Bolsonaro jura que não é fascista. Mas como todo populista reacionário, ele realiza um ótimo cosplay de Mussolini do século XXI quando lhe é conveniente.


Hoje eu acordei e deu uma saudade do Petê

A jornalista Luiza Bandeira reuniu no Twitter um conjunto de links que mostram como os maiores blogs pró-governo estão ligados ao partido do presidente. Assim como Caio Coppolla, parece que o Terça Livre não é muito livre, o Conexão Política está bem conectado com dinheiro da política e a República de Curitiba pode se encontrar com milicianos facilmente.

Políticos criando os seus próprios jornais para divulgar as suas opiniões não é algo novo no Brasil e em nenhum lugar do planeta, mas os petistas pelo menos faziam isso de uma forma mais discreta.

⬆️ protecionismo econômico ⬇️ liberalismo econômico

O episódio dessa semana do seriado “liberais que apoiaram Bolsonaro passando vergonha” teve o presidente dando uma banana pra abertura econômica: o presidente quer barrar a importação de banana do Equador.

O futuro avaliador da qualidade do ENEM diz não entender como uma banana sai do Equador e chega ao nosso país custando menos do que as frutas nacionais vendidas na Ceagesp. Alguém faltou nas aulas de economia enquanto batia papo com inocentes produtores do fruto amarelo, mas tudo bem, o blog explica com a ajuda do João Dória.

Na última semana, João Trabalhador anunciou uma redução (sim, mais uma) de impostos para a indústria automobilista. O que parece muito com liberalismo está mais para uma medida que cairia como uma luva no governo de Dilma Rousseff: um puro suco de protecionismo vertical direcionado a setores com maior poder de lobby.

Ao reduzir impostos de uma indústria com forte impacto ambiental, o governador de São Paulo está, mais uma vez, indo contra todos os pensamentos modernos de mobilidade urbana. Mas focando apenas nos fatores econômicos, Dória também ajudou a distorcer preços relativos, prejudicar a concorrência que se instala em outros estados e, em última instância, mantém o poder de compra do indivíduo limitado a uma meia dúzia de carros caros e de qualidade duvidosa. Adam Smith estaria orgulhoso.

E a democracia, hein?

Se os generais do governo ganharam um banho de loja, chegou a hora dos civis ganharem um banho de democracia.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mais uma vez esqueceu que o seu cargo foi criado para cuidar do meio ambiente (e não da vida alheia). Após uma coluna de opinião em jornal Alemão criticar o governo, Salles comparou a posição do colunista com o nazismo. Um dos trechos dizia:

São pessoas que agem e falam com arrogância e crueldade. São pessoas que riem quando morre uma criança de sete anos. Que comemoram quando a polícia comete massacres em favelas, quando morrem ambientalistas ou vereadoras negras. Pessoas que não conhecem a diferença entre flertar e assediar. Pessoas com relações com milícias. Pessoas que falam toda hora em Deus, mas mentem, xingam e difamam. Pessoas que gritam “zero corrupção!”, mas que são corruptas.

Questionado, o ministro informou que o veículo “atacou o governo brasileiro com acusações mentirosas e ofensivas”. Para outro internauta, Salles disse que “o DW é um canal público, não pode escrever essas coisas do Brasil”.

Ora, a Casa Civil não tem um beneficiário confesso de caixa dois? O ministro pode garantir que todos os membros do alto escalão sabem mesmo diferenciar assédio de paquera? Os Bolsonaros não homenagearam membros da milícia nos últimos anos? O Twitter presidencial não mente mais vezes do que um jovem usaria o banheiro após comer uma maionese artesanal na praia de Copacabana?

Antes de pautar a mídia de outros países, Salles deveria lembrar que, para isso, ou ele vira dono do próprio jornal ou se torna editor-chefe. No cargo de ministro, ele deve apenas aceitar as críticas que fazem parte do dia a dia de qualquer governante. A democracia tem dessas.

Enquanto isso, em um evento de militares, o presidente disse que as Forças Armadas são a instituição que garante a democracia no país. Me digam se eu estiver errado, mas a Constituição dá ao povo, e não aos militares, o poder de garantir a ordem democrática.

Não foi só o branco de cocar que atacou a imprensa, Bolsonaro também fez a sua parte no ataque a jornalistas, e dessa vez com ajuda do blogprog da pá virada Allan dos Santos.

Após uma péssima tradução, o “jornalista” acusou Constança Rezende de tentar destruir o governo. O presidente republicou a acusação, lembrando que ela é filha de um repórter carioca que publica, de maneira recorrente, matérias contra milicianos.

O site francês que originou a publicação desmentiu os dois no Twitter. Para alguém que ocupa o cargo político mais importante do país, Bolsonaro está precisando de umas aulinhas no CCAA, que seriam muito bem acompanhadas de um reforço no português de toda a família.

Pee tape à brasileira

O carnaval dos Bolsonaros foi agitado. Enquanto o Carluxo usa o Photoshop em suas fotos, o Bolsopai anunciava uma “Lava Jato da Educação”, falava sobre mudanças na Lei Rouanet e encontrava socialismo não light em lugares em que não há socialismo.

Mas o que chamou atenção dos internautas foi a divulgação de uma performance artística no carnaval, com direito a dedo no cu, gritaria e golden shower.

Alguns chegaram a cogitar impeachment por falta de decoro, algo que obviamente não acontecerá. Houve também quem questionasse até a saúde mental do presidente, e a base aliada teve vergonha.

Mas tudo isso é parte do seu plano e estratégia que, por sinal, tem dado muito certo.

Um conhecido uma vez disse, sabiamente, que política é entretenimento. E entretenimento é colocar todo mundo para falar de algo – seja bem ou mal. Isso, Carlos Bolsonaro, o ghost writer do Twitter presidencial, soube fazer muito bem.

Política é construção de narrativas. A política feita por Bolsonaro, Trump e similares tem como ponto de partida uma manipulação contínua do debate público a partir de divulgação de vídeos, como o do golden shower, ataques à imprensa e mentiras. Já é hora de nos acostumarmos a isso, isso se quisermos deixar de ter as nossas discussões pautadas pelo Tonho da Lua carioca.

A tucanização dos não tucanos

Se a esquerda e/ou o centro do espectro político pretendem voltar a governar o país um dia, chegou a hora de começar a olhar mais para o presente e não para o passado. O Brasil de Bolsonaro está muito mais próximo da Rússia de Putin (ou dos EUA de Trump) do que da Alemanha de 1940 ou o Brasil de 1964.

O Partido dos Trabalhadores, que recebeu a maior quantidade de votos contra-Bolsonaro na última eleição, está fazendo de tudo para perder o capital político mais rápido do que Aécio Neves após as eleições de 2014.

Segundo o Painel da Folha de S.Paulo, o partido pretende defender como contra proposta à reforma da Previdência de Guedes, as medidas que Fernando Haddad inseriu em seu programa de governo nas últimas eleições. Ao menos era o que o partido queria fazer antes de Gleisi Hoffmann ser consultada.

Alguém lembra quando o PT cobrava do PSDB uma oposição programática, que não fosse apenas “contra tudo isso que está aí”? Eu lembro. Era a mesma época em que o próprio líder do governo sabotava a Dilma no Congresso de manhã, e à tarde apontava o dedo para os tucanos e o resto da base aliada.

Falando em aliados, a mídia (e parte da militância progressista) resolveu brincar de shadow cabinet e criar um governo paralelo para criticar Bolsonaro e Guaidó. A iniciativa é liderada por José de Abreu, aquele que já cuspiu em mulher, disse que não era hétero só de brincadeira e chamou vietnamitas de um “povo filho da puta”.

Glesi Hoffmann, quando convidada, não perdeu a chance de ir até a Venezuela validar a “eleição” do projeto de ditador que governa o país. O coordenador do MST, aquele que o presidente quer criminalizar, também não deixou de apoiar o governo nada democrático quando lhe foi possível.

Se ambos querem ajudar a direita a grudar na esquerda uma imagem de movimento pouco democrático, eles merecem uma medalha: o trabalho está sendo realizado com louvor.

Eis o Brasil em 2019: a maior força contra o governo segue sendo o próprio governo. Na semana em que a reforma da Previdência começou a ser negociada no Congresso, o ministro da Casa Civil viajou por quatro dias para à Antártida.

Bolsonaro, por outro lado, começou a desidratar a reforma antes mesmo que ela fosse lida pelos congressistas. O presidente, que pouco fala sobre o projeto mais importante do governo no Twitter, já se mostrou disposto a reduzir a idade mínima para as mulheres e a mudar o BPC.

Pelo visto os dois ex-deputados passaram muito tempo discutindo abobrinha nos anos em que estiveram na Câmara dos Deputados, já que só isso explica o esforço para não aprovar qualquer medida importante na Câmara.

Quando se tornaram obrigados a brincar de realpolitik no Planalto, Onix e Bolsonaro mostram ter menos capacidade para governar do que certo deputado mineiro teve de esconder os seus pedidos de empréstimos para fins duvidosos.

A coisa tá tão feia que agora precisamos contar com a boa vontade dos militares para diminuir o número de absurdos diários que cada setor promove. Os militares, por sinal, estão tão empenhados no seu papel de Poder Moderador Moderno que há quem questione a necessidade de termos um vice-presidente.

Veja bem, a situação do governo Bolsonaro não é uma que faça o trabalho da oposição ser difícil. Além de todas as denúncias sobre o grande laranjal que é o PSL, as várias ligações do presidente com milicianos e as briguinhas internas, ainda por cima a economia não vai bem.

Em 2018, crescemos 1,1%. Em 2019, não deveremos crescer muito mais, e qualquer pessoa que já leu um livro de economia básica sabe que a reforma da previdência será tão boa quanto a trabalhista para criar empregos. Em 2020, é bem provável que o cenário se repita.

Essa seria uma ótima oportunidade para as forças de oposição seguirem o exemplo do PSB e do PDT e se unirem. O que se vê, no entanto, é o principal partido da oposição se colocando contra um político de outro país. Já o PSOL, que não tem voto para eleger sequer um síndico de condomínio, está muito ocupado marcando posição com brincadeira, mentindo ou ignorando que o presidente fala mais de multa do que a reforma.

Tudo bem, vocês querem vencer a “batalha moral” criticando quem vai até o lugar em que as narrativas da direita reacionária correm soltas. Mas poder gera poder, e nesse ritmo, só os conservadores conseguirão ampliar a sua força.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da Luana de Assis.


Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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