Falta remédio e sobra imbecilidade no governo


Não vai ter golpe (ou luta) 

A última terça-feira (30) começou agitada. Jurando ter o apoio de alguns militares (não tinha), Juan Guaidó e Leopoldo López se uniram para convocar a população venezuelana a finalmente derrubar o regime de Maduro. A “Operação Liberdade” pretendia dar um fim definitivo a “usurpação”.

Ao longo do dia, alguns veículos militares avançaram contra pessoas, as redes sociais foram bloqueadas e 46 rádios foram fechadas, além de emissoras de TVs e 20 jornais. Enquanto isso, Maduro segue no poder.

projeto de intentona de Guaidó elevou o número de mortes registrados nos protestos pelo país. A contagem já passa de 50 pessoas só no ano de 2019 (e 80% dos casos estão relacionados com o trabalho das forças de segurança de Nicolás Maduro, que considera um “combate” a “qualquer força golpista”).

Guaidó acabou não conseguindo o que queria (por enquanto) e já começou a falar em medidas pesadas, como uma intervenção externa. No norte das Américas, o governo do EUA sorriu com a lambida gratuita de bolas.

Leopoldo Lopez, por outro lado, se deu bem: no final do dia, ele assistiu a única manifestação de Maduro sobre o tema direto da Embaixada espanhola, onde está exilado.

Do lado de cá da fronteira, Jair Bolsonaro afirmou em seu Twitter que o presidente da República (e somente ele) decidirá qualquer ação brasileira na Venezuela. Novamente, o presidente da Câmara e agora professor de Constituição, Rodrigo Maia, lembrou ao presidente que é “competência exclusiva do Congresso autorizar uma declaração de guerra”. Faltou a Bolsonaro comentar se o governo adotará uma postura humanitária com os novos refugiados ou fará um cosplay de Donald Trump, que tem mais poder de bala do que a gente.

O fato é que, seja como for, quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

A Venezuela se tornou a versão moderna da Crise dos Misseis, com a Casa Branca e o Kremlin, disputando quem tem mais controle sobre o país. Mas assim como o nosso presidente se recusa a apontar um plano de ação para os refugiados que chegam na nossa fronteira, ambas as nações ignoram a proliferação de grupos armados paramilitares pró-Maduro, guerrilheiros colombianos, gangues de rua, soldados russos e espiões cubanos pelo território da Venezuela. O importante mesmo, como sempre, é o direito de explorar mais os petrodólares do país.

O espírito da balbúrdia

O novo ministro da educação está fazendo de tudo para dar razão àqueles que levam Darcy Ribeiro a sério: na gestão de Abraham Weintraub, o desmonte na educação virou um projeto. E a sua base é rancor, birra ideológica e loucura argumentativa.

Na última terça (30), o ministro informou ao Estadão que pretendia cortar verba de universidades que promoveram a “balbúrdia” em seus campus (carece de fontes) e não estavam “bem no ranking” (o que não é o caso). A medida surgiu, provavelmente, após algum estagiário lembrar que não há como descentralizar o investimento em humanas, como o presidente disse que o ministro faria em seu Twitter.

A Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade de Brasilia (UnB) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) foram as três vítimas. Para o ministro, as instituições deveriam estar “com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo” (como promover debates com Fernando Haddad e Guilherme Boulos e “atos contra o fascismo”).

No dia seguinte, o ministro acusou os reitores das universidades públicas de serem intolerantes no Twitter. Weintraub, porém, falhou em mostrar provas de que os reitores estavam copiando as suas ideias e atitudes.

Como cortar verbas por viés ideológico não pode, o ministro estendeu o corte de verbas para todas as instituições de ensino federais usando como justificativa a diferença entre o investimento realizado em um aluno do ensino superior e do ensino básico. Logo depois, ampliou os cortes também para o ensino básico que não está nas mãos de militares.

Educação é coisa séria e merece um debate que vai além de birra e lacre reaça no Twitter. O ministro  poderia ser chamado de CEO do olavismo educacional e ministro da educação reversa. Weintraub constrói o seu apoio destruindo os símbolos daquilo que o Guru da Virgínia decidiu ser um dos maiores inimigos do governo: as áreas capazes de concentrar correntes de pensamento que vão contra as suas ideias malucas.

O ataque à posição de Paulo Freire como patrono da nossa educação se torna pequeno diante dos ataques que o governo já cometeu contra a rede pública, isso tudo em poucos meses. Felizmente tem faltado tempo para pensar no Escola sem Partido, mas o ministro chegará nessa pauta antes mesmo que as instituições de ensino parem de vez e os estudantes de engenharia assistam aulas sobre a Escola de Frankfurt.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

O ministério do não ambiente 

Não são só as caminhonetes do Ibama que pegam fogo. No que depender do ministro do diploma falso, toda política a favor da conservação do meio ambiente e do clima construída nos últimos anos virará pó em breve.

No dia 24 de Abril, três diretores do ICMBio saíram do seu cargo após o antigo presidente do instituto, Adalberto Eberhard, ser trocado pelo comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. Aproveitando a oportunidade, Salles terminou de trocar a diretoria nomeando mais militares e transformando o instituto de conservação ambiental em um batalhão.

Salles, o ministro com um passado duvidoso, concluiu com esse movimento mais uma etapa do seu processo de nomeação de gente com experiência não comprovada para a promoção das políticas de meio ambiente de Bolsonaro.

O ministro contratado para conservar, pelo visto, não sabe bem o que a palavra significa, mesmo fazendo parte de um governo conservador (pun intended). A pedido da base ruralista, Salles já estuda anular a criação do Parque Nacional (Parna) dos Campos Gerais. A maior floresta de araucária protegida do mundo corre o risco de ser explorada pela agropecuária e pela mineração (como se faltasse espaço para essas atividades no país).

Sobra convicção para Salles ajudar o país a destruir o meio ambiente e falta convicção para o ministro defender as suas ideias em ambientes que não sejam a dócil bancada do programa Pânico, na rádio Jovem Pan FM.

O governo novo, com gente semi-nova e práticas velhas sendo restauradas 

Romeu Zema chegou no governo prometendo muito, vendo ia cumprir pouco e se atrapalhando na tentativa de entregar qualquer coisa. As confusões são tamanhas que, após 100 dias de governo, eu confesso que o Novo deveria avaliar se ele não é um agente infiltrado para destruir a imagem do partido.

Se fosse para apontar os dedos para algum lado, aliás, eu diria que o empresário trabalha para o Partido dos Trabalhadores. Zema cometeu tantas trapalhadas enquanto tentava ser um simulacro mineiro de Bolsonaro que eu só consigo acreditar que ele foi treinado pelos petistas para impedir que o Novo ganhe espaço até na sindicância de um prédio na Barra da Tijuca.

A promessa de acabar com as práticas da velha política não durou muito tempo. O secretário do meio ambiente de Pimentel, por exemplo, foi mantido. O fato de ele estar indiretamente ligado às confusões que levaram Minas Gerais a ser palco de dois graves acidentes ambientais não foram suficientes para o processo seletivo do Novo ter barrado a nomeação de Germano Luiz Gomes Vieira.

Nas estatais, os mandatários indicados por Pimentel também foram mantidos e para completar as semelhanças administrativas, dois acusados de criminhos (nesse caso, estupro e prevaricação (e não um assaltante foragido, como fez o petista)) foram nomeados para os cargos de diretor regional e secretário adjunto. 

Aparentemente, essa história de processo seletivo para cargo comissionado só serviu para mostrar que a equipe de um provável governo Anastasia era muito boa, dada a quantidade de tucanos que agora frequentam a Cidade Administrativa. E que que há gente por aí querendo trabalhar em troca de reforço do portfólio, ao contrário do que o governador gostaria que fosse a realidade.

O cosplay de petista do Zema não para nas nomeações. Quando o seu governo começou a ser criticado por limpar as bolas de executivo da Vale e da Samarco com a glote e não solucionar os problemas fiscais de Minas Gerais, o dito liberal age segundo a cartilha petista de terceirização de culpa: matéria negativa sai n’O Tempo? Perseguição da família Medioli! A sua falta de capacidade de lidar com o dia a dia da política, que já foi motivo de crítica da base que não bem base, da oposição e dos deputados do partido? Culpa da velha política!

A realidade, é claro, bate no gabinete do governador com força e vontade. Evitando atrasar ainda mais a aprovação da sua reforma administrativa, Zema recuou sobre os cortes imbecis na escola em tempo integral (aquela que apoiadores afirmavam com empolgação que era um mal necessário e deveria passar a todo custo).

Essa (e outras alterações) foram chamadas de vitória pelo líder do governo. Afinal de contas, ter o seu projeto mais importante modificado nos pontos principais pela Assembleia só pode ser um bom sinal.

A grande questão, aqui, é que os problemas de Minas são urgentes. A redução de secretarias não se traduziu em maior eficiência administrativa e ainda gerou custos quando o governo viu que precisava recontratar quem demitiu. O Palácio das Mangabeiras (que o governador queria transformar em museu) segue gerando gastos (junto com os PMs que vigiam a sua casa na região da Pampulha quando ele não está fugindo de protestos).

Minas Gerais enfrenta uma das epidemias de dengue mais graves da sua história e o governo sequer corta a grama do próprio jardimVender os aviões da frota estadual não deu certo. Rapidamente o governo viu que isso não dá bilhão, pode sair caro e, no final do dia, o privilégio de ter um jatinho e um helicóptero de uso pessoal (mesmo que seja para entregar medalha para cuzãoé muito bom. Na verdade, é bom para caralho.

É de assustar o amadorismo do governo. Aécio Neves pode ser burro (e bonito (e imoral)), mas pelo menos soube se cercar de pessoas com boa capacidade de se articular politicamente e evitar o tipo de ideia imbecil que causa um impeachment (ou dois) fossem executadas.

Há quem trate governos como patos. Se esse for o caso, o governo de Romeu Zema está se mostrando um pato que quer ser cisne, não sabe nadar mas é ótimo na hora de ser demagogo.


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Escrito pelo Guilherme, editado e revisado pela Luana.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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