A Nova Era – Semana #146-147: terrorismo macroeconômico

A penúltima semana foi uma semana lenta, então a redação optou por uma edição dupla com todos os absurdos que o governo trouxe para nós.

Na CPI da Covid, temos o relatório final da comissão e o acomodamento de interesses difusos. No Ministério da Economia, temos reclamações de furo do teto quando a furadeira é utilizada para ajudar os mais pobres. E no Planalto? Nada que não seja tão absurdo quanto os absurdos das últimas edições.

Veja em detalhes o que aconteceu nas semanas #146 e #147 do governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-12 and oct-125


Vaza a jato

A leitura do relatório final da CPI da Covid foi realizada na terça-feira (19). Mas o trailer do que Renan Calheiros (MDB-AL) falaria na CPI da Covid já estava disponível no dia 15: a máquina de vazamentos para a mídia adiantou que o presidente Jair Bolsonaro e os responsáveis por três ministérios de seu governo (Saúde, Trabalho e Defesa) teriam o indiciamento recomendado.

O rascunho do relatório feito por Renan Calheiros também atingia os filhos do presidente e o líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-AL). E como Renan adora uma boa confusão, o documento também indicaria o envio de denúncia de crime contra a humanidade ao Tribunal Penal Internacional.

O balão de ensaio de Renan Calheiros gerou reações de insatisfação entre os senadores, especialmente aqueles que fazem parte do grupo majoritário do colegiado. Omar Aziz (PSD-AM) postergou a leitura do documento para a quarta-feira (20) e sentou-se ao lado de Renan para encontrar um texto que fosse aprovado com mais facilidade: “pode acusar de crime contra a humanidade, mas genocídio indígena já é demais” teriam dito por aí.

Clima de já ganhou

O ministro da Saúde já trata casos como o da Prevent Sênior como “página virada”. Não é sem motivo: por maior que seja a vontade dos senadores de punir o presidente, eles ainda dependem da boa vontade do Procurador-geral da República, Augusto Aras, e de um relatório que seja capaz de ser aprovado com evidências e sugestões de indiciamentos nos tipos penais adequados.

Fica para outro dia

Quem deve se dar bem após a CPI da Covid é o general e ex-ministro Braga Netto. Ele foi um dos principais coordenadores da administração federal ao longo do processo de combate à pandemia, mas sem ser chamado a depor durante todos os trabalhos da comissão, não deve ter que acionar o jurídico para responder pelas suas péssimas posturas no último ano.

Morde e assopra

Renan Calheiros disse que o seu relatório foi modificado pelo menos dez vezes para conseguir agradar quase todo mundo. Não foi o bastante, já que até os não governistas criticaram partes do documento. Mas, batendo em quem dava para bater, o texto real oficial foi apresentado ao senado.

O relatório final de Renan Calheiros propôs o indiciamento de mais de 70 pessoas, entre médicos, políticos, jornalistas, influenciadores e empresários, por 24 crimes. A leitura do documento ocorreu um dia após depoimentos de parentes de vítimas da covid-19. Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) acusou os depoimentos de algo “macabro, triste e lamentável”, adjetivos que seriam totalmente adequados se estivéssemos falando do suposto envolvimento de um senador da República com milícias paramilitares.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos I

A semana da pandemia I

Vamos começar com uma notícia boa: a taxa de transmissão de covid-19 no Brasil atingiu, na última semana, o seu menor patamar desde abril de 2020. O índice (0,60) indica que cada 100 pessoas infectadas transmitem o vírus para outras 60. Em outras palavras: a vacinação está reduzindo o número de mortes e o número de doentes.

Falando em vacinação, o Brasil já conseguiu imunizar completamente 100 milhões de pessoas. O número representa 47,11% da população, mas poderia ser maior: 16 milhões de pessoas estão com a segunda dose em atraso e o governo não gastou R$ 2,3 bilhões destinados à compra de vacinas contra a doença.

Tudo isso para dizer que os governos já estão preparando a volta das aulas presenciais em ritmo total. Em São Paulo, por exemplo, só ficará em casa quem conseguir um atestado médico. Também em São Paulo, segundo a Secretaria de Educação, a vasta maioria das escolas públicas não contam com infraestrutura mínima para receber alunos em segurança. Acontece.

A Fiocruz anunciou que já está negociando a produção, em terras nacionais, do molnupiravir. O medicamento é um antiviral que tem se apresentado eficiente no combate à covid-19. Se tudo der certo, não teremos a mesma dificuldade que tivemos com as vacinas para acessar o medicamento.

Auxiliando…

O governo quer destruir o Bolsa Família e, no lugar, colocar um programa que é eleitoreiro, ineficiente e sem fonte de recursos adequada. Teve até ministro da Economia que passou os últimos anos escorando-se em regra fiscal insustentável pedindo para darem uma pausa no teto de gastos.

A primeira tentativa de anunciar o programa foi suspensa pois, após meses de debate, não havia uma definição adequada para o valor do auxílio. Guedes e a sua equipe queriam R$ 300 reais — dentro do teto de gastos — e Bolsonaro queria R$ 400,00 — fora do teto de gastos, mas com ele dentro do Planalto em 2023. O mercado não gostou, mas gostaria menos ainda se soubesse o que seria o projeto final.

… gastando…

A equipe econômica trabalhou como pode, “lutou pelo melhor”, mas quem venceu, como sempre, foi a política. O Auxílio Brasil foi anunciado com um “pedala Robinho” no teto de gastos de R$ 30 bilhões de reais. O PT dobrou a aposta e pediu auxílio de R$ 600,00. A terceira via e os funcionários do Guedes? Disseram que cuidar do teto é mais importante do que cuidar da alimentação do pobre.

Dava para melhorar o Bolsa Família sem destruir ele no meio do caminho junto com o teto de gastos? Dava. Mas quando o governo tenta agradar o centrão com orçamento secreto e libera subsídio para caminhoneiro comprar diesel fica meio complicado. Aí não adianta reclamar quando a base na Câmara aumentar o benefício a pedido da oposição.

… e furando

O “waiver” do governo Bolsonaro para financiar o Auxílio Brasil será feito da maneira mais “governo Bolsonaro” possível. A PEC dos Precatórios será modificada para alterar o cálculo do teto de gastos (que seria revisto apenas em 2026). Com a contabilidade criativa, o governo ganhará todo o dinheiro necessário para ajudar os mais pobres.

Que o teto de gastos era insustentável todo mundo já sabia. O que não se previa é que ele seria jogado fora de um modo tão ridículo. Mas até então tudo não se tratou de uma quinta-feira fraca para o governo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos II

A semana da pandemia II

Boa notícia para quem tem pets. Um estudo da PUC do Paraná indicou que somente 11% dos cães e gatos que vivem com infectados por covid-19 também ficaram doentes. O número daqueles que desenvolveu a doença ou fez a sua transmissão para humanos é menor ainda.

Enquanto isso, no sul do Brasil, a Câmara de Porto Alegre (RS) discutiu o veto do prefeito Sebastião Melo (MDB), o moderado, à exigência de passaporte vacinal. A sessão, porém, foi interrompida após manifestantes com cartazes com símbolos nazistas agredirem vereadores de esquerda. Aparentemente se indignar com gente fazendo apologia ao nazismo é coisa de esquerdista.

Bolsonaro paz e amor

Auxiliares e aliados querem que o presidente continue falando pouca bosta. Segundo a Folha, o “tom moderado” do presidente é incentivado para seduzir, outra vez, o eleitorado antipetista mais moderado. A gente sabe que o liberal médio brasileiro é muito corno, mas ser corno ao ponto de cair na lábia do presidente duas vezes nos parece um novo nível de cornitude.

Fez que foi, não foi e acabou não fondo

A definição do que seria o Auxílio Brasil não foi um processo simples. Muitos julgaram que Guedes sairia do cargo caso o presidente realmente insistisse em um modelo que levasse ao fim do teto de gastos. Como sabemos, eles estavam errados, mas o Planalto não deixou de buscar possíveis substitutos para o ministro.

Guedes deveria perceber, diante dos acontecimentos das últimas semanas, que ele é totalmente dispensável para o presidente. Aliás, ele já deveria ter notado isso quando Sergio Moro saiu de Brasília e foi trabalhar na iniciativa privada. Mas talvez o poder tenha cegado o ministro.

O movimento é sensual

Independentemente de quem terminar 2022 como ministro da Economia, há uma bomba relógio armada para o ocupante do Palácio do Planalto no ano de 2023. O financiamento do Auxílio Brasil será acompanhado do aumento da inflação, do custo da dívida pública e de uma conta política amarga: não manter o valor de R$ 400,00 após 2023 terá um custo político tão alto quanto o corte de privilégios necessário para impedir o programa de virar nota de rodapé nos livros de História.


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A Nova Era – Semana #145: de braços dados com o desastre

O silêncio ensurdecedor de Paulo Guedes sobre a sua conta no exterior, o silêncio desconfortante de Jair Bolsonaro sobre os investimentos de seus ministros e as notícias horríveis da CPI da Covid.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #145 de governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-05 and oct-11


Vem aí

A CPI da Covid está chegando ao seu fim. O relatório final deve ser apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) no dia 19 e votado no dia seguinte. O documento será encaminhado para o Ministério Público, que decidirá quem será indiciado.

A lista VIP de indiciamentos deve incluir o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Ambos são acusados de articular e buscar financiadores para uma rede de notícias falsas que espalharam desinformação sobre a covid-19. Outros nomes com foro privilegiado incluem o presidente Jair Bolsonaro e as deputadas Bia Kicis (PSL-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP).

Questão de semântica

Fora do círculo dos portadores de foro privilegiado, a CPI da Covid também deve indiciar os membros do “gabinete paralelo”. Para quem ficou isolado do país nos últimos meses, o “gabinete paralelo” é um grupo de médicos, empresários e outras pessoas com grande influência nas decisões do Ministério da Saúde.

A quebra de sigilos da comissão descobriu que a Prevent Senior criou um grupo de Whatsapp para abastecer o governo com notícias sobre o “kit covid”. A ação era praticamente uma newsletter diária de negacionismo científico.

Como apontou Nise Yamaguchi, a expressão “gabinete paralelo” só funciona quando existem dois gabinetes agindo lado a lado, mas sem jamais se encontrarem. Dá para falar em paralelismo se ninguém esconde o que faz, como faz e ao lado de quem faz?

Plano B

Todo mundo sabe que existem chances elevadas de o procurador-geral Augusto Aras ignorar todo o relatório da CPI da Covid. Se isso acontecer, a comissão já conta com um plano secundário: chamar a Ordem dos Advogados do Brasil para representar associações de famílias de vítimas da covid-19 em uma chuva de ações no Supremo Tribunal Federal (STF).

Não olha para o lado

Já está claro que a Prevent Senior não era a única operadora de saúde que distribuiu e incentivou tratamentos ineficazes para a covid-19 (beijos, Unimed). A Hapvida também está, oficialmente, na jogada.

Em um vídeo revelado na CPI da Covid, a secretária de Gestão e Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, aparece ao lado de Anderson Nascimento, o superintendente nacional da Hapvida, defendendo o “kit covid”. A gravação é de julho de 2020.

As ações da Prevent Senior, da Hapvida e de tantas outras operadoras de saúde ocorreram sem que o Conselho Federal de Medicina (CRM) ou a Agência Nacional de Saúde (ANS) fizessem algo. Quer dizer, o CRM até fez: na figura de seu presidente, Mauro Luiz de Brito Ribeiro, incentivou, e respaldou todo tipo de ideia negacionista durante a pandemia.

Analfabetismo funcional

Já o diretor-presidente da ANS, Paulo Rebello, jura que passou o período pandêmico em um isolamento tão forte que foi incapaz de fazer um dos POPs (Procedimento Operacional Padrão) mais básicos do seu trabalho: identificar se as operadoras de saúde estavam seguindo procedimentos médicos dentro dos padrões científicos.

Paulo Rebello afirmou que só soube das ações da Prevent Senior por meio da CPI da Covid. Foi desmentido rapidamente pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP): a ANS recebeu denúncias contra a operadora desde o ano passado, mas nada fez sobre o tema.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Olho no lance

A Unesco classificou a denúncia de 200 mortes de voluntários de uma pesquisa clínica feita com proxalutamida no Amazonas como uma das mais graves da história da América Latina. O medicamento é um bloqueador de hormônios masculinos que foi utilizado no combate à covid-19 no Brasil. A representação é mais uma das várias denúncias internacionais de gente brasileira envolvida em situações análogas a crimes contra a humanidade.

Na terceira vez é mais gostoso

A CPI da Covid convocou para depor o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pela terceira vez. A nova convocação se deu, entre outros motivos, pelo presidente Jair Bolsonaro ter pressionado o ministério a tirar de pauta a análise de um relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) que condenava o uso de cloroquina e de outros tratamentos ineficazes. O ministro também não respondeu perguntas da comissão dentro do prazo estipulado.

O horror

Quando ninguém acreditava que a CPI da Covid poderia ir a um nível de horror mais baixo, os depoimentos foram lá e mostraram que ainda havia espaço para revelações criminosas. O advogado Tadeu Frederico de Andrade, de 65 anos, disse aos senadores que após 30 dias internado na UTI de um hospital da Prevent Senior, a médica Daniela de Aguiar Moreira da Silva quis removê-lo para um leito híbrido com tratamento paliativo.

A decisão foi tomada com base em um prontuário médico que não era o dele. Além disso, havia a orientação para que ele não fosse reanimado em caso de parada cardíaca, afinal, “óbito também é alta”. A pressão pela aplicação de práticas nazistas e criminosas foram confirmadas pelo médico Walter Correa de Souza Neto.

A semana da pandemia

Após 20 meses de pandemia, o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortes por covid-19. O número foi alcançado 111 dias após registrarmos meio milhão de mortos pela doença.

Em protesto ao número de mortes, manifestantes penduraram 600 lenços brancos na Praia de Copacabana. Em protesto aos manifestantes que se importam com os mortos por covid-19 no Brasil, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, relativizou o número de vítimas da doença. Prioridades.

O número de vítimas por covid-19, se tudo der certo, não deve aumentar muito daqui para frente. Na última semana conseguimos atingir a taxa de 71% da população brasileira parcialmente imunizada contra a covid-19.

Agora precisamos torcer para que a nomeação de um novo coordenador do Programa Nacional de Imunização (PNI) não atrapalhe o ritmo de vacinação. O cargo ficou vago nos últimos três meses, justamente o período em que a aplicação de imunizantes contra a covid-19 foi o mais rápido. Não ter especialista em cargos de decisão, no governo Bolsonaro, é sempre uma ótima ideia.

A redução das taxas de morte (em alguns dos estados brasileiros) está animando prefeitos e governadores a abandonarem a exigência do uso de máscaras em lugares abertos e fechados. Nos locais em que ainda há a demanda pelo equipamento de proteção, é melhor não contar com a ajuda do governo federal: o Ministério da Saúde levou um calote de R$ 193,4 milhões na compra de máscaras chinesas.

Caminhando firme para o retrocesso

Um dos maiores problemas sociais causados pela pandemia está na área de educação. Milhões de estudantes (quase sempre pobres) ficaram sem acesso ao sistema de ensino ao longo da pandemia. O resultado? Os mais jovens regrediram no aprendizado, enquanto os mais velhos estão muito ocupado trabalhando para comprar ossos para o jantar.

É nesse contexto em que a Folha de S. Paulo noticiou que os governos estaduais seguraram os recursos disponíveis para a área. O “não gasto de verbas” aconteceu mesmo com o aumento dos repasses, a necessidade de fornecer equipamentos para alunos ou a simples reforma das escolas para a sua reabertura. Ao todo, desde 2019, a queda nos gastos foi de 7,4% em termos reais.

Para fechar o ciclo do desastre, o número de matrículas em creches recuou em 2020 mesmo antes da pandemia. Os dados de 2020 mostram que menos de 1/3 das crianças brasileiras estão matriculadas na rede pública ou privada. Os investimentos na área também caíram ao longo do governo atual.

Não há, no Brasil, passado que não pareça muito pior do que o nosso futuro. Mas tenha certeza que o governo Bolsonaro está trabalhando para mudar essa situação.


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A Nova Era – Semana #144: governando pelo exemplo

Uma semana marcada por tempestades de areia, tempestades políticas e vazamentos de dados comprometedores. Enquanto parte da oposição se unia nas ruas, o ministro da Economia era punido pelas suas decisões com alguns milhões de reais a mais em seu bolso.

E para quem ainda diz que a economia não está bombando, chegou a hora de olhar com atenção para o mercado de venda de ossos de boi: ele nunca esteve tão aquecido.

Confira tudo isso e muito mais no resumo da semana #144 de governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-28 and oct-04


Atendendo a todas as expectativas

O depoimento de Luciano Hang à CPI da Covid começou bagunçado antes mesmo do depoente chegar ao Senado. Na internet, o dono da rede Havan publicou um vídeo com um par de algemas. Elas seriam para “poupar trabalho da CPI”.

Quando esteve à frente dos senadores, Luciano Hang fez propaganda não autorizada de suas lojas, admitiu que a sua mãe utilizou remédios ineficazes contra a covid e se apegou a detalhes linguísticos. O show de horrores do seu depoimento serviu mais para animar as bases bolsonaristas do que ajudar a CPI a colocar o empresário na mira da Justiça. Mas dava para esperar algo diferente?

Aliança mortal

Também depôs à CPI da Covid (e deu aulas grátis de direito) a advogada Bruna Morato. Morato é representante dos 12 médicos que denunciaram experiências com pacientes sem autorização e a ocultação de mortes por covid-19. Ela afirmou que a Prevent Sênior atuou ao lado do governo pela validação e utilização de remédios ineficazes contra a covid-19.

A advogada também afirmou que os médicos eram coagidos a distribuir o “kit covid” e a reduzir o número de pacientes internados há mais de dez dias em UTIs. Segundo ela, os gestores da Prevent Sênior consideravam que “óbito também é alta”. A empresa chamou as acusações de “loucura”.

A Prevent Sênior não agiu sozinha. A CPI da Covid suspeita que o Conselho Federal de Medicina e os conselhos regionais da profissão atuaram junto com a empresa. Não custa lembrar: o CFM mantém a indicação de que médicos podem ter autonomia para indicar até três pulinhos de manhã para tratar doenças como a covid.

Homofobia e baderna

A CPI também ouviu o empresário bolsonarista Otávio Fakhoury. Ele é acusado de ter financiado material ilegal de campanha de Bolsonaro e propagar fake news durante a pandemia. Em seu depoimento, propagou negacionismo científico, proferiu homofobia e chamou tudo de liberdade de expressão, pois é assim que a banda toca no Brasil de Bolsonaro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

A Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) deixou vencer o equivalente a R$ 80,4 milhões em kits de testes para covid-19, vacinas e remédios para outras doenças. O órgão chegou a ser avisado sobre a possibilidade dos produtos vencerem. Como a distribuição não foi realizada a tempo, tudo deverá ser inutilizado.

Enquanto o Tribunal de Justiça do Rio suspendia a exigência de comprovante de vacinação para acesso a locais públicos na capital do estado (decisão que foi derrubada no STF), a Secretaria Especial de Cultura inovou: os burocratas do órgão querem proibir a obrigatoriedade de passaportes de vacina em eventos e atrações financiadas pela Lei Rouanet. Pedido de Bolsonaro.

Afirmando o óbvio na folha timbrada

A Procuradoria-Geral da República enviou um documento ao Supremo Tribunal Federal afirmando que o presidente convocou manifestações de caráter golpista para o dia 7 de Setembro. A afirmação foi adicionada aos autos do inquérito do STF sobre os atos realizados no feriado nacional. A fala golpista deste caso em específico foi proferida por Whatsapp, então não podemos saber o que a PGR pensa sobre todas as outras vezes que o presidente foi golpista.

Olho no lance

A Prevent Sênior não foi a única empresa que se uniu ao governo na aplicação de remédios ineficazes contra a covid-19. A Hapvida, maior operadora de saúde das regiões Norte e Nordeste, é acusada de incentivar seus profissionais a “aumentarem consideravelmente” a indicação de cloroquina e o tratamento de pessoas em casa. As medidas tinham como foco reduzir o número de pacientes internados nos hospitais da rede.

Não é belo e talvez não seja moral

Um vazamento de dados sobre empresas offshore mostrou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, mantiveram contas no exterior após a sua chegada ao poder. O que não era, a princípio, um problema, se tornou um após Guedes informar que não se abdicou do controle de sua conta. Os parlamentares (não governistas) partiram pra cima do ministro, uma vez que a sua postura pode colocá-lo em situação de criminhos.

É bem provável que tudo isso dê em nada para o ministro? Sim. Segundo ele, a Comissão de Ética Pública considerou ser absolutamente normal ele se manter à frente da Economia sem perder o controle da offshore. No limite, o ministro poderia até dizer que é a favor de taxar ganhos de capital no exterior.

Mas aqui apoiamos a sangria de otário em praça pública sempre que o otário em questão for um corno de marca maior. É política, tá liberado.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semana #143: Designed by Germany, assembled in Brazil

A semana #143 do governo Bolsonaro teve a CPI da Covid entendendo como brasileiros podem praticar eugenia, ministro da CGU sendo acusado de machismo e Bolsonaro mandando um “alô, alô” para a sua base em Nova York.

Veja em detalhes tudo isso e muito mais no resumo da semana #143 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-21 and sep-27


Esse DDI é 23?

Jair Bolsonaro voltou a falar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, presencialmente. Tradicionalmente, o discurso do presidente brasileiro tem como foco posicionar o país diante das questões globais. No lugar da tradição, o presidente brasileiro optou por fazer um Intelig para a sua base local.

Enquanto outros líderes falavam sobre o aquecimento global, a recuperação econômica após a pandemia e a guinada para uma economia sustentável com base no que há de mais moderno em termos de pesquisa, Bolsonaro atacou a imprensa, apoiou remédios ineficazes contra a covid-19 e chamou Michel Temer de socialista. Por fim, disse que não existem casos comprovados de corrupção. Mas para isso Collor já tem a resposta certa: o tempo é o senhor da razão.

A viagem do governo para a Assembleia fechou com chave de ouro após várias pessoas serem diagnosticadas com covid (incluindo o ministro da Saúde). Os casos foram utilizados por Bolsonaro como exemplo para pregação negacionista.

Bate boca

A sessão da CPI da Covid do dia 21 foi encerrada com dedo na cara e gritaria. O ministro da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, acusou a senadora Simone Tebet de ser “descontrolada”. A fala foi o ponto alto (ou baixo, depende do ponto de vista) de um depoimento que serviu, principalmente, para colocar o ministro na lista de pessoas investigadas formalmente pela comissão.

Anjinhos da morte

A CPI também ouviu o diretor-executivo da Prevent Sênior, Pedro Batista Junior. A empresa é acusada de utilizar remédios contra câncer para tratar covid-19 (além dos tradicionais remédios ineficazes que já são utilizados pelo grupo). O depoimento, porém, foi muito mais macabro do que a sinopse.

O executivo afirmou que o diagnóstico dos pacientes com covid-19 era modificado após 14 dias de internação — mas negou que a empresa ocultou mortes no estudo com hidroxicloroquina. Pedro Batis Junior também colocou o velho da Havan em saia justa: segundo ele, a mãe de Luciano Hang foi tratada com o “kit covid” apesar de seu filho ter negado a aplicação dos medicamentos. Aliás, falando na mãe do empresário, a Folha de S.Paulo descobriu que o prontuário de sua morte foi fraudado pelos médicos da Prevent Sênior.

Já estava ruim, aí ficou pior

A situação da Prevent Sênior ficou muito ruim com a publicação de um dossiê elaborado por profissionais de saúde que atuaram nos hospitais da rede. O documento acusa a Prevent Sênior de testar tratamentos ineficazes contra a covid-19 sem o conhecimento dos pacientes e de ter ocultado mortes na sua rede. Além disso, o dossiê também aponta ameaça por parte da empresa para que os médicos prescrevessem o “kit covid” para o tratamento da doença.

Bagunça

O depoimento de Danilo Trento, diretor da Precisa Medicamentos, arrastou o Planalto para a CPI da Covid outra vez. Trento admitiu ter se reunido com parlamentares brasileiros em Las Vegas no mesmo período em que Flávio B. (Patriota-RJ) estava na cidade em missão oficial pelo Senado. Quando Renan Calheiros (MDB-AL) comentou como a CPI está ampliando a visão entre os brasileiros, de que o governo Bolsonaro estava metido em crimes, a casa caiu.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

O Supremo Tribunal Federal decidiu que caberá aos estados decidir quando será iniciada a vacinação de adolescentes. A decisão contrariou o Ministério da Saúde, que havia suspendido a aplicação de doses sem apresentar argumentos científicos.

Segundo o Datafolha, a maioria dos brasileiros vê a pandemia sob controle. A mesma maioria também defende o uso de máscara. Isso nos coloca pensando aqui na redação: o que teria sido da pandemia se o governo tivesse promovido o uso de máscaras PFF2 desde o começo?

1000 dias com ele

Jair Bolsonaro completou 1000 dias à frente da presidência da República. O dia foi marcado por mobilizações com a sua base e a inauguração de obras que fossem capazes de ofuscar as metas não cumpridas e as 32 violações de direitos humanos de seu governo. Mas a notícia que importou mesmo foi a seguinte: Jair Bolsonaro voltou dos EUA sem covid.

Quando você esquece de pagar a conta

O Congresso derrubou uma série de vetos do presidente Bolsonaro na última semana. Eles incluíram, mas não se limitaram a temas como: as federações partidárias, a suspensão da prova de vida no INSS, as reintegrações de posse e o repasse de verbas federais para ampliar acesso à internet de alta velocidade em escolas.

Fica a dica: se você quer avacalhar alguém por aí, é importante pagar a fatura e negociar com os Congressistas. Só a primeira parte não adianta.

Quem é o bolsonarista mais disfarçado

O tucano Tasso Jereissati (CE) abandonou a disputa das prévias do PSDB em favor do governador gaúcho Eduardo Leite. A medida deve ser acompanhada da desistência de Arthur Virgílio (AM) em apoio a João Dória (SP). O que não está definido, além do próximo candidato dos tucanos à presidência, é quem quer mais voto de bolsonarista: Eduardo Leite ou João Dória.

Vamos combinar, ambos sabem que não chegam no segundo turno sem voto de bolsonarista. Eduardo Leite já entendeu isso e tornou-se o principal candidato do bolsonarismo tucano parlamentar e Dória já recebeu o briefing de que é mais lucrativo bater no PT do que no presidente. Falta saber se é algo que pode dar certo (não dará).

A Nova Era – semana #142: bagunça, fofoca e terror

A CPI da Covid se encaminha para um final com cenas lamentáveis, trágicas e revoltantes. Enquanto isso, Paulo Guedes passa vergonha e Bolsonaro passeia em Nova York.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #142 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-14 and sep-20


O banco que não é banco

A CPI da Covid finalmente ouviu o advogado Marcos Tolentino, que é apontado como sócio oculto da Fib Bank, o banco que não é banco. Tolentino negou acusações, foi acusado de ter seis registros de CPF (o que é ilegal) e se calou quando se encontrou em uma situação mais complicada do que o recomendado: a possibilidade de admitir que estava acusando a Receita de má fé.

O lobista que é lobista

A comissão também ouviu o lobista Marconny Albernaz de Faria. Ele é acusado de interceder pela Precisa Medicamentos nas negociações feitas pela empresa com o Ministério da Saúde. O lobista calou-se quando foi cobrado sobre a sua relação com a advogada de Bolsonaro, negou que era lobista e disse que não conhecia senadores (após afirmar no privado o contrário).

Pelo menos o depoimento do lobista serviu para algo: após a sua fala, a comissão aprovou a convocação de Ana Cristina Valle, segunda ex-mulher do presidente Bolsonaro. Os senadores querem que ela explique a sua ligação com o lobista — isso, é claro, se ela realmente for ao Senado depor.

É preciso contar com o fator safadeza

A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Precisa Medicamentos. A ação foi autorizada pelo STF após a CPI da Covid entender que a empresa não entregou todos os documentos que ela solicitou (mais especificamente, os contratos relacionados às operações de venda da Covaxin). Mas e se eles não existirem?

Preparando a bandeirada final

A CPI da Covid ainda tem muito para render, mas já está chegando ao fim. O seu relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que o relatório deve ser apresentado em menos de duas semanas. Tudo depende do que será encontrado nas investigações da Prevent Sênior (mais sobre isso adiante) e da Precisa Medicamentos.

Por hora, já existem algumas certezas. A primeira é que haverá o pedido de indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por prevaricação no caso da vacina indiana Covaxin — e outras coisas mais que podem ajudar em um eventual processo de impeachment. A segunda é que o “gabinete paralelo” deve entrar no relatório final ao lado da Prevent Sênior e a longa rede de pessoas que propagaram, financiaram e traficaram remédios ineficazes contra a covid-19 no último ano.

Torta de climão

Paulo Guedes está constrangendo toda a República. A última vítima foi Luiz Fux. O ministro da Economia fez, no dia 15, um “pedido desesperado de socorro” ao ministro do STF. O motivo? O impasse do pagamento dos precatórios em 2022.

Os precatórios são as dívidas da União que o governo Bolsonaro recusou-se a negociar quando era possível e agora virou um montante que impede a Economia de pagar um novo Bolsa Família e, ao mesmo tempo, manter o orçamento secreto com o tamanho adequado para acalmar o centrão. A resposta de Fux foi diplomática: [o ministro] “é tão amigo que coloca no meu colo um filho que não é meu”.

A solução, por sinal, passou pelo centrão. A partir de um grande “devo, não nego, pago na semana que vem”, o governo parcelou parte do montante que deveria ser pago ano que vem (R$ 89,1 bilhões) e tentará renegociar o pagamento da dívida com um desconto. Ou o Bolsonaro pode não se reeleger e deixar essa “pica do tamanho de um cometa” na mão de outra pessoa.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Dados públicos mostraram que, em 2020, o número de mortes por covid-19 foi maior do que a soma de mortes causadas por infarto, diabetes e pneumonia em todo o país. As três doenças causaram 190,2 mil vítimas. Já o coronavírus foi responsável por 194,9 mil fatalidades.

O ministro da Saúde afirmou que há excesso de doses de vacina no Brasil, suspendeu e criticou a antecipação da vacinação de adolescentes. O jurídico nos obrigou a não comentar a fala.

Todo ano essa merda piora

A participação de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU foi um repeteco das cenas lamentáveis que vimos no primeiro ano, mas agora com mais pessoas passando vergonha. Quando não tínhamos o ministro da Saúde sendo indecente para os manifestantes, tínhamos o próprio presidente fazendo piada do direito de manifestação alheio. Como ninguém ali admite que já foi vacinado, estão todos comendo na rua (literalmente) e fazendo de conta que não estão gastando mais do que deveriam com cartão corporativo.

Sabe como é, aparências importam, mesmo que sejam aquelas que agradam só a sua militância.

Brincando com a vida alheia

A CPI da Covid tem revelado em detalhes como o grupo Prevent Senior foi de empresa de saúde para uma grande rede de laboratórios mengeleanos durante a pandemia. Os dados que se tornaram públicos nos últimos dias mostram que a empresa daria orgulho para Jair Bolsonaro: “a regra era, ‘espirrou no PS [Pronto Socorro], entrega o kit”, disse um médico ligado à empresa à jornalista Chloé Pinheiro, da Veja.

As pessoas que chegavam a um consultório da rede estavam sujeitas à própria sorte. Na melhor das hipóteses, ganhavam um kit de remédios ineficazes contra a covid — mesmo se estivessem sem covid —, na pior das hipóteses, se tornavam vítimas de tratamentos experimentais sem autorização de autoridades e com a possibilidade de terem as suas mortes ocultadas (até mesmo médico contratado pela empresa teve a morte ocultada).

Lucrando com a vida alheia

O número de clientes da Prevent Sênior cresceu 15% durante a pandemia (mesmo com a concorrência perdendo consumidores). Os lucros aumentaram em 18% em um ano, atingindo R$ 4,3 bilhões em 2020. Esses dados mostram que as escolhas da Prevent Senior deram muito certo para os donos da empresa, só não tiraram ela da mira da CPI da Covid.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) realizou diligências na sede da empresa na última segunda-feira (17). A ação teve como objetivo esclarecer as denúncias apresentadas na CPI da Covid de que os pacientes receberam remédios ineficazes contra a covid-19 sem saberem.

Segundo o Sindicato dos Médicos do Estado de SP (Simesp), a pressão para que os remédios fossem distribuídos aos pacientes vinha dos doentes bolsonaristas e da própria Prevent Senior. O plano de saúde teria pressionado os médicos a tomarem toda a responsabilidade pela prescrição do medicamento, livrando a Prevent Sênior de qualquer problema judicial.

Não adianta o grupo empresarial falar em “denúncias infundadas e anônimas”, acusar politicagem e ameaçar entrar na Justiça contra quem quer revelar o que os médicos da empresa fizeram durante a pandemia. A CPI está indo com tudo para cima da empresa e não parece haver um grande interesse da comissão em comer uma marguerita com borda de cheddar nas próximas semanas.


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A Nova Era – semana #141: um grande giro de 360 graus

A semana #141 do governo Bolsonaro teve o presidente subindo, descendo e dando uma reboladinha no seu tom de radicalismo. A Frente Ampla Liberal Isentona Unificada fez o seu primeiro protesto contra Bolsonaro e as elites riram por último (e riram melhor).

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #141 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-07 and sep-13


Subiu o tom

Diante de duas multidões poliglotas, Jair Bolsonaro subiu em palanques em Brasília e São Paulo para realizar as suas falas do 7 de Setembro. Como apontado na edição anterior dessa série, o presidente repetiu ameaças golpistas, incitou a desobediência a decisões judiciais, culpou o Supremo Tribunal Federal por aquilo que ele mesmo fez, e insistiu em pautas já rejeitadas pelo Congresso.

Os discursos não foram originais sequer no “eu só saio do poder morto”. Aqui reservamos o direito ao ato de ficar surpreso apenas para o anúncio de uma reunião do Conselho da República, órgão que reúne os presidentes do STF e do Senado: em notas, Luiz Fux, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) avisaram que não foram chamados para a tal festa pobre que os homens armaram para lhes convencer de brincar de golpe.

Reagiu ao tom

Muita gente não respondeu positivamente às falas de Bolsonaro. O tucano João Dória defendeu o impeachment do presidente abertamente pela primeira vez desde a sua eleição. A medida foi acompanhada de uma reunião do PSDB para discutir a posição do partido sobre o tema — ficaram apenas com a ideia de ser oposição, em agrado aos deputados federais do partido.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Luiz Fux, organizou uma reunião entre os ministros da Corte para acetar uma resposta institucional. Ela foi entregue em um tom pouco disposto à boa vontade com o ocupante do Planalto.

Enquanto Rodrigo Pacheco cancelava todas as sessões do Senado, o PSD de Gilberto Kassab se reunia para avaliar se seguia ou não o rumo de partidos que já se colocam abertamente a favor da queda de Bolsonaro. No Twitter, João Amoêdo (Novo), Manuela D’Ávila (PCdoB), Roberto Freire (Cidadania), Marina Silva (Rede) e Eduardo Leite (PSDB) também criticaram as falas do presidente e/ou pediram a sua queda. Já Arthur Lira disse que era hora de não se falar mais em golpismo (mas ignorou que o impeachment é o melhor remédio para isso).

DEM e PSL soltaram uma nota conjunta de repúdio à fala do presidente. Nenhuma linha da carta comentou se a fala do presidente foi forte o bastante para o DEM sair do governo e o PSL abandonar a base de Bolsonaro no Congresso. Prioridades.

Abaixou o tom

Sem que ninguém (além de uma meia dúzia de liberais desiludidos com a vida) pedisse, Michel Miguel entrou em cena para colocar panos quentes na República. O ex-presidente fez uma ponte entre Bolsonaro e Alexandre Moraes, construiu uma cartinha no melhor estilo “foi mal, tava doidão” e ainda guardou tempo para postar algo no close friends do Instagram.

Normalizou o tom

A moderação do presidente durou tão pouco quanto a postura democrática de Arthur Lira. A base conservadora de Bolsonaro não gostou muito do que ele disse na cartinha escrita com o apoio do Temer. Quer dizer, ficou insatisfeita até que a fatura caísse e o discurso voltasse a ser alinhado com o do Planalto.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Arreda pra lá

No fundo, no fundo, todo mundo sabe que não vale a pena tocar o impeachment se Arthur Lira não for incomodado no seu acesso ao orçamento secreto. Os bilhões da planilha comandada pelo presidente da Câmara tornam os vários pedidos em que ele está sentado muito confortáveis. Não à toa a alternativa escolhida por muitos é jogar a responsabilidade de tirar o presidente do Planalto para o Tribunal Superior Eleitoral.

Notinhas na imprensa já trazem a ideia de que o TSE pode cassar a chapa Bolsonaro-Mourão por crimes na campanha de 2018. Isso colocaria Arthur Lira no Planalto e ainda o livraria do desconforto de lidar com um presidente que não gosta muito da ideia de um orçamento secreto. Não é algo que acontecerá, ao contrário da recusa do Senado em marcar a sabatina de André Mendonça para o STF.

Situs

Na esteira do 7 de Setembro, um monte de caminhoneiro bloqueou as estradas federais em pelo menos 16 estados na quarta-feira (08). Ao contrário dos movimentos do governo Temer, eles não queriam pedir algo para a categoria: a pauta era contra a democracia.

O Planalto entrou em pânico. Bolsonaro gravou um áudio pedindo paz nas estradas e a mensagem foi recebida como se fosse fake news (ah, a ironia). Em resposta, o ministro da Infraestrutura entrou em campo e publicou um vídeo confirmando que o Bolsonaro tinha deixado de lado essa coisa de caos social de viés golpista — por hora.

A semana da pandemia

Enquanto isso, no Brasil em que a pandemia ainda existe, o Ministério da Saúde suspendeu a entrega de vacinas aos estados em função dos atos bolsonaristas do 7 de Setembro. 2,6 milhões de doses estiveram envolvidas na ação. Já no lado de quem trabalha dia e noite pela saúde dos brasileiros, o Instituto Butantan montou uma força tarefa para atestar a qualidade dos lotes de CoronaVac que foram suspensos pela Anvisa.

Pela primeira vez desde o dia 13 de novembro de 2020, a média móvel de mortes por covid-19 ficou abaixo de 500 mortes/dia. Já as taxas de ocupação de UTIs estão abaixo de 60% na maioria das capitais brasileiras. Não é hora de descuidar-se, mas dá para ter esperança com o futuro.

Medo, delírio e fracasso (em Brasília e em outras três capitais à sua escolha)

Vendo a água bater na bunda após o dia 07, o Movimento Brasil Livre resolveu parar de adotar discursos políticos de timing ruim (para dizer o mínimo) e chamar as esquerdas e as centrais sindicais para os atos de oposição marcados para o dia 12. O chamado foi atendido por várias lideranças de esquerda, como Isa Penna (Psol-SP), Ciro Gomes (PDT) e Alessandro Molon (PSB-RJ) — mas não todas elas.

Pois é. Sem o maior partido de esquerda nas manifestações (e o Vem Pra Rua dando motivos para que eles fiquem em casa na próxima manifestação), a festa democrática da Frente Ampla Liberal Isentona Unificada virou um enterro. Menos de seis mil pessoas se uniram na avenida Paulista para protestar contra o presidente, o que é mais ou menos uma terça-feira fraca para qualquer protesto convocado pela CUT.

A F.A.L.I.U. pode reclamar pelo resto do ano da ausência do partido que lidera as pesquisas de opinião contra o presidente. Mas o fato é que ninguém é obrigado a participar de uma festa para a qual foi chamado de última hora (e a contra gosto dos organizadores). As coisas ficam todas mais fáceis se as forças de centro esquerda e centro direita admitirem que se odeiam mais do que odeiam Bolsonaro e, no fundo, só querem participar das manifestações em que elas lideram.


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A Nova Era – semana #140: tirou o futuro, deixou o passado

A semana #140 do governo Bolsonaro foi marcada pelos preparativos da marcha que pregou golpismo disfarçado de luta pela liberdade. Mas a escala autoritária do presidente não foi o único ponto relevante da semana: também contamos com novas revelações sobre os investimentos dos Bolsonaros, depoimentos na CPI da Covid e as elites econômicas percebendo que talvez não seja uma boa ideia manter a neutralidade diante do governo atual.

Veja como chegamos até aqui a seguir.


The following takes place between aug-30 and sep-06

(e um cadinho de 7 de setembro também)


Uma corretagem de imóveis tão eficiente quanto uma filial da 5àsec

Já sabíamos que a família Bolsonaro faz uma corretagem de imóveis melhor do que a média desde quando a imprensa começou a noticiar os rolos imobiliários do presidente e do Flávio B. A novidade, agora, é que Carlos Bolsonaro também se mostrou um ótimo negociador de imóveis.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro ficou tão surpreso com a qualidade do trabalho prestado que determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal do vereador do partido Republicanos. A decisão também afetou outras 26 pessoas e sete empresas. Todo mundo é investigado desde 2019 por suspeita de ter desviado dinheiro público em um esquema que pode ter atingido a cifra de R$ 7 milhões.

Rouba e não faz

Bolsonaro temia que o seu filho Carlos fosse pego pelas suas estratégias de marketing político na web. Como essa frente ainda está em passos lentos, o presidente terá que se contentar com as suas crias sendo investigadas por algo que ele conhece bem: emprego de funcionário fantasma e corrupção de pobre.

A quebra de sigilos bancários também atingiu a ex-mulher do presidente, a advogada Ana Cristina Valle — além de seis de seus parentes. Segundo as investigações, ela gerenciou o esquema de desvio de dinheiro público no gabinete de Flávio B. e de Carlos B. até 2007, quando se separou do atual presidente do Brasil.

Alguns dos funcionários que trabalharam no gabinete de Carlos Bolsonaro (oficialmente) já admitiram que não trabalhavam no gabinete do vereador (não oficialmente). A ocultação de patrimônio teria ocorrido através de laranjas, que assumiriam a posse de residências como a mansão em Brasília na qual Ana Cristina vive.

Quem ajudou a revelar tudo isso para a imprensa foi Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, que trabalhou com a família Bolsonaro nos últimos 19 anos e recebeu homenagem de Jair Renan há dois meses. Fica a dúvida: no próximo aniversário também tem parabéns ou ele já teve o nome riscado até da listinha de presente de Natal?

Absolutamente normal? Depende

A CPI da Covid ouviu o motoboy da Ivanildo Gonçalves da Silva, empregado da VTCLog que é acusado de pagar ao menos quatro boletos em benefício de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde. Dias admitiu ter feito pagamentos de boletos e saques de até R$ 400 mil reais em contas da VTCLog. Segundo o Coaf, o motoboy sacou R$ 4,7 milhões em dois anos.

A movimentação é esperada se estivermos falando de uma empresa que não sabe utilizar internet banking e manda seus empregados realizarem o pagamento de suas contas na boca do caixa. Ela só não explica muito bem por qual motivo o pagamento de contas de gente que ocupou cargo comissionado no Ministério da Saúde e foi demitida após denúncia de cobrança de propina também estava na lista de tarefas dos seus empregados.

Absolutamente normal? Não muito

A CPI da Covid também ouviu o lobista Marconny Albernaz de Faria. Faria é apontado como um intermediário da Precisa Medicamentos, uma das empresas investigadas no processo de compra suspeita da vacina indiana Covaxin.

O lobista quase fugiu de seu depoimento. Primeiro, alegou ter um atestado médico — prontamente anulado pelo médico. Depois, pediu à ministra Carmem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que ele fosse desobrigado a depor — o pedido foi negado.

Para além das suas ações à frente da Precisa Medicamentos, Faria teria ajudado Jair Renan Bolsonaro a abrir uma empresa de eventos em Brasília. A experiência do filho do presidente com eventos? Nenhuma, mas todo lobista adora fazer negócios em festas privadas na região do Lago Paranoá.

Absolutamente normal? Nesse governo, sim

Agora vamos falar dos lugares do governo em que nada de bom é esperado. Sérgio Camargo, atual presidente da Fundação Palmares, se tornou investigado por assédio moral, discriminação e perseguição ideológica. As ações do bolsonarista foram divulgadas em detalhe pelo Fantástico.

Em resposta, Sergio Camargo desqualificou a reportagem — mas não negou o seu conteúdo — e atacou a apresentadora Maju Coutinho, que sequer esteve envolvida na matéria. Após receber um alerta do jurídico, apagou a postagem. O problema é que o print é eterno e os advogados da global devem ser bons de serviço.

A Secretaria de Cultura virou o único front da jornada olavista dentro do governo federal. Após perderem espaço para o centrão e os militares em outros corredores de Brasília, sobrou para a turma mais reacionária da nossa política a área da Cultura. E para sobreviver sem cair na caça às bruxas não basta ser meio bolsonarista: é preciso ser full bolsonarista.

Choque de realidade caro

O Brasil está ficando com um preço mais elevado do que o brasileiro pode administrar — e olha que ele não é muito bom em gerenciar as suas contas. Assim como o nível de endividamento das nossas famílias, a inflação das despesas básicas tem crescido rapidamente nos últimos meses e já atingiu a taxa de 33%.

A média de preços dos produtos que pesam mais no bolso dos pobres foi mensurada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Para quem gosta de ter esperança, é melhor começar a rezar: o aumento em 6,78% no valor médio das contas de luz não deve melhorar a situação nos próximos meses — e o governo sabe disso, mesmo que tente ignorar.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Apesar das contínuas quedas nas médias móveis de mortes, a variante delta do Sars-Cov-2 segue mostrando que talvez não seja a melhor hora de cuidar da sua saúde mental em mesa de bar. Os novos registros de casos de pessoas infectadas com a variante não param de crescer e os casos de mortos estão ganhando presença no noticiário.

Enquanto a Secretaria de Saúde de São Paulo descobria que doses da CoronaVac de um lote suspenso pela Anvisaforam aplicadas, o governo federal cortou em 85% a previsão de verba para compra de novas vacinas contra a covid-19 em 2022. O valor não é capaz de garantir uma terceira dose de imunizante para adultos quando for necessário.

Falando em pessoas vacinadas, a prefeitura do Rio de Janeiro suspendeu até o dia 15 de setembro a exigência do uso de um comprovante de vacinação para que pessoas possam entrar em locais de uso público. A decisão foi tomada em função das instabilidades do aplicativo ConecteSUS, que emite o documento.

Por último, mas não menos importante, a editoria “bate canela” trouxe uma situação que é 100% a cara do governo Bolsonaro. Uma partida entre Brasil e Argentina nas eliminatórias da Copa do Mundo foi suspensa em São Paulo após sete minutos de jogo. A decisão aconteceu após agentes da Anvisa entrarem no gramado alegando que quatro jogadores argentinos haviam descumprido as normas sanitárias brasileiras.

A Conmebol correu para tirar o seu da reta e culpar o governo federal. Já o Ministério da Saúde divulgou nota respaldando a decisão da Anvisa. No meio do vai e vem, a CBF se fez de desentendida e a CPI da Covid começou a debater a possibilidade de convocar membros da confederação para explicar quem é que deu a liberdade para os jogadores entrarem em campo ilegalmente.

Que saudades do futuro

O Brasil passou a última semana se preparando para a micareta dos velhos golpistas promovida por Bolsonaro. O Supremo Tribunal Federal decretou ponto facultativo no dia 06 para montar um esquema de segurança capaz de proteger o tribunal diante das manifestações que ocorreriam na Esplanada dos Ministérios. A Corte pediu ajuda da ineficiente polícia do Distrito Federal na tarefa — mais sobre isso adiante.

O presidente passou a semana demonstrando o seu baixo nível político e cultural. Na terça-feira (31) disse para seus apoiadores que “a vontade que vale é a vontade de todos vocês” (não é bem assim que a democracia funciona).

No dia seguinte, afirmou que “quando se fala em armamento, quem quer a paz, se prepare para a guerra” (como se a expressão indicasse apoio a uma corrida armamentista). Já na quinta-feira (02), avisou que “ninguém precisa temer o Sete de Setembro” e que os seus ataques ao judiciário eram apenas uma tentativa de garantir a liberdade alheia.

Como a realidade é dura até com o mais bruto dos mentirosos, uma ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) teve que arquivar dois pedidos de habeas corpus para que fardados participassem dos atos sem receberem punições das corporações militares. Aparentemente o milico brasileiro só gosta de ser milico quando é para ganhar aposentadoria precoce e aumento de salário acima da inflação.

Isso não impediu que membros das forças de segurança do país participassem à paisana dos protestos pró-governo. Em sintonia com os indicadores de adesão ao bolsonarismo levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um grande contingente de PMs se uniu a grupos de evangélicos e caminhoneiros nas ruas de São Paulo, Brasília e três outras capitais à sua escolha. Só faltou estarem em grande quantidade para colocarem medo em alguém.

Então tá

Depois de quase três anos completos de governo, o autoritarismo de Bolsonaro começou a incomodar as Forças Armadas. Generais afirmaram que ser golpista no sigilo é tranquilo, o problema é ser golpista na frente das crianças.

Já o ministro Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, passou a semana tentando amenizar os ânimos dos movimentos que representam os caminhoneiros. Após meia hora de papo, o ministro foi para um evento chamar Bolsonaro de “um escolhido que foi tocado por Deus”. O presidente retribuiu dando uma carona para Tarcísio ficar ao seu lado quando ele atacou o STF na Av. Paulista na tarde de terça-feira (07).

Adam Smith deve ter falado sobre isso em Riqueza das Nações

No grupo das elites que dependem mais ou menos do Estado para lucrarem ainda há dúvidas de que o presidente é uma ameaça a democracia. A Febraban continua com as suas brigas internas. A Caixa e o Banco do Brasil ganharam um bancão para ficar ao seu lado: o BTG, ligado ao ministro Paulo Guedes, não quer criar conflitos com o Planalto. Mesmo assim, a federação publicou uma nota reiterando o seu apoio à democracia.

O fato é que nenhum presidente brigou diretamente com donos de banco e saiu vivo. Se Bolsonaro está em pé até agora é por ser capaz de dar bons lucros para as instituições financeiras e, ao mesmo tempo, não ser golpista o bastante para elas conspirarem pelo fim do seu governo. Mas nada impede que isso mude nos próximos meses: o empresário brasileiro precisa do Estado para muita coisa, mas chega uma hora que ele perde a paciência com governos ruins.

Morde e não assopra

Os esforços para impedir que a marcha golpista fosse mais golpista do que o normal atingiram todo o país. Promotores do Ministério Público e um juiz militar entraram com ações em seis estados — CE, MS, PA, PE, SC e SP — e o Distrito Federal para questionar a participação de PMs nos atos do Sete de Setembro e interpelar o governo do DF sobre a possibilidade de não punir fardado que fosse contra a lei. Tiveram relativo sucesso.

O ministro Luiz Fux, do STF, avisou que “liberdade de expressão não comporta violência”. Já os governadores, ou melhor, parte deles, dobraram a manga de suas camisas e foram trabalhar para evitar a participação de PMs fardados nas manifestações. Rolou até ameaça de deserção da corporação.

Enquanto isso, o STF mandou bloquear as contas da Aprosoja Nacional (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) e da Aprosoja de Mato Grosso (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso). As organizações são suspeitas de terem financiado os atos do dia 07 com dinheiro que é, em parte, público. Já o ministro Alexandre Moraes, após pedido da Procuradoria-geral da República, mandou prender gente que utilizou a sua liberdade de expressão para se colocar em situação de criminhos.

Que horrível o passado

Antes que o dia 06 virasse dia 07, os manifestantes pró-Bolsonaro romperam a barreira policial feita para proteger os prédios públicos da Esplanada dos Ministérios. O sorridente grupo era liderado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) e foi parcialmente dispersado. Assim, em Brasília, o dia começou com o nível de álcool ingerido pelos bolsonaristas como a maior preocupação dos PMs.

A demonstração de força do presidente em Brasília foi um repeteco do que ele já disse. Ataque ao STF, ameaça de crimes e negação da realidade do país foi a retórica utilizada em Brasília. Em São Paulo, além dos itens anteriores, Bolsonaro também utilizou o seu palanque para pregar a aprovação de pautas que já foram recusadas pelo Congresso.

A única surpresa do dia 07 foi a quantidade de pessoas que o presidente ainda consegue colocar nas ruas. 125 mil. É um nível de engajamento menor do que o visto na internet, mas certamente é um nível bom o bastante para ele.

É melhor jair se moderando?

A estratégia de Jair Bolsonaro ao longo de todo o seu governo mostra que oposição e governo são muito ruins de estratégia. O presidente depende do Congresso e do Supremo Tribunal Federal para ter o mínimo de viabilidade em 2022. Mesmo assim, briga com ambos dia sim, dia também e suas derrotas se devem mais à sua dificuldade de modular pautas do que de a sua força (é não é por falta de boa vontade do Congresso ou do STF).

Enquanto isso as oposições à esquerda e à direita seguem se odiando mais do que odeiam Bolsonaro. O único “ato unificado” contra o presidente realizado até agora não foi unificado e MBL e CUT seguem fazendo cara feia quando alguém fala em dividirem palanque na Av. Paulista. E olha que estamos falando de uma luta contra um grupo que age como se fosse um pinscher golpista: muito barulho, pouca força prática.

No debate “Bolsonaro vs todo mundo”, Bolsonaro é a única pessoa que conseguiu unir um grupo político relativamente bem organizado e que se dispõe a passar vergonha na rua em um dia de domingo. É para defender pautas totalmente ilegítimas? Sim, mas são pautas políticas.

A nossa sorte é que estamos falando de uma galera que é muito ruim em colocar as suas estratégias em prática. O que o presidente mais deseja é uma tomada de democracia que só daria certo em um cenário de grande caos social. Se dependêssemos das oposições organizadas para defendermos a nossa democracia e do desejo das lideranças políticas de colocar um impeachment para rodar estávamos lascados.


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A Nova Era – semana #139: democracia de cachorro grande

A CPI da Covid se preparada para acabar. O governo federal se prepara para o apagão que dizia não existir. O Brasil se preparada para um 7 de setembro golpista.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #139 do governo Bolsonaro.


The following takes place between ago-24 and ago-30


Virando à esquerda na curva do laranjinha

A CPI da Covid está chegando ao fim. O que isso significa? Pouco político depondo, mas muito relatório do jurídico rolando. Os senadores querem, até o final de setembro, montar um relatório que incrimine o presidente, seus aliados e apoiadores diretamente (e indiretamente) ligados ao combate à pandemia da covid-19.

Enquanto isso não acontece, os senadores continuam a realizar interrogatórios. Nesta semana, a comissão teve a presença do diretor-presidente da Belcher Farmacêutica, Emanuel Cartori, que afirmou que não tinha um facilitador político, mas confirmou sua presença em uma reunião agendada no Ministério da Saúde graças ao apoio do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). O executivo também chamou encontro privado de audiência pública e cometeu outras três contradições à sua escolha.

Também depôs para a CPI da Covid o diretor do FIB Bank, o executivo Geraldo Rodrigues Machado. O banco foi a empresa garantidora do contrato da Covaxin com o Ministério da Saúde. Tudo o que você precisa saber sobre ele — e a empresa que ele representa — é que o FBI Bank conta com capital de R$ 7,5 bilhões, divididos em dois imóveis (um deles com valor declarado de R$ 7,2 bilhões).

O homem que agradava demais

Augusto Aras continuará à frente da Procuradoria-geral da República. Por 55 votos a 10 (e uma abstenção), Aras foi reconduzido ao cargo após uma sabatina cheia de críticas e segundas chances.

O trabalho de Aras à frente da PGR foi marcada pelo enfraquecimento da Lava Jato, a redução do número de denúncias contra políticos, ataques à imprensa e leniência diante das ações de Bolsonaro. Nas audiências no Senado, ele negou que fez o que fez — ou que as suas atitudes são prejudiciais para a democracia brasileira. Os senadores concordaram: nada melhor para as suas noites de sono do que um PGR que reduziu em quase um terço as acusações durante a sua gestão.

A procura de um braço forte e uma mão amiga

As tensões em torno dos atos de Sete de Setembro — e a conhecida bolsonarização das Polícias Militares — colocou os governadores para tentar conversar com as Forças Armadas. O objetivo da reunião será o mesmo de outras várias reuniões feitas nas últimas semanas: tentar dar ar de normalidade a uma situação que não deveria ser normalizada.

Em São Paulo, a PM paulista manteve o afastamento do coronel Aleksander Lacerda. O militar utilizou as suas redes sociais para atacar autoridades e convocar amigos para atividades políticas fora de horário de trabalho. A punição foi tomada como uma forma de evitar um “efeito Pazuelo” em nível estadual.

Ignorando a meia centena de ônibus alugados por PMs para levar pessoas para a av. Paulista, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, disse que o temor com os atos do feriado são infundados. A garantia? A confiável fala de secretários de Segurança estaduais, que mantém um contato constante com o ministro.

Dando uma apaziguada

Na tentativa de apaziguar os ânimos da República, o presidente do Senado negou o pedido de impeachment de Alexandre Moraes feito por Bolsonaro. A ação de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) foi respondida pelo presidente com o trecho de uma live em que ele diz que sabe onde está o “câncer do Brasil” e que, se precisarem, ele poderia ser mais preciso sobre o que seria a doença do país. Talvez seja a hora de Pacheco perceber que não há como pacificar quem só quer guerra.

Em notas relacionadas, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, afirmou que as Forças Armadas estão a serviço da democracia e pediu que os militares fossem “inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso”. Essa foi a primeira fala do militar a favor da democracia — em público — desde que as ameaças do presidente Jair Bolsonaro subiram de tom. O presidente, por sinal, não respondeu ao militar diretamente.

Ideias ruins para um cenário horroroso

Diante da defesa da democracia feita pelo comandante do Exército, o núcleo duro do governo quer utilizar a Força Nacional para “manter a ordem” mesmo quando não for necessário. A ideia, se colocada em prática, permitiria aos integrantes da FN (a vasta maioria policiais militares) intervirem na segurança pública estadual à revelia de governadores. O uso da Força sem o pedido prévio dos estados já foi derrubado no STF, mas não falta quem esteja disposto a mudar isso em Brasília.

É melhor fazer concurso

A reforma do Código Eleitoral pode fazer muito bem ao Brasil, ou melhor, a quem acredita que concurseiros dos sistemas Judiciário e de segurança Pública não deveriam utilizar seus cargos para potencializar ambições políticas. Uma proposta da deputada Soraya Santos (PL-RJ) estabelece que magistrados, policiais, militares e integrantes do MP deveriam passar por uma quarentena de 5 anos antes de se candidatarem a um cargo eletivo.

A medida acabaria com as chances de vários cabos, coronéis e soldados serem vereadores e deputados em todo o país. Ela também sepultaria os planos eleitorais de Sergio Moro: se aprovada antes de outubro, a norma impediria o ex-juiz de participar do pleito de 2022.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Brasil à luz de velas

O governo brasileiro começou a notar que estamos prestes a ter um apagão. Em sua live, o presidente afirmou que as hidrelétricas podem parar de funcionar por causa da crise hídrica. Para evitar o problema, Bolsonaro sugeriu que o brasileiro seguisse o regime de banhos do inverno da Sibéria — como se isso fosse mudar algo.

Paulo Guedes, o Faria Loser, que não vê problemas em um aumento de dois dígitos no preço da conta de luz, afirmou que o problema deve ser enfrentado sem choro. Sobre o que os grandes consumidores devem fazer para economizar energia, porém, o ministro nada disse. Mesmo que falasse, não ajudaria em muita coisa: vários setores da indústria já avisaram que não poderão aderir a uma eventual iniciativa de economia de energia nos próximos meses.

A semana da pandemia: esperança

Após Rio de Janeiro e São Paulo anunciarem a aplicação de doses de reforço de vacinas contra a covid-19, o Ministério da Saúde se mexeu e anunciou a mesma medida, mas agora a nível nacional. A terceira dose será administrada inicialmente em pessoas com mais de 70 anos, que sejam profissionais de saúde ou quem tenha um sistema imunológico comprometido. O grupo é composto por aproximadamente 35 milhões de pessoas.

Em notas relacionadas, o Brasil ultrapassou os EUA no percentual de população vacinada com ao menos uma dose de um dos imunizantes disponíveis. Mas é importante deixar o alerta: nós ainda perdemos em termos de imunização completa para os vizinhos do norte.

A semana da pandemia: terror

As várias doses já aplicadas ajudaram o país a registrar a menor média móvel semanal deste ano. Em resposta, o Distrito Federal, o Rio de Janeiro, Acre e Sergipe afirmaram que estão trabalhando forte para mudar esse cenário. O aumento do número de mortes registrado nesses estados não seria possível sem a parceria com a variante delta (que foi anunciada anteriormente neste canal).

Falando no Rio de Janeiro, o estado conta com 12 cidades com ocupação de UTI por covid-19 acima de 90%. Para ampliar a adesão aos protocolos de segurança e dar mais motivos para pessoas se vacinarem, a prefeitura da capital anunciou o seu passaporte vacinal. O ministro da Saúde posicionou-se contra a afirmou que “o povo brasileiro é livre” (para morrer?).

Direto do Sul veio a notícia mais macabra da semana. Pacientes internados com covid-19 no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre teriam sido cobaias em um experimento não autorizado pela Anvisa. Os testes foram organizados por gente que chegou a depor na CPI da Covid em defesa de remédio que não funciona contra a covid-19. Os responsáveis afirmaram que seguiram todos os processos legais adequados e se negaram a apresentar documentação que comprovasse isso.

Tripé autoritário-econômico

As manifestações bolsonaristas do Sete de Setembro não serão compostas apenas por fardados em horário de folga. Silas Malafaia está trabalhando com um grupo de pastores para que evangélicos façam parte das manifestações. O tripé do bolsonarismo tardio também será composto pelo agro, que é pop e é golpe.

A elite política está olhando todas essas movimentações com medo. Há até quem insista que dessa vez dará para moderar o presidente. Quem deitou-se na própria cama sábado a noite afirmando que isso seria possível deveria ter lido o que o presidente disse no jornal do dia seguinte. Ou você é “moderável”, ou você faz ameaças semanais contra outros poderes da República. Não dá para ter os dois ao mesmo tempo.

Empresa pública, defesa de interesse privado

Com alguns anos de atraso, as elites perderam a paciência com o governo. A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), capitaneada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apoiou a construção e publicação de um adocicado manifesto pela harmonia entre os Poderes e o respeito à democracia.

200 entidades empresariais apoiaram o documento. Ficaram de fora a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e a Federação das Indústrias do Rio (Firjan). Ficou dentro o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), uma das associações do agronegócio que sabem que o Brasil mais perde do que ganha com o atual presidente.

Quem não gostou disso foi o governo federal. Com o aval de Bolsonaro, Paulo Guedes colocou os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa para lutarem contra o documento (com direito a ameaça de rompimento com a Febraban e a Anbima). A defesa da democracia é uma crítica ao governo federal (a Febraban nega).

Como a posturas do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, demonstra, não basta ter independência no papel. É preciso, também, ter independência na prática. O uso de bancos públicos para a defesa do governo entra para a história como mais uma daquelas promessas que Bolsonaro fez, mas não hesitou em descumprir quando foi necessário.

Engatando a ré

Depois de muito vai e vem, a Fiesp decidiu postergar a publicação do manifesto. A medida foi realizada de supetão e surpreendeu algumas entidades. O Fiesp afirmou que tudo não passou de um “recuo tático”, mas Paulo Skaf confirmou que o motivo mesmo era a pressão do presidente da Câmara — e parceiro nas horas vagas —, Arthur Lira (PP-AL).

Mesmo assim, um grupo de sete associações do agronegócio emitiu uma nota em defesa da democracia. Nenhuma delas têm um histórico de apoio ao presidente. Já no jornal de sábado (28), Ricardo Lewandowski avisou: ação contra a ordem constitucional e o Estado democrático é “crime inafiançável e imprescritível”. Faltou só explicar o que a gente faz quando os golpistas são os responsáveis por prender criminosos.


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A Nova Era – semana #138: vitórias simbólicas derrotas concretas

138 semanas de governo Bolsonaro. O Brasil está com uma grande quantidade de pessoas vacinadas com ao menos uma dose de imunizante. A retórica golpista nunca foi tão forte. Mas as instituições? Estão funcionando.

Veja como chegamos até aqui a seguir (ou na web).


The following takes place between ago-17 and ago-23


Um pedido de impeachment para chamar de meu

Após pedidos da Advocacia-Geral da União (AGU), tentativas de posicionamento adequado de panos quentes e reuniões que não deram em nada, Jair Bolsonaro entrou com um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente se defendeu afirmando que estava apenas seguindo a Constituição — mas há quem discorde.

O presidente do Senado, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), já jogou água fria nos planos do presidente da República. Segundo ele, a abertura do processo não é “recomendável”. Sabe como é, nem todo mundo tem o interesse de abraçar quem pula no precipício do golpismo e do desequilíbrio institucional — mas avacalhar a indicação de André Mendonça ao STF tá liberado.

Tentativa e erro, muito erro

O governo federal entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal para impedir que o STF faça o que ele é autorizado a fazer. A ação pede que a corte não instaure um inquérito sem o aval do Ministério Público.

O expediente foi utilizado, por exemplo, no inquérito das fake news. Quando a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se posiciona a favor de tais ações, ela tende a simplesmente ignorar os questionamentos da Suprema Corte. Em notas relacionadas: os filhos de Bolsonaro são investigados em alguns dos inquéritos do STF.

Ampliou

A CPI da Covid aumentou a lista de quebras de sigilo na última semana. O líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), teve a quebra anterior ampliada. Já o projeto de comedor de casadas (e advogado da família Bolsonaro) Frederick Wassef entrou para a lista de pessoas com a renda avaliada pela comissão.

Criminhos

Atenção para o momento flashback: em junho de 2021, o presidente Bolsonaro anunciou ter em sua mão um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontando que o Brasil estava contando em excesso o número de mortes por covid-19. O documento passou a circular pelas redes como uma prova de que governadores estavam falsificando dados para obter mais receitas do governo federal.

Agora, em agosto, o auditor responsável pelo documento, Alexandre Marques, disse à CPI da covid-19 que o estudo não era oficial e que não apresentava as informações que Bolsonaro dizia apresentar. Além disso, disse que a versão encaminhada ao presidente não contava com o carimbo do TCU. O que isso significa? Que a CPI pode, agora, denunciar o presidente por adulteração de documentos oficiais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

[inaudível]

A CPI da covid também ouviu o dono da Precisa Medicamentos. O empresário Francisco Emerson Maximiliano contava com o direito de ficar em silêncio durante a sua fala. Em resumo, Maximiliano falou que não falaria, não se comprometeu a falar a verdade e mentiu.

Mapa de um desastre

2021 promete. Promete incêndios no Pantanal em nível igual ou maior do que o registrado em 2020, ano em que eles atingiram recorde histórico.

Desde o começo do ano até o último final de semana, a maior planície alagável do mundo perdeu 261.800 hectares para o fogo. Isso equivale a dois municípios do Rio de Janeiro. Em 2020, a área queimada no mesmo período foi de 265.300 hectares.

Em notas relacionadas, a região concentrou a maior perda de água no país nos últimos 30 anos. Mais da metade dos recursos hídricos presentes durante o governo Sarney viraram terra seca. Os dados são do Projeto MapBiomas.

A semana da pandemia

Há algumas semanas nos perguntamos quem poderia ter o maior impacto no cenário da pandemia tupiniquim. Continuamos sem resposta: a variante delta do Sars-Cov-2 já corresponde a 61,2% das amostras brasileiras do vírus, a ocupação de leitos de UTI no Rio de Janeiro já está na maior média em dois meses mas, ao mesmo tempo, a média móvel de mortes é a menor desde 7 de janeiro.

Vacinas funcionam (mesmo que sejam aplicadas na sua bunda). Mas se o sistema de saúde continuar sem seringa para aplicá-las ficará difícil reduzir (de vez) os casos de covid-19 no território nacional.

De novo isso

Um grupo de 24 governadores se reuniu na segunda-feira (23) para realizar um ato em defesa da democracia e do STF. A ação foi articulada por João Dória (PSDB-SP) e Wellington Dias (PT-PI).

Uma das várias motivações do encontro é a radicalização de Bolsonaro para que agentes da Polícia Militar participem dos atos golpistas de 7 de setembro. Não é de hoje que a infiltração bolsonarista nas polícias faz parte do noticiário nacional. O problema é saber até que ponto as instituições conseguirão calar os policiais que resolverem fazer (ou ensaiar) quartelada por aí.

As Forças Armadas dizem que não querem embarcar em aventura golpista. Seria um afago para quem tem medo de ver Bolsonaro fazendo um cosplay de Fujimori se o histórico da instituição não fosse tão ruim. Outro dia mesmo tinha general falando com a imprensa em tom golpista.

Enquanto não vemos o efeito prático que o bolsonarismo causará no nível de democracia dos quarteis policiais, os governadores resolveram tentar, de novo, novamente, mais uma vez, uma reunião com o presidente da República. João Dória e cia LTDA pretendem encontrar Bolsonaro, os presidentes da Câmara, do STF e do Senado para buscarem estratégias para “salvaguardar a paz social, a democracia e o bem-estar socioeconômico da população brasileira”.

Não dará certo, mas se você quer saber quem foram os responsáveis pelo encontro não terminar com uma carta contra as ameaças do presidente, vamos os nomes: Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Carlos Moisés (PSL-SC).


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A Nova Era – semana #137:décadence sans élégance

A semana #137 do governo Bolsonaro foi recheada de outros discursos golpistas saindo da boca do presidente. Também contamos com as Forças Armadas virando motivo de piada e a confirmação de que advogados especializados em leis eleitorais continuarão renovando os seus conhecimentos a cada dois anos.

Está difícil lá fora, está difícil aqui dentro. Mas não tenha medo: a última semana foi melhor do que a semana que vem por aí.


The following takes place between ago-10 and ago-17


A semana dos pré-candidatos

O sistema eleitoral mudou (de novo (novamente)). As urnas seguirão as mesmas e o distritão, aquela proposta horrível, deixou de ser um risco para quem quer ganhar um cargo eletivo ano que vem. No lugar, voltamos a ter coligações, aquela ótima maneira de garantir que partidos irrelevantes continuem vivos — mas que deve morrer no Senado.

Nada garante que tudo poderá mudar (de novo (novamente (mais uma vez))) no futuro. Arthur Lira (PP-AL) avisou que, se quiser, colocará algo parecido em pauta do voto impresso quando for conveniente. Em um aceno ao Planalto, o presidente da Câmara prometeu descontar na fatura da aprovação o bilhão já já foi pago pelo Planalto durante a sua tentativa de passar as mudanças nas urnas.

Se Arthur Lira colocará mesmo outras propostas de mudanças no sistema eleitoral em pauta ninguém sabe. Mas se elas forem semelhantes ao projeto que o governo queria aprovar, há grandes chances de que elas terão o apoio de gente do PDT, do PSDB, do DEM, do PSB e do Novo. Pois é: o centrão teve mais facilidade para ver que ser massa de manobra do presidente não era uma boa ideia do que os amigos de Godot.

Outra mudança aprovada pelos deputados é a criação das federações partidárias. A medida permitirá a duas ou mais legendas com programas e interesses compatíveis a montar uma federação que deve durar pelo menos quatro anos. Essas federações contarão com um único líder e não estarão sujeitas à cláusula de desempenho.

A semana da democracia

Bolsonaro perdeu a votação da PEC do voto impresso no papel, mas não na retórica. A ideia, defendida por alguns, de que o presidente foi o grande derrotado da noite do dia 11 só se sustenta quando se ignora o Bolsonaro da manhã seguinte: animado com a sua maioria simples, o presidente não deu o tema por encerrado, afirmou que deputados foram chantageados a votarem contra o projeto e que a eleição de 2022 não será confiável.

Jair Bolsonaro sabe que tem quem caminhe do seu lado nessa escalada golpista. Na Câmara, o deputado Felipe Barros (PSL-PR) quer criar uma CPI das urnas eletrônicas. Já no TCU, o único ministro indicado por Bolsonaro pediu vistas na votação que sacramentaria a auditoria feita pelo órgão nas urnas eletrônicas. A auditoria não encontrou problemas nas máquinas.

O líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), também deu a sua opinião semi-golpista sobre o tema. Barros afirmou que os membros do Tribunal Superior Federal “vão pagar o preço” por não terem buscado um meio termo sobre a questão do voto impresso. O deputado não apontou em qual parte das atribuições do TSE está “fazer política para agradar o governante da vez”.

Bolsonaro também anunciou, dois dias após prometer “diminuir a pressão”, que pedirá ao Senado a abertura de processos de impeachment contra dois ministros do Supremo Tribunal Federal, os juízes Luís Roberto Barroso e Alexandre Moraes. A ideia deve morrer na praia, mas será muito bem vista no submundo do Whatsapp. Muitas vezes vale mais vencer na retórica do que na prática.

A semana do braço fraco e da mão inimiga

Após uma semana de tensões e notinhas na imprensa, os militares finalmente saíram de suas bases para mostrarem o seu poder tático e operacional. Saiu de cena o medo de vermos blindados sendo utilizados para pressionar a Câmara, entrou em cena o desfile dos guardas de castelo franceses de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado.

Antes do evento, Bolsonaro chamou os presidentes do Legislativo e do Judiciário para apreciarem o desfile dos veículos militares pelas ruas de Brasília durante a Operação Formosa, algo inédito desde 1984. Assim como o vice-presidente, todos eles deixaram Bolsonaro passar essa vergonha sozinho. Erraram? De maneira alguma.

A semana da CPI da Covid

Crime ocorre, algo acontece

A CPI da Covid partiu para cima do presidente. A comissão decidiu denunciar Jair Bolsonaro por charlatanismo e propaganda enganosa. A decisão foi tomada após o depoimento de representantes da empresa responsável por um dos remédios que o presidente anunciou, incorretamente, que eram capazes de tratar da covid-19.

O presidente também deve ser acusado de cometer outros crimes. Até o momento, a comissão já viu que Bolsonaro teve condutas que se enquadram, entre outras coisas, nos crimes de causar epidemia, por omissão no combate à Covid-19 e advocacia administrativa, por usar o cargo para defender os interesses de grupos privado. Será um segundo semestre animado.

Propaganda enganosa

Falando em “kit covid-19”, a CPI está investigando os lucros que as farmacêuticas tiveram com a venda dos produtos. Os dados já levantados apontam que os fabricantes quase dobraram as suas vendas de cloroquina e hidroxicloroquina entre 2019 e 2020, enquanto as de ivermectina foram de R$ 44,4 milhões para R$ 409 milhões no mesmo período. Muita gente ganhou com as mentiras replicadas pelo presidente — e não estamos falando apenas empresas que fazem os medicamentos.

Não deve mentir, mas se quiser, pode

Sem a obrigação de falar a verdade, o líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), falou à CPI da Covid. Barros foi acusado de mentir e tentar fazer a cúpula da comissão de otária. O destaque do show do deputado foi a fala afirmando que a CPI afastou grandes vendedores de vacinas, como se o Brasil tivesse parado de comprar imunizantes após os trabalhos dos senadores — muito pelo contrário, a compra de vacinas foi ampliada após o começo da CPI.

O tenente-coronel Helcio Bruno, presidente do Instituto Força Brasil, também foi ouvido. Ele teria sido o responsável por indicar representantes da Davati Medial Suplly até Elcio Franco, ex-secretário-executivo da Saúde e atual Assessor da Casa Civil da Presidência. O militar afirmou conhecer Bolsonaro desde antes das eleições e que, no fundo, no fundo, só queria ajudar (o governo a sabotar as medidas sanitárias e a vender vacina para gente metida em rolo).

A semana de Paulo Guedes

Após Paulo Guedes ajudar o governo a dar o seu primeiro passo no projeto de roubar o Bolsa Família do PT (sem saber como ele será pago dentro da lei ou o seu nível de funcionalidade), o ministro da Economia resolveu ignorar as altas da Selic e da inflação para focar em coisas mais importantes do que a queda na qualidade de vida do brasileiro: a sua capacidade de falar lorota para a imprensa e para a Faria Lima.

Com a liberação da venda de etanol diretamente das usinas para os postos e a autorização para a venda de combustíveis de outras marcas nos mesmos locais, o ministro ventilou a possibilidade de termos Rappi de combustível. Imagine você, caro(a) leitor(a), vários veículos lotados de gasolina, diesel e álcool rodando pela sua cidade. Pois é.

Talvez seja interessante o ministro gastar menos tempo tendo ideias ruins e mais tempo olhando para o financiamento da União. O projeto de reforma tributária, que na verdade é do Imposto de Renda, deve causar perda de arrecadação em um cenário de aumento de gastos. Em algum momento os orçamentos paralelos não serão capazes de manter o governo dentro das regras fiscais vigentes e, quando isso acontecer, faltará aluno sem acesso à internet para o governo impedir um novo impeachment por crime de responsabilidade fiscal.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana dos educandos

Ser dependente da educação pública nunca foi algo fácil, mas o ministro da Educação jogou no lixo qualquer interesse em parecer comprometido a mudar este cenário. A depender dele, a autonomia para construir o próprio futuro será limitada aos que podem pagar por isso.

A universidade deveria ser para poucos”, disse o ministro sobre a dificuldade que recém graduados têm de se inserir no mercado de trabalho nas profissões que sonharam. Milton Ribeiro defendeu que pessoas foquem mais no ensino técnico, como se a economia estivesse aquecida apenas para as profissões com esse perfil. Durante a pandemia, o único tipo de profissional que ganhou bons motivos para comemorar no Linkedin foram os fazedores de rolo com a União.

Na mesma entrevista o ministro também aproveitou o espaço para: dizer que criança com necessidades especiais era mal inserida no ensino básico, criticar os professores que não querem dar aula para pessoas não vacinadas e dizer que não podemos ter reitores esquerdistas ou lulistas em universidades públicas. Mas sabe o que é pior? Isso não é a parte mais horrível do Ministério da Educação.

A semana da pandemia

O Senado aprovou a quebra temporária de patentes de vacinas em casos de emergência sanitária. O Planalto é contra a ideia, mas a lei permite que o Legislativo tome a responsabilidade para si. O texto foi encaminhado para sanção presidencial.

Pela primeira vez desde outubro as UTIs brasileiras estão com ocupação abaixo de 80% em todos os estados. A média móvel em sete dias também está em queda: registramos mais uma semana com indicadores abaixo de mil mortes diárias.

Segundo o Ministério da Saúde, sete milhões de brasileiros não apareceram para tomar a segunda parte do seu imunizante favorito. Faça a sua parte e tome a sua segunda dose: já basta o governo enrolando para entregar as 9,5 milhões de doses de vacinas da CoronaVac e da Pfizer que estão em seu depósito em Guarulhos (SP) ou as que devem faltar para quem tomou AstraZeneca.

A semana dos golpistas

Roberto Jefferson foi preso. A nova visita do presidente nacional do PDT ao cárcere foi autorizada, em caráter preventivo, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. O ministro tomou no âmbito do inquérito dos atos antidemocráticos.

A prisão foi definida após o político realizar a publicação de uma longa sequência de vídeos, textos e entrevistas em que ele ameaça, em alguns casos com armas em punho (ex-presidiário pode portar armas?) contra autoridades de todo o país. A sua filha, Cristiane Brasil, cobrou atitudes do presidente (e foi atendida), enquanto Jefferson chamou Moraes de “cachorro do STF” antes de virar vizinho de Sérgio Cabral e Dr. Jairinho.

A Procuradoria-geral da República foi convocada a se pronunciar sobre o caso antes que o político fosse preso. Augusto Aras não disse nada antes que Jefferson fosse parar atrás das grades. Após a prisão, afirmou ser a favor da liberdade de expressão, mas só quando ela é utilizada para ameaçar ministro do STF.

Há quem, junto do Procurador-geral da República, aponte que a prisão de alguém que critica as instituições públicas é um ataque à liberdade de expressão e que deveriam existir saídas melhores para quem incita a violência a autoridades na web do que o cerceamento da liberdade de ir e vir. Quem opta por este caminho deve estar disposto, também, a defender a liberdade de marxista pegar um fuzil e pregar a formação de guerrilhas armadas no YouTube. Qualquer postura diferente desta é optar ser um idiota útil apenas da extrema direita.

A semana do golpista ignorante

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, deu reforço às múltiplas falas golpistas de Bolsonaro. Em entrevista à Rádio Jovem Pan, o ministro disse que “o artigo 142 [da Constituição] é bastante claro” sobre as Forças Armadas serem um poder moderador da República. Na mesma fala, Heleno também afirmou que caberia ao presidente, o “comandante supremo das Forças Armadas”, convocar os militares em caso de crise política.

Felizmente ninguém conta com a sabedoria de Augusto Heleno para pensar a República e a divisão de poderes. Na última vez que tivemos alguém se dizendo chefe de um poder moderador, a República sequer existia. Não precisamos derrubar a atual para dar voz às mentiras de quem sequer deveria estar metido com política.

A semana do golpismo que virá

O presidente resolveu começar a sua semana da mesma forma como terminou a semana anterior: sendo golpista.

Jair Bolsonaro enviou mensagem para amigos, ministros e apoiadores afirmando que talvez seja provável e “necessário” realizar um contragolpe. Na mensagem, o presidente chamou apoiadores para uma manifestação no dia 7 de setembro, que seja grande o bastante para mostrar a sua força e dar a certeza de que as Forças Armadas apoiam uma eventual “ruptura institucional”. O frequentador do Planalto não apontou qual é a força golpista que ele está enfrentado, mas o Ministério da Defesa já avisou que não fará desfile no 7 de setembro em função da pandemia de covid-19.

Outro golpista que colocou as asinhas de fora foi Sérgio Reis. O cantor convocou caminhoneiros para fecharem as estradas após o feriado da Independência, intimidar o senador e parar o país até que os ministros do Supremo caiam. Mas, ao contrário do presidente, quando se viu alvo de uma representação de 29 subprocuradores por subversão e ser criticado publicamente por amigos próximos, o cantor não dobrou a aposta: afirmou que estava deprimido e passando mal com a repercussão do seu golpismo. A Polícia Federal, por outro lado, não achou que isso era motivo bom o bastante para deixar de abrir um inquérito para apurar a conduta do ex-deputado.

¯\_(ツ)_/¯


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