Nessa semana, as pessoas que realmente mandam – e as que não deveriam, mas também o fazem –, governaram. Já a que deveria governar, mas ninguém se importa, ficou no Planalto. Parece confuso? Então continue a leitura e entenda. 


Fusca 94 marrom caqui com adesivos verdes

Não foi apenas Mourão que recebeu uma repaginada para assumir a vice-presidência.  Os outros milicos que ocupam cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão (dentro e fora de Brasília) receberam um pequeno banho de loja e se tornaram os Fuscas do Itamar da Nova Era: uma versão levemente moderna de algo que já deveria ter ficado no passado.

Até segunda ordem, seguiremos torcendo para que os freios dos nossos Fuscas impeçam o governo de avançar contra o barranco da História. 

50 tons de socialismo 

O governo Bolsonaro começou falando em acabar com o socialismo, mas em menos de 10 semanas já mostrou que não é bem assim. Quando o socialismo é light, tá tudo liberado. 

É o que deu a entender o nosso 4chanceler Ernesto Araújo, ao comentar a crise política venezuelana. Em uma entrevista ao reporter da GloboNews, Victor Ferreira, o ministro afirmou que o nosso vizinho é um caso de “socialismo ruim”, em que “o regime está oprimindo o seu povo de uma maneira brutal, fazendo seu povo passar fome, inclusive atirar nas pessoas que tentam ter acesso a ajuda humanitária”. Exatamente como ocorre na Coreia do Norte, um caso de “socialismo do bem”, segundo Araújo. 

Chico Buarque – Olhos Nos Olhos 

Mais uma vez exercendo o seu cargo de pessoa razoável, o vice-presidente lembrou a razão para sermos tão complacentes com a Coreia do Norte: bombas nucleares.

Não é a primeira vez que o vice tem que lembrar ao 4chanceler como o seu trabalho deve ser feito. Podemos dizer que esse foi o primeiro momento “olha o Mourão mostrando que sem essas pessoas a nossa vida seria muito mais fácil” da semana. 

Seria bom que os militares continuem aproveitando a experiência que tem e jogassem para escanteio o nosso diplomata olavista preferido. O 4chanceler pode fazer muito mais pelo Brasil se as suas atividades forem resumidas a receber gente que seria vítima da guilhotina em seu gabinete.

República das Bananas do séc. XXI 

Os últimos dias foram agitados na Venezuela, especialmente nas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. 

Deste lado da fronteira, o Ministério da Defesa teve que dialogar com militares venezuelanos para impedir que a área virasse uma reprise de Toma Lá, Dá Cá

Já do outro lado, o governo mandou queimar a ajuda humanitária que foi enviada através da divisa colombiana. Se havia o medo do envio de armas dentro da carga, bastava verificar os pacotes. Daria até para contratar algumas pessoas para esse trabalho, e reduzir por algumas horas os índices de desemprego no país.

Os militares se dividem entre os que estão assaltando a população que foge do país e matando índios, os que seguem apoiando o governo e os que estão desertando. Junto com o prefeito da cidade venezuelana de Gran Sabana, os últimos são parte de um grupo nada pequeno de pessoas que não aguentam mais os problemas causados pelo governo já estragado de Maduro.

Para o horror do Trump, do presidente da Colômbia e daquele seu amigo do PSOL que ainda acha que uma intervenção militar pode ocorrer na Venezuela, o Grupo de Lima demonstrou zero interesse nessa história, ao menos por enquanto. Segundo o vice-presidente-que-ninguém-gosta-de-gostar, a melhor estratégia ainda é o diálogo

Enquanto isso, o presidente, que não é muito bem um presidente, fez um tour pelos países da América Latina para reforçar a necessidade de derrubar Maduro. 

Um Gilmar para o Gilmar

Gilmar Mendes foi flagrado cotando o preço de passagens para a China. O ministro do STF fez uma vaquinha com Dias Toffoli para criar o seu próprio Gilmar Mendes e, assim, se proteger das análises da força tarefa da Receita Federal contra as fraudes fiscais

A Nova Era está enferrujada 

De acordo com a última pesquisa divulgada pela CNT/MDA, o governo Bolsonaro tem menos aprovação do que Dilma Rousseff às vésperas de sua segunda eleição. Aparentemente, o Brasil não está gostando do resultado de ter eleito um presidente “burro”, “fascista”, “desonesto”, “desqualificado”, “racista”, “corrupto”, “canalha”, “nepotista” e “boquirroto”.

A pesquisa também revelou que a flexibilização da posse de armas não é aprovada por 53% dos entrevistados e a reforma da previdência só recebe o apoio de 43% dos brasileiros. O Brasil crescerá muito quando as pessoas deixarem de votar nos políticos apenas para serem contra algo ou alguém.

Mais liberal do que eu? 

Na manhã do dia 26, as principais montadoras brasileiras pediram, de novo, novamente, mais uma vez, que o Brasil as proteja contra a concorrência de outros países. Dessa vez, o ataque foi direcionado a um acordo de livre comércio entre Brasil e México, que deve entrar em vigor em menos de um mês. 

A notícia é um refresco na memória, lembrando a todos que o verdadeiro liberalismo tupiniquim ainda está restrito a algumas salas do Insper e da PUC-RJ. Quem pensou que dessa vez ele ocuparia as esquinas do Planalto pode terminar de tirar o cavalinho da chuva. 

Pequenas notas do quinto dos infernos 

Enquanto parte do governo falava e fazia vários absurdos para a surpresa de ninguém, várias pequenas coisas interessantes aconteceram. Tomem nota: 

Gold Digger

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro e condenado a quase 200 anos de prisão, admitiu os crimes que todo mundo sabia que ele cometeu. O “viciado em dinheiro” começou a listar, também, algumas pessoas que podem ter se envolvido em esquemas de corrupção durante o tempo em que ele esteve no poder. No lugar da Igreja, uma boa estratégia seria listar algo realmente interessante: o judiciário. 

A relação de Cabral com os membros da Justiça é longa. Ele influiu em decisões do Tribunal de Justiça do Rio, apadrinhou quatro ministros do STJ e até mesmo um ministro do Supremo. Esses favores não devem ter saído de graça

Bandido bom é bandido amigo 

A cada notícia sobre o que aconteceu nas vizinhanças do gabinete de Flavio Bolsonaro enquanto ele batia ponto na Alerj, mais a família Bolsonaro se aproxima de milicianos, os bandidos cujo crime foi amar demais um poder policial paralelo. A Istoé relevou que Valdenice de Oliveira foi uma das responsáveis pelas contas de campanha do senador, a ex-funcionária do 01 é irmã de dois milicianos que, até o momento, estão presos. 

Já a Veja mostrou que a mãe e a esposa de Adriano Magalhães de Nobre, apontado como líder do Escritório do Crime, também trabalharam no gabinete. Resta saber se o “escritório” de Adriano não tinha nenhuma filial no gabinete do ex-vereador. 

Gado demais 

A revista IstoÉ trouxe dados sobre como o dinheiro de 1,4 mil eleitores foi aproveitado por Bolsonaro em campanhas de outros políticos. A verba de R$ 345 mil teria sido direcionada para os filhos Eduardo e Flávio, além do deputado Hélio Lopes.  

Governo Bolsonaro: lamba o saco de cocô ou deixe-o 

Na última semana, Sérgio Moro foi lembrado que, assim como Paulo Guedes, a sua autonomia no governo não é lá das maiores. Mostrando que se ele não quer continuar manchando a sua carreira com episódios lamentáveis, uma boa alternativa é correr para o posto do INSS mais próximo e ver se ainda consegue se aposentar antes da reforma passar.  

É aproveitar a janela de oportunidade ou continuar engolindo sapo para tentar virar ministro do STF ou, quem sabe um dia, presidente do país

Regina_Duarte-Eu_tenho_medo.mp4 

O fato de Bolsonaro ter obrigado Moro a desconvidar Ilona Szabó de uma suplência no Conselho de Políticas Criminais e Penitenciárias serviu para lembrar que a Nova Direita nunca será transante. Não se continuar com medo até das mulheres que não mandam em nada. O caso virou mais um item na longa lista de provas de que o governo só serve para obedecer os seus eleitores. 

Partido-à-Prova de Balas 

Quanto mais matérias são feitas sobre o PSL, mais o partido parece ser uma versão nacional da Quadrilha da Morte. Na última semana, o Buzzfeed News acusou o ministro Marcelo Álvaro Antônio, já suspeito de gerir a filial mineira do laranjal da sigla, de tentar extorquir uma candidata a lavar dinheiro para o partido

Já o The Intercept Brasil lembrou que o presidente realmente gosta de coisas que não existem. Além de uma ameaça comunista que nunca atingiu o Brasil, Bolsonaro também é afeito a assessores que não trabalham para ele, mas certamente recebem para isso. 

A sanha por laranjas é tanta que até mesmo na lista de debates na Câmara os deputados do partido assinam pelos colegas

O PSL, ao fim e ao cabo, é uma fábrica de suco de laranjas, comandada por um Tonho da Lua, um ator pornô, uma jornalista conhecida pelos plágios, militares e youtubers. Se tudo der certo, em quatro anos, a esquerda que chamava o PSDB e o Tio Rei das piores coisas existentes na Terra estará sentindo falta de opositores com algum nível sociológico e cultural.


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Com edição e revisão da Luana de Assis.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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