A Nova Era – Semana #151: negativando as expectativas

Os problemas do ENEM, Lula sendo bonito em Paris e as prévias tucanas.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #151 do governo Bolsonaro.


The following takes place between nov-16 and nov-22


Turismo autocrático

O que um vereador de BH, o Mário Frias, o Hélio Lopes, um desembargador envolvido em uma investigação de um possível caso de corrupção de um dos filhos do presidente da República, os filhos do presidente da República e o Magno Malta têm em comum? Todos estavam na comitiva presidencial que viajou pelo Oriente Médio.

O que todas essas pessoas deveriam estar fazendo no Oriente Médio? Ninguém sabe, mas as fotos da festa ficaram ótimas.

P******s in Paris

Lula foi à Europa tentar mostrar para o mundo que o Brasil sabe se comportar diante de autoridades de outras nações. Em Paris, Emmanuel Macron aproveitou para mostrar que Bolsonaro é feio, bobo e chato e que o petista é bonito. Já na Alemanha, bateu papo com o próximo primeiro ministro do país, Olaf Scholz. No meio tempo, foi aplaudido pelo Parlamento Europeu.

Nem todo mundo é pária por aí.

Exame Nacional do Nacionalismo Médio

Com o menor número de inscritos desde 2005, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve a sua primeira prova realizada no último domingo (21). Os 3,4 milhões de inscritos representam uma redução de 64,35% em comparação ao ano de 2014, quando atingimos o recorde de participantes.

A prova, segundo o presidente da República, tinha “a cara do governo”. O ministro da Educação negou, mas fora das falas oficiais tivemos: 24 questões sendo retiradas da prova (das quais 13 foram recolocadas depois), acusações de assédio moral e pessoal não qualificado acessando a sala segura onde são preparadas as provas. E olha que estamos falando apenas da edição deste ano e não das anteriores.

Em notas relacionadas, o Tribunal de Contas da União investigará se as denúncias se sustentam.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

De graça até na testa

Vem aí: a dose de reforço de toda a população adulta que já completou o ciclo vacinal com alguma vacina contra a covid-19. Fique atento ao calendário de vacinação da sua cidade e não perca essa grande oportunidade de ganhar uma injeção de graça.

O anúncio das doses de reforço foi realizado à revelia da Anvisa. A agência não gostou muito de não ter sido consultada, mas também não reprovou a ação do Ministério da Saúde. Pela redação, tudo bem.

Festa da tucanocracia

O PSDB decidiu realizar as suas prévias partidárias mesmo sabendo que o seu aplicativo não funcionaria direito. E, para a surpresa de pouca gente, ele não funcionou direito.

As prévias acabaram suspensas após vários problemas no registro de votos. Agora os tucanos foram bater bico para decidir quando a votação será retomada (optaram pelo próximo domingo). E em uma reviravolta surpreendente, Aécio Neves decidiu fazer campanha a favor de João Dória e avisou que deve sair do partido caso o governador paulista saia do processo vitorioso.

Pode parecer incrível, mas o PSDB continua nos surpreendendo apesar da sua grande habilidade de realizar escolhas políticas ruins.

Prometeu, mas não deve cumprir

A viagem de Bolsonaro a Bahrein também serviu para o presidente anunciar que a aprovação da PEC dos Precatórios permitia a concessão de aumento salarial para todos os servidores públicos federais e o financiamento de todas as outras promessas já feitas. Não era o caso. Mas, se fosse, a gente precisaria se perguntar: precisávamos mesmo de um calote tão grande?

Mesmo com os alertas de técnicos do governo, o chefe do ministério da Economia cedeu e começou a tratar o reajuste como certo. Gritos do ministro da Cidadania à parte, o anúncio de Bolsonaro deve ter servido só para uma coisa: aumentar a pressão de sindicatos bem articulados para que senadores aprovem o texto.

No ritmo que as coisas andam no Senado, é provável que o texto saia do Senado apenas com dinheiro para o Auxílio Brasil e reajustes em benefícios sociais. Nem todo o poder legislativo é bagunça.


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A Nova Era – Semana #150: brochou (de novo)

A desabrochada tentativa de Bolsonaro conseguir um partido para chamar de seu, a aprovação da PEC dos Precatórios e as boas notícias da pandemia de covid-19.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #150 do governo Bolsonaro.


The following takes place between nov-09 and nov-15


Aperta que vai

Após um vai e vem danado, a Câmara dos Deputados aprovou em segundo turno a PEC dos Precatórios. Se aprovada no Senado, o projeto permitirá ao governo furar o teto de gastos e parcelar dívidas judiciais (ou seja, fazer uma pedalada fiscal). Em troca, ganharemos o pagamento do Auxílio Brasil no valor de R$ 400 em 2022.

Ficaram de fora dessa votação deputados do PDT e de parte do PSB. Entraram (ou continuaram onde sempre estiveram) deputados do DEM, do PSDB, do PP, do PSL e do Republicanos. Apesar de voto contrário do Supremo Tribunal Federal, o governo liberou uma farta quantia em emendas do relator do Orçamento para ampliar a sua vantagem na votação.

Saiu caro

A brincadeira do governo federal tem um custo que vai muito além dos vários reais utilizados para comprar o apoio de deputados. A PEC dos Precatórios criou um orçamento paralelo de R$ 1,8 trilhão até 2036, quando o teto de gastos perderá validade. Para quem gosta de contas públicas organizadas, a última semana foi horrível.

Já para os liberais, talvez seja a hora de pensar com mais carinho na hora em que forem formular e defender as suas reformas. Muitos diziam, corretamente, que o teto de gastos daria mais transparência para a maneira ridícula como os recursos orçamentários normalmente são distribuídos. Eles estavam certos.

O problema era outro. Enquanto os fiscalistas gastavam travesseiro sonhando com um país em que a sociedade pressiona por mais investimentos em educação (e pune quem não a apoia nas urnas), eles se esqueceram de olhar para a realidade: o centrão nunca precisou das classes médias urbanas ilustradas para dobrar o teto de gastos (e o resto do orçamento) à sua vontade.

Meanwhile, no Jaburu

O vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, gostou da decisão do Supremo de suspender as emendas do relator. Para ser mais preciso, ele considerou a medida “oportuna”. Segundo ele, “os princípios da administração pública, da publicidade e da eficiência não estavam sendo respeitados”.

Mentiu? Não mentiu. Desagradou o presidente? Desagradou o presidente.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Após ter o seu pedido negado pela Anvisa, o Instituto Butantan divulgou um estudo feita pela SinoVac para mostrar que a CoronaVac é segura para aplicação em crianças e adolescentes entre três e 17 anos. Até o momento do fechamento deste texto, somente a Pfizer está liberada para jovens entre 12 e 17 anos.

Enquanto isso, a Pfizer já está testando em solo nacional o seu remédio antiviral contra a covid-19. O Paxovid reduziu em 89% o risco de internação e morte entre adultos vulneráveis nos testes preliminares. O estudo é feito em 29 centros de pesquisa de 11 estados e do DF.

Vem aí

O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que pretende pautar para o próximo dia 24 a análise da PEC dos Precatórios. A sabatina do próximo ministro do STF? Essa daí a gente pode deixar para outro dia.

Enquanto isso, no gabinete mais poderoso da Câmara

Como o centrão só trabalha de maneira eficiente, o deputado Arthur Lira (PP-AL) já está trabalhando para manter o orçamento secreto ativo. A articulação tentará aumentar o nível de transparência das emendas sem reduzir o seu (e o dos presidentes do Brasil e do Senado) poder de barganha. A ideia é, basicamente, realizar um grande copia e cola da tese defendida por Gilmar Mendes e Nunes Marques no STF.

Tente outra vez

O presidente do Brasil quer um partido para concorrer à reeleição no próximo ano. Para ser mais preciso, ele quer ganhar um partido de graça para continuar no Planalto. Mas isso é difícil.

Após três semanas de “namoro” com o Partido Liberal, por exemplo, as negociações foram suspensas. Sabe como é: Valdemar da Costa Neto, condenado pelo mensalão, não precisa vender o seu partido para ninguém para manter o seu nível atual de poder. Deu ruim.

Para além da disputa por controle interno do partido — e a dor de cabeça que seria explicar a caminhada ao lado de mensaleiro —, o PL também tem diretórios em pelo menos cinco estados do Norte e Nordeste já alinhados com adversários do governo. Eles não aceitarão o presidente facilmente.

Não deveria ser tão difícil conseguir se reeleger para um cargo no poder Executivo brasileiro. Mas, quando se trata de Bolsonaro, até isso é mais complicado do que deveria. Rimos nós e os caciques do PP.


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A Nova Era – Semana #149: manobrando radicalmente a democracia

Estamos prestes a chegar na semana de número 150 do governo Bolsonaro. Começamos com os militares deixando todo mundo com o cabelo em pé e vamos terminar com o centrão tão poderoso quanto era no governo Sarney.

Para aproveitar o clima de flashback, Arthur Lira (PP-AL) fez tudo o que estava a seu alcance para ampliar as emendas do relator (uma versão atualizada daquilo que deu origem ao escândalo dos anões do orçamento). Já o governo federal promoveu populismo fiscal, calote de dívida pública e inflação. E o salário? Tá cada dia pior.

Confira tudo isso e muito mais no resumo da semana #149 do governo Bolsonaro.


The following takes place between nov-2 and nov-08


Antes de falarmos sobre os principais assuntos da semana, vamos ao recap para entender o que são: os precatórios, a PEC dos precatórios, as emendas do relator e o orçamento secreto.

O que são os precatórios

Os precatórios são dívidas que o Poder Público acumula quando perde uma ação na Justiça. Sempre que alguém processa o governo e ele perde, a indenização a ser paga recebe este nome.

Em 2022, o governo federal terá que pagar R$ 90 bilhões em precatórios. O valor é muito maior do que o que foi pago em 2021 (R$ 54 bilhões), mas não é uma grande surpresa: se a Advocacia-geral da União tivesse realizado o trabalho dela corretamente, os responsáveis pelo Ministério da Economia teriam conseguido separar a verba (ou renegociar o seu pagamento) sem grandes dificuldades.

O que é a PEC dos precatórios

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional) dos Precatórios foi apresentada pelo governo federal para renegociar, na marra, o pagamento das indenizações. Ela propõe uma pedalada fiscal, um calote de alguns bilhões e limita as dívidas pagas integralmente em 2022 apenas àquelas que estão dentro do limite de R$ 66 mil. Além disso, caso aprovada em dois turnos, prevê o parcelamento dos precatórios de maior valor em até dez anos (independentemente do que os destinatários do pagamento acreditem ser o certo).

O que são as emendas do relator

As emendas do relator são gastos orçamentários definidos pelo relator-geral do Orçamento. Elas são utilizadas para financiar obras e políticas públicas em todo o país e, em 2021, atingiram o valor de R$ 18,5 bilhões. Ao contrário de outros tipos de emendas, elas não têm pagamento obrigatório.

Até aí, tudo bem. O pulo do gato está no modo como estes recursos são utilizados: as emendas do relator não são transparentes (por não seguirem os critérios de publicidade de outras emendas), não são distribuídas de maneira igualitária entre todos os deputados e podem ser definidas de acordo com o critério que o responsável pelo Orçamento achar que é o mais correto. Em outras palavras, como disse o Senado Federal, elas servem para comprar apoio político.

O que é o orçamento secreto

Não é de se assustar que as emendas do relator foram utilizadas para realizar mutreta, como a compra de tratores superfaturados e a liberação das emendas conforme os deputados votassem nas pautas do governo. Isso levou a mídia a cunhar a expressão “orçamento secreto” para definir algo que pode ser resumido assim: uma fatia volumosa do orçamento público que é destinada, sem critérios técnicos, de acordo com o apoio dos deputados federais aos projetos de interesse do governo, como é o caso da PEC dos precatórios.

Então estamos todos entendidos? Espero que estejamos todos entendidos.

Manobrei, manobrou

A possibilidade de não conseguir financiar o Auxílio Brasil utilizando calotes da dívida pública fez o Palácio do Planalto trabalhar com afinco para garantir a aprovação da PEC dos Precatórios. Houve quem falasse que a agenda de Jair Bolsonaro passou a ter até mais de cinco horas de compromissos diários.

O medo de Arthur Lira não conseguir garantir a aprovação do texto nos dois turnos colocou todo mundo em sinal de alerta. Os deputados do centrão pularam em cima da carne morta, exigindo o pagamento adiantado das emendas do relator. Já Arthur Lira estudou como manipular o Regimento Interno da Câmara para liberar a votação remota após retomar as atividades presenciais da Câmara (para conseguir aprovar projetos com mais facilidade).

Após conseguir utilizar tudo o que estava dentro e fora do Regimento da Câmara, Arthur Lira conseguiu aprovar o texto-base da PEC dos Precatórios. “Texto base”, no caso, é um eufemismo para o que foi votado: o projeto sofreu grandes modificações (flagrantemente inconstitucionais) de última hora para conseguir votos de gente até do PDT.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Existem muitas coisas que poderiam ser faladas sobre os acontecimentos que envolvem a pandemia de covid-19 nos últimos dias. Um deles, por exemplo, é o repeteco de falhas no governo federal que levaram à não liberação de 1,2 milhões de testes de covid que vencem até o final do mês (um prejuízo de R$ 42,1 milhões).

Mas vamos focar no que é realmente legal. Serrana (SP), cidade em que a aplicação em massa de vacinas aconteceu antes de todo o país, está com o número de mortes em queda apesar do grande aumento do número de casos de covid-19.

Mortes por covid, aliás, foi o que São Paulo, Minas Gerais, Acre, Amapá, Goiás, Roraima e Rondônia não registraram na segunda-feira (08). Em todo o resto do país, 118 óbitos foram registrados. A média móvel de 7 dias ficou em 235 mortes, uma redução de 31% em relação ao período anterior.

O internauta já está preparado para falar para a tia onde estão as namoradinhas? É melhor se preparar, já que, mantendo o ritmo, neste ano a resposta para a pergunta será presencial.

Calma lá

A aprovação da PEC em primeiro turno foi apenas o primeiro passo da longa caminhada do governo para conseguir financiar o Auxílio Brasil. Além de uma segunda aprovação com 2/3 dos votos a favor na Câmara, o texto terá que passar por outras duas difíceis votações no Senado.

Até lá, todo mundo que está (de fato) na oposição fará o que for possível para tirar votos de Lira. Ciro Gomes, por exemplo, ameaçou jogar fora todo o trabalho feito ao lado do PDT para chegar ao Planalto caso os deputados do partido não mudem de ideia. Já o PSB começou a articular com a sua bancada o que for necessário para não passar por outro vexame.

E o PSDB não paulista? O PSDB que não é de São Paulo fez de conta que o problema não é dele.

Hora de conferir no livrinho

A Comissão de Precatórios da OAB avaliou que a PEC é inconstitucional em pelo menos 30 pontos. Já há, inclusive, jurisprudência formada no STF para ser utilizada para derrubar o texto. Só tem um probleminha: casos como esse só acabariam de ser julgados após o presidente Bolsonaro terminar um segundo mandato.

Pelo sim, pelo não, o PDT entrou com uma ação no STF para anular a votação da PEC dos Precatórios. O partido utilizou como argumento as manobras de Artur Lira para liberar a votação remota de deputados ausentes. Eduardo Cunha não passaria por isso.

Enquanto isso, no Planalto

O governo federal não se deu por vencido e quer aumentar o placar a seu favor nas próximas votações. Enquanto a esquerda se movimenta para desistir de apoiar ao PEC no segundo turno, mais promessas de liberação de emendas e ameaças de retaliação foram feitas para garantir apoio futuro. Arthur Lira fez a sua parte e prometeu até R$ 15 milhões em emendas para quem votasse a favor (dá para fazer muita escola, ponte e posto de saúde com R$ 15 milhões).

Enquanto isso, no STF

A ministra do STF, Rosa Weber, determinou que as emendas do relator fossem suspensas e executadas integralmente. A decisão foi julgada em plenário enquanto este texto era fechado e apoiada pela maioria dos ministros. O motivo? As nada republicanas emendas do relator não seguiam os princípios de republicanismo que movem a administração pública.

Arthur Lira tentou argumentar que, embora juridicamente correta, a decisão feria a autonomia do Legislativo (bobagem). Ele deveria ter gastado o seu tempo juntando os dados sobre a votação da PEC dos Precatórios que demonstrassem que ela ocorreu em total clima de legalidade (não ocorreu).

Enquanto Arthur Lira não encontra uma saída para comprar o apoio dos deputados (ou manter as emendas do relator), há uma parte do Supremo tentando articular uma saída pelo meio: manter as emendas, mas torná-las transparentes. Mas se isso dará certo — e se o governo terá meios para aprovar, de novo, a PEC dos Precatórios — é algo que saberemos somente na semana que vem


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A Nova Era – Semana #148: like a G20, like a G20

A redação se deu ao direito de curtir o feriado, então a edição desta semana saiu hoje. Ela contará com a vergonhosa aparição de Bolsonaro no G20, a desastrosa propaganda de sustentabilidade do governo federal na COP26 e a aprovação do relatório da CPI da Covid.

Confira tudo isso (e muito mais) no resumo da semana #148 do governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-26 and nov-01


Acabou, pode acabar

A CPI da Covid terminou os seus trabalhos e aprovou, por 7 votos a 4, o relatório escrito pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL). Como adiantado na edição anterior desta série de textos, o documento pede o indiciamento de Jair Bolsonaro, outras 77 pessoas e duas empresas. A lista inclui três filhos do presidente, ministros, ex-ministros, deputados, funcionários públicos, empresários e o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC-AM).

Aqui se faz, aqui se ajuda

O momento mais maluco da sessão se deu quando, a pedido do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Renan Calheiros incluiu um senador na lista de indiciados. Luis Carlos Heinze (PP-RS) apresentou voto em separado defendendo tratamentos ineficazes contra a covid. A decisão pegou mal, mas Heinze se salvou após críticas de Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Vem aí

O relatório final foi entregue em reunião fechada para o procurador-geral da República, Augusto Aras. Aras afirmou que o material encaminhado será analisado com o cuidado necessário. Só não explicou se a atenção aplicada terá o mesmo nível de leniência que vimos durante a pandemia.

👀

Pelo sim, pelo não, os senadores criaram um observatório para acompanhar as ações de Aras. A Frente Parlamentar Observatório da Pandemia de Covid-19, nome formal do projeto, foi criada a pedido do presidente da CPI da Covid, Omar Azis (PSD-AM), e o vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Quem não está gostando disso tudo é o Arthur Lira (PP-AL), o governista mais poderoso do país.

Toca pra lá, toca pra cá

Buscando demonstrar serviço, o PGR determinou que as investigações preliminares contra o presidente Jair Bolsonaro (e outras 12 autoridades com foro privilegiado) fossem abertas na última quinta-feira (28). Augusto Aras também determinou que as informações fossem compartilhadas com todos os procuradores do Ministério Público Federal que estivessem trabalhando em investigações ligadas à pandemia. Aras também afirmou que submeterá tudo o que for realizado ao Supremo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Diante da queda contínua do número de casos e de mortes — alinhada com o aumento dos indicadores de vacinação na população adulta —, a prefeitura do Rio de Janeiro aboliu o uso de máscaras em locais abertos. A decisão foi tomada após a Assembleia Legislativa aprovar uma lei permitindo que os municípios do Rio de Janeiro flexibilizassem o uso da proteção. A lei não foi sancionada pelo governador Cláudio Castro antes que Eduardo Paes (PSD-RJ) tomasse a decisão, mas isso foi resolvido no dia seguinte.

Após vacinar quase 90% da população adulta, São Paulo ficou livre de todas as restrições a aglomerações impostas durante a pandemia. Só fica obrigatório o uso de máscaras e do passaporte de vacinação. Pode show, balada e até passeio na casa swing (mas tudo deve ser consensual).

Enquanto isso, o governo federal deixou novos medicamentos para a covid fora da lista de remédios distribuídos pelo SUS. O governo também publicou uma portaria, muito provavelmente ilegal, proibindo a demissão por justa causa para quem não se vacinar.

Já na Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), órgão consultivo do ministério para a análise de novas terapias e definição de protocolos da rede pública, continuam as pressões para não aprovar um parecer que contraindica o uso de hidroxicloroquina para a covid. Prioridades.

Pedalada ambiental

A chegada do Brasil na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP26) foi marcada pelo governo federal dando mais uma pedalada. Todos os presentes terão metas mais audaciosas para reduzir as emissões de poluentes até 2030. O Brasil (ao lado do México), entregará um cálculo que permite aumentar as emissões até o fim desta década.

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, também utilizará o evento para apresentar os grandes avanços que o Brasil fez na área de sustentabilidade. Leite afirmou que as propostas brasileiras foram definidas após amplo debate e diálogo feito com mais de 200 empresas e instituições civis e públicas. Mentira.

Aliás, falando no presidente, Jair Bolsonaro não esteve no evento. A sua presença ficou restrita a um vídeo e sequer o vice-presidente, Hamilton Mourão, foi enviado para a festa. Em breve vamos ter que arrumar um termo pior do que pária para nos definirmos no cenário internacional.

Created by Greg Daniels, Ricky Gervais, Stephen Merchant

Antes da COP26, os líderes das 20 maiores economias mundiais se reuniram no G20. O encontro teve vários líderes vacinados reafirmando o seu interesse em reduzir as emissões de gases poluentes nos próximos anos. Nenhum deles era brasileiro.

Jair Bolsonaro até estava presente, mas só conseguiu estabelecer diálogo com os garçons do local. O zap zap humano e roteador de covid que ocupa o Palácio do Planalto esnobou um príncipe, pisou no pé da chanceler da Alemanha e mentiu sobre tudo o que era possível mentir sobre o próprio país. Para fechar com chave de ouro, se meteu em confusão, foi criticado por membros da Igreja e ignorado por um prefeito.

Novamente: precisamos de um termo pior do que pária para definir a imagem da nossa nação no cenário internacional, já que pária não traduz a desgraceira em que nos encontramos.


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A redação se deu ao direito de curtir o feriado, então a edição desta semana saiu hoje. Ela contará com a vergonhosa aparição de Bolsonaro no G20, a desastrosa propaganda de sustentabilidade do governo federal na COP26 e a aprovação do relatório da CPI da Covid.

Confira tudo isso (e muito mais) no resumo da semana #148 do governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-26 and nov-01


Acabou, pode acabar

A CPI da Covid terminou os seus trabalhos e aprovou, por 7 votos a 4, o relatório escrito pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL). Como adiantado na edição anterior desta série de textos, o documento pede o indiciamento de Jair Bolsonaro, outras 77 pessoas e duas empresas. A lista inclui três filhos do presidente, ministros, ex-ministros, deputados, funcionários públicos, empresários e o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC-AM).

Aqui se faz, aqui se ajuda

O momento mais maluco da sessão se deu quando, a pedido do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Renan Calheiros incluiu um senador na lista de indiciados. Luis Carlos Heinze (PP-RS) apresentou voto em separado defendendo tratamentos ineficazes contra a covid. A decisão pegou mal, mas Heinze se salvou após críticas de Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Vem aí

O relatório final foi entregue em reunião fechada para o procurador-geral da República, Augusto Aras. Aras afirmou que o material encaminhado será analisado com o cuidado necessário. Só não explicou se a atenção aplicada terá o mesmo nível de leniência que vimos durante a pandemia.

👀

Pelo sim, pelo não, os senadores criaram um observatório para acompanhar as ações de Aras. A Frente Parlamentar Observatório da Pandemia de Covid-19, nome formal do projeto, foi criada a pedido do presidente da CPI da Covid, Omar Azis (PSD-AM), e o vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Quem não está gostando disso tudo é o Arthur Lira (PP-AL), o governista mais poderoso do país.

Toca pra lá, toca pra cá

Buscando demonstrar serviço, o PGR determinou que as investigações preliminares contra o presidente Jair Bolsonaro (e outras 12 autoridades com foro privilegiado) fossem abertas na última quinta-feira (28). Augusto Aras também determinou que as informações fossem compartilhadas com todos os procuradores do Ministério Público Federal que estivessem trabalhando em investigações ligadas à pandemia. Aras também afirmou que submeterá tudo o que for realizado ao Supremo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Diante da queda contínua do número de casos e de mortes — alinhada com o aumento dos indicadores de vacinação na população adulta —, a prefeitura do Rio de Janeiro aboliu o uso de máscaras em locais abertos. A decisão foi tomada após a Assembleia Legislativa aprovar uma lei permitindo que os municípios do Rio de Janeiro flexibilizassem o uso da proteção. A lei não foi sancionada pelo governador Cláudio Castro antes que Eduardo Paes (PSD-RJ) tomasse a decisão, mas isso foi resolvido no dia seguinte.

Após vacinar quase 90% da população adulta, São Paulo ficou livre de todas as restrições a aglomerações impostas durante a pandemia. Só fica obrigatório o uso de máscaras e do passaporte de vacinação. Pode show, balada e até passeio na casa swing (mas tudo deve ser consensual).

Enquanto isso, o governo federal deixou novos medicamentos para a covid fora da lista de remédios distribuídos pelo SUS. O governo também publicou uma portaria, muito provavelmente ilegal, proibindo a demissão por justa causa para quem não se vacinar.

Já na Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), órgão consultivo do ministério para a análise de novas terapias e definição de protocolos da rede pública, continuam as pressões para não aprovar um parecer que contraindica o uso de hidroxicloroquina para a covid. Prioridades.

Pedalada ambiental

A chegada do Brasil na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP26) foi marcada pelo governo federal dando mais uma pedalada. Todos os presentes terão metas mais audaciosas para reduzir as emissões de poluentes até 2030. O Brasil (ao lado do México), entregará um cálculo que permite aumentar as emissões até o fim desta década.

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, também utilizará o evento para apresentar os grandes avanços que o Brasil fez na área de sustentabilidade. Leite afirmou que as propostas brasileiras foram definidas após amplo debate e diálogo feito com mais de 200 empresas e instituições civis e públicas. Mentira.

Aliás, falando no presidente, Jair Bolsonaro não esteve no evento. A sua presença ficou restrita a um vídeo e sequer o vice-presidente, Hamilton Mourão, foi enviado para a festa. Em breve vamos ter que arrumar um termo pior do que pária para nos definirmos no cenário internacional.

Created by Greg Daniels, Ricky Gervais, Stephen Merchant

Antes da COP26, os líderes das 20 maiores economias mundiais se reuniram no G20. O encontro teve vários líderes vacinados reafirmando o seu interesse em reduzir as emissões de gases poluentes nos próximos anos. Nenhum deles era brasileiro.

Jair Bolsonaro até estava presente, mas só conseguiu estabelecer diálogo com os garçons do local. O zap zap humano e roteador de covid que ocupa o Palácio do Planalto esnobou um príncipe, pisou no pé da chanceler da Alemanha e mentiu sobre tudo o que era possível mentir sobre o próprio país. Para fechar com chave de ouro, se meteu em confusão, foi criticado por membros da Igreja e ignorado por um prefeito.

Novamente: precisamos de um termo pior do que pária para definir a imagem da nossa nação no cenário internacional, já que pária não traduz a desgraceira em que nos encontramos.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

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A Nova Era – Semana #146-147: terrorismo macroeconômico

A penúltima semana foi uma semana lenta, então a redação optou por uma edição dupla com todos os absurdos que o governo trouxe para nós.

Na CPI da Covid, temos o relatório final da comissão e o acomodamento de interesses difusos. No Ministério da Economia, temos reclamações de furo do teto quando a furadeira é utilizada para ajudar os mais pobres. E no Planalto? Nada que não seja tão absurdo quanto os absurdos das últimas edições.

Veja em detalhes o que aconteceu nas semanas #146 e #147 do governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-12 and oct-125


Vaza a jato

A leitura do relatório final da CPI da Covid foi realizada na terça-feira (19). Mas o trailer do que Renan Calheiros (MDB-AL) falaria na CPI da Covid já estava disponível no dia 15: a máquina de vazamentos para a mídia adiantou que o presidente Jair Bolsonaro e os responsáveis por três ministérios de seu governo (Saúde, Trabalho e Defesa) teriam o indiciamento recomendado.

O rascunho do relatório feito por Renan Calheiros também atingia os filhos do presidente e o líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-AL). E como Renan adora uma boa confusão, o documento também indicaria o envio de denúncia de crime contra a humanidade ao Tribunal Penal Internacional.

O balão de ensaio de Renan Calheiros gerou reações de insatisfação entre os senadores, especialmente aqueles que fazem parte do grupo majoritário do colegiado. Omar Aziz (PSD-AM) postergou a leitura do documento para a quarta-feira (20) e sentou-se ao lado de Renan para encontrar um texto que fosse aprovado com mais facilidade: “pode acusar de crime contra a humanidade, mas genocídio indígena já é demais” teriam dito por aí.

Clima de já ganhou

O ministro da Saúde já trata casos como o da Prevent Sênior como “página virada”. Não é sem motivo: por maior que seja a vontade dos senadores de punir o presidente, eles ainda dependem da boa vontade do Procurador-geral da República, Augusto Aras, e de um relatório que seja capaz de ser aprovado com evidências e sugestões de indiciamentos nos tipos penais adequados.

Fica para outro dia

Quem deve se dar bem após a CPI da Covid é o general e ex-ministro Braga Netto. Ele foi um dos principais coordenadores da administração federal ao longo do processo de combate à pandemia, mas sem ser chamado a depor durante todos os trabalhos da comissão, não deve ter que acionar o jurídico para responder pelas suas péssimas posturas no último ano.

Morde e assopra

Renan Calheiros disse que o seu relatório foi modificado pelo menos dez vezes para conseguir agradar quase todo mundo. Não foi o bastante, já que até os não governistas criticaram partes do documento. Mas, batendo em quem dava para bater, o texto real oficial foi apresentado ao senado.

O relatório final de Renan Calheiros propôs o indiciamento de mais de 70 pessoas, entre médicos, políticos, jornalistas, influenciadores e empresários, por 24 crimes. A leitura do documento ocorreu um dia após depoimentos de parentes de vítimas da covid-19. Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) acusou os depoimentos de algo “macabro, triste e lamentável”, adjetivos que seriam totalmente adequados se estivéssemos falando do suposto envolvimento de um senador da República com milícias paramilitares.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos I

A semana da pandemia I

Vamos começar com uma notícia boa: a taxa de transmissão de covid-19 no Brasil atingiu, na última semana, o seu menor patamar desde abril de 2020. O índice (0,60) indica que cada 100 pessoas infectadas transmitem o vírus para outras 60. Em outras palavras: a vacinação está reduzindo o número de mortes e o número de doentes.

Falando em vacinação, o Brasil já conseguiu imunizar completamente 100 milhões de pessoas. O número representa 47,11% da população, mas poderia ser maior: 16 milhões de pessoas estão com a segunda dose em atraso e o governo não gastou R$ 2,3 bilhões destinados à compra de vacinas contra a doença.

Tudo isso para dizer que os governos já estão preparando a volta das aulas presenciais em ritmo total. Em São Paulo, por exemplo, só ficará em casa quem conseguir um atestado médico. Também em São Paulo, segundo a Secretaria de Educação, a vasta maioria das escolas públicas não contam com infraestrutura mínima para receber alunos em segurança. Acontece.

A Fiocruz anunciou que já está negociando a produção, em terras nacionais, do molnupiravir. O medicamento é um antiviral que tem se apresentado eficiente no combate à covid-19. Se tudo der certo, não teremos a mesma dificuldade que tivemos com as vacinas para acessar o medicamento.

Auxiliando…

O governo quer destruir o Bolsa Família e, no lugar, colocar um programa que é eleitoreiro, ineficiente e sem fonte de recursos adequada. Teve até ministro da Economia que passou os últimos anos escorando-se em regra fiscal insustentável pedindo para darem uma pausa no teto de gastos.

A primeira tentativa de anunciar o programa foi suspensa pois, após meses de debate, não havia uma definição adequada para o valor do auxílio. Guedes e a sua equipe queriam R$ 300 reais — dentro do teto de gastos — e Bolsonaro queria R$ 400,00 — fora do teto de gastos, mas com ele dentro do Planalto em 2023. O mercado não gostou, mas gostaria menos ainda se soubesse o que seria o projeto final.

… gastando…

A equipe econômica trabalhou como pode, “lutou pelo melhor”, mas quem venceu, como sempre, foi a política. O Auxílio Brasil foi anunciado com um “pedala Robinho” no teto de gastos de R$ 30 bilhões de reais. O PT dobrou a aposta e pediu auxílio de R$ 600,00. A terceira via e os funcionários do Guedes? Disseram que cuidar do teto é mais importante do que cuidar da alimentação do pobre.

Dava para melhorar o Bolsa Família sem destruir ele no meio do caminho junto com o teto de gastos? Dava. Mas quando o governo tenta agradar o centrão com orçamento secreto e libera subsídio para caminhoneiro comprar diesel fica meio complicado. Aí não adianta reclamar quando a base na Câmara aumentar o benefício a pedido da oposição.

… e furando

O “waiver” do governo Bolsonaro para financiar o Auxílio Brasil será feito da maneira mais “governo Bolsonaro” possível. A PEC dos Precatórios será modificada para alterar o cálculo do teto de gastos (que seria revisto apenas em 2026). Com a contabilidade criativa, o governo ganhará todo o dinheiro necessário para ajudar os mais pobres.

Que o teto de gastos era insustentável todo mundo já sabia. O que não se previa é que ele seria jogado fora de um modo tão ridículo. Mas até então tudo não se tratou de uma quinta-feira fraca para o governo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos II

A semana da pandemia II

Boa notícia para quem tem pets. Um estudo da PUC do Paraná indicou que somente 11% dos cães e gatos que vivem com infectados por covid-19 também ficaram doentes. O número daqueles que desenvolveu a doença ou fez a sua transmissão para humanos é menor ainda.

Enquanto isso, no sul do Brasil, a Câmara de Porto Alegre (RS) discutiu o veto do prefeito Sebastião Melo (MDB), o moderado, à exigência de passaporte vacinal. A sessão, porém, foi interrompida após manifestantes com cartazes com símbolos nazistas agredirem vereadores de esquerda. Aparentemente se indignar com gente fazendo apologia ao nazismo é coisa de esquerdista.

Bolsonaro paz e amor

Auxiliares e aliados querem que o presidente continue falando pouca bosta. Segundo a Folha, o “tom moderado” do presidente é incentivado para seduzir, outra vez, o eleitorado antipetista mais moderado. A gente sabe que o liberal médio brasileiro é muito corno, mas ser corno ao ponto de cair na lábia do presidente duas vezes nos parece um novo nível de cornitude.

Fez que foi, não foi e acabou não fondo

A definição do que seria o Auxílio Brasil não foi um processo simples. Muitos julgaram que Guedes sairia do cargo caso o presidente realmente insistisse em um modelo que levasse ao fim do teto de gastos. Como sabemos, eles estavam errados, mas o Planalto não deixou de buscar possíveis substitutos para o ministro.

Guedes deveria perceber, diante dos acontecimentos das últimas semanas, que ele é totalmente dispensável para o presidente. Aliás, ele já deveria ter notado isso quando Sergio Moro saiu de Brasília e foi trabalhar na iniciativa privada. Mas talvez o poder tenha cegado o ministro.

O movimento é sensual

Independentemente de quem terminar 2022 como ministro da Economia, há uma bomba relógio armada para o ocupante do Palácio do Planalto no ano de 2023. O financiamento do Auxílio Brasil será acompanhado do aumento da inflação, do custo da dívida pública e de uma conta política amarga: não manter o valor de R$ 400,00 após 2023 terá um custo político tão alto quanto o corte de privilégios necessário para impedir o programa de virar nota de rodapé nos livros de História.


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A Nova Era – Semana #145: de braços dados com o desastre

O silêncio ensurdecedor de Paulo Guedes sobre a sua conta no exterior, o silêncio desconfortante de Jair Bolsonaro sobre os investimentos de seus ministros e as notícias horríveis da CPI da Covid.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #145 de governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-05 and oct-11


Vem aí

A CPI da Covid está chegando ao seu fim. O relatório final deve ser apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) no dia 19 e votado no dia seguinte. O documento será encaminhado para o Ministério Público, que decidirá quem será indiciado.

A lista VIP de indiciamentos deve incluir o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Ambos são acusados de articular e buscar financiadores para uma rede de notícias falsas que espalharam desinformação sobre a covid-19. Outros nomes com foro privilegiado incluem o presidente Jair Bolsonaro e as deputadas Bia Kicis (PSL-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP).

Questão de semântica

Fora do círculo dos portadores de foro privilegiado, a CPI da Covid também deve indiciar os membros do “gabinete paralelo”. Para quem ficou isolado do país nos últimos meses, o “gabinete paralelo” é um grupo de médicos, empresários e outras pessoas com grande influência nas decisões do Ministério da Saúde.

A quebra de sigilos da comissão descobriu que a Prevent Senior criou um grupo de Whatsapp para abastecer o governo com notícias sobre o “kit covid”. A ação era praticamente uma newsletter diária de negacionismo científico.

Como apontou Nise Yamaguchi, a expressão “gabinete paralelo” só funciona quando existem dois gabinetes agindo lado a lado, mas sem jamais se encontrarem. Dá para falar em paralelismo se ninguém esconde o que faz, como faz e ao lado de quem faz?

Plano B

Todo mundo sabe que existem chances elevadas de o procurador-geral Augusto Aras ignorar todo o relatório da CPI da Covid. Se isso acontecer, a comissão já conta com um plano secundário: chamar a Ordem dos Advogados do Brasil para representar associações de famílias de vítimas da covid-19 em uma chuva de ações no Supremo Tribunal Federal (STF).

Não olha para o lado

Já está claro que a Prevent Senior não era a única operadora de saúde que distribuiu e incentivou tratamentos ineficazes para a covid-19 (beijos, Unimed). A Hapvida também está, oficialmente, na jogada.

Em um vídeo revelado na CPI da Covid, a secretária de Gestão e Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, aparece ao lado de Anderson Nascimento, o superintendente nacional da Hapvida, defendendo o “kit covid”. A gravação é de julho de 2020.

As ações da Prevent Senior, da Hapvida e de tantas outras operadoras de saúde ocorreram sem que o Conselho Federal de Medicina (CRM) ou a Agência Nacional de Saúde (ANS) fizessem algo. Quer dizer, o CRM até fez: na figura de seu presidente, Mauro Luiz de Brito Ribeiro, incentivou, e respaldou todo tipo de ideia negacionista durante a pandemia.

Analfabetismo funcional

Já o diretor-presidente da ANS, Paulo Rebello, jura que passou o período pandêmico em um isolamento tão forte que foi incapaz de fazer um dos POPs (Procedimento Operacional Padrão) mais básicos do seu trabalho: identificar se as operadoras de saúde estavam seguindo procedimentos médicos dentro dos padrões científicos.

Paulo Rebello afirmou que só soube das ações da Prevent Senior por meio da CPI da Covid. Foi desmentido rapidamente pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP): a ANS recebeu denúncias contra a operadora desde o ano passado, mas nada fez sobre o tema.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Olho no lance

A Unesco classificou a denúncia de 200 mortes de voluntários de uma pesquisa clínica feita com proxalutamida no Amazonas como uma das mais graves da história da América Latina. O medicamento é um bloqueador de hormônios masculinos que foi utilizado no combate à covid-19 no Brasil. A representação é mais uma das várias denúncias internacionais de gente brasileira envolvida em situações análogas a crimes contra a humanidade.

Na terceira vez é mais gostoso

A CPI da Covid convocou para depor o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pela terceira vez. A nova convocação se deu, entre outros motivos, pelo presidente Jair Bolsonaro ter pressionado o ministério a tirar de pauta a análise de um relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) que condenava o uso de cloroquina e de outros tratamentos ineficazes. O ministro também não respondeu perguntas da comissão dentro do prazo estipulado.

O horror

Quando ninguém acreditava que a CPI da Covid poderia ir a um nível de horror mais baixo, os depoimentos foram lá e mostraram que ainda havia espaço para revelações criminosas. O advogado Tadeu Frederico de Andrade, de 65 anos, disse aos senadores que após 30 dias internado na UTI de um hospital da Prevent Senior, a médica Daniela de Aguiar Moreira da Silva quis removê-lo para um leito híbrido com tratamento paliativo.

A decisão foi tomada com base em um prontuário médico que não era o dele. Além disso, havia a orientação para que ele não fosse reanimado em caso de parada cardíaca, afinal, “óbito também é alta”. A pressão pela aplicação de práticas nazistas e criminosas foram confirmadas pelo médico Walter Correa de Souza Neto.

A semana da pandemia

Após 20 meses de pandemia, o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortes por covid-19. O número foi alcançado 111 dias após registrarmos meio milhão de mortos pela doença.

Em protesto ao número de mortes, manifestantes penduraram 600 lenços brancos na Praia de Copacabana. Em protesto aos manifestantes que se importam com os mortos por covid-19 no Brasil, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, relativizou o número de vítimas da doença. Prioridades.

O número de vítimas por covid-19, se tudo der certo, não deve aumentar muito daqui para frente. Na última semana conseguimos atingir a taxa de 71% da população brasileira parcialmente imunizada contra a covid-19.

Agora precisamos torcer para que a nomeação de um novo coordenador do Programa Nacional de Imunização (PNI) não atrapalhe o ritmo de vacinação. O cargo ficou vago nos últimos três meses, justamente o período em que a aplicação de imunizantes contra a covid-19 foi o mais rápido. Não ter especialista em cargos de decisão, no governo Bolsonaro, é sempre uma ótima ideia.

A redução das taxas de morte (em alguns dos estados brasileiros) está animando prefeitos e governadores a abandonarem a exigência do uso de máscaras em lugares abertos e fechados. Nos locais em que ainda há a demanda pelo equipamento de proteção, é melhor não contar com a ajuda do governo federal: o Ministério da Saúde levou um calote de R$ 193,4 milhões na compra de máscaras chinesas.

Caminhando firme para o retrocesso

Um dos maiores problemas sociais causados pela pandemia está na área de educação. Milhões de estudantes (quase sempre pobres) ficaram sem acesso ao sistema de ensino ao longo da pandemia. O resultado? Os mais jovens regrediram no aprendizado, enquanto os mais velhos estão muito ocupado trabalhando para comprar ossos para o jantar.

É nesse contexto em que a Folha de S. Paulo noticiou que os governos estaduais seguraram os recursos disponíveis para a área. O “não gasto de verbas” aconteceu mesmo com o aumento dos repasses, a necessidade de fornecer equipamentos para alunos ou a simples reforma das escolas para a sua reabertura. Ao todo, desde 2019, a queda nos gastos foi de 7,4% em termos reais.

Para fechar o ciclo do desastre, o número de matrículas em creches recuou em 2020 mesmo antes da pandemia. Os dados de 2020 mostram que menos de 1/3 das crianças brasileiras estão matriculadas na rede pública ou privada. Os investimentos na área também caíram ao longo do governo atual.

Não há, no Brasil, passado que não pareça muito pior do que o nosso futuro. Mas tenha certeza que o governo Bolsonaro está trabalhando para mudar essa situação.


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A Nova Era – Semana #144: governando pelo exemplo

Uma semana marcada por tempestades de areia, tempestades políticas e vazamentos de dados comprometedores. Enquanto parte da oposição se unia nas ruas, o ministro da Economia era punido pelas suas decisões com alguns milhões de reais a mais em seu bolso.

E para quem ainda diz que a economia não está bombando, chegou a hora de olhar com atenção para o mercado de venda de ossos de boi: ele nunca esteve tão aquecido.

Confira tudo isso e muito mais no resumo da semana #144 de governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-28 and oct-04


Atendendo a todas as expectativas

O depoimento de Luciano Hang à CPI da Covid começou bagunçado antes mesmo do depoente chegar ao Senado. Na internet, o dono da rede Havan publicou um vídeo com um par de algemas. Elas seriam para “poupar trabalho da CPI”.

Quando esteve à frente dos senadores, Luciano Hang fez propaganda não autorizada de suas lojas, admitiu que a sua mãe utilizou remédios ineficazes contra a covid e se apegou a detalhes linguísticos. O show de horrores do seu depoimento serviu mais para animar as bases bolsonaristas do que ajudar a CPI a colocar o empresário na mira da Justiça. Mas dava para esperar algo diferente?

Aliança mortal

Também depôs à CPI da Covid (e deu aulas grátis de direito) a advogada Bruna Morato. Morato é representante dos 12 médicos que denunciaram experiências com pacientes sem autorização e a ocultação de mortes por covid-19. Ela afirmou que a Prevent Sênior atuou ao lado do governo pela validação e utilização de remédios ineficazes contra a covid-19.

A advogada também afirmou que os médicos eram coagidos a distribuir o “kit covid” e a reduzir o número de pacientes internados há mais de dez dias em UTIs. Segundo ela, os gestores da Prevent Sênior consideravam que “óbito também é alta”. A empresa chamou as acusações de “loucura”.

A Prevent Sênior não agiu sozinha. A CPI da Covid suspeita que o Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais da profissão atuaram junto com a empresa. Não custa lembrar: o CFM mantém a indicação de que médicos podem ter autonomia para indicar até três pulinhos de manhã para tratar doenças como a covid.

Homofobia e baderna

A CPI também ouviu o empresário bolsonarista Otávio Fakhoury. Ele é acusado de ter financiado material ilegal de campanha de Bolsonaro e propagar fake news durante a pandemia. Em seu depoimento, propagou negacionismo científico, proferiu homofobia e chamou tudo de liberdade de expressão, pois é assim que a banda toca no Brasil de Bolsonaro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

A Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) deixou vencer o equivalente a R$ 80,4 milhões em kits de testes para covid-19, vacinas e remédios para outras doenças. O órgão chegou a ser avisado sobre a possibilidade dos produtos vencerem. Como a distribuição não foi realizada a tempo, tudo deverá ser inutilizado.

Enquanto o Tribunal de Justiça do Rio suspendia a exigência de comprovante de vacinação para acesso a locais públicos na capital do estado (decisão que foi derrubada no STF), a Secretaria Especial de Cultura inovou: os burocratas do órgão querem proibir a obrigatoriedade de passaportes de vacina em eventos e atrações financiadas pela Lei Rouanet. Pedido de Bolsonaro.

Afirmando o óbvio na folha timbrada

A Procuradoria-Geral da República enviou um documento ao Supremo Tribunal Federal afirmando que o presidente convocou manifestações de caráter golpista para o dia 7 de Setembro. A afirmação foi adicionada aos autos do inquérito do STF sobre os atos realizados no feriado nacional. A fala golpista deste caso em específico foi proferida por Whatsapp, então não podemos saber o que a PGR pensa sobre todas as outras vezes que o presidente foi golpista.

Olho no lance

A Prevent Sênior não foi a única empresa que se uniu ao governo na aplicação de remédios ineficazes contra a covid-19. A Hapvida, maior operadora de saúde das regiões Norte e Nordeste, é acusada de incentivar seus profissionais a “aumentarem consideravelmente” a indicação de cloroquina e o tratamento de pessoas em casa. As medidas tinham como foco reduzir o número de pacientes internados nos hospitais da rede.

Não é belo e talvez não seja moral

Um vazamento de dados sobre empresas offshore mostrou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, mantiveram contas no exterior após a sua chegada ao poder. O que não era, a princípio, um problema, se tornou um após Guedes informar que não se abdicou do controle de sua conta. Os parlamentares (não governistas) partiram pra cima do ministro, uma vez que a sua postura pode colocá-lo em situação de criminhos.

É bem provável que tudo isso dê em nada para o ministro? Sim. Segundo ele, a Comissão de Ética Pública considerou ser absolutamente normal ele se manter à frente da Economia sem perder o controle da offshore. No limite, o ministro poderia até dizer que é a favor de taxar ganhos de capital no exterior.

Mas aqui apoiamos a sangria de otário em praça pública sempre que o otário em questão for um corno de marca maior. É política, tá liberado.


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A Nova Era – Semana #143: Designed by Germany, assembled in Brazil

A semana #143 do governo Bolsonaro teve a CPI da Covid entendendo como brasileiros podem praticar eugenia, ministro da CGU sendo acusado de machismo e Bolsonaro mandando um “alô, alô” para a sua base em Nova York.

Veja em detalhes tudo isso e muito mais no resumo da semana #143 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-21 and sep-27


Esse DDI é 23?

Jair Bolsonaro voltou a falar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, presencialmente. Tradicionalmente, o discurso do presidente brasileiro tem como foco posicionar o país diante das questões globais. No lugar da tradição, o presidente brasileiro optou por fazer um Intelig para a sua base local.

Enquanto outros líderes falavam sobre o aquecimento global, a recuperação econômica após a pandemia e a guinada para uma economia sustentável com base no que há de mais moderno em termos de pesquisa, Bolsonaro atacou a imprensa, apoiou remédios ineficazes contra a covid-19 e chamou Michel Temer de socialista. Por fim, disse que não existem casos comprovados de corrupção. Mas para isso Collor já tem a resposta certa: o tempo é o senhor da razão.

A viagem do governo para a Assembleia fechou com chave de ouro após várias pessoas serem diagnosticadas com covid (incluindo o ministro da Saúde). Os casos foram utilizados por Bolsonaro como exemplo para pregação negacionista.

Bate boca

A sessão da CPI da Covid do dia 21 foi encerrada com dedo na cara e gritaria. O ministro da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, acusou a senadora Simone Tebet de ser “descontrolada”. A fala foi o ponto alto (ou baixo, depende do ponto de vista) de um depoimento que serviu, principalmente, para colocar o ministro na lista de pessoas investigadas formalmente pela comissão.

Anjinhos da morte

A CPI também ouviu o diretor-executivo da Prevent Sênior, Pedro Batista Junior. A empresa é acusada de utilizar remédios contra câncer para tratar covid-19 (além dos tradicionais remédios ineficazes que já são utilizados pelo grupo). O depoimento, porém, foi muito mais macabro do que a sinopse.

O executivo afirmou que o diagnóstico dos pacientes com covid-19 era modificado após 14 dias de internação — mas negou que a empresa ocultou mortes no estudo com hidroxicloroquina. Pedro Batis Junior também colocou o velho da Havan em saia justa: segundo ele, a mãe de Luciano Hang foi tratada com o “kit covid” apesar de seu filho ter negado a aplicação dos medicamentos. Aliás, falando na mãe do empresário, a Folha de S.Paulo descobriu que o prontuário de sua morte foi fraudado pelos médicos da Prevent Sênior.

Já estava ruim, aí ficou pior

A situação da Prevent Sênior ficou muito ruim com a publicação de um dossiê elaborado por profissionais de saúde que atuaram nos hospitais da rede. O documento acusa a Prevent Sênior de testar tratamentos ineficazes contra a covid-19 sem o conhecimento dos pacientes e de ter ocultado mortes na sua rede. Além disso, o dossiê também aponta ameaça por parte da empresa para que os médicos prescrevessem o “kit covid” para o tratamento da doença.

Bagunça

O depoimento de Danilo Trento, diretor da Precisa Medicamentos, arrastou o Planalto para a CPI da Covid outra vez. Trento admitiu ter se reunido com parlamentares brasileiros em Las Vegas no mesmo período em que Flávio B. (Patriota-RJ) estava na cidade em missão oficial pelo Senado. Quando Renan Calheiros (MDB-AL) comentou como a CPI está ampliando a visão entre os brasileiros, de que o governo Bolsonaro estava metido em crimes, a casa caiu.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

O Supremo Tribunal Federal decidiu que caberá aos estados decidir quando será iniciada a vacinação de adolescentes. A decisão contrariou o Ministério da Saúde, que havia suspendido a aplicação de doses sem apresentar argumentos científicos.

Segundo o Datafolha, a maioria dos brasileiros vê a pandemia sob controle. A mesma maioria também defende o uso de máscara. Isso nos coloca pensando aqui na redação: o que teria sido da pandemia se o governo tivesse promovido o uso de máscaras PFF2 desde o começo?

1000 dias com ele

Jair Bolsonaro completou 1000 dias à frente da presidência da República. O dia foi marcado por mobilizações com a sua base e a inauguração de obras que fossem capazes de ofuscar as metas não cumpridas e as 32 violações de direitos humanos de seu governo. Mas a notícia que importou mesmo foi a seguinte: Jair Bolsonaro voltou dos EUA sem covid.

Quando você esquece de pagar a conta

O Congresso derrubou uma série de vetos do presidente Bolsonaro na última semana. Eles incluíram, mas não se limitaram a temas como: as federações partidárias, a suspensão da prova de vida no INSS, as reintegrações de posse e o repasse de verbas federais para ampliar acesso à internet de alta velocidade em escolas.

Fica a dica: se você quer avacalhar alguém por aí, é importante pagar a fatura e negociar com os Congressistas. Só a primeira parte não adianta.

Quem é o bolsonarista mais disfarçado

O tucano Tasso Jereissati (CE) abandonou a disputa das prévias do PSDB em favor do governador gaúcho Eduardo Leite. A medida deve ser acompanhada da desistência de Arthur Virgílio (AM) em apoio a João Dória (SP). O que não está definido, além do próximo candidato dos tucanos à presidência, é quem quer mais voto de bolsonarista: Eduardo Leite ou João Dória.

Vamos combinar, ambos sabem que não chegam no segundo turno sem voto de bolsonarista. Eduardo Leite já entendeu isso e tornou-se o principal candidato do bolsonarismo tucano parlamentar e Dória já recebeu o briefing de que é mais lucrativo bater no PT do que no presidente. Falta saber se é algo que pode dar certo (não dará).

A Nova Era – semana #142: bagunça, fofoca e terror

A CPI da Covid se encaminha para um final com cenas lamentáveis, trágicas e revoltantes. Enquanto isso, Paulo Guedes passa vergonha e Bolsonaro passeia em Nova York.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #142 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-14 and sep-20


O banco que não é banco

A CPI da Covid finalmente ouviu o advogado Marcos Tolentino, que é apontado como sócio oculto da Fib Bank, o banco que não é banco. Tolentino negou acusações, foi acusado de ter seis registros de CPF (o que é ilegal) e se calou quando se encontrou em uma situação mais complicada do que o recomendado: a possibilidade de admitir que estava acusando a Receita de má fé.

O lobista que é lobista

A comissão também ouviu o lobista Marconny Albernaz de Faria. Ele é acusado de interceder pela Precisa Medicamentos nas negociações feitas pela empresa com o Ministério da Saúde. O lobista calou-se quando foi cobrado sobre a sua relação com a advogada de Bolsonaro, negou que era lobista e disse que não conhecia senadores (após afirmar no privado o contrário).

Pelo menos o depoimento do lobista serviu para algo: após a sua fala, a comissão aprovou a convocação de Ana Cristina Valle, segunda ex-mulher do presidente Bolsonaro. Os senadores querem que ela explique a sua ligação com o lobista — isso, é claro, se ela realmente for ao Senado depor.

É preciso contar com o fator safadeza

A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Precisa Medicamentos. A ação foi autorizada pelo STF após a CPI da Covid entender que a empresa não entregou todos os documentos que ela solicitou (mais especificamente, os contratos relacionados às operações de venda da Covaxin). Mas e se eles não existirem?

Preparando a bandeirada final

A CPI da Covid ainda tem muito para render, mas já está chegando ao fim. O seu relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que o relatório deve ser apresentado em menos de duas semanas. Tudo depende do que será encontrado nas investigações da Prevent Sênior (mais sobre isso adiante) e da Precisa Medicamentos.

Por hora, já existem algumas certezas. A primeira é que haverá o pedido de indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por prevaricação no caso da vacina indiana Covaxin — e outras coisas mais que podem ajudar em um eventual processo de impeachment. A segunda é que o “gabinete paralelo” deve entrar no relatório final ao lado da Prevent Sênior e a longa rede de pessoas que propagaram, financiaram e traficaram remédios ineficazes contra a covid-19 no último ano.

Torta de climão

Paulo Guedes está constrangendo toda a República. A última vítima foi Luiz Fux. O ministro da Economia fez, no dia 15, um “pedido desesperado de socorro” ao ministro do STF. O motivo? O impasse do pagamento dos precatórios em 2022.

Os precatórios são as dívidas da União que o governo Bolsonaro recusou-se a negociar quando era possível e agora virou um montante que impede a Economia de pagar um novo Bolsa Família e, ao mesmo tempo, manter o orçamento secreto com o tamanho adequado para acalmar o centrão. A resposta de Fux foi diplomática: [o ministro] “é tão amigo que coloca no meu colo um filho que não é meu”.

A solução, por sinal, passou pelo centrão. A partir de um grande “devo, não nego, pago na semana que vem”, o governo parcelou parte do montante que deveria ser pago ano que vem (R$ 89,1 bilhões) e tentará renegociar o pagamento da dívida com um desconto. Ou o Bolsonaro pode não se reeleger e deixar essa “pica do tamanho de um cometa” na mão de outra pessoa.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Dados públicos mostraram que, em 2020, o número de mortes por covid-19 foi maior do que a soma de mortes causadas por infarto, diabetes e pneumonia em todo o país. As três doenças causaram 190,2 mil vítimas. Já o coronavírus foi responsável por 194,9 mil fatalidades.

O ministro da Saúde afirmou que há excesso de doses de vacina no Brasil, suspendeu e criticou a antecipação da vacinação de adolescentes. O jurídico nos obrigou a não comentar a fala.

Todo ano essa merda piora

A participação de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU foi um repeteco das cenas lamentáveis que vimos no primeiro ano, mas agora com mais pessoas passando vergonha. Quando não tínhamos o ministro da Saúde sendo indecente para os manifestantes, tínhamos o próprio presidente fazendo piada do direito de manifestação alheio. Como ninguém ali admite que já foi vacinado, estão todos comendo na rua (literalmente) e fazendo de conta que não estão gastando mais do que deveriam com cartão corporativo.

Sabe como é, aparências importam, mesmo que sejam aquelas que agradam só a sua militância.

Brincando com a vida alheia

A CPI da Covid tem revelado em detalhes como o grupo Prevent Senior foi de empresa de saúde para uma grande rede de laboratórios mengeleanos durante a pandemia. Os dados que se tornaram públicos nos últimos dias mostram que a empresa daria orgulho para Jair Bolsonaro: “a regra era, ‘espirrou no PS [Pronto Socorro], entrega o kit”, disse um médico ligado à empresa à jornalista Chloé Pinheiro, da Veja.

As pessoas que chegavam a um consultório da rede estavam sujeitas à própria sorte. Na melhor das hipóteses, ganhavam um kit de remédios ineficazes contra a covid — mesmo se estivessem sem covid —, na pior das hipóteses, se tornavam vítimas de tratamentos experimentais sem autorização de autoridades e com a possibilidade de terem as suas mortes ocultadas (até mesmo médico contratado pela empresa teve a morte ocultada).

Lucrando com a vida alheia

O número de clientes da Prevent Sênior cresceu 15% durante a pandemia (mesmo com a concorrência perdendo consumidores). Os lucros aumentaram em 18% em um ano, atingindo R$ 4,3 bilhões em 2020. Esses dados mostram que as escolhas da Prevent Senior deram muito certo para os donos da empresa, só não tiraram ela da mira da CPI da Covid.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) realizou diligências na sede da empresa na última segunda-feira (17). A ação teve como objetivo esclarecer as denúncias apresentadas na CPI da Covid de que os pacientes receberam remédios ineficazes contra a covid-19 sem saberem.

Segundo o Sindicato dos Médicos do Estado de SP (Simesp), a pressão para que os remédios fossem distribuídos aos pacientes vinha dos doentes bolsonaristas e da própria Prevent Senior. O plano de saúde teria pressionado os médicos a tomarem toda a responsabilidade pela prescrição do medicamento, livrando a Prevent Sênior de qualquer problema judicial.

Não adianta o grupo empresarial falar em “denúncias infundadas e anônimas”, acusar politicagem e ameaçar entrar na Justiça contra quem quer revelar o que os médicos da empresa fizeram durante a pandemia. A CPI está indo com tudo para cima da empresa e não parece haver um grande interesse da comissão em comer uma marguerita com borda de cheddar nas próximas semanas.


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A Nova Era – semana #141: um grande giro de 360 graus

A semana #141 do governo Bolsonaro teve o presidente subindo, descendo e dando uma reboladinha no seu tom de radicalismo. A Frente Ampla Liberal Isentona Unificada fez o seu primeiro protesto contra Bolsonaro e as elites riram por último (e riram melhor).

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #141 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-07 and sep-13


Subiu o tom

Diante de duas multidões poliglotas, Jair Bolsonaro subiu em palanques em Brasília e São Paulo para realizar as suas falas do 7 de Setembro. Como apontado na edição anterior dessa série, o presidente repetiu ameaças golpistas, incitou a desobediência a decisões judiciais, culpou o Supremo Tribunal Federal por aquilo que ele mesmo fez, e insistiu em pautas já rejeitadas pelo Congresso.

Os discursos não foram originais sequer no “eu só saio do poder morto”. Aqui reservamos o direito ao ato de ficar surpreso apenas para o anúncio de uma reunião do Conselho da República, órgão que reúne os presidentes do STF e do Senado: em notas, Luiz Fux, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) avisaram que não foram chamados para a tal festa pobre que os homens armaram para lhes convencer de brincar de golpe.

Reagiu ao tom

Muita gente não respondeu positivamente às falas de Bolsonaro. O tucano João Dória defendeu o impeachment do presidente abertamente pela primeira vez desde a sua eleição. A medida foi acompanhada de uma reunião do PSDB para discutir a posição do partido sobre o tema — ficaram apenas com a ideia de ser oposição, em agrado aos deputados federais do partido.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Luiz Fux, organizou uma reunião entre os ministros da Corte para acetar uma resposta institucional. Ela foi entregue em um tom pouco disposto à boa vontade com o ocupante do Planalto.

Enquanto Rodrigo Pacheco cancelava todas as sessões do Senado, o PSD de Gilberto Kassab se reunia para avaliar se seguia ou não o rumo de partidos que já se colocam abertamente a favor da queda de Bolsonaro. No Twitter, João Amoêdo (Novo), Manuela D’Ávila (PCdoB), Roberto Freire (Cidadania), Marina Silva (Rede) e Eduardo Leite (PSDB) também criticaram as falas do presidente e/ou pediram a sua queda. Já Arthur Lira disse que era hora de não se falar mais em golpismo (mas ignorou que o impeachment é o melhor remédio para isso).

DEM e PSL soltaram uma nota conjunta de repúdio à fala do presidente. Nenhuma linha da carta comentou se a fala do presidente foi forte o bastante para o DEM sair do governo e o PSL abandonar a base de Bolsonaro no Congresso. Prioridades.

Abaixou o tom

Sem que ninguém (além de uma meia dúzia de liberais desiludidos com a vida) pedisse, Michel Miguel entrou em cena para colocar panos quentes na República. O ex-presidente fez uma ponte entre Bolsonaro e Alexandre Moraes, construiu uma cartinha no melhor estilo “foi mal, tava doidão” e ainda guardou tempo para postar algo no close friends do Instagram.

Normalizou o tom

A moderação do presidente durou tão pouco quanto a postura democrática de Arthur Lira. A base conservadora de Bolsonaro não gostou muito do que ele disse na cartinha escrita com o apoio do Temer. Quer dizer, ficou insatisfeita até que a fatura caísse e o discurso voltasse a ser alinhado com o do Planalto.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Arreda pra lá

No fundo, no fundo, todo mundo sabe que não vale a pena tocar o impeachment se Arthur Lira não for incomodado no seu acesso ao orçamento secreto. Os bilhões da planilha comandada pelo presidente da Câmara tornam os vários pedidos em que ele está sentado muito confortáveis. Não à toa a alternativa escolhida por muitos é jogar a responsabilidade de tirar o presidente do Planalto para o Tribunal Superior Eleitoral.

Notinhas na imprensa já trazem a ideia de que o TSE pode cassar a chapa Bolsonaro-Mourão por crimes na campanha de 2018. Isso colocaria Arthur Lira no Planalto e ainda o livraria do desconforto de lidar com um presidente que não gosta muito da ideia de um orçamento secreto. Não é algo que acontecerá, ao contrário da recusa do Senado em marcar a sabatina de André Mendonça para o STF.

Situs

Na esteira do 7 de Setembro, um monte de caminhoneiro bloqueou as estradas federais em pelo menos 16 estados na quarta-feira (08). Ao contrário dos movimentos do governo Temer, eles não queriam pedir algo para a categoria: a pauta era contra a democracia.

O Planalto entrou em pânico. Bolsonaro gravou um áudio pedindo paz nas estradas e a mensagem foi recebida como se fosse fake news (ah, a ironia). Em resposta, o ministro da Infraestrutura entrou em campo e publicou um vídeo confirmando que o Bolsonaro tinha deixado de lado essa coisa de caos social de viés golpista — por hora.

A semana da pandemia

Enquanto isso, no Brasil em que a pandemia ainda existe, o Ministério da Saúde suspendeu a entrega de vacinas aos estados em função dos atos bolsonaristas do 7 de Setembro. 2,6 milhões de doses estiveram envolvidas na ação. Já no lado de quem trabalha dia e noite pela saúde dos brasileiros, o Instituto Butantan montou uma força tarefa para atestar a qualidade dos lotes de CoronaVac que foram suspensos pela Anvisa.

Pela primeira vez desde o dia 13 de novembro de 2020, a média móvel de mortes por covid-19 ficou abaixo de 500 mortes/dia. Já as taxas de ocupação de UTIs estão abaixo de 60% na maioria das capitais brasileiras. Não é hora de descuidar-se, mas dá para ter esperança com o futuro.

Medo, delírio e fracasso (em Brasília e em outras três capitais à sua escolha)

Vendo a água bater na bunda após o dia 07, o Movimento Brasil Livre resolveu parar de adotar discursos políticos de timing ruim (para dizer o mínimo) e chamar as esquerdas e as centrais sindicais para os atos de oposição marcados para o dia 12. O chamado foi atendido por várias lideranças de esquerda, como Isa Penna (Psol-SP), Ciro Gomes (PDT) e Alessandro Molon (PSB-RJ) — mas não todas elas.

Pois é. Sem o maior partido de esquerda nas manifestações (e o Vem Pra Rua dando motivos para que eles fiquem em casa na próxima manifestação), a festa democrática da Frente Ampla Liberal Isentona Unificada virou um enterro. Menos de seis mil pessoas se uniram na avenida Paulista para protestar contra o presidente, o que é mais ou menos uma terça-feira fraca para qualquer protesto convocado pela CUT.

A F.A.L.I.U. pode reclamar pelo resto do ano da ausência do partido que lidera as pesquisas de opinião contra o presidente. Mas o fato é que ninguém é obrigado a participar de uma festa para a qual foi chamado de última hora (e a contra gosto dos organizadores). As coisas ficam todas mais fáceis se as forças de centro esquerda e centro direita admitirem que se odeiam mais do que odeiam Bolsonaro e, no fundo, só querem participar das manifestações em que elas lideram.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.