que virou notícia nos últimos anos. E, tal qual aquele enfrentado por Marcelo Freixo no último final de semana, teve como alvo pessoas ligadas à esquerda. Para reforçar o Índice de Coincidências Incríveis, também foi praticado por alguém que está ligado, direitamente ou indiretamente, ao presidente Jair Bolsonaro.

Inicialmente, a investigação do caso ficou com a delegada Iane Cardoso. Ela foi substituída por Camila Ceconetto após postagens de Cardoso em apoio ao presidente terem viralizado. A nova delegada, porém, não demorou muito para demonstrar que a sua escolha não foi a melhor ideia do mundo.

Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil do Paraná afirmou que o crime ocorreu por motivo torpe, mas não por razões políticas. Segundo os responsáveis pela investigação, “é complicado a gente dizer que esse homicídio ocorreu porque o autor queria impedir os direitos políticos da vítima”. Em entrevista, a delegada responsável pelo caso também afirmou que, apesar de ter anunciado o que faria, Guaranho cometeu o assassinato por impulso.

De fato, não há tipificação penal para crime político no Brasil há alguns anos. A Polícia Civil, inclusive, pode tentar falar que foi isso o que ela afirmou. Mas, vamos combinar, não foi bem o caso.

Teaser do trailer da bagunça constitucional

O presidente Jair Bolsonaro terminou a sua segunda-feira repetindo as suas mentiras habituais sobre o sistema eleitoral para um grande grupo de autoridades estrangeiras enquanto alternava ataques ao Supremo e ao TSE. Autoridades reagiram apontando o nível de absurdo das falas do presidente, defendendo o sistema eleitoral e afastando as chances de um levante golpista dar certo. Arthur Lira deu folga para o redator de notas de repúdio.

Quem acreditou nas mentiras do presidente provavelmente já está corrompido pelo espírito bolsonarista. Se este não for o caso do(a) leitor(a), vale se perguntar ao longo dos próximos meses o seguinte: o(a) seu(ua) candidato(a) repudiou as falas de Jair Bolsonaro?


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A Nova Era – Semana #183: bagunça geral

Denúncias de assédio sexual envolvendo o (agora) ex-presidente da Caixa, Senado aprovando a bagunça fiscal que pode garantir a reeleição de Bolsonaro e dólar nas alturas.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #183 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-28 and jul-04


Abuso

Pedro Guimarães começou a semana como presidente da Caixa Econômica Federal. Pedro Guimarães terminou a semana com o Brasil sabendo que ele é investigado pelo Ministério Público por assédio sexual.

Os relatos dos abusos, publicados pelo portal Metrópoles, foram feitos por um grande número de funcionárias da CEF. As acusações envolvem toques íntimos não autorizados e convites para sexo em local de trabalho. Indo além, também existem relatos de assédio moral envolvendo o dia a dia ao lado de Guimarães.

Amigo para toda hora

Pedro Guimarães também foi um apoiador de peso para o presidente Bolsonaro. Enquanto esteve à frente da Caixa, Guimarães foi convidado frequente das lives semanais do presidente, defendendo o papel do banco público no fortalecimento do governo federal. Ou melhor, no fortalecimento da popularidade de Bolsonaro.

Troca de cadeiras

A substituta de Guimarães é Daniella Marques. Ela é uma economista de confiança do ministro Paulo Guedes (Economia) e que já estava trabalhando com ele desde o primeiro dia do governo Bolsonaro. Como grandes feitos, Marques ajudou em várias articulações do governo com o Legislativo — muito provavelmente operando baldes de água capazes de apagar os incêndios promovidos pelas largas bocas de seus superiores diretos e indiretos.

Reação

Como primeiras medidas, Daniella Marques contratou uma auditoria externa para rastrear membros do banco que tenham acobertado o assédio supostamente realizado por Guimarães. Ela também pretende criar um comitê de crise para apurar denúncias desse tipo. É melhor fazer isso com carinho, já que o Tribunal de Contas da União está de olho em todas as ações do banco.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Guerra de protocolos

Conforme apontado na última edição, a oposição protocolou o pedido de criação da CPI do MEC. Agora, os senadores devem enfrentar um desafio: convencer o presidente da casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que a investigação dos escândalos envolvendo o órgão é mais relevante do que os pedidos que a base do governo fez para barrar inquéritos mais sérios.

Guerra de emendas

Enquanto o senador Carlos Portinho (PL-RJ) ameaçava ir ao Supremo Tribunal Federal caso o presidente do Senado instalasse a CPI do MEC antes de outras menos importantes, o Planalto abriu o cofre. Desde a prisão de Milton Ribeiro, ao menos R$ 3 bilhões foram liberados por meio do “orçamento secreto”. O objetivo é simples: garantir que a abertura da CPI seja postergada o máximo possível.

Rodrigo Pacheco? Prometeu definir se as emendas do relator falarão mais alto do que o seu republicanismo nos próximos dias.

Abrindo o cofre

O governo federal conseguiu aprovar, no Senado, a PEC que reúne o “pacote de bondades” que Bolsonaro pretende utilizar para melhorar o cenário econômico (e as suas chances eleitorais) nos próximos meses. Ao menos R$ 41 bilhões serão utilizados nessa brincadeira. Tudo ficará fora do teto de gastos, como esperado.

A proposta inclui benefícios mais focalizados, como um aumento no Auxílio Brasil, e pouco focalizados, como um “voucher caminhoneiro” e “voucher taxista”. Em comum, todas as ideias da PEC são flagrantemente inconstitucionais, apoiadas por políticos de fora e de dentro da base do governo e incapazes de resolver o problema no curto prazo.

Considerando que essa medida desregulará as já bastante bagunçadas contas públicas, 2023 será um ano terrível para os fiscalistas de plantão.

Batalhas para o futuro

As próximas semanas do governo Bolsonaro serão marcadas por muitas batalhas. O Planalto quer postergar, a todo custo, a realização da CPI do MEC para depois das eleições de outubro. Já a oposição quer jogar a votação do pacote de bondades para agosto.

As intenções de ambos revelam que ninguém em Brasília estará se movendo, até o final de outubro, por qualquer outra coisa que não seja a disputa eleitoral deste ano. Portanto, aconteça o que acontecer, a gente já sabe que: ninguém vai ganhar ou perder; todos vão ganhar e perder.



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A Nova Era – Semana #182: prende, solta e pressiona

Ex-ministro do governo sem corrupção sendo preso por suspeita de corrupção, pressões sobre o Tribunal Superior Eleitoral e ideias ruins para combater o aumento de combustíveis (de novo).

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #182 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-21 and jun-27


Partiu pro ataque

Arthur Lira (PP-AL) se uniu a Bolsonaro e partiu para cima da Petrobras. O presidente da Câmara dos Deputados apoiou publicamente uma PCI para a empresa, afirmou que (o agora ex-presidente) José Maura Coelho não tinha legitimidade para ocupar o seu cargo e que era necessário “tirar a máscara” da petroleira. Quem não sabe como a Bovespa funciona chegou a acreditar que estávamos falando de uma empresa não listada na bolsa.

Fã ou Hater?

Já Bolsonaro, que conta com plenos poderes sobre o principal acionista da empresa (a União), apoiou a iniciativa. Durante o final de semana do dia 18, o presidente afirmou que era “inadmissível” que a empresa se gabasse dos seus lucros. Também afirmou que ela perderia R$ 30 bilhões em valor de mercado com a notícia de uma possível CPI.

Ideias ruins para problemas péssimos

Enquanto Bolsonaro e Lira atacavam a Petrobras, Adolfo Sachsida lembrou ao presidente que ele não pode interferir na política de preços de combustíveis adotada pela estatal. O motivo? A Lei das Estatais.

Mas o presidente pode tentar outras estratégias, algumas delas até um pouco mais eficazes do que intervir no ICMS. Nas ruas de Brasília (DF), começou a voar o balão de ensaio de um aumento do valor do Auxílio Gás e uma espécie de “bolsa-caminhoneiro” para ajudar a categoria. Não é a melhor estratégia, mas certamente é mais eficiente e socialmente justo do que financiar diesel de dono de Land Rover.

Só falta falar de onde sairá o dinheiro.

Blindagem

Jair Bolsonaro sabe que, se demorar muito para tentar encontrar uma solução para a inflação que envolva gastos federais, terá que lidar com a possibilidade de ser acusado de cometer crime eleitoral. Diante disso, o presidente publicou um decreto para blindá-lo de possíveis acusações caso os seus planos de distribuição de dinheiro para caminhoneiros e pobres dê certo. Se tudo der errado, ainda há a possibilidade de um estado de calamidade ser decretado.

Pequenas Notas do Quinto dos Infernos

  • Uma juíza tentou impedir uma criança de 11 anos de conseguir acesso ao seu direito legal ao aborto.
  • Após várias aberturas para o diálogo, as Forças Armadas cobraram mais diálogo com o TSE e reafirmaram que farão, durante as eleições, o que elas já estão autorizadas a fazer.
  • O PT centralizou um pouco mais o seu plano de governo para as eleições de 2022.
  • Lula segue sendo o candidato com mais chances de derrotar Bolsonaro (e todos os outros candidatos) ainda no primeiro turno.
  • Mais de 111 milhões de doses de vacina contra a covid-19 não foram aplicadas pois os brasileiros aptos a recebê-las não foram ao posto de saúde mais próximo.
  • O governo federal utilizou as sobras do Bolsa Família para investir nas Forças Armadas.
  • A Polícia Federal impôs sigilo de cem anos sobre a investigação interna da morte de Genivaldo de Jesus dos Santos.
  • Arthur Lira (PP-AL) mandou um recado para o(a) próximo(a) ex-presidente(a): o orçamento secreto fica.
  • A Petrobras tem um novo presidente.
  • Roberto Campos Neto afirmou que o pior da inflação brasileira está no passado.

Queimando a mão para não queimar a cara

A Polícia Federal prendeu o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e alguns dos pastores suspeitos de transformarem a liberação de verbas no MEC em “balcão de negócios”. Os acusados responderão por corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência.

Após afirmar que colocaria a cara no fogo pelo ex-ministro, Bolsonaro jogou Ribeiro pela janela. Bolsonaro também afirmou que a corrupção dele é diferente da corrupção de outros governos, como se isso fosse algo bom.

Coincidência I

Na quinta-feira (23), o desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal, mandou soltar Milton Ribeiro. Com o pasto de volta para a sua casa, o presidente voltou a defendê-lo.

O delegado federal que pediu as prisões, Bruno Calandrini, disse em mensagem a colegas que houve “interferência na condução da investigação”. Já a imprensa revelou que o ex-ministro, esta “pessoa honesta e fiel”, pouco antes de ser preso, afirmou em ligação que o presidente estava com um “pressentimento” de que algo ruim aconteceria a ele.

Coincidência II

As investigações também apontam que Luciano Musse, ex-gerente de projetos do Ministério da Educação, hospedou-se no mesmo hotel do pastor Arilton Moura por dez vezes em Brasília (DF). O religioso é um dos suspeitos de integrar o esquema de tráfico de influência no MEC.

Segundo o empresário e radialista Edvaldo Brito, Moura pediu uma “doação” de R$ 100 mil em obras missionárias após organizar uma visita de Milton Ribeiro à Nova Odessa (SP). As afirmações, feitas em depoimento à Controladoria-Geral da União, se uniram a acusações semelhantes feitas por prefeitos de outras cidades.

Mão amiga

Com a cara já queimada, Bolsonaro quer evitar, agora, sentir o fogo arder em sua mão. Como quem sabe muito bem o que o ex-ministro pode causar para as suas pretenções políticas, o governo acionou a base aliada para tentar impedir a instalação de uma CPI no Senado. A oposição fez trabalho de formiguinha para conseguir as assinaturas necessárias para isso.

Ao longo da semana, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) jurou que não fará corpo mole caso o pedido seja apresentado. O histórico dele no assunto gera desconfiança, mas, como o pedido já está entregue, o presidente do Senado está na posição ideal para provar a esta redação que ela está errada.


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A Nova Era – Semanas #176 – 181: retrocesso, golpismo e burocracia

Os indicadores sociais de desenvolvimento brasileiros retrocederam 30 anos.

Saiba como isso aconteceu (enquanto o presidente fingia governar) no resumo das semanas #176 — #181 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mai-11 and jun-21


Mudando tudo e não mudando nada

Bolsonaro segue na sua jornada para conseguir reduzir o preço dos combustíveis sem que alguém seja pego pela lei das estatais. Primeiro, o presidente trocou o comando do Ministério de Minas e Energia. Depois, demitiu algumas vezes o presidente da Petrobras (ou forçou a sua demissão).

No lugar de Bento Albuquerque, entrou Adolfo Sachsida, ex-assessor especial do Ministério da Economia. Sachsida assumiu o cargo de ministro prometendo privatizar a Petrobras, mas é mais provável que ele repita falas abomináveis como a afirmação de que mulheres merecem ganhar menos do que homens.

CPMI – Conjunto das Melhores Piores Ideias

Como mudar a política de preços da Petrobras não será possível, o presidente (apoiado pelo centrão) resolveu partir para outra frente de ataque, que terá o mesmo potencial de dar certo: corte de impostos.

A estratégia envolve o corte generalizado de ICMS e alguns impostos federais que incidem sobre diesel, querosene de aviação e gás de cozinha. A ideia, que já é ruim pela alta regressividade, fica pior se considerarmos que os estados discordam do cálculo de impacto feito pelo Ministério da Economia e se torna completamente disfuncional ao olharmos o seu impacto macroeconômico: ao manipular o sistema de preços e as regras fiscais do país, o Governo Federal e o centrão aumentam a instabilidade política, o que leva à retirada de recursos do país, aumento do dólar e aumento da gasolina.

Mas tem quem ache que a situação melhorará com uma CPINão será o caso. Talvez se privatizarmos a Eletrobras outra vez o país poderá pagar por uma nova rodada de subsídios.

Investigue

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou que os ataques feitos pelo presidente Bolsonaro às urnas eletrônicas sejam apurados em conjunto com o inquérito da suposta milícia digital bolsonarista. A Procuradoria-Geral da República já avisou que não existe crime nas falas análogas a crimes do presidente.

Tira esse fuzil daí

Falando em reação contra pessoas que não gostam de democracia, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Edson Fachin, lembrou que o papel dos militares durante eleições é apenas o de burro de carga. Quem define o resultado eleitoral é a população civil.

Jair Bolsonaro acusou Fachin de estar vendo fantasmas e que militares não querem atacar as urnas. Já militares deram razão para Fachin: com o apoio do vice-presidente Hamilton Mourão, elaboraram um plano de governo e depois reclamaram, por meio do Ministério da Defesa, que não foram ouvidos pelo Tribunal Superior Eleitoral — eles foram.

Tá caro, tá miserável e tá com fome

As coisas estão caras. As coisas estão ficando muito caras. As coisas estão ficando tão caras quanto ficavam em 1996. Além disso, a taxa de pessoas que não conseguem se alimentar três vezes por dia dobrou em comparação a 2020 e é o pior número das últimas três décadas.

Tudo isso em um cenário em que a inflação acumula um aumento de 11,73% em 12 meses. Se você chegou até aqui, já sabe: a solução do governo para o problema não envolve gastar R$ 50 bi para reforçar a renda dos mais pobres diretamente.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Arranhando o disco na hora do play

O cantor sertanejo Zé Neto resolveu atacar a cantora Anitta. Em um show, o parceiro do cantor Cristiano disse que não dependia da Lei Rouanet e que não precisava fazer uma “tatuagem no ‘toba’ para mostrar se a gente está bem ou mão”. Até aí, só mais um dia de baixaria nas redes sociais.

Acontece que não era bem assim. O jornalista Demétrio Vecchioli resolveu dar uma olhada em alguns documentos públicos e descobriu que Zé Neto não depende do dinheiro público da Rouanet porque saca o seu contra-cheque na boca do caixa de várias prefeituras brasileiras. A prática é comum entre os sertanejos, preferidos por prefeitos dos rincões do país, para realizarem as suas festas da manga/pamonha/outro produto popular do interior do país.

Para além da hipocrisia, há também a falta de completo controle sobre o modo como os gastos são feitos. Pode-se até não gostar da Rouanet, mas as chances de um show ser cancelado na Justiça são muito menores se ele for feito com o apoio da lei de incentivo à cultura. Mas aí não dá para ganhar audiência no Instagram.

Tucanando a tucanagem

João Agripino Dória saiu da vida pública para não entrar para a história. Não como ele gostaria.

Diante do alto risco de ser mais um tucano que passa por uma eleição ao Planalto com o seu partido sendo o seu maior inimigo, o paulista desistiu da sua candidatura à presidente. Agora o PSDB está livre para sabotar a candidatura de Simonet Tebet (MDB) enquanto os seus candidatos a deputado federal estão livres para apoiar, de maneira pragmática e/ou ideológica, Bolsonaro.

Triste fim do Tucanato Quaresma

O PSDB nasceu como um partido de intelectuais que desejava romper com o fisiologismo do (P)MDB e realizar um choque de capitalismo no país. Acabou com a hiperinflação, criou bons programas sociais e estruturou o SUS.

Na virada dos anos 2000, passou algumas eleições sendo o maior partido de oposição, ganhando votos de uma direita carente por representantes que fossem mais liberais do que Geraldo Alckmin ou mais à direita do que Aécio Neves. Essas alternativas conseguiram a força eleitoral que não tinham e, agora, o partido terá que retomar a um lugar ingrato: a sombra do protagonismo do MDB.

O país do estado de direito

Uma operação realizada na comunidade de Vila Cruzeira, no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, deixou mais de duas dezenas de pessoas mortas — somente quatro com algum tipo de acusação formal da Justiça (não que exista pena de morte no Brasil). Esta foi uma das ações policiais mais letais da história recente do estado.

A ação contou com o apoio do BOPE e da Polícia Rodoviária Federal. Inicialmente, a Polícia Militar culpou o Supremo Tribunal Federal por ter restringido a realização de operações durante a pandemia, o que teria permitido a migração de criminosos de outros estados para o Rio de Janeiro.

A desculpa só não foi pior do que as utilizadas pela Polícia Rodoviária Federal (sim, de novo), após asfixiar Genivaldo de Jesus Santos no porta-malas de uma viatura com fumaça lançada por seus agentes. Os policiais foram afastados após serem defendidos pela Polícia Rodoviária Federal (e por Sergio Moro) e serão investigados pelo Ministério Público. A PRF também afirmou que aquele tinha sido um caso isolado, o que é uma mentira.

O país da democracia liberal

Este resumo se encerra com o caso do jornalista Dom Philips e do indigenista Bruno Araújo Pereira. Ambos viajavam de barco pela região do Vale do Javari, no Amazonas, quando foram mortos. A viagem tinha como objetivo registrar os vários crimes que ocorrem na região sem que o Governo Federal faça algo.

Marinha e a Polícia Federal, com o apoio de indígenas locais, iniciaram as buscas pelos corpos. Enquanto Bolsonaro tentava justificar a morte de ambos, a PF prendeu pescadores que confessaram o crime. O motivo: terem sido fotografados enquanto pescavam ilegalmente nos rios da região.

O Brasil é um país que se diz uma República federativa e, também, uma democracia liberal. Os acontecimentos da última semana mostram que essas afirmações são só para inglês ver — mas com cuidado, pois se ele olhar demais, pode ser executado por algum criminoso.


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A Nova Era – Semana #175: jogo de faz de conta

O presidente mostrando o seu golpismo, as Forças Armadas mostrando a sua falta de vergonha na cara e as instituições institucionalizando.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #175 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mai-02 and mai-09


Apazigua, meu amor, apazigua

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux realizou reuniões para tratar dos ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral e à Suprema Corte. Em uma tentativa de colocar panos quentes na boca de quem se comporta como pitbullFux se encontrou com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

Fux saiu dos encontros afirmando que o Senado está comprometido com a harmonia entre os três poderes (basta manter o Orçamento nas mãos do centrão) e que as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia. Mas será mesmo?

Questão de coerência

O leitor bem informado se lembrará que os últimos ataques do presidente da República arrastaram o nome das Forças Armadas para um lugar que elas adoram ficar: o do golpismo. Dias atrás, por exemplo, o presidente Bolsonaro afirmou, em live, que representantes do braço armado do Estado deveriam apurar a contagem em uma sala paralela.

A resposta dos militares para esta fala feita para animar as tias golpistas de Copacabana? Reforçar o discurso do presidente.

Nos últimos oito mes/es, 88 questionamentos foram enviados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por militares. Todos os ofícios, sigilosos, foram assinados pelo general de Divisão do Exército Heber Garcia Portella, que participa da Comissão de Transparência do TSE.

Tapa de luva

resposta do TSE aos questionamentos e sugestões das Forças Armadas foi de dar gosto. O tribunal rejeitou as sugestões e afirmou, de um modo educado, que só tem imbecil nos quartéis brasileiros quando o assunto é eleição. Mas vamos combinar: não é como se os militares gostassem de ver civil escolhendo presidente para terem interesse em saber como as coisas funcionam, não é mesmo?

De todo modo, o TSE convidou os militares para participarem da Comissão de Transparência Eleitoral do tribunal. Não que eles mereçam estar lá. Mas também não poderão dizer que não foram chamados por falta de vontade.

Então tá

Enquanto a CIA (!) afirmava que não toleraria golpes (!!) no Brasil (!!!), Bolsonaro afirmou que realizará uma auditoria privada nas urnas. A medida terá como objetivo provar que não é possível auditar a eleição (é possível). O presidente também reafirmou que os militares “não vão fazer papel de cancelar apenas o processo eleitoral, participar como espectadores do mesmo”.

Alguém avisa o presidente que militar brasileiro só serve para sentir saudades do golpe no 31 de março, pintar meio fio de calçada e se aposentar ganhando bem.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Encolheu

O governo Bolsonaro praticamente acabou com o processo de desapropriação de terras e assentamento de famílias no programa brasileiro de reforma agrária. O orçamento para a compra de terras foi reduzido a um lote grande na periferia de São Paulo (SP) — R$ 2,4 milhões, o menor em muitos anos. O governo optou por direcionar a sua atenção para a distribuição de títulos de propriedade a famílias já assentadas, uma operação muito mais econômica, rápida e propícia para grileiros.

Agora é oficial

Em clima de convenção partidária, a chapa Lula-Alckmin foi lançada no último sábado (07). O cenário contou com muito verde e amarelo e um discurso sem espaço para improviso. Lula pediu que os “democratas de todas as origens” se unissem contra o presidente, mas até agora ele só conseguiu apoio de parte da esquerda.

Prioridades

A Câmara aprovou, no último dia 04, urgência para um projeto do deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) que proíbe alterações na Bíblia. Isso dá à proposta a chance de ir ao Plenário sem que tenha que passar por comissões. Não sabemos, porém, qual das 50 versões lusófonas dos ensinamentos do Deus cristão serão proibidas de serem modificadas.

A redação recomenda que sejam bloqueadas todas ao mesmo tempo até que o Papa resolva criar a quinquagésima primeira.


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A Nova Era – Semanas #173-174: de ladinho, de ladinho, de ladinho

O Brasil lidando com Daniel Silveira e o brasileiro lidando com o Brasil.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #173 e #174 do governo Bolsonaro.


The following takes place between apr-19 and may-02


Condena

O deputado federal Daniel Silveira foi condenado a 8 anos e 9 meses de prisão pelo STF. A decisão foi uma consequência dos vários ataques e ameaças feitos à Corte, e tem como efeito, não necessariamente imediato, a cassação de seu mandato.

Perdoa

Bolsonaro reagiu e concedeu perdão para Daniel Silveira. Em 2018, o presidente tinha dito que não utilizaria o indulto presidencial. Aparentemente, a promessa pode ser jogada fora se for para defender uma ideia de liberdade de expressão que não é aplicável na Constituição brasileira.

Reage

Parlamentares se movimentaram para anular o perdão presidencial, que tinha bastante cheiro de medida inconstitucional. Enquanto isso, o ministro André Mendonça foi dar explicações sobre a sua decisão, já que ela teria desagradado bolsonaristas e evangélicos.

A redação não se lembra do momento em que “agradar bolsonaristas e evangélicos” se tornou uma das obrigações de ministros do STF.

Acomoda

Tão logo o perdão foi anunciado, o colunismo de fonte oculta começou a trabalhar. Houve quem falasse em “rede de defesa da legalidade” diante do mais novo levante do presidente contra a Justiça. E em alguns locais espalhou-se a ideia de acomodação, com uma solução que desagradasse todos os envolvidos, inclusive o centrão, igualmente: retirar os direitos políticos do deputado, mas mantê-lo em liberdade.

Tripudia

Enquanto o STF e a Câmara trabalhavam para definir um futuro para o deputado Daniel Silveira, o condenado assumiu como titular de quatro comissões temáticas da casa legislativa. A mais importante delas foi na Comissão de Constituição e Justiça, uma ação com tanta falta de vergonha na cara que ficamos sem ter como comentar. As nomeações foram retiradas antes do fechamento desta edição.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Ameaça

Enquanto isso, no Planalto, o presidente Jair Bolsonaro utilizou um evento sobre liberdade de expressão para pregar golpe e suspensão de eleições. O evento também serviu para apoiar o deputado Daniel Silveira e atacar o STF. Daniel estava presente e carregava consigo o decreto com o indulto que recebeu de Bolsonaro emoldurado.

Flexibiliza

O governo anunciou o fim da emergência sanitária. A medida aumentou o espaço legal para que governantes flexibilizassem as restrições sanitárias em todo o país. Secretários de Saúde municipais e estaduais, no entanto, querem cautela.

Engaveta

A Procuradoria-Geral da República (PGR) salvou Bolsonaro mais uma vez. A PGR afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que não há elementos que justifiquem uma investigação contra o presidente por suspeita de tráfico de influência no MEC. Aparentemente, um áudio dos suspeitos afirmando que eles atuavam a pedido de Jair Bolsonaro não é evidência o bastante.

Recua

O ex-presidente Lula aproveitou uma entrevista com youtubers para criticar o mundo moderno. “Está proibido contar piada no mundo, está chato pra cacete”, disse. A fala é, de novo, novamente, mais uma vez, uma mostra de que um terceiro mandato do petista não será a primavera vermelha que alguns esperam.

Falando em ajustes de expectativas, o PT recuou do recuo e afirmou que revogaria a reforma trabalhista caso voltasse ao poder. A decisão foi tomada para garantir o apoio do PSOL à candidatura de Lula. Mas quem se lembra dos motivos que levaram o PSOL a nascer pode esperar em pé pelo recuo do recuo do recuo.

Pelo sim, pelo não, é importante lembrar que toda a declaração do PT sobre o tema antes que o partido volte a ocupar o Planalto deve ser levada com descrédito. O que é dito, agora, serve mais para acalmar o ânimo do ouvinte do que fazer quem já tem posição defina para outubro mudar de ideia. É a vida.


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A Nova Era – Semana #172: superfaturando o óleo de peroba

Corrupção, compra superfaturada, escárnio e falta de vergonha na cara.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana 172 do governo Bolsonaro.


The following takes place between apr-12 and apr-18


Funcionário do mês

A Advocacia-Geral da União solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o arquivamento de uma investigação contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) por suspeita de favorecimento a pastores do Ministério da Educação. Apesar de termos um áudio com o então ministro Milton Ribeiro afirmando a prefeitos que atuava em situação análoga a crime a pedido de Bolsonaro, a AGU acredita que o presidente deve ficar de fora de qualquer inquérito. Tão normal quando as 35 visitas dos pastores ao Planalto.

Fogo amigo?

Enquanto isso, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, deu uma entrevista afirmando que a ida do centrão para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aconteceu a pedido do presidente. “Você vai entregar o FNDE pro centrão”, disse o ex-ministro ao referir-se a Bolsonaro. O menino de Ciro Nogueira, Marcelo Lopes da Ponte, ganhou a presidência do fundo em junho de 2020.

Fogo amigo!

Já Lopes da Ponte, em depoimento à Controladoria-Geral da União (CGU), jogou a bomba na mão do pastor Arilton de Moura. Segundo ele, o lobista de Deus realizava insinuações sobre propinas sempre que estavam juntos. Ele só não disse se topou, ou não, ajudar o pastor.

Photo op

O governo Bolsonaro não só contou com o apoio de lobistas para liberar verbas, mas também direcionou recursos para escolas, creches e quadras que foram (e serão) construídas pela metade. Segundo a Folha de S. Paulo, 1.780 obras foram pactuadas com prefeituras, utilizando como base a intermediação de parlamentares aliados.

Assim que o deputado responsável pelo acordo conseguia o seu photo op, a transferência da verba era barrada (ou apenas uma parte dela era feita). Como consequência, R$ 431 milhões de reais ficaram travados enquanto aliados de Arthur Lira (PP-AL) compravam kits de robótica superfaturados. O escândalo faz a ação do centrão na Codevasf parecer um passeio no parque.

Narcogarimpo

Enquanto a Folha de S. Paulo publica texto de opinião mal escrito a favor do garimpo em terras indígenas, os Yanomami aparecem na mídia com motivos para essa prática ser abominada. Segundo relatório da Hutukara Associação Yanomami, feito com o apoio do Instituto Socioambiental, o narcotráfico já está explorando esse tipo de atividade ilegalmente e, naturalmente, levando violência para os moradores da reserva em que os Yanomami vivem. Nesse caso vale utilizar o eufemismo de “garimpo artesanal”?

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

A Anvisa abriu o processo de recebimento de pareceres médicos para fundamentar a resposta ao pedido do Instituto Butantan para a liberação da CoronaVac para crianças a partir de três anos. Hoje, a vacina só pode ser utilizada em crianças acima de seis anos. Se aprovada, a medida ajudará o país a acelerar, ainda mais, a redução do número de mortes no país.

Falando sobre o tema, o ministro da Saúde anunciou, em pronunciamento na noite do último domingo (17), o fim da emergência de saúde pública por conta da covid-19 no Brasil. A decisão foi tomada em função da ampla cobertura vacinal e a baixa lotação dos leitos do sistema público de saúde. Com a revogação, as recomendações e normas do governo federal adotadas em março de 2020 perderam validade.

Viagra forte, mão amiga

O sistema de saúde das Forças Armadas comprou, em 2020, 35 mil comprimidos de Viagra. Os militares se defenderam afirmando que o remédio era voltado para o tratamento de hipertensão arterial pulmonar. Até aí, tudo bem, mas há um detalhe: a doença é rara, mais comum em mulheres e a dosagem comprada é maior do que a recomendada para o tratamento da doença.

Recauchutada

As forças armadas também compraram próteses penianas para os militares. A informação foi obtida pelo deputado federal Elias Vaz (PSB-GO). A compra custou R$ 3,5 milhões, um valor muito maior do que os R$ 546 mil utilizados entre 2018 e 2020 para a compra de Botox.

O que falta é cinismo

O Tribunal de Contas da União abriu investigação para avaliar se os comprimidos de Viagra foram superfaturados em até 143% ou não. O fato é que as Forças Armadas contam com um sistema de saúde próprio e plano de saúde interno para cuidar das demandas (todas elas) dos militares. Assim sendo, seria muito mais fácil a assessoria de imprensa do órgão utilizar o mesmo cinismo dos juízes do Superior Tribunal Militar e explicar as suas decisões de maneira franca.

Se os militares não tem vergonha dos crimes contra a humanidade que as forças armadas cometeram no passado, por qual motivo deveriam deixar de admitir que são brochas de pinto pequeno?


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A Nova Era – Semanas #167-171: rouba e desfaz

Passamos por problemas técnicos nas últimas quatro semanas. Ainda estamos passando, aliás.

Isso não impediu o resumo das semanas #167, #168, #169, #170 e #171 do governo Bolsonaro serem cheios de notícias que valem um tapa na cara.


The following takes place between mar-15 and apr-11


Quem manda na Petrobras sou eu?

Enquanto o preço da gasolina atinge a maior alta desde 2004 e a classe política faz balões de ensaio para tentar resolver o problema do aumento dos preços, o presidente Jair Bolsonaro segue mostrando serviço. Serviço ruim.

Bolsonaro quer trocar, de novo, novamente, mais uma vez, o comando da empresa. O pré-requisito para assumir a presidência da empresa e do Conselho de Administração é simples: estar disposto a modificar a política de preços da estatal, algo que nenhum dos dois últimos indicados se dispôs a fazer.

Quem manda na Petrobras sou eu!

Bolsonaro escolheu, a princípio, dois nomes para assumirem os cargos. Adriano Pires, para a presidência da estatal. Rodolfo Landim, para a presidência do Conselho de Administração da empresa.

Ambos tiveram que colocar o cavalinho na chuva. Landim desistiu da indicação após perceber que, com o seu histórico, ele dificilmente conseguiria passar pelos órgãos de ética da empresa. Já Adriano Pires notou que o seu histórico de lobby na área de energia causou uma enorme situação de conflito de interesses.

E o presidente? Resolveu indicar outros dois nomes para assumir os cargos: José Mauro Ferreira Coelho, para a presidência da petroleira, e Márcio Andrade Weber, para o comando do Conselho de Administração. O primeiro passou pelo Ministério de Minas e Energia e o segundo já faz parte do Conselho de Administração.

E o Paulo Guedes? Afirmou que isso não é mais problema dele (antes, era).

Caiu no SPAM

O ministro do STF decidiu bloquear o aplicativo Telegram em todo o território nacional. A decisão, vazada na internet antes de se tornar pública, foi tomada após o Supremo ter várias demandas ignoradas pelos mantenedores do app.

A decisão foi um ultimato para o aplicativo. Caso ele não executasse algumas decisões pendentes em 24 horas, “a casa iria cair”, nos informaram algumas fontes dentro do Supremo.

Linha direta

Bem, como a(o) leitora(o) já deve saber, o aplicativo não caiu. Enquanto muitos liberais e bolsonaristas falavam em liberdade de expressão para criticar uma decisão que não envolvia a liberdade de soltar cocô pela boca, o app decidiu acatar todas as decisões do STF. E foi além: agora o Telegram conta com representação oficial no Brasil, um canal direto de contato com a Justiça e faz parte de vários projetos para moderação de conteúdo criados pelo TSE, pelo STF e até pelo Ministério Público.

Bota essa cara feia para jogo

Com a manutenção da queda dos indicadores de casos e mortes por covid-19, as prefeituras brasileiras começaram a liberar o uso de máscaras em todo o país. São Paulo (SP) foi uma das primeiras, mas não a única. Agora, quem mora na terra de João Dória só terá que utilizar o equipamento de proteção em hospitais e no transporte público.

É só fazer o mínimo

Sabe o que ajudará todo mundo a jogar o estoque de máscaras no lixo rapidamente? A população adulta tomar a sua dose de reforço. Mas, segundo o jornal O Globo, não é isso que está acontecendo: somente 1/3 dos adultos entre 35 e 39 anos já tomaram a sua dose.

Tome a sua terceira dose. É o mínimo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Lobby divino

A situação do ministro da Educação anda meio complicada. A Folha de S.Paulo obteve áudio de reunião com prefeitos em que Milton Ribeiro afirmou que, a pedido de Bolsonaro, dá prioridade para prefeituras que estabelecem amizade com dois pastores que não contam com cargo na pasta.

Em bom português: o ministro da Educação foi gravado afirmando que, para obterem verbas, os prefeitos deveriam conversar, primeiro, com dois pastores que não fazem parte do ministério. Tudo isso com a autorização do presidente da República.

Gabinete paralelo 2.0

Dias antes, o jornal O Estado de S. Paulo revelou os primeiros detalhes do suposto esquema de corrupção. Nos corredores do MEC, havia um gabinete paralelo de pastores responsável por controlar a agenda e a verba da pasta. Basicamente, gente com bíblia debaixo do braço responsável por definir quem tem acesso ao ministro Milton Ribeiro e ao dinheiro que deveria ser utilizado para melhorar a educação nacional.

Não é nada, não

A primeira reação do ministro foi minimizar o pedido de Bolsonaro sobre os pastores. No meio tempo, um dos assessores que fariam a intermediação entre o ministro e os lobistas de Deus foi demitido. Com mais detalhes sobre o lobby sendo revelados, Ribeiro mudou o discurso e passou a afirmar que até ouviu algumas “conversas estranhas” do pastor Arilton Moura, mas que tudo foi repassado para a Controladoria Geral da União.

Fedeu

Uma situação que já não era a melhor do mundo ficou ainda pior quando Arilton Moura, um dos lobistas divinos, foi acusado por Gilberto Braga (PSDB), prefeito de Luís Domingues (MA), de pedir 1 kg de ouro para liberar recursos para a pasta. Já Fabiano Moreti, prefeito de Ijaci (MG), relatou que só teve acesso a Ribeiro após a intervenção dos religiosos. Teve até pedido de ajuda para construir igreja.

Se tem cu, tem medo

Mesmo com tanta mutreta nos jornais, o presidente Jair Bolsonaro decidiu que era necessário defender o pastor Milton Ribeiro. Em sua live semanal, Bolsonaro afirmou que “bota a cara no fogo” pelo ministro da Educação. Será uma frase sincera ou apenas um medo de que Ribeiro caia atirando?

Pelo sim, pelo não, Milton Ribeiro entregou o cargo no último dia 28. Em sua carta de demissão, ele manteve a sua postura de inocência e disse que retornará ao governo.

Mas espere, há mais por aí

Se um MEC dominado por lobistas religiosos não fosse o bastante, o Estado de S. Paulo também descobriu que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) está cheio de situação análoga à corrupção. O fundo marcou uma licitação para a compra de 3.850 ônibus escolares com um sobrepreço de aproximadamente R$ 732 milhões. Apesar dos alertas da Advocacia-Geral da União e do corpo técnico do órgão, o presidente e o diretor do fundo colocaram o edital para rodar.

Entendi

Quando a notícia explodiu, Jair Bolsonaro tentou trazer para si o mérito da denúncia de superfaturamento ter sido descoberta. “Quem descobriu fomos nós. Temos gente trabalhando em cada ministério com lupa no contrato. Por isso, não tem corrupção”. Mentira: há corrupção e o Planalto apenas ajudou o presidente e o diretor do Fundeb a chegarem nos cargos de comando da fundação.

Pedi pra parar, parou

O Ministério Público pediu ao TCU, com sucesso, a suspensão da compra. O negócio foi suspenso mesmo após o governo reduzir o preço máximo para a aquisição dos veículos.

O pregão foi realizado mesmo assim e agora cabe ao TCU validar a compra. Talvez o corpo técnico do Tribunal também deva olhar a compra de caminhões frigoríficos que destinou 75% da verba para aliados do ministro da Casa Civil. É muito provável que também exista mutreta nela.

Enquanto isso, o presidente do FNDE, Marcelo Ponte, mentiu para a Comissão de Educação do Senado. Ele afirmou que seguiu as orientações da área técnica do fundo, mas os próprios documentos do FNDE mostram que não foi o caso. Para piorar a situação, Ponte também se contradisse ao falar sobre os pastores lobistas que circulam nos órgãos de educação federais.

Reação

Diante de tanta notícia negativa, a oposição, o centrão e a banca evangélica — por motivos diferentes — começaram a articular o afastamento do ministro Milton Ribeiro. Paralelamente, um grupo de congressistas foram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ministro e o presidente Bolsonaro.

A PGR pediu ao Supremo autorização para investir Milton Ribeiro formalmente. Já o Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu realizar um pente fino nos convênios do MEC.

No meio dessas denúncias (e as denúncias do FNDE que serão listadas a seguir), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), começou a fazer corpo mole para criar uma CPI na casa voltada para investigar o MEC.

Rodrigo Pacheco contou com a ajuda de senadores da base e da oposição, que retiraram as suas assinaturas a favor da comissão ao longo do final de semana. Enquanto isso, a base do governo quer realizar uma CPI do FIES para falar mal do PT. Só tem um problema: ao contrário de uma eventual CPI do MEC, uma CPI do FIES seria ilegal, afinal, toda Comissão Parlamentar de Inquérito só pode ser criada caso exista motivo real para isso. Apenas vontade política não é o bastante.


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A Nova Era – Semanas #166-167: o celeiro de ideias ruins

As várias alternativas para não reduzir o preço dos combustíveis, os impactos da guerra na Ucrânia no dia a dia do brasileiro e um deputado que falou demais.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #166 e #167 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mar-01 and mar-14


Missão (des)humanitária

Arthur do Val, deputado estadual em São Paulo, membro do MBL e youtuber, ganhou as notícias na manhã do último dia 04. Após postar nas redes que estava em “missão humanitária” na Ucrânia, ele sentiu-se confortável para enviar áudios para os seus amigos com uma descrição completa das mulheres que encontrou em seu caminho. Tudo dentro do que esperamos de um deputado estadual que se dá ao trabalho de passar uns dias em uma guerra em que o seu estado não está envolvido diretamente.

Secando gelo com toalha molhada

O deputado deu uma desculpa ruim, desistiu de disputar o governo de São Paulo e foi expulso do Podemos. Já o pessoal do MBL disse que não era bem isso e que não precisávamos colocar o futuro do movimento em cheque ou pedir a cassação do mandato do seu amigo. “Estamos falando de um movimento de direita, não de uma exposição de arte feita para pessoas de esquerda” disse uma fonte à nossa redação.

Peixe morre é pela boca

Considerando que o MBL cresceu pregando falas “politicamente incorretas”, insultando parlamentares e nadando em cima de qualquer escorregada que um político do outro lado desse, não dá para ter pena do que está acontecendo com o deputado Arthur do Val. “Mamãe Falei” não está com a reputação no lixo por fake news (como o MBL tentou fazer com Marielle Franco), mas por vermos quem ele realmente é. Pode acontecer.

Fogo amigo?

Enquanto Lula e Alckmin preparam a sua chapa para as eleições de 2022, os petistas mais aguerridos já demonstraram o que seria um governo do presidente: um show de fogo amigo e barraco no meio da calçada da Fundação Perseu Ábramo.

Na próxima sexta-feira (4), alas do PT contrárias à união entre o petista e o ex-tucano realizarão um debate online sobre a vice-Presidência. Talvez tenha chegado a hora de Lula parar de ser diplomático com gente do centrão e realizar uma ligação para os seus colegas de partido. A queda de Bolsonaro não será tão fácil.

O recado semanal: tome a sua vacina

Enquanto o número de mortes cai progressivamente apesar dos bailes de carnaval e blocos clandestinos, a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo mandou a real: quem não se vacinou está com uma taxa de morte por covid-19 26 vezes maior do que a dos vacinados por completo. E isso vale apenas para as mortes entre os dias 5 de dezembro de 2021 e 26 de fevereiro de 2022.

Bota esse sorriso de fora

Com a queda nos números de casos e de mortos, as cidades começaram a repensar a necessidade do uso de máscaras. As flexibilizações iniciais estão focadas em lugares abertos, especialmente aqueles em que a máscara já não era regra há muito tempo. Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte estão liderando o bonde das cidades em que o mau hálito é detectado com facilidade.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Subiu

A guerra na Ucrânia deu uma sacudida no mercado de commodities. Como os países envolvidos produzem uma quantidade considerável de petróleo e trigo, o preço de ambos produtos tem aumentado bastante, especialmente com a falta de ânimo da OPEP em aumentar a sua produção.

No meio do caminho, a Petrobras, que passou quase dois meses sem aumentar o valor dos combustíveis, anunciou um grande aumento de uma hora para outra. Então chegou a hora do governo e da classe política fazerem algo. Algo ruim.

Abraço dos afogados

Após reduzir impostos federais, trocar o presidente da Petrobras por um pau mandado e culpar os governadores pelo aumento dos preços, o Planalto resolveu se aliar a políticos de oposição para realizar um revival muito ruim: o da conta petróleo.

repeteco da conta petróleo foi planejado mais ou menos assim: um fundo de estabilização de preços da Petrobras seria criado e alimentado com um imposto sobre exportação de petróleo e dividendos da estatal. Em outras palavras, o dividendo que a Petrobras repassaria para o Governo Federal investir em educação seria utilizado para subsidiar gasolina de taxista, de dono de Corola e de motorista de Ferrari.

Além disso, o Congresso também analisou um projeto focado em isentar combustíveis e gás de cozinha de tributos federais e mudar a maneira como o ICMS é cobrado. Mas é papel da Câmara dos Deputados cuidar de impostos estadual? Não, não é.

Desagradar a classe média é difícil

Deveria ser papel do Congresso colocar pessoas pobres, sem veículo, para financiar o combustível de gente com mais dinheiro? Não, até por termos meios para reduzir o preço da gasolina temporariamente cobrando dos mais ricos. A função social da Petrobras é atender a demandas eleitorais do Presidente da República? Não, a função social dela é totalmente diferente.

Mas realizar política focalizada é muito difícil, ainda mais em um país com 25 anos de experiência em programas sociais focalizados. Afinal de contas, quando fazemos isso pensando nos combustíveis, somos obrigados a explicar para a classe média que, dessa vez, ela também terá que pagar a conta.

Telefone sem fio

No meio do caminho, a equipe econômica pensou em aumentar temporariamente o Auxílio Brasil. A medida seria uma alternativa à desoneração de tributos federais sobre a gasolina, com maior foco nos mais pobres e menor impacto fiscal. Só não é uma opção que agrada politicamente o Planalto.

E, pelo visto, Paulo Guedes (Economia) esqueceu de combinar o lançamento da ideia com João Roma (Cidadania). Consultado pela Folha de S. Paulo, o ministro da Cidadania afirmou que ninguém avisou ele sobre essa possibilidade. Como podemos ver, Guedes não consegue fazer algo bom nem quando as suas intenções são corretas.

Vai dar ruim

O mundo é feito de escolhas políticas, inclusive escolhas ruins. Quando governo e oposição optam por combater o aumento dos preços dos combustíveis não focando nas pessoas mais pobres com uma estratégia que já deu errado no passado, ele está obrigando estas pessoas a pagar pela gasolina dos mais ricos. É uma escolha legítima? Sim. Mas não dá para negar que existem alternativas melhores.


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