A décima terceira semana do governo de Jair Bolsonaro não foi marcada apenas por “probleminhas”. O governo insistiu em errar feio, errar rude. Não deu outra: problemas que não existiriam em um governo minimamente normal ganharam o noticiário da semana.


Neros à brasileira 

Como se a maior urgência do país fosse o último filme em cartaz, o governo resolveu usar o seu tempo livre para brigar com as únicas pessoas que podem barrar as suas ideias de jerico, e nessa história, até quem está (oficialmente) do lado de fora da administração entrou para ajudar. 

Moro resolveu brincar de lutador de UFC e ter sua própria luta com Maia. Entre recados, entrevistas e mensagens, o ministro da Justiça fez de tudo para garantir que o seu pacote de segurança fosse tratado com o maior desprezo possível pelo presidente da casa legislativa. 

Os embates começaram depois de Maia criar um grupo para debater, em até 90 dias, o projeto de lei anticrime de Moro. O ministro não gostou, cobrou do carioca uma satisfação e foi repreendido.

Na manhã do dia 20, Moro afirmou publicamente que não via problema na tramitação do projeto em conjunto com a reforma da Previdência. Maia rebateu comparando o funcionário do presidente Bolsonaro” com a Joice Plagelman. O presidente da Câmara também afirmou que o ex-juiz está “confundindo as bolas” (no pun intended) e que “ele não é presidente da República”. 

É foda quando o martelinho de juiz não aparece quando você precisa obrigar alguém a fazer algo.

A briga de Moro se mostraria, nos dias seguintes, nada perto do que o resto do governo conseguiu fazer em termos de procurar briga com o Congresso. 

Enquanto Moro discutia com o presidente da Câmara, Carlucho se perguntava o “motivo da raiva de Maia” no Instagram. A mensagem fez parte de uma sequência de postagens contra Maia nas redes sociais pró-governo comandadas pelo vereador, e os perfis a ele conectados.  

Maia avisou que era melhor diminuírem o tom. Não diminuíram e, quando questionado pelo Planalto sobre a entrega do projeto de reforma da previdência dos militares, simplesmente mandou “entregar na burocracia da Câmara“. 

A semana chegava ao seu fim, mas o bate-boca prosseguiu. Na sexta-feira (22), Maia lembrou que o presidente precisa “ter mais tempo para cuidar da Previdência e menos para rede social“. Em entrevista à Folha de S.Paulo, avisou que, no momento em que o governo quiser, é só avisar que ele pautará a votação

Ainda no Chile, Bolsonaro afirmou que a prisão de Temer estava dentro dos acordos que são feitos para garantir a governabilidade. Maia relembrou ao presidente que as coisas não são bem assim, e que apesar da reforma trabalhista do Temer, a articulação política não pode ser terceirizada

Esquecendo tudo o que fez nos 30 anos no Congresso (e olha que não foram muitas coisas), Bolsonaro também afirmou que a sua parte no dia a dia da política se resumia apenas à entrega das propostas de reformas e “alguns não estão acostumados a fazer a nova política”. 

O “professor Maia”, novamente, teve que lembrar ao presidente a vida como ela é. Ao lado de João Dória, governador de São Paulo, o presidente da Câmara disse que não usa “as redes sociais para agredir ninguém. Vivemos numa democracia e, nela, o Executivo não está acima dos outros poderes“. No mesmo dia, Maia também afirmou que o governo é um “deserto de ideias“.

A base, com inveja do bafafá, também resolveu entrar na história. O líder do governo na Câmara, major Vitor Hugo, afirmou que era a hora de cada um “escolher de que lado está”. Para piorar as coisas, o deputado do PSL insinuou que negociar apoio é algo equivalente à corrupção

E lembram daquela sequência de tweets do Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, que apontamos aqui na semana passada? Maia deu outra aula grátis de política, e lembrou que essa história de brincar de revolução populista não funciona bem na democracia. 

Vácuo no poder não existe, e na construção de articulações políticas, também não. A semana começou com o Centrão tentando emplacar a reforma de Michel Miguel no lugar da proposta de Bolsonaro. Percebendo que o balde de leite já estava prestes a ferver, os ministros Onyx Lorenzoni, Augusto Heleno e Carlos Alberto Santos Cruz pediram trégua nas redes sociais.

Os ministros também ligaram para o ministro Posto Ipiranga, mas ele estava ocupado. Já o presidente, por outro lado, resolveu ver um filminho no meio da semana. 

No clima de dedo no cu e gritaria, um projeto de emenda constitucional de 2015 foi desengavetado, e aprovado com uma velocidade que daria inveja a Eduardo Cunha. O projeto reduziu (ainda mais) a flexibilidade do orçamento, e obriga o governo a repassar ao menos R$ 125 milhões para cada estado. Houve quem tentou transformar isso em vitória do Planalto (ainda que Guedes defenda movimentos no sentido oposto). 

Aprovar uma reforma da Previdência não é algo fácil, e mesmo com 13 partidos apoiando pelo menos parte da proposta de Bolsonaro, a líder do governo também partiu para o ataque, e dessa vez o foco foi um partido que estava apoiando a reforma de graça

Em entrevista ao Datena, Bolsonaro insinuou que Maia estavaemocionalmente abalado. Maia retrucou colocando o presidente em seu lugar, e na sua tréplica, Bolsonaro fez cosplay de FHC, esqueceu tudo o que já escreveu e exigiu responsabilidade do presidente da Câmara

Na quarta-feira (27), Guedes resolveu bater na porta da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado. Além de caçar briga com Katia Abreu (dessa vez sem receber uma taça de vinho na cara), ele lembrou que tem mais o que fazer da vida além de ajudar Bolsonaro

A quarta-feira, por sinal, foi um grande dia para o governo. O ministro da Educação Ricado Vélez foi até a Câmara mostrar que não sabe nada sobre o seu trabalho, e por incrível que pareça, segue no cargo. 

Após avisos de que o presidente está preso a suas ideias malucas tal qual um burro empacado, a briga com Maia tomou um novo rumo: o da paz. 

Mas a maior crise político-econômica da nossa história não acabou. Seguindo o exemplo de Dilma Rousseff da pior maneira possível, Bolsonaro mina as chances de sucesso de qualquer proposta de seu governo, antes mesmo do início da tramitação.

Governar só para convertidos não deu certo com a petista, não tem dado certo agora e dificilmente dará certo no futuro.

Enquanto isso, o presidente se comporta como um militante da UJS: luta contra todos aqueles que não façam adesão cega às suas ideias. Só que o Brasil não é a Unicamp e, portanto, talvez seja uma boa hora para começar a agir como o presidente da nação e conseguir, de fato, a confiança que o Congresso precisa para aprovar as suas ideias mirabolantes

10 pequenas notas do quinto dos infernos

A rememoração da comemoração

Na segunda-feira (25), o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, anunciou que o presidente instituiu ao Ministério da Defesa que fosse realizada uma celebração “devida” do golpe civil-militar que iniciou a ditadura, que além dos “probleminhas”, durou mais de duas décadas. 

medida pouco comum, especialmente ao considerarmos o ponto de partida da ordem, causou reações de protesto na sociedade civil. O Ministério Público pediu explicações e o ministro da Defesa tentou botar panos quentes, mas na base da mentira. 

A Defensoria Pública da União tentou, sem sucesso, impedir que o governo comemorasse a falta de democracia do período militar, e no final das contas, a “comemoração” oficial do Planalto foi resumida a um vídeo apócrifo pró-golpe divulgado pelo Whatsapp oficial.

Uma Estrela da Morte para chamar de minha

Surgiu no noticiário da penúltima semana a reforma promovida pelo governador de São Paulo, João Dória, do Palácio dos Bandeirantes. A iniciativa, entregue ao governo como doação por Joia Bergamo (algo proibido pelo código de ética estadual), exigiu ao menos R$ 1,1 milhão dos cofres públicos

Governantes que não valorizam a nossa história é algo comum ao processo político brasileiro. Monumentos, por sinal, se tornam relevantes apenas quando servem para a construção das suas narrativas políticas. 

Porém, assusta ao blog ver esse despreparo com a história do patrimônio público se traduzir em algo de tamanho mal gosto. A breguice dos membros da elite paulistana já é conhecida há vários verões, mas ao levar a falta de tato tradicional à gente branca dos bairros nobres da zona sul paulista para prédios governamentais, Dória não me deixa outra alternativa a dizer: era melhor deixar o prédio ser comido por cupins do que fazer isso. 

Em busca de uma mulher de César para a oposição 

Em meio ao show de horrores que foi a visita dos ministros ao Congresso, alguns socialistas criticaram Tábata Amaral por ter sido apoiada por Luciano Huck e uma organização política, que tem entre os seus apoiadores, um bilionário. O problema, conforme apontado por gente de baixa relevância, está nos posicionamentos centristas da deputada. 

Felizmente o PSOL não tem a capacidade de eleger o zelador do Planalto, e quem está realmente preocupado em construir pontes para tirar Bolsonaro do poder pode seguir em frente. 

Ao mesmo tempo, alguns petistas apontaram que a deputada não deveria ter a sua fala contra Vélez aplaudida, pelo fato dela ser favor de alguma reforma da Previdência (ainda que o partido tenha aprovado uma anos atrás) e não se posicionar contra a prisão de Lula. 

Os petistas, que estão com o filme mais queimado do que o arroz que eu fiz ontem enquanto assistia um filme, deveriam resolver os seus problemas internos, antes de querer cuidar da militância alheia. Especialmente se ela não quer “fuzilar a petralhada”

A nova política é rancorosa 

Na quinta-feira (28), o Ibama exonerou o responsável por multar o presidente em R$ 10 mil por pescar de maneira irregular em uma área protegida em 2012. José Olímpio Augusto Morelli foi o único funcionário que ocupava o seu nível hierárquico a ser exonerado pela administração. 

Aparentemente, usar o poder da presidência da República para anular a multa não foi o bastante. 

O mito que precisa de ajuda para mitar 

Após aprontar altas confusões com um dos três poderes, Bolsonaro foi atrás de estudos. Não, o chefe do executivo não buscou lições sobre teria do Estado: sem informar a imprensa, Bolsonaro terminou a sua sexta-feira (29) na “Escola de Hombridade”

O problema de escrever sobre o Brasil é que as vezes o noticiário consegue superar a nossa capacidade de comentar absurdos. 


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Com edição e revisão da querida Luana de Assis.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *