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Corrupção de pobre SE01EP06 

Toda semana o governo Bolsonaro nos surpreende com uma acusação de mal feito que, via de regra, pode ser definida como uma corrupção de pobre: aquele desvio de dinheiro público que não dá bilhão, não faz alguém ter uma amante que aparece na capa da Playboy ou uma mansão na Barra da Tijuca. 

No episódio da semana, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), foi acusado pela Folha de S. Paulo de patrocinar um esquema de desvio de verbas eleitorais para empresas ligadas ao seu gabinete. Uma prática tão velha e digna de político pouco relevante que me fez sentir saudade do Geddel com seu apartamento cheio de dinheiro

A corrupção da Nova Era é muito ruim. Quero a corrupção da Era Velha de volta. 

Amado Batista – E o Pau Tá Quebrando.mp3 

A força eleitoral do PSL nas últimas eleições ajudou o partido a criar um dos maiores blocos parlamentares da nova legislatura. Com quatro senadores e 52 deputados, ninguém pode negar que o partido consegue dizer que tem um grande poder. 

Mas antes de exercer essa força, os parlamentares deveriam aprender algo que os petistas aprenderam mal e a esquerda dos DCEs nacionais ainda não aprendeu. Criar poder é fácil, mas para manter, é necessário união e um plano de ação eficiente. 

O Partido dos Trabalhadores se manteve unido enquanto todos lutavam pelas mesmas coisas de forma unificada. Foi assim que o partido aprovou uma reforma da Previdência dos servidores públicos, engoliu um vice do PMDB e até respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Foi perdendo essa unidade que Dilma Rousseff não conseguiu o mínimo de apoio para aprovar o seu ajuste fiscal. Ou a compra de uma caixa de Bis para o seu neto. 

Para quem não lembra como isso terminou, vamos ao mini-flashback: o governo não aprovou as medidas de ajuste, a oposição ganhou força, Michel Temer virou presidente e a Dilma virou vizinha de bairro do Aécio Neves. 

Nós mal começamos o segundo mês de governo e até agora tivemos: 

  • um líder que não lidera e é boicotado pela base aliada; 
  • 18 deputados ameaçando sair do partido graças à escolha do líder; 
  • uma bancada com poucas janelas e muitas pessoas querendo ocupar os bancos com vento fresco; 
  • um grupo de novatos passeando na China e reclamando das críticas vindas de sua base; 
  • um suplente e um deputado sendo acusados de tramar a morte de uma senadora para que ela perdesse o cargo. 

Os deputados deveriam realizar uma terapia em grupo pra solucionarem os seus problemas internos e a luta contra inimigos imaginários. A oposição, por outro lado, pode comemorar: enquanto eles estiverem muito ocupados sentindo ciúmes do DEM, será pouco provável que qualquer projeto importante do governo seja aprovado

Michel Temer de bota 

Mourão precisa parar de tentar construir pontes para o futuro. Tudo bem que a cada dia que passa o presidente demonstra estar mais pra lá do que pra cá, mas sempre reforçar que ele é mais capacitado, coerente e racional do que o Bolsonaro vai acabar, sim, tornando ele alguém atraente para o mercado. 

Essa coisa de ter um bom diálogo com a imprensa, defender o aborto, debochar dos livros de Olavo de Carvalho e tentar incluir os militares na reforma da Previdência é muito fofa. Mas todo mundo sabe que, no final do dia, você ainda é um milico que topou ser vice do Bolsonaro. A nossa calcinha não cairá tão facilmente assim, portanto, pague um jantar mais caro na próxima vez. 

Cuidando do quintal do vizinho 

Alguém viu o filho do presidente, vereador eleito pelo Rio de Janeiro e tuiteiro nas horas comerciais, comentar a tragédia do Rio de Janeiro? Ou ele só está ocupado apontando que a imprensa não fez o que ela fez? Quando você é eleito para legislar em uma cidade, uma boa escolha é, de fato, cuidar dela, e não se importar com problemas que não existem e que se existissem não seriam da sua conta. 

Acabou a mamata 

O governo Bolsonaro mal começou e já temos os principais afetados pelo fim da mamata. Milhões de bots de whatsapp e compartilhadores de conspirações não mais poderão auxiliar o presidente a criar a sua própria realidade: no final de janeiro, o Whatsapp reduziu o número de destinatários de mensagens encaminhadas de 256 pessoas para cinco. 

Segundo o pessoal do Recode, a redução do número de destinatários para o encaminhamento de mensagens pode reduzir o alcance potencial das correntes em até 98,04%. As fake news que antes conseguiriam chegar a 65.536 pessoas agora atingirão apenas 1.280 destinatários. 

Millenials também podem comemorar. Não só os riscos da nossa democracia ser destruída caíram, mas o número de mensagens de bom dia em grupos de família também será bem menor. 

Grandes questões da humanidade 

Agora que o ministro da Justiça apresentou o seu programa contra o crime, os jornalistas deveriam perguntar: valeu a pena lamber a bola do presidente por tanto tempo? As pernas dele são tão grossas assim para impedir o ex-juiz de enxergar todos os outros corruptos que ocupam a Esplanada dos Ministérios? 

É assustador que uma pessoa que já passou tanto tempo analisando como as leis devem ser aplicadas crie um pacote com ideias que são contrárias a legislações já aprovadas, consideradas inconstitucionais pelo Supremo ou que apenas requentam soluções que ninguém quer aprovar no Congresso. O ministro deveria frequentar uma prisão brasileira antes de achar que aumentar o encarceramento provisório solucionará a impunidade nacional. Ou pelo menos conhecer o que não será aprovado de qualquer forma

Literalismo trágico 

Antes que a próxima tragédia ambiental envolvendo uma empresa privatizada (ou que ainda seja pública) aconteça, vamos fechar aqui um combinado: nada de crítica social foda em cima do cadáver do coleguinha, talkey

O desastre de Brumadinho ocorreu não por uma falha do capitalismo, de um governo de direita, um político de esquerda ou de uma privatização mal realizada. Um crime ambiental desse porte não acontece sem que um grande número de falhas já tenha se concretizado. 

Dizer que tudo se resume ao fato da empresa ser privada ou estatal, é como dizer que um trem não descarrilharia se os passageiros estivessem em pé e não sentados, mas só após do acidente. 

Há uma longa cadeia de falhas, omissões, lobbys e decisões tomadas que levaram ao que chamamos de “tragédia anunciada”. A Vale, a justiça brasileira, o governo federal e o governo estadual agem com igual tolerância para esse tipo de problema: enquanto os lucros e impostos existirem em larga escala, ninguém será punido ou serão tomadas medidas para resolver o problema.

Mas vamos por partes: 

Os defeitos no sistema de drenagem interna da barragem foram apontados em um relatório, antes que o acidente ocorresse. A Vale também soube previamente que um rompimento na barragem destruiria as áreas industriais da mina de Córrego do Feijão. A empresa teve ciência de problemas nos sensores que eram responsáveis por monitorar a estrutura da barragem. 

Em todos os casos, nada foi feito. Não é como se um desses problemas fosse afetar as ações da companhia  na Bolsa

Isso não quer dizer, porém, que a Vale não toma medidas após os (previsíveis) crimes ambientais. A empresa “aconselhou” familiares de pessoas que estiveram envolvidas no acidente, assim como os sobreviventes, a não opinarem publicamente sobre o que ocorreu. Quando as pessoas afetadas solicitaram dinheiro da empresa para conseguirem sobreviver até que as suas vidas fossem retomadas, receberam uma negativa

Durante as administrações tucanas de Minas Gerais, o deputado Rogério Correia (PT) sempre atacou o governo, com boa razão, pelos benefícios dados a empresa em todo o estado. Quando deixou de ser oposição, ignorou a urgente necessidade de fiscalizar as mineradoras e mudar a matriz econômica do estado. 

O novo governo, do “liberal” partido Novo, manteve o secretário do Meio Ambiente que foi responsável por afrouxar as regras de licenciamento ambiental no governo do petista Fernando Pimentel. Germano Luiz considera a legislação mineira um exemplo para o país. E ele sequer fala isso com ironia

Para os críticos da postura liberal a favor de redução do número de empresas estatais, fica a pergunta: seria mesmo possível barrar o acidente em um governo de esquerda? 

Dilma Rousseff e Fernando Pimentel, ambos de um partido de centro-esquerda, estavam no governo quando a onda de rejeitos da barragem de Fundão atingiu o Rio Doce. O Partido dos Trabalhadores, aliás, teve 16 anos para recomprar as ações, retomar o total controle sobre a Vale e dizer que era necessário aumentar a produção em função do “desenvolvimento e a valorização das indústrias nacionais”. Mesmo que isso significasse um afrouxamento das regras de segurança ambiental, como ocorreu nas usinas de Belo Monte e Jirau. 

Minas Gerais é o centro de uma festa em que a principal convidada é a morte do nosso planeta. A sociedade (e a nossa economia) é, foi e será, estruturada em atividades que envolvem a extração de recursos minerais. Do computador que uso para digitar esse texto ao minério extraído de Minas para ajudar chineses a criarem pontes faraônicas, tudo depende de minério. Muito minério. 

Isso não mudará de hoje para amanhã. Não conseguiremos, da noite para o dia, criar computadores que dependam menos de metais para serem funcionais. Tão menos seremos capazes de reduzir o descarte impróprio e a não reciclagem do nosso lixo eletrônico a tempo de evitar que as mudanças  no clima global matem boa parte da raça humana. 

Vamos ser sinceros. Comunistas, ecossocialistas, liberais e conservadores: todos nós desejamos, diretamente ou indiretamente, o minério que sai de Minas Gerais. E para impedir que outros acidentes ocorram por leniência humana, será necessário um esforço muito maior do que o requerido para tomar os meios de produção ou estatizar uma multinacional. 

Precisamos de leis ambientais mais duras e que não sejam escritas nos escritórios dos advogados das mineradoras. Uma vez que as leis sejam reformadas, a fiscalização deve ser valorizada de verdade

Também precisamos de um judiciário que realmente puna as empresas que não cumprem a nossa legislação, a atual e a futura, algo que ainda não aconteceu com o penúltimo desastre envolvendo a Vale, por exemplo. Não menos importante, precisamos mudar drasticamente a nossa relação com o mundo ao nosso redor, evitando a compra de eletrônicos e outros produtos que utilizam tanto metal. 

O capitalismo, e muito menos o socialismo, salvarão as pessoas que foram vítimas de tragédias como a da mina do Córrego do Feijão. Mas se não fizermos o esforço necessário para impedir que os recursos naturais sejam explorados além do que o planeta suporta, a Terra resolverá o problema da mesma forma que uma chuva de meteoros parou com as brigas entre os dinossauros. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

(com a revisão da @fogeluana)

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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