The following takes place between may-07 and may-13. 


Não se prende uma idéia 

No começo da semana, a denúncia contra Michel Miguel tornou-se pública. O presidente, que agora pode pedir música no Fantástico pela segunda vez, mal sabia que este era apenas o primeiro dos problemas que ele enfrentaria até a publicação deste post.

Na quarta-feira (08), os desembargadores do Tribunal Regional da 2ª Região anularam o habeas corpus que foi concedido em março ao libriano. Isso levou o ex-presidente a ser preso preventivamente pela 2ª vez neste ano.

Com “toda tranquilidade e com toda serenidade”, Michel Miguel aguardou o Superior Tribunal de Justiça conceder a ele um novo habeas corpus. Novamente, a justiça foi feita. Temer, que antes de ser um político e um ex-presidente, é uma ideia, voltou aos braços do povo.

O blog aguarda com carinho a versão de “Memórias do Cárcere” do nosso vampirão.

Tiny dick economy

Na economia, o que já não estava bom, piorou mesmo após dar sinais de que talvez não ficaria tão ruim. Em março, 43 mil vagas de empregos formais foram fechadas. Há gente vendendo a cueca para comprar a pipoca da janta e a nossa população já está endividada nos mesmos níveis de 2016.

A imprensa também informou que, após 21 anos, deixamos de ser um dos 25 melhores países para investir conforme a lista elaborada pela consultoria A.T. Dois anos atrás o país era o 17º colocado no ranking.

Se o presente não é melhor do que o nosso passado, o futuro também não é promissor. Além da bomba que poderá estourar no próximo mês, o governo lida com um conjunto de cinco litígios no STF que podem gerar um gasto de mais de R$ 147 bilhões.

Mesmo sabendo que faltará dinheiro inclusive com a reforma da Previdência, Bolsonaro anunciou que o governo realizará a correção da tabela do imposto de renda pela inflação a partir de 2020. Uma medida fiscalmente justa, mas que pode gerar perda de arrecadação em um cenário onde Paulo Guedes conta as moedinhas nos cofres do Tesouro para pagar a conta de luz.

Uma forma de reduzir o problema seria o fim do sistema de dedução de gastos com saúde e educação do IR. Ideia de Paulo Guedes, esta é uma das poucas boas notícias da área econômica da última semana (ainda que, junto com todas as mudanças no Imposto de Renda, só nos levará mais para o buraco).  

Conforme o congresso se mostra menos amigo ao governo (com razão), as reformas que a nação precisa são deixadas de lado, os gastos crescem e o relógio começa a contar o momento em que as bombas explodirão. Mesmo que o Planalto aprove alguma reforma da Previdência no segundo semestre, libere novos saques em contas inativas do FGTS e privatize o esgoto (ou mesmo a Infraero), o mercado continuará diminuindo as previsões de crescimento dos indicadores econômicos.

A promessa de melhoria econômica feita em outubro não aconteceu. Resta saber quando é que poderemos cobrar resultados do governo.

Tiny dick government

Após muito apanhar no Congresso, o Planalto cedeu e anunciou que pretende recriar dois ministérios. A volta das pastas das Cidades e da Integração Nacional não ocorrerá, porém, por uma revisão das ideias administrativas de Bolsonaro sobre a estrutura do Estado. Isso é “velha política” mesmo.

Conforme apurou o Painel da Folha de S.Paulo, os novos ministérios serão gerenciados pela cúpula do Congresso. Isso representará mais R$ 4 bilhões nas mãos dos parlamentares em troca de apoio na Câmara. O blog segue achando muito divertido todos os momentos em que a realidade bate à porta do gabinete presidencial e Bolsonaro é obrigado a dividir fatias do poder para poder governar.

Na mesma semana, Bolsonaro disse que os militares que homenagearam o ex-ministro do partido Stalinista não estão enfrentando problemas graves com a ala do “Trotsky de direita“. “Tudo um time só”, disse Jair. Mas quem discordar do governo ou brigar com qualquer um dos filhos do presidente, vai dar ruim.

Seguindo esse pique, com o governo se inviabilizando sozinho, a oposição já pode abrir a latinha de cerveja e sentar na torre de TV de Brasília enquanto assiste a gestão de Bolsonaro pegar fogo. Pouco a pouco caminhamos para um parlamentarismo de coalizão em que o Planalto twitta muito e não manda em nada.

As baixarias que fazem parte do governo Bolsonaro são dignas de uma novela das 22:00. Já Cunha vs Dilma, perto do que temos hoje, parece o seriadinho Sandy & Junior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Malthusianismo às avessas

No Rio de Janeiro, o excelentíssimo governador Wilson Witzel resolveu brincar de Rambo, montou em um helicóptero e sobrevoou comunidades de Angra dos Reis enquanto anunciava em suas redes sociais mais uma ação do governo: o “cancelamento de CPF” de pobre.

A ação se uniu a mais um dos vários momentos em que o governador, que jura que o seu programa de segurança pública não envolve apenas matar pobre, colocou a PM para matar pobre inocente. Sobrou até para uma tenda de oração.

Na comunidade da Maré, não foi diferente. A política matou dezenas de pessoas durante o mês, com direito a outro helicóptero atirando na direção da população no horário em que crianças saíam da escola.

Como apontou Reinaldo Azevedo, não há indicadores de que as balas utilizadas no Rio de Janeiro conseguem atingir apenas a população negra e pobre que se envolve no crime. E, a julgar pela cor de quem é morto pela PM de Witzel, elas também não são muito boas em atingir apenas aqueles que estão os envolvidos nas facções criminosas mais perigosas do estado.

Se o governador, que também é influencer de Instagram, gosta de pobre, ele finge tão bem quanto direciona os esforços pacificadores do seu governo. Milicianos, para o ex-juiz, não são um problema grave de segurança pública. Gente que não é suspeita de ser criminosa, sim.

E olha que eu nem resolvi abrir um interlúdio apenas para comentar a não matrícula dos filhos em colégios públicos, a ausência de apoio à população que morreu no desabamento de um prédio em área de milícia e o não uso do SUS.

Enquanto isso, em Brasília, Bolsonaro mudou as regras sobre uso de armas e de munições. Agora, proprietários rurais (não necessariamente os que estão ligados ao Movimento de Trabalhadores Sem Terra), caçadores (não necessariamente de comunistas), caminhoneiros (que a qualquer momento podem entrar em greve) e até jornalistas terão mais liberdade para portar e circular com as suas armas de fogo. Também definiu como até 5 mil o número de munições por arma de uso permitido por ano.

No STF, no Senado, na base e na Câmara já há quem conteste a constitucionalidade da ideia. Ou apenas planeje a sua derrubada.

O Brasil de 2019 é o país do malthusianismo às avessas. PM atira de cima de helicóptero naqueles que são “pretos de tão pobres e pobres de tão pretos” e que moram em casas com telhado de amianto. Se as balas não os atingirem, são obrigados a trabalhar sem EPI.

Quando vão ao bar morrem por conta de uma bala perdida atirada por um caçador de comunistas em situação de estresse emocional ou por comer algo com excesso de agrotóxico. Afinal de contas, remédio para cuidar de doença de pobre acabou.

A julgar pela capacidade de nossos políticos de impedir a população de sobreviver até chegar aos 65 anos, vamos precisar de uma reforma da previdência antes de 2033.

Neoliberalismo bovarista

Os ataques do ministro da educação continuaram na 19ª semana de governo Bolsonaro. Em audiência no Senado na terça-feira (07), o ministro (que já tinha aprontado muito na semana passada) classificou os programas de financiamento estudantil voltados para o ensino superior de “tragédia”.

Na mesma quarta-feira em que o governo alemão anunciou 160 bilhões de euros para pesquisa, o governo bloqueou as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) utilizando como base as metas de contingenciamento “determinadas pelo Ministério da Economia”.

O corte, que na teoria é contingenciamento mas na prática é uma chantagem, pode parar o ensino público federal no próximo semestre. Apesar de duvidarem dos conhecimentos do ministro, ele certamente sabe o que faz.

Não assustou o blog o corte de gastos feitos em um momento economicamente complicado. A novidade, como apontamos na última semana, está no revanchismo ideológico do “exterminador do futuro, o aniquilador de gerações e idólatra da ignorância” ao justificar as medidas de “””reajuste””” orçamentário que lembram o nazismo.

No governo Bolsonaro, o pouco neoliberalismo que existe se tornou um “liberalismo bovarista“. As medidas não são tomadas para promover liberdade econômica, política e individual. O ajuste, a privatização e o corte de gastos servem apenas para atingir tudo aquilo que o governo não gosta: pobre, estudantes críticos ao governo, áreas que produzem conhecimento comprometidos com a verdade (e a balbúrdia nos horários não comerciais) e até mesmo programas que seriam plenamente defensáveis sob uma ótica liberal.

Se ainda existem liberais dando apoio para o que o governo faz fora das dependências do Ministério da Fazenda, talvez seja a hora de repensar as suas atitudes. Há cinco meses no poder, a Nova Era caminha a passos largos para ser a idade do obscurantismo, da intolerância, do protecionismo, da luta contra a razão e de um liberalismo que finge ser econômico, mas não o é. Não há coerência de discurso que possa justificar o adesismo tão fácil a um governo que até o momento tem como único mérito não ser petista.

Toca a vinheta do Curb Your Enthusiasm pois agora a minha posição política é a “fetal”.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *