A Nova Era – Semanas #173-174: de ladinho, de ladinho, de ladinho

O Brasil lidando com Daniel Silveira e o brasileiro lidando com o Brasil.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #173 e #174 do governo Bolsonaro.


The following takes place between apr-19 and may-02


Condena

O deputado federal Daniel Silveira foi condenado a 8 anos e 9 meses de prisão pelo STF. A decisão foi uma consequência dos vários ataques e ameaças feitos à Corte, e tem como efeito, não necessariamente imediato, a cassação de seu mandato.

Perdoa

Bolsonaro reagiu e concedeu perdão para Daniel Silveira. Em 2018, o presidente tinha dito que não utilizaria o indulto presidencial. Aparentemente, a promessa pode ser jogada fora se for para defender uma ideia de liberdade de expressão que não é aplicável na Constituição brasileira.

Reage

Parlamentares se movimentaram para anular o perdão presidencial, que tinha bastante cheiro de medida inconstitucional. Enquanto isso, o ministro André Mendonça foi dar explicações sobre a sua decisão, já que ela teria desagradado bolsonaristas e evangélicos.

A redação não se lembra do momento em que “agradar bolsonaristas e evangélicos” se tornou uma das obrigações de ministros do STF.

Acomoda

Tão logo o perdão foi anunciado, o colunismo de fonte oculta começou a trabalhar. Houve quem falasse em “rede de defesa da legalidade” diante do mais novo levante do presidente contra a Justiça. E em alguns locais espalhou-se a ideia de acomodação, com uma solução que desagradasse todos os envolvidos, inclusive o centrão, igualmente: retirar os direitos políticos do deputado, mas mantê-lo em liberdade.

Tripudia

Enquanto o STF e a Câmara trabalhavam para definir um futuro para o deputado Daniel Silveira, o condenado assumiu como titular de quatro comissões temáticas da casa legislativa. A mais importante delas foi na Comissão de Constituição e Justiça, uma ação com tanta falta de vergonha na cara que ficamos sem ter como comentar. As nomeações foram retiradas antes do fechamento desta edição.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Ameaça

Enquanto isso, no Planalto, o presidente Jair Bolsonaro utilizou um evento sobre liberdade de expressão para pregar golpe e suspensão de eleições. O evento também serviu para apoiar o deputado Daniel Silveira e atacar o STF. Daniel estava presente e carregava consigo o decreto com o indulto que recebeu de Bolsonaro emoldurado.

Flexibiliza

O governo anunciou o fim da emergência sanitária. A medida aumentou o espaço legal para que governantes flexibilizassem as restrições sanitárias em todo o país. Secretários de Saúde municipais e estaduais, no entanto, querem cautela.

Engaveta

A Procuradoria-Geral da República (PGR) salvou Bolsonaro mais uma vez. A PGR afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que não há elementos que justifiquem uma investigação contra o presidente por suspeita de tráfico de influência no MEC. Aparentemente, um áudio dos suspeitos afirmando que eles atuavam a pedido de Jair Bolsonaro não é evidência o bastante.

Recua

O ex-presidente Lula aproveitou uma entrevista com youtubers para criticar o mundo moderno. “Está proibido contar piada no mundo, está chato pra cacete”, disse. A fala é, de novo, novamente, mais uma vez, uma mostra de que um terceiro mandato do petista não será a primavera vermelha que alguns esperam.

Falando em ajustes de expectativas, o PT recuou do recuo e afirmou que revogaria a reforma trabalhista caso voltasse ao poder. A decisão foi tomada para garantir o apoio do PSOL à candidatura de Lula. Mas quem se lembra dos motivos que levaram o PSOL a nascer pode esperar em pé pelo recuo do recuo do recuo.

Pelo sim, pelo não, é importante lembrar que toda a declaração do PT sobre o tema antes que o partido volte a ocupar o Planalto deve ser levada com descrédito. O que é dito, agora, serve mais para acalmar o ânimo do ouvinte do que fazer quem já tem posição defina para outubro mudar de ideia. É a vida.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semana #172: superfaturando o óleo de peroba

Corrupção, compra superfaturada, escárnio e falta de vergonha na cara.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana 172 do governo Bolsonaro.


The following takes place between apr-12 and apr-18


Funcionário do mês

A Advocacia-Geral da União solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o arquivamento de uma investigação contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) por suspeita de favorecimento a pastores do Ministério da Educação. Apesar de termos um áudio com o então ministro Milton Ribeiro afirmando a prefeitos que atuava em situação análoga a crime a pedido de Bolsonaro, a AGU acredita que o presidente deve ficar de fora de qualquer inquérito. Tão normal quando as 35 visitas dos pastores ao Planalto.

Fogo amigo?

Enquanto isso, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, deu uma entrevista afirmando que a ida do centrão para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aconteceu a pedido do presidente. “Você vai entregar o FNDE pro centrão”, disse o ex-ministro ao referir-se a Bolsonaro. O menino de Ciro Nogueira, Marcelo Lopes da Ponte, ganhou a presidência do fundo em junho de 2020.

Fogo amigo!

Já Lopes da Ponte, em depoimento à Controladoria-Geral da União (CGU), jogou a bomba na mão do pastor Arilton de Moura. Segundo ele, o lobista de Deus realizava insinuações sobre propinas sempre que estavam juntos. Ele só não disse se topou, ou não, ajudar o pastor.

Photo op

O governo Bolsonaro não só contou com o apoio de lobistas para liberar verbas, mas também direcionou recursos para escolas, creches e quadras que foram (e serão) construídas pela metade. Segundo a Folha de S. Paulo, 1.780 obras foram pactuadas com prefeituras, utilizando como base a intermediação de parlamentares aliados.

Assim que o deputado responsável pelo acordo conseguia o seu photo op, a transferência da verba era barrada (ou apenas uma parte dela era feita). Como consequência, R$ 431 milhões de reais ficaram travados enquanto aliados de Arthur Lira (PP-AL) compravam kits de robótica superfaturados. O escândalo faz a ação do centrão na Codevasf parecer um passeio no parque.

Narcogarimpo

Enquanto a Folha de S. Paulo publica texto de opinião mal escrito a favor do garimpo em terras indígenas, os Yanomami aparecem na mídia com motivos para essa prática ser abominada. Segundo relatório da Hutukara Associação Yanomami, feito com o apoio do Instituto Socioambiental, o narcotráfico já está explorando esse tipo de atividade ilegalmente e, naturalmente, levando violência para os moradores da reserva em que os Yanomami vivem. Nesse caso vale utilizar o eufemismo de “garimpo artesanal”?

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

A Anvisa abriu o processo de recebimento de pareceres médicos para fundamentar a resposta ao pedido do Instituto Butantan para a liberação da CoronaVac para crianças a partir de três anos. Hoje, a vacina só pode ser utilizada em crianças acima de seis anos. Se aprovada, a medida ajudará o país a acelerar, ainda mais, a redução do número de mortes no país.

Falando sobre o tema, o ministro da Saúde anunciou, em pronunciamento na noite do último domingo (17), o fim da emergência de saúde pública por conta da covid-19 no Brasil. A decisão foi tomada em função da ampla cobertura vacinal e a baixa lotação dos leitos do sistema público de saúde. Com a revogação, as recomendações e normas do governo federal adotadas em março de 2020 perderam validade.

Viagra forte, mão amiga

O sistema de saúde das Forças Armadas comprou, em 2020, 35 mil comprimidos de Viagra. Os militares se defenderam afirmando que o remédio era voltado para o tratamento de hipertensão arterial pulmonar. Até aí, tudo bem, mas há um detalhe: a doença é rara, mais comum em mulheres e a dosagem comprada é maior do que a recomendada para o tratamento da doença.

Recauchutada

As forças armadas também compraram próteses penianas para os militares. A informação foi obtida pelo deputado federal Elias Vaz (PSB-GO). A compra custou R$ 3,5 milhões, um valor muito maior do que os R$ 546 mil utilizados entre 2018 e 2020 para a compra de Botox.

O que falta é cinismo

O Tribunal de Contas da União abriu investigação para avaliar se os comprimidos de Viagra foram superfaturados em até 143% ou não. O fato é que as Forças Armadas contam com um sistema de saúde próprio e plano de saúde interno para cuidar das demandas (todas elas) dos militares. Assim sendo, seria muito mais fácil a assessoria de imprensa do órgão utilizar o mesmo cinismo dos juízes do Superior Tribunal Militar e explicar as suas decisões de maneira franca.

Se os militares não tem vergonha dos crimes contra a humanidade que as forças armadas cometeram no passado, por qual motivo deveriam deixar de admitir que são brochas de pinto pequeno?


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #167-171: rouba e desfaz

Passamos por problemas técnicos nas últimas quatro semanas. Ainda estamos passando, aliás.

Isso não impediu o resumo das semanas #167, #168, #169, #170 e #171 do governo Bolsonaro serem cheios de notícias que valem um tapa na cara.


The following takes place between mar-15 and apr-11


Quem manda na Petrobras sou eu?

Enquanto o preço da gasolina atinge a maior alta desde 2004 e a classe política faz balões de ensaio para tentar resolver o problema do aumento dos preços, o presidente Jair Bolsonaro segue mostrando serviço. Serviço ruim.

Bolsonaro quer trocar, de novo, novamente, mais uma vez, o comando da empresa. O pré-requisito para assumir a presidência da empresa e do Conselho de Administração é simples: estar disposto a modificar a política de preços da estatal, algo que nenhum dos dois últimos indicados se dispôs a fazer.

Quem manda na Petrobras sou eu!

Bolsonaro escolheu, a princípio, dois nomes para assumirem os cargos. Adriano Pires, para a presidência da estatal. Rodolfo Landim, para a presidência do Conselho de Administração da empresa.

Ambos tiveram que colocar o cavalinho na chuva. Landim desistiu da indicação após perceber que, com o seu histórico, ele dificilmente conseguiria passar pelos órgãos de ética da empresa. Já Adriano Pires notou que o seu histórico de lobby na área de energia causou uma enorme situação de conflito de interesses.

E o presidente? Resolveu indicar outros dois nomes para assumir os cargos: José Mauro Ferreira Coelho, para a presidência da petroleira, e Márcio Andrade Weber, para o comando do Conselho de Administração. O primeiro passou pelo Ministério de Minas e Energia e o segundo já faz parte do Conselho de Administração.

E o Paulo Guedes? Afirmou que isso não é mais problema dele (antes, era).

Caiu no SPAM

O ministro do STF decidiu bloquear o aplicativo Telegram em todo o território nacional. A decisão, vazada na internet antes de se tornar pública, foi tomada após o Supremo ter várias demandas ignoradas pelos mantenedores do app.

A decisão foi um ultimato para o aplicativo. Caso ele não executasse algumas decisões pendentes em 24 horas, “a casa iria cair”, nos informaram algumas fontes dentro do Supremo.

Linha direta

Bem, como a(o) leitora(o) já deve saber, o aplicativo não caiu. Enquanto muitos liberais e bolsonaristas falavam em liberdade de expressão para criticar uma decisão que não envolvia a liberdade de soltar cocô pela boca, o app decidiu acatar todas as decisões do STF. E foi além: agora o Telegram conta com representação oficial no Brasil, um canal direto de contato com a Justiça e faz parte de vários projetos para moderação de conteúdo criados pelo TSE, pelo STF e até pelo Ministério Público.

Bota essa cara feia para jogo

Com a manutenção da queda dos indicadores de casos e mortes por covid-19, as prefeituras brasileiras começaram a liberar o uso de máscaras em todo o país. São Paulo (SP) foi uma das primeiras, mas não a única. Agora, quem mora na terra de João Dória só terá que utilizar o equipamento de proteção em hospitais e no transporte público.

É só fazer o mínimo

Sabe o que ajudará todo mundo a jogar o estoque de máscaras no lixo rapidamente? A população adulta tomar a sua dose de reforço. Mas, segundo o jornal O Globo, não é isso que está acontecendo: somente 1/3 dos adultos entre 35 e 39 anos já tomaram a sua dose.

Tome a sua terceira dose. É o mínimo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Lobby divino

A situação do ministro da Educação anda meio complicada. A Folha de S.Paulo obteve áudio de reunião com prefeitos em que Milton Ribeiro afirmou que, a pedido de Bolsonaro, dá prioridade para prefeituras que estabelecem amizade com dois pastores que não contam com cargo na pasta.

Em bom português: o ministro da Educação foi gravado afirmando que, para obterem verbas, os prefeitos deveriam conversar, primeiro, com dois pastores que não fazem parte do ministério. Tudo isso com a autorização do presidente da República.

Gabinete paralelo 2.0

Dias antes, o jornal O Estado de S. Paulo revelou os primeiros detalhes do suposto esquema de corrupção. Nos corredores do MEC, havia um gabinete paralelo de pastores responsável por controlar a agenda e a verba da pasta. Basicamente, gente com bíblia debaixo do braço responsável por definir quem tem acesso ao ministro Milton Ribeiro e ao dinheiro que deveria ser utilizado para melhorar a educação nacional.

Não é nada, não

A primeira reação do ministro foi minimizar o pedido de Bolsonaro sobre os pastores. No meio tempo, um dos assessores que fariam a intermediação entre o ministro e os lobistas de Deus foi demitido. Com mais detalhes sobre o lobby sendo revelados, Ribeiro mudou o discurso e passou a afirmar que até ouviu algumas “conversas estranhas” do pastor Arilton Moura, mas que tudo foi repassado para a Controladoria Geral da União.

Fedeu

Uma situação que já não era a melhor do mundo ficou ainda pior quando Arilton Moura, um dos lobistas divinos, foi acusado por Gilberto Braga (PSDB), prefeito de Luís Domingues (MA), de pedir 1 kg de ouro para liberar recursos para a pasta. Já Fabiano Moreti, prefeito de Ijaci (MG), relatou que só teve acesso a Ribeiro após a intervenção dos religiosos. Teve até pedido de ajuda para construir igreja.

Se tem cu, tem medo

Mesmo com tanta mutreta nos jornais, o presidente Jair Bolsonaro decidiu que era necessário defender o pastor Milton Ribeiro. Em sua live semanal, Bolsonaro afirmou que “bota a cara no fogo” pelo ministro da Educação. Será uma frase sincera ou apenas um medo de que Ribeiro caia atirando?

Pelo sim, pelo não, Milton Ribeiro entregou o cargo no último dia 28. Em sua carta de demissão, ele manteve a sua postura de inocência e disse que retornará ao governo.

Mas espere, há mais por aí

Se um MEC dominado por lobistas religiosos não fosse o bastante, o Estado de S. Paulo também descobriu que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) está cheio de situação análoga à corrupção. O fundo marcou uma licitação para a compra de 3.850 ônibus escolares com um sobrepreço de aproximadamente R$ 732 milhões. Apesar dos alertas da Advocacia-Geral da União e do corpo técnico do órgão, o presidente e o diretor do fundo colocaram o edital para rodar.

Entendi

Quando a notícia explodiu, Jair Bolsonaro tentou trazer para si o mérito da denúncia de superfaturamento ter sido descoberta. “Quem descobriu fomos nós. Temos gente trabalhando em cada ministério com lupa no contrato. Por isso, não tem corrupção”. Mentira: há corrupção e o Planalto apenas ajudou o presidente e o diretor do Fundeb a chegarem nos cargos de comando da fundação.

Pedi pra parar, parou

O Ministério Público pediu ao TCU, com sucesso, a suspensão da compra. O negócio foi suspenso mesmo após o governo reduzir o preço máximo para a aquisição dos veículos.

O pregão foi realizado mesmo assim e agora cabe ao TCU validar a compra. Talvez o corpo técnico do Tribunal também deva olhar a compra de caminhões frigoríficos que destinou 75% da verba para aliados do ministro da Casa Civil. É muito provável que também exista mutreta nela.

Enquanto isso, o presidente do FNDE, Marcelo Ponte, mentiu para a Comissão de Educação do Senado. Ele afirmou que seguiu as orientações da área técnica do fundo, mas os próprios documentos do FNDE mostram que não foi o caso. Para piorar a situação, Ponte também se contradisse ao falar sobre os pastores lobistas que circulam nos órgãos de educação federais.

Reação

Diante de tanta notícia negativa, a oposição, o centrão e a banca evangélica — por motivos diferentes — começaram a articular o afastamento do ministro Milton Ribeiro. Paralelamente, um grupo de congressistas foram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ministro e o presidente Bolsonaro.

A PGR pediu ao Supremo autorização para investir Milton Ribeiro formalmente. Já o Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu realizar um pente fino nos convênios do MEC.

No meio dessas denúncias (e as denúncias do FNDE que serão listadas a seguir), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), começou a fazer corpo mole para criar uma CPI na casa voltada para investigar o MEC.

Rodrigo Pacheco contou com a ajuda de senadores da base e da oposição, que retiraram as suas assinaturas a favor da comissão ao longo do final de semana. Enquanto isso, a base do governo quer realizar uma CPI do FIES para falar mal do PT. Só tem um problema: ao contrário de uma eventual CPI do MEC, uma CPI do FIES seria ilegal, afinal, toda Comissão Parlamentar de Inquérito só pode ser criada caso exista motivo real para isso. Apenas vontade política não é o bastante.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #166-167: o celeiro de ideias ruins

As várias alternativas para não reduzir o preço dos combustíveis, os impactos da guerra na Ucrânia no dia a dia do brasileiro e um deputado que falou demais.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #166 e #167 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mar-01 and mar-14


Missão (des)humanitária

Arthur do Val, deputado estadual em São Paulo, membro do MBL e youtuber, ganhou as notícias na manhã do último dia 04. Após postar nas redes que estava em “missão humanitária” na Ucrânia, ele sentiu-se confortável para enviar áudios para os seus amigos com uma descrição completa das mulheres que encontrou em seu caminho. Tudo dentro do que esperamos de um deputado estadual que se dá ao trabalho de passar uns dias em uma guerra em que o seu estado não está envolvido diretamente.

Secando gelo com toalha molhada

O deputado deu uma desculpa ruim, desistiu de disputar o governo de São Paulo e foi expulso do Podemos. Já o pessoal do MBL disse que não era bem isso e que não precisávamos colocar o futuro do movimento em cheque ou pedir a cassação do mandato do seu amigo. “Estamos falando de um movimento de direita, não de uma exposição de arte feita para pessoas de esquerda” disse uma fonte à nossa redação.

Peixe morre é pela boca

Considerando que o MBL cresceu pregando falas “politicamente incorretas”, insultando parlamentares e nadando em cima de qualquer escorregada que um político do outro lado desse, não dá para ter pena do que está acontecendo com o deputado Arthur do Val. “Mamãe Falei” não está com a reputação no lixo por fake news (como o MBL tentou fazer com Marielle Franco), mas por vermos quem ele realmente é. Pode acontecer.

Fogo amigo?

Enquanto Lula e Alckmin preparam a sua chapa para as eleições de 2022, os petistas mais aguerridos já demonstraram o que seria um governo do presidente: um show de fogo amigo e barraco no meio da calçada da Fundação Perseu Ábramo.

Na próxima sexta-feira (4), alas do PT contrárias à união entre o petista e o ex-tucano realizarão um debate online sobre a vice-Presidência. Talvez tenha chegado a hora de Lula parar de ser diplomático com gente do centrão e realizar uma ligação para os seus colegas de partido. A queda de Bolsonaro não será tão fácil.

O recado semanal: tome a sua vacina

Enquanto o número de mortes cai progressivamente apesar dos bailes de carnaval e blocos clandestinos, a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo mandou a real: quem não se vacinou está com uma taxa de morte por covid-19 26 vezes maior do que a dos vacinados por completo. E isso vale apenas para as mortes entre os dias 5 de dezembro de 2021 e 26 de fevereiro de 2022.

Bota esse sorriso de fora

Com a queda nos números de casos e de mortos, as cidades começaram a repensar a necessidade do uso de máscaras. As flexibilizações iniciais estão focadas em lugares abertos, especialmente aqueles em que a máscara já não era regra há muito tempo. Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte estão liderando o bonde das cidades em que o mau hálito é detectado com facilidade.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Subiu

A guerra na Ucrânia deu uma sacudida no mercado de commodities. Como os países envolvidos produzem uma quantidade considerável de petróleo e trigo, o preço de ambos produtos tem aumentado bastante, especialmente com a falta de ânimo da OPEP em aumentar a sua produção.

No meio do caminho, a Petrobras, que passou quase dois meses sem aumentar o valor dos combustíveis, anunciou um grande aumento de uma hora para outra. Então chegou a hora do governo e da classe política fazerem algo. Algo ruim.

Abraço dos afogados

Após reduzir impostos federais, trocar o presidente da Petrobras por um pau mandado e culpar os governadores pelo aumento dos preços, o Planalto resolveu se aliar a políticos de oposição para realizar um revival muito ruim: o da conta petróleo.

repeteco da conta petróleo foi planejado mais ou menos assim: um fundo de estabilização de preços da Petrobras seria criado e alimentado com um imposto sobre exportação de petróleo e dividendos da estatal. Em outras palavras, o dividendo que a Petrobras repassaria para o Governo Federal investir em educação seria utilizado para subsidiar gasolina de taxista, de dono de Corola e de motorista de Ferrari.

Além disso, o Congresso também analisou um projeto focado em isentar combustíveis e gás de cozinha de tributos federais e mudar a maneira como o ICMS é cobrado. Mas é papel da Câmara dos Deputados cuidar de impostos estadual? Não, não é.

Desagradar a classe média é difícil

Deveria ser papel do Congresso colocar pessoas pobres, sem veículo, para financiar o combustível de gente com mais dinheiro? Não, até por termos meios para reduzir o preço da gasolina temporariamente cobrando dos mais ricos. A função social da Petrobras é atender a demandas eleitorais do Presidente da República? Não, a função social dela é totalmente diferente.

Mas realizar política focalizada é muito difícil, ainda mais em um país com 25 anos de experiência em programas sociais focalizados. Afinal de contas, quando fazemos isso pensando nos combustíveis, somos obrigados a explicar para a classe média que, dessa vez, ela também terá que pagar a conta.

Telefone sem fio

No meio do caminho, a equipe econômica pensou em aumentar temporariamente o Auxílio Brasil. A medida seria uma alternativa à desoneração de tributos federais sobre a gasolina, com maior foco nos mais pobres e menor impacto fiscal. Só não é uma opção que agrada politicamente o Planalto.

E, pelo visto, Paulo Guedes (Economia) esqueceu de combinar o lançamento da ideia com João Roma (Cidadania). Consultado pela Folha de S. Paulo, o ministro da Cidadania afirmou que ninguém avisou ele sobre essa possibilidade. Como podemos ver, Guedes não consegue fazer algo bom nem quando as suas intenções são corretas.

Vai dar ruim

O mundo é feito de escolhas políticas, inclusive escolhas ruins. Quando governo e oposição optam por combater o aumento dos preços dos combustíveis não focando nas pessoas mais pobres com uma estratégia que já deu errado no passado, ele está obrigando estas pessoas a pagar pela gasolina dos mais ricos. É uma escolha legítima? Sim. Mas não dá para negar que existem alternativas melhores.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #164-165: foco no pior

As chuvas em Petrópolis (RJ), o caminho que leva às eleições de 2022 e a visita de Bolsonaro à Rússia.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #164 e #165 do governo Bolsonaro.


The following takes place between feb-15 and feb-28


Desastre anunciado

Um forte temporal atingiu Petrópolis (RJ) e matou centenas de pessoas. Esta não é a primeira vez que a região é atingida por esse tipo de tragédia neste século. Se o país continuar ignorando a necessidade de realizar uma grande revisão nas suas políticas de urbanismo, também não será a última.

Bolsonaro mandou um “fica bem aí” da Rússia. Os moradores, sem ajuda rápida do poder público, peregrinaram pelos escombros em busca de roupas, alimento e parentes desaparecidos no meio do mar de lama.

Quadrilha

Bolsonaro se reuniu com Putin no pior momento possível, disse que o Brasil é “solidário à Rússia” e insinuou que ele mesmo foi o responsável por acabar com a crise do país com a Ucrânia.

Putin invadiu a Ucrânia.

O Itamaraty adotou uma postura condizente com a tradição brasileira.

Bolsonaro insistiu no apoio à Rússia.

Devagar e sempre

As médias móveis de casos e mortes por covid-19 continuam, na base da vacina, a cair. Infelizmente, não na velocidade que poderia ser possível: por falta de imunizante, cidades como o Rio de Janeiro estão aplicando novas doses de vacina em uma velocidade muito inferior à necessária para sairmos da pandemia antes da páscoa.

Teste em casa

Na frente das notícias positivas, a Anvisa concedeu o primeiro registro de autoteste para covid-19 no Brasil. A venda do produto já tinha sido liberada em janeiro, mas todos os fabricantes precisam aprovar o seu teste na agência antes de colocá-lo nas prateleiras das farmácias.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Porta da esperança

As pesquisas continuam reforçando que os caminhos para a Frente Ampla Liberal Isentona Unificada (F.A.L.I.U.) chegar ao planalto são tão curtos quanto cabeça de agulha. Diante desse cenário pouco favorável, os membros do grupo já começaram a perceber que talvez seja a hora de se abraçarem em uma chapa única.

Os primeiros passos nesse sentido foram dados por MDB e PSDB, que podem retirar os nomes de seus pré-candidatos e formarem uma chapa única. Até aí, tudo bem. O problema é definir quem será o/a cabeça de chapa.

Briga de amigo

Já o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro atacou a Polícia Federal. Os policiais, obviamente, não gostaram e publicaram nota atacando o pré-candidato à presidência. Se Moro quer ser o candidato anti-corrupção, talvez será de bom tom evitar problemas com os agentes da Justiça, como os do TCU.

Um carguinho pelo amor de Deus, um carguinho por caridade

No grupo dos prováveis vencedores, o PSD continua rifando o seu apoio ao Lula por um valor muito caro. Agora, Gilberto Kassab articula para que Eduardo Leite seja o seu candidato à presidência. Olhares mais inocentes até acreditariam que o partido quer mesmo encarar a bronca que é governar o país, mas todo mundo sabe que o que Kassab quer mesmo é o Ministério das Cidades de volta.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #161-163: berro, hipocrisia e corrupção

As ironias de Sergio Moro, o baile de Bolsonaro com o STF e o Brasil sendo um lugar horrível.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #161 e #162 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jan-25 and feb-14


Foda passar por isso

O Tribunal de Contas da União recebeu um pedido do Ministério Público para que os bens do ex-juiz Sergio Moro sejam bloqueados até que os seus ganhos na iniciativa privada sejam esclarecidos. A solicitação ocorre no âmbito do inquérito que analisa se Moro praticou evasão fiscal enquanto trabalhava para a consultoria Alvarez&Marsal e se havia conflito de interesses no exercício de seu trabalho (havia).

Ironicamente, o ex-ministro disse ser vitima de lawfare (com alguma razão). O termo é utilizado para situações em que inquéritos são executados ao arrepio da lei, em varas incorretas e com o uso procedimentos, digamos, “ousados”. Caso o leitor queira aprender mais sobre o tema, basta ler as notícias sobre a Lava Jato ao longo dos últimos anos.

Teste de coerência

O timing da ação do TCU contra o Moro não poderia ser pior. Nas últimas semanas, o Movimento Brasil Livre — MBL — abraçou (oficialmente) o pré-candidato à presidência. Dividindo o mesmo partido, os líderes do MBL terão que dizer ao mundo: suspeita de lavagem de dinheiro é motivo de vergonha apenas para petista ou político do Podemos também merece o mesmo rigor aplicado aos envolvidos na Lava Jato?

Quase lá

Falando naquele que provavelmente será o grande nome de centro contra o Bolsonaro, o ex-presidente Lula (PT) está quase selando a sua aliança com o ex-governador Geral Alckmin. Segundo o próprio Lula, o único impedimento para a aliança ser oficializada é a filiação do ex-tucano a um partido. Apesar de protestos de petistas, Lula sabe que a união de ambos é algo que é “bom para o Brasil e sobretudo deve ser bom para o povo brasileiro”.

Quadrilha

O ministro Alexandre Moraes, do STF, mandou Bolsonaro depor presencialmente no STF.

O presidente topou depor presencialmente em investigação que apura o vazamento de investigação feito pelo próprio Bolsonaro.

Jair Bolsonaro não foi depor, o que pode ser enquadrado como crime de responsabilidade.

Feijoada.

Mas espere, ainda tem mais

A Política Federal concluiu que o presidente cometeu crime ao vazar um inquérito sigiloso em live ao lado do deputado federal Filipe Barros (PSL-PR). O único motivo para os dois não terem sido indiciados após o insight dos policiais foi o foro privilegiado que ambos possuem.

O relatório foi encaminhado para a Procuradoria-Geral da República, que deverá se manifestar sobre as acusações, que também incluem uma notícia-crime (criada após o presidente faltar a um depoimento à PF). O deputado Filipe Barros nega que houve crime: ninguém tinha o avisado que a investigação, que sempre é sigilosa, era sigilosa.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

  • O governo que prometeu acabar com a corrupção no Brasil caiu duas posições no ranking que avalia a percepção do brasileiro sobre o tema.
  • Bolsonaro decretou luto de um dia pela morte do astrólogo Olavo de Carvalho.
  • O presidente também criou uma bomba fiscal para estados e municípios ao aprovar novo aumento de salário para professores.
  • A Selic voltou ao dígito duplo.
  • O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) utilizou uma concepção libertária de liberdade de expressão para defender a legitimidade de um partido nazista e resolveu processar quem utilizou uma concepção libertária de liberdade de expressão para acusá-lo de realizar apologia ao nazismo.
  • censo 2020 começará em 2022.
  • Surpreendente: policiais matam menos se houver uma câmera gravando as suas ações.
  • Estados precisam recorrer ao STF para conseguirem empréstimo com o Banco do Brasil.
  • O líder da FAB disse que ainda existe respeito à democracia dentro das Forças Armadas Brasileiras.
  • Apesar de todos os apelos, Bolsonaro resolveu visitar Vladmir Putin, na Rússia.

A semana da pandemia

Se explica aí

Diante de todo lero lero do ministro Marcelo Queiroga (Saúde) e da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) para desincentivar pais a vacinarem as suas crianças, uma comissão do Senado aprovou a convocação de ambos para falar sobre o tema. A convocação tem como foco esclarecer as iniciativas antivacina de ambos e o atraso do Ministério da Saúde na distribuição de imunizantes para a juventude.

Mas tem vacina pra isso?

São Paulo decidiu que o retorno das aulas presenciais dependerá da vacinação de crianças e adolescentes. Para a raiva dos alunos, professores e pais que gostam dos discursos do Governo Federal, o passaporte vacinal terá cobertura ampla: só sairá do Microsoft Teams quem estiver com o cartão vacinal em dia.

A iniciativa do governador João Dória (PSDB) é louvável. Mas há uma questão a ser resolvida: ele conseguirá disponibilizar imunizante para todos os alunos com a mesma velocidade que ele deseja vê-los em sala de aula?

Darwin awards

Após alguns longos dias com aumentos recordes de novos casos de covid-19, a rede pública e privada de saúde ampliou o número de leitos para atendimento aos contaminados pela doença. A medida só se tornou necessária graças a quantidade de brasileiros que não tomaram as suas doses de reforço contra a covid-19. Afinal, como já demonstrado em todos os países do globo com cobertura vacinal ampla, essa é a única maneira de não ser internado (ou enterrado) pelo coronavírus.

Dados levantados pelo Nexo demonstram que, em algumas capitais e cidades de grande porte, 90% dos internados pela covid-19 não estão com o ciclo vacinal completo. Os 10% restantes são compostos por pessoas que estavam em algum grupo de risco. Em outras palavras, 90% dos brasileiros que foram parar em um hospital poderiam ter evitado essa situação tomando as duas doses da vacina e/ou a dose de reforço.

Havendo vacina disponível, vacine-se. Não custa nada, pode te dar uns dias de atestado em casa e agiliza o nosso cosplay de Dinamarca.

Situação chata

Ciro Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil, afirmou que é o “para-raio do Posto Ipiranga”. Segundo o nome do centrão, agora cabe a ele dividir a responsabilidade entre o “não” e o “sim” que o governo dá quando alguém solicita recursos em troca de apoio político. No caso do Ciro, em específico, o trabalho se resume a dizer algo na linha do “ignora o “não” do Paulo Guedes, vota a favor do que eu quero e garante o seu “sim” comigo.

Ok

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, avisou que o TikTok consegue furar camisinhas. Durante a abertura da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, em Brasiília, Damares Alves trouxe essa grande revelação para os brasileiros. De acordo com as palavras da própria, há adolescente “vendendo seu corpo” no aplicativo de vídeos.

A fala impulsionou as pretensões políticas de Damares Alves. Sabe como é, nós somos a nação da mamadeira de piroca.

País rico é pais sem educação

A organização Todos Pela Educação avaliou os impactos da pandemia nos indicadores educacionais brasileiros e conseguiu confirmar, a partir da Pnad Contínua, do IBGE, que o que já não era bom, ficou ainda pior. 40,8% das crianças brasileiras entre 6 e 7 anos não sabiam ler e escrever em 2021 (em 2019, a taxa era de 25,1%). Na população negra, o valor sobe para 47,4%.

O ex-tucano vai vencer o medo

Já é quase oficial. Lula terá o ex-tucano Geraldo Alckmin como o seu vice de chapa durante as eleições de 2022. Apesar do choro do internauta, o ex-presidente já confirmou que ele terá a verdadeira chapa de centro neste ano. Só falta o PT e o PSB se resolverem quanto ao candidato ao governo de São Paulo para os tramites serem fechados.

Também na editoria “coisas que deixam feliz quem não vê a reeleição de Lula como o fim do mundo”: Mantega não será seu ministro.

De olho na chave do cofre

Boa parte dos presidenciáveis quer retirar do Congresso o poder de controlar boa parte do Orçamento Federal. Infelizmente, uma grande parte do Congresso não quer perder o seu controle sobre o Orçamento Federal. É o que revelou o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), em entrevista ao jornal O Globo.

Aqui, na redação, estamos aguardando o momento em que o vencedor das eleições tentar encarar de frente o centrão. Ele acontecerá junto com o instante em que os novos governistas forem obrigados a justificar a saia justa em que o ocupante do Planalto se meter.

Independentemente de quem for eleito em 2022, 2023 será um ano muito divertido.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semana #160: negacionismo técnico

O avanço da nova variante do SARS-Cov-2, a possível suspensão do Telegram no Brasil e os problemas do passado do presidente.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #160 do governo Bolsonaro.


The foloowing takes place between jan-18 and jan-24


Tapando o sol com a peneira

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estuda suspender o Telegram no Brasil. A decisão pode ser tomada caso seja mantida a recusa dos controladores do aplicativo em manter diálogo com o órgão. A plataforma, como muitos sabem, é uma câmara de replicação de conteúdos falsos e muitas vezes criminosos sobre política (e filmes, músicas, seriados e livros, mas isso aí não é com o TSE).

Como apontado pelo pessoal da Interfaces, o Telegram é uma plataforma muito menos abrangente quando comparamos com aplicativos com menos recursos para moderação e que contam com representação no Brasil, como é o caso do Whatsapp. O que não torna a postura do aplicativo correta, é claro: seria muito mais fácil Pevel Durov, CEO da empresa russa que cuida do mensageiro, contratar meia dúzia de pessoas para responderem à Justiça brasileira sempre que possível do que ter que lidar com a suspensão do seu app por estas terras.

Movimentando à direita

Valdemar Costa Neto, condenado por corrupção e presidente do Partido Liberal, marcou para o dia 29 de janeiro a convenção que oficializará o nome de Jair Bolsonaro como candidato do partido ao Planalto em 2022. Só tem um problema: o calendário eleitoral do TSE só permite esse tipo de evento entre 20 de julho e 5 de agosto.

Nada mais Valdemar Costa Neto do que fazer de conta que leis não existem ou são mera convenção social.

Peixes morrem pela boca

Waldir Ferrar, ex-assessor e um antigo amigo de Jair Bolsonaro, foi à Veja afirmar que havia rachadinha nos gabinetes do presidente e de seus filhos. A culpa, porém, não era de Bolsonaro: Jair, segundo ele, nada sabia e todo o esquema era obra de Ana Crristina Vale, segunda mulher do presidente.

Ok, vamos colocar isso como uma possibilidade. Como um presidente vê a sua esposa enriquecendo loucamente e não desconfia de nada? Uma pessoa como essa merece ficar no cargo político mais importante do país? São questões de resposta óbvia que esta redação faz ao leitor neste final de janeiro.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Pedi para parar, não parou

número de novos casos de covid-19 segue crescendo em níveis dignos de recorde. Exaustos e sem estrutura, os médios da rede de saúde pública paulistana tentaram uma paralisação para pressionar a prefeitura para ampliar o quadro de pessoas atuando no combate à pandemia. O Tribunal de Justiça de São Paulo disse que não e ficou tudo por isso mesmo.

Ponto de esperança

A expansão da ômicron está ajudando todo brasileiro que não é desonesto ou conta com QI de dois dígitos a entender o poder das vacinas. Em Belo Horizonte e no triângulo mineiro, a vasta maioria das pessoas internadas com covid-19 não estão vacinadas.

Também é importante notar que as pessoas do país Minas Gerais internadas que estão vacinadas ficam apenas 4 dias no hospital. Antes da vacina, a pessoa tinha sorte se recebesse alta em uma semana. No horrível Rio de Janeiro, os números são semelhantes.

Só fica doente quem testa

A Anvisa pediu mais dados para o Ministério da Saúde no processo de análise do pedido de liberação de autotestes de covid-19. Diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária reclamaram da ausência de uma política pública em torno dos testes e da notificação de casos. A pasta reclamou e terá até o dia 04 para enviar uma resposta.

Não fica doente quem vacina

Em notas relacionadas, a Anvisa aprovou a aplicação da Coronavac em crianças e adolescente de 6 a 17 anos. O Instituto Butantan já conta com 15 milhões de doses disponíveis, o que é um ótimo indicativo de que os números da covid nos próximos dias darão espaço para muita aula presencial em 2022. João Dória já está trabalhando para conseguir isso.

Se errei ou se menti, o importante é que vivi

Por último, e não menos importante, o ministro da Saúde cometeu um pequeno errinho nos últimos dias: disse que 4.000 crianças morreram por causa de vacina, quando o dado oficial é de 11 óbitos. Matemática é difícil.

Dias depois, a pasta emitiu nota técnica questionando a efetividade das vacinas e defendendo remédios que não funcionam contra a covid-19. O documento contou com uma mal elaborada tabelinha para mentir muito e manter o negacionismo ativo no Ministério da Saúde. Para a raiva de alguns, a Rede entrou com ação no STF solicitando o afastamento do responsável pelo texto.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #159: cheiro de derrota

Inflação, ômicron e eleição.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #159 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jan-11 and jan-17


Acabou a paz

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal. Mais especificamente, os seus alvos regulares: os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

Bolsonaro disse que ambos querem ver o ex-presidente Lula reeleito (o que provavelmente é verdade, segundo as pesquisas eleitorais recentes) e que eles atacam as “liberdades democráticas nossas” (mentira). Em notas relacionadas, as investigações contra o governo e o presidente no STF avançaram.

Seja bem-vindo e aproveite a linguiça

A metralhadora de merda que chamamos de boca presidencial também atacou a ciência. Na mesma entrevista, o presidente Bolsonaro disse que a variante ômicron, do coronavírus, “não matou ninguém” (o que não é válido sequer para os vacinados) e que ela é bem-vinda no país. A única parte que ele pode ter acertado é o sinal de que essa variante pode nos levar ao fim da pandemia, mas isso não deve ser visto como um indicativo de que Bolsonaro andou lendo o Nexo Jornal.

Fique de olho I

A dança das cadeiras para a formação de alianças nas próximas eleições ainda não acabou, mas certamente teremos mudanças de última hora. O STF está analisando a validade das federações partidárias, que afetará diretamente no modo como os partidos farão alianças nos próximos meses. Como elas obrigam as legendas a atuarem como um só partido por quatro anos, é importante ter muito cuidado na hora de definir quem é que vai segurar a sua mão até segunda ordem.

Fique de olho II

Outro ponto muito importante está relacionado com a Lei da Ficha Limpa. O PDT quer mudar a lei e colocar a contagem da inelegibilidade de oito anos para o instante em que ocorrer condenação em segunda instância ou perda do mandato. Atualmente, a norma considera apenas o fim do cumprimento da pena.

Fique de olho III

Por fim, e relevante apenas para uma meia dúzia de liberista de internet, o ministro André Mendonça pediu ao Executivo e ao Legislativo que expliquem o fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões para esse ano. A requisição se deu no âmbito de uma ação movida pelo partido Novo contra o fundo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Vacina no braço

Um mês após a autorização da Anvisa, as doses pediátricas da vacina contra a covid-19 chegaram ao Brasil. Os lotes já foram distribuídos para os estados e o jornalismo brasileiro já começou a registrar bonitas imagens de jovens recebendo a agulha no braço. Demorou um ano, mas finalmente este dia chegou. E boa notícia: assim como ocorreu com as vacinas para adultos, a vacinação das crianças terá ampla adesão.

UTI sem espaço

Enquanto isso, a variante ômicron está ajudando na lotação de UTIs país afora. Ao menos quatro capitais, segundo a Fiocruz, já estão com ocupação acima de 80%. Ao mesmo tempo, os testes estão ficando mais raros (e caros, para quem opta por realizá-los na rede privada).

A recomendação, agora, é a seguinte: se você estiver vacinado e, muito provavelmente, sem sintomas graves da doença, fique em casa. Trate a sua possível covid como se fosse uma gripe(zinha) e deixe os exames de confirmação da doença para pacientes graves, trabalhadores da saúde e outros profissionais essenciais. O pior que pode acontecer é você ser obrigado a trabalhar na sua cama.

Autoteste travadaço

O Ministério da Saúde pediu, somente na última semana, em caráter formal, a liberação do autoteste de covid-19. O pedido foi feito para a Anvisa, agência responsável pela liberação desse tipo de exame. A agência regulatória deve liberar temporariamente o autoteste e, quando isso ocorrer, poderemos contar com aproximadamente dez milhões de autotestes por mês de qualidade 100% nacional.

Micão

João Dória (PSDB-SP), o governador paulista e futuro perdedor de eleições, não deixou de fora a chance de fazer um photo op para ser o responsável pela primeira vacina para crianças no Brasil. Acontece que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, não gostou do ato político-sanitário do tucano. Mas, até então, ninguém mandou o ministro deixar o seu braço ser segurado pelo Bolsonaro na hora de decidir quando as vacinas seriam aplicadas, não é mesmo?

Toma que o filho é seu

O Orçamento da União virou Orçamento do Centrão. Sem chamar muita atenção, o presidente Jair Bolsonaro entregou para Ciro Nogueira controle total sobre os gastos do governo em 2022. Após a publicação de um decreto no último dia 13, a Casa Civil terá de dar aval a todas as mudanças que forem feitas nos gastos do Executivo em 2022.

Em outras palavras, o todo poderoso Paulo Guedes só conseguirá usar a sua tesoura após ela ser amolada pelo “filtro político” do mais poderoso membro do centrão da administração pública federal. O ministro da Economia jurou que está feliz com a mudança, por saber que ela tirou os holofotes da sua cabeça (só um pouco), mas não deixa de ser uma derrota para o posto Ipiranga. A seguir nessa toada, até o final do ano teremos, no máximo, um quiosque amarelo desbotado na Esplanada dos Ministérios.

Então tá

Jair Bolsonaro afirmou que o Congresso “está muito bem atendido” com o modelo de emenda parlamentar adotado pelo Legislativo para abusar do orçamento federal (mais sobre isso aqui). Segundo o presidente, “hoje em dia todos estão ganhando”. O que não é mentira: Jair Bolsonaro só cai em caso de desastre e os parlamentares poderiam montar uma frota de tratores secretos se quisessem.

O governo Bolsonaro começou mostrando o seu lado anti-democrático e militarizante e terminará mostrando a sua face sindicalista de militar de baixa patente e amiga do baixo clero. Pelo menos todo mundo que abraçar o presidente durante a sua campanha para reeleição não poderá alegar ignorância em 2023.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semanas #152-158: para começar o ano com raiva

Voltamos, mas sem escrever (muito) além do necessário. Durante a nossa pausa, o presidente Bolsonaro passeou, terceirizou o seu trabalho, deu calote na dívida dos precatórios e começou a pagar o Auxílio Brasil. Tudo isso enquanto conseguia aprovar mais um ministro para o Supremo Tribunal Federal.

Saiba como essas coisas aconteceram e veja muito mais a seguir.


The following takes place between nov-23 and jan-10


Devo, não nego e não pago quando puder

Depois de muito acordo feito atrás de portas fechadas, a PEC dos Precatórios foi aprovada pela Câmara dos Deputados e o Senado com votos de opositores do governo. O texto final liberou recursos para o pagamento do Auxílio Brasil (mais sobre ele em breve) e outras várias ideias menos nobres. Coisa boba: aumento de salário de servidores públicos que apoiam o presidente e mais recursos para a compra de apoio parlamentar ao Planalto.

Ficou ruim, mas poderia ficar pior

Ciro Gomes (PDT) se fez de ofendido e Gleisi Hoffmann (PT) se fez de sonsa quando souberam que parlamentares dos seus partidos apoiaram o projeto. O fato é que a não aprovação do texto poderia colocar o país em uma situação muito pior da que teríamos com ele aprovado. É o Brasil de Bolsonaro, em que tudo pode piorar um pouco mais.

Bate bola

Como o Senado mudou parte do texto e a Câmara gostaria de aprovar ele antes do final do ano, a alternativa escolhida por Arthur Lira (PP-AL) para acelerar o fim da tramitação da PEC foi fatiar o texto. Primeiro, votou-se o que era consensual, depois, o que não era consensual. Todos ficaram felizes — menos quem esperava receber o dinheiro dos precatórios ainda em 2022.

Acabou, está acabado

A aprovação da PEC dos Precatórios também liberou recursos para o Auxílio Brasil virar realidade. Como era de se esperar, o texto que foi sancionado pelo presidente tinha vários problemas. O mais gritante era o que impedia o Governo Federal de acabar com a fila do programa antes do final do ano.

Zerar a fila era uma promessa de Bolsonaro. Essa parte foi solucionada nas últimas semanas (segundo o Ministério da Cidadania). Então resolvemos esse problema, ficando apenas com todas as outras falhas estruturais do programa.

Briga de bicudo

A terceira via está cada vez mais próxima de ver o seu sonho de verão se tornar um pesadelo de primavera. O PSDB, depois de uma grande bagunça, conseguiu concluir as suas prévias e definiu que o candidato do partido será o governador João Dória. Agora falta só combinar com o eleitor e pedir com jeitinho para os perdedores do processo pararem de fazer cena com Sergio Moro para o tucano paulista ir ao Planalto.

Aécio Neves detestou a notícia. O parlamentar mineiro deverá adotar a mesma estratégia utilizada pelos tucanos mineiros quando Geraldo Alckmin foi o candidato pela sigla em 2006: atrapalhar ao máximo o postulante paulista no território mais importante das eleições, Minas Gerais.

Figuração de luxo

No front dos perdedores garantidos, o MDB lançou a senadora Simone Tebet como a sua pré-candidata à presidência da república. E começou bem o trabalho do partido para eleger a política profissional: Tebet, que está na política há décadas, afirmou que não havia como saber que Bolsonaro seria um presidente tão ruim.

ʞɔɐnb

Não podemos esquecer o início da corrida eleitoral de Sergio Moro. O ex-juiz lançou um péssimo livro mostrando como ele prevaricou ao ver o modo como Bolsonaro usou o poder público para proteger os seus filhos. Faltou só explicar de onde ele tirou a certeza de que Bolsonaro não seria um presidente horrível.

Entre atos falhos e provas de que o seu media training não foi dos melhores, o caminho para o ex-ministro da Justiça talvez será o Senado. Ou a Câmara. O importante é conseguir um foro privilegiado para 2023.

Ato falho

No front dos possíveis vencedores, Lula esqueceu como é que se diferencia parlamentarismo de presidencialismo e chamou Guido Mantega para falar sobre economia em seu nome. A concorrência e os membros da Frente Ampla Liberal Isentona Unificada (F.A.L.I.U.) sambaram em cima de tais questões — como se alguém ali estivesse disposto a votar no Lula caso ele fizesse algo diferente.

O cravo e a rosa

Já Geraldo Alckmin, o ex-governador de São Paulo, está com a bola toda. Lula percebeu que o PT não deve medir esforços para começar 2023 no Planalto. Para a raiva de muito petista na internet, o ex-presidente resolveu cortejar Alckmin para ser o seu vice — mesmo após ambos protagonizarem uma das campanhas mais baixas dos anos 2000.

No final do dia, o tempo passa, o tempo voa, mas o pragmatismo de Lula continua numa boa.

Más companhias

O presidente Jair Bolsonaro se filiou ao Partido Liberal. A legenda, que é pouco partido e pouco liberal, deve abrigar o presidente durante as eleições mesmo com a garantia de que traições em regiões importantes para Bolsonaro acontecerão. Deputado do centrão gosta de recurso, mas gosta mais ainda de ficar longe de pessoas impopulares.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

As semanas da pandemia

Virou uma gripezinha

O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul (NICD) anunciou uma nova variante do sars-cov-2 no país. Chamada de B.1.529 (ou ômicron, para os íntimos), ela fez o país ser punido por ser eficiente: nessa nova etapa da pandemia, serão barrados os moradores de países que descobrem rápido que estão com pacientes infectados e não aqueles que ajudaram na criação de novas cepas por vacinarem pouco ou serem simplesmente irresponsáveis.

A nossa esperança é que todos os dados indicam que a variante não causa tantos casos graves e afeta mais quem está sem vacinas. O nosso desespero é que o número de pessoas que ainda estão sem vacinas por falta de coordenação governamental é muito alto — mesmo nos lugares que optaram pelas doses de reforço. Se todos os que gostassem de vacina de graça tivessem acesso a algum imunizante, os negacionistas seriam um problema muito menor.

Tem, mas tem que pagar

Enquanto prefeituras e governadores batiam cabeça se fariam ou não as festas de ano novo (fizeram) e carnaval (só para quem pode pagar), o presidente Bolsonaro decidiu tentar acabar com a exigência de passaporte vacinal e obrigar médicos a emitirem atestados para que crianças sejam vacinadas (com direto a assédio moral no meio do processo). Não deu certo: as crianças serão vacinadas e os passaportes de vacina tornou-se uma realidade.

Navegando no escuro

Ao mesmo tempo, o Brasil passou a lidar com um apagão de dados sobre os casos de Covid-19. Primeiro, o Ministério da Saúde mudou o sistema de registros de casos positivos, dificultando a identificação de casos leves. Depois, ataques derrubaram o acesso aos sistemas do SUS e prejudicaram o acompanhamento da doença no território nacional — algo que já não era fácil de ser feio há meses.

Navegando no conflito

Enquanto o presidente da Anvisa bate boca com Jair Bolsonaro (e o Presidente da República bate boca com Antônio Barras Torres), o Ministério da Saúde reduziu de dez para cinco dias o período mínimo de isolamento de pacientes com covid-19 para os casos assintomáticos. A medida é pouco consensual e só servirá para acelerar o trabalho do vírus a médio e longo prazo. Isso, é claro, se ela se manter em pé até a próxima edição desta newsletter.

Agradando todo mundo para agradar apenas uma pessoa: DEUS

André Mendonça, ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, se tornou o novo ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele assumiu a vaga aberta com a aposentadoria do ex-ministro Marco Aurélio Mello. A indicação do presidente Jair Bolsonaro foi aprovada por 47 votos a 32 pelo Senado.

O presidente colocou o nome de André Mendonça na roda em julho de 2021, mas Davi Alcolumbre (DEM-AP), enrolou até não conseguir mais a marcação da sabatina. Depois de muita pressão, André Mendonça teve a sua chance de falar, ao Senado, que é água. Aos seus amigos, porém, o ministro jura ainda ser óleo.

Agora é esperar para ver qual seguirá o seu trabalho de acordo com as prerrogativas da bíblia ou da Constituição. Apostamos no segundo sempre que for conveniente.

É tudo uma questão técnica

O Brasil conseguiu voltar ao estado de recessão técnica antes do final de 2021. O Produto Interno Bruto (PIB) apresentou resultado negativo por dois trimestres seguidos. Esta é a segunda vez que o ministro Paulo Guedes conseguiu o feito desde que assumiu a Economia.

Falando nele, Guedes disse que o Brasil está “condenado a crescer”. Talvez ele queria falar da inflação mas acabou trocando “preços” por PIB ao realizar a sua declaração: mesmo com a queda das atividades econômicas, os preços seguem em alta em todo o país, nos levando a redação a se perguntar: vem aí um novo ciclo de alta da Selic?

Pedi para falar, mas não falou

Nas últimas semanas, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) se organizaram para garantir que o orçamento secreto se mantivesse ativo e com o mínimo de transparência possível. Deu certo.

Mesmo com o STF determinando a divulgação de quem foi beneficiado pela artimanha política, os presidentes do Senado e da Câmara conseguiram argumentar que a divulgação era impossível. A inviabilidade se deu por dois motivos: a transparência desejada pelo Supremo provocaria uma crise na base do governo e os papeis com os nomes dos deputados já tinham sido reciclados.

Escondidinho

Ok, nem todos os papéis. O Ministério do Desenvolvimento Regional manteve o registro de quais parlamentares utilizaram a pasta para liberar recursos aos seus redutos eleitorais. Bem cruzados, esses registros revelaram, de maneira ampla, o quanto o projeto de compra de votos é ineficiente e caro.

Mudando tudo para mudar nada

A saída para essa questão foi um grande acordão aprovado a toque de caixa para ajustar o futuro e apagar o passado. O Congresso votou a favor de um projeto que melhorou os índices de transparência das emendas do relator quando os deputados não forem muito inteligentes. O texto também limitou o valor das emendas a uma soma inferior à das emendas individuais e de bancada (mas não inferior o bastante para transformar os instrumentos de compra de apoio menos efetivos).

Ao fim e ao cabo, Rosa Weber acabou aceitando a alternativa do Congresso e liberou as emendas do relator. A ministra do STF considerou as mudanças boas o bastante para a liberação das verbas que foram bloqueadas. E, para a felicidade de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, também deu mais tempo para eles explicarem quem é que ganhou acesso ao orçamento.

Contax do desastre

Chuvas no interior no sul da Bahia e no norte de Minas Gerais causaram estragos e mortes ao longo de todo o mês de dezembro. Milhares de pessoas ficaram desabrigadas e aproximadamente 500 mil pessoas foram afetadas diretamente e indiretamente pelos temporais em ambos os estados. As causas são explicadas aqui.

O que o Jair Bolsonaro e seus ministros fizeram sobre o tema? Decreto declarando estado de emergência, críticas ao lockdown contra a covid-19 e politicagem barata. Depois, Jair Bolsonaro liberou “uma cobertura em Copacabana” em verbas (para liberar um valor efetivo somente após um temporal de críticas) e foi andar de jet ski do país e passear em parque de diversão.

Veja bem

Quando a Argentina forneceu ajuda humanitária, Bolsonaro recusou. Felizmente o governador da Bahia, Rui Costa (PT), aceitou o apoio. Quando Bolsonaro foi cobrado pelas férias no meio do desastre, o presidente falou fino.

O fato é que era mais interessante para Bolsonaro garantir que apenas os seus ministros estivessem em território baiano. Se o ministro da Cidadania, João Roma, ganhasse destaque nas ações, melhor ainda: isso daria a ele mais capital político para concorrer ao governo do estado no final do ano sem grandes dificuldades. Tudo isso enquanto ele garantia as suas férias no litoral do sul do país.

Win win? Win win d+ da conta.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – Semana #151: negativando as expectativas

Os problemas do ENEM, Lula sendo bonito em Paris e as prévias tucanas.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #151 do governo Bolsonaro.


The following takes place between nov-16 and nov-22


Turismo autocrático

O que um vereador de BH, o Mário Frias, o Hélio Lopes, um desembargador envolvido em uma investigação de um possível caso de corrupção de um dos filhos do presidente da República, os filhos do presidente da República e o Magno Malta têm em comum? Todos estavam na comitiva presidencial que viajou pelo Oriente Médio.

O que todas essas pessoas deveriam estar fazendo no Oriente Médio? Ninguém sabe, mas as fotos da festa ficaram ótimas.

P******s in Paris

Lula foi à Europa tentar mostrar para o mundo que o Brasil sabe se comportar diante de autoridades de outras nações. Em Paris, Emmanuel Macron aproveitou para mostrar que Bolsonaro é feio, bobo e chato e que o petista é bonito. Já na Alemanha, bateu papo com o próximo primeiro ministro do país, Olaf Scholz. No meio tempo, foi aplaudido pelo Parlamento Europeu.

Nem todo mundo é pária por aí.

Exame Nacional do Nacionalismo Médio

Com o menor número de inscritos desde 2005, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve a sua primeira prova realizada no último domingo (21). Os 3,4 milhões de inscritos representam uma redução de 64,35% em comparação ao ano de 2014, quando atingimos o recorde de participantes.

A prova, segundo o presidente da República, tinha “a cara do governo”. O ministro da Educação negou, mas fora das falas oficiais tivemos: 24 questões sendo retiradas da prova (das quais 13 foram recolocadas depois), acusações de assédio moral e pessoal não qualificado acessando a sala segura onde são preparadas as provas. E olha que estamos falando apenas da edição deste ano e não das anteriores.

Em notas relacionadas, o Tribunal de Contas da União investigará se as denúncias se sustentam.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

De graça até na testa

Vem aí: a dose de reforço de toda a população adulta que já completou o ciclo vacinal com alguma vacina contra a covid-19. Fique atento ao calendário de vacinação da sua cidade e não perca essa grande oportunidade de ganhar uma injeção de graça.

O anúncio das doses de reforço foi realizado à revelia da Anvisa. A agência não gostou muito de não ter sido consultada, mas também não reprovou a ação do Ministério da Saúde. Pela redação, tudo bem.

Festa da tucanocracia

O PSDB decidiu realizar as suas prévias partidárias mesmo sabendo que o seu aplicativo não funcionaria direito. E, para a surpresa de pouca gente, ele não funcionou direito.

As prévias acabaram suspensas após vários problemas no registro de votos. Agora os tucanos foram bater bico para decidir quando a votação será retomada (optaram pelo próximo domingo). E em uma reviravolta surpreendente, Aécio Neves decidiu fazer campanha a favor de João Dória e avisou que deve sair do partido caso o governador paulista saia do processo vitorioso.

Pode parecer incrível, mas o PSDB continua nos surpreendendo apesar da sua grande habilidade de realizar escolhas políticas ruins.

Prometeu, mas não deve cumprir

A viagem de Bolsonaro a Bahrein também serviu para o presidente anunciar que a aprovação da PEC dos Precatórios permitia a concessão de aumento salarial para todos os servidores públicos federais e o financiamento de todas as outras promessas já feitas. Não era o caso. Mas, se fosse, a gente precisaria se perguntar: precisávamos mesmo de um calote tão grande?

Mesmo com os alertas de técnicos do governo, o chefe do ministério da Economia cedeu e começou a tratar o reajuste como certo. Gritos do ministro da Cidadania à parte, o anúncio de Bolsonaro deve ter servido só para uma coisa: aumentar a pressão de sindicatos bem articulados para que senadores aprovem o texto.

No ritmo que as coisas andam no Senado, é provável que o texto saia do Senado apenas com dinheiro para o Auxílio Brasil e reajustes em benefícios sociais. Nem todo o poder legislativo é bagunça.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.