The following takes place between may-14 and may-20.


A utilidade dos idiotas úteis 

Estudantes, professores e pessoas que não são de esquerda tomaram as ruas do país na quarta-feira (15) para protestar contra os cortes na educação. A primeira grande manifestação de rua contra o governo de Jair Messias aconteceu no mesmo dia em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, compareceu ao plenário da Câmara para explicar o contingenciamento de verbas. 

Apenas o partido do presidente e sua linha auxiliar, digo, o Novo (mas se quiser chamar de PSOL de direita, pode), votaram contra a convocação. No mesmo dia, o plenário declarou obstrução a votação das MPs enviadas pelo Planalto. Mas como um governo conseguiu perder de maneira tão vergonhosa a luta contra uma manobra iniciada pela oposição? 

Parlamentares, incluindo aí os líderes de Patriota, Novo, Cidadania (ex-PPS), PSC, PSL e do governo, afirmaram, na tarde de terça (14), que o presidente teria ligado para o ministro da Educação e ordenado a suspensão dos cortes na área. Assim que a ordem tivesse sido dada, um irritado Onyx Lorenzoni teria entrado na sala do gabinete presidencial para conversar com Jair Bolsonaro em particular. 

Até aí, tudo bem. 

Acontece que Bolsonaro não pode sustar um contingenciamento pelo telefone, afinal de contas, ele já foi determinado pelo Ministério da Economia. O que restou aos líderes? Serem desmentidos em praça pública

A Casa Civil disse que a informação não procedia. O Ministério da Economia informou que “não houve nenhum pedido por parte da Presidência da República para que seja revisto contingenciamento de qualquer ministério”. Joice Plagelmann chamou a declaração de “boato barato”. 

Os políticos, obviamente, não gostaram

Houve gente afirmando que não era mentirosa, cega, surda ou muda. Dobraram a aposta, reforçaram que o presidente fez a ligação para o ministro e alertaram: o governo pagaria caro pela mentira

Em sua apresentação inicial, o ministro da Educação errou dados, tratou de modo incorreto indicadores e tentou cobrir de tecnicismo o seu revanchismo ideológico. Perguntou se os deputados sabem o que é uma carteira de trabalho, disse que o dinheiro acabou, defendeu que o governo desse um salário mínimo para alunos de licenciaturas com notas altas no Enem. 

Partidos de diferentes partes do espectro político aproveitaram a oportunidade para humilhar mais um ministro da educação de Bolsonaro. Chamaram Weintraub de “debochado” e “covarde”. 

Houve político apoiador do governo reclamando que, os políticos, no lugar em que se faz política, estavam fazendo política ao discutir as ações políticas em uma sessão criada com motivações políticas. O destaque do blog vai para a deputada comunista e portadora de grelo duro Jandira Feghali, que, relembrando a fala do ministro em um evento de direita, perguntou se ela merece levar tiro na cara como qualquer pessoa que acredita no fim do capitalismo. 

O ministro da Educação, assim como o seu antecessor, é um ignorante por não ter os conhecimentos para o cargo que ocupa. É um ressentido, por utilizar o poder como forma de se vingar da academia que não permitiu que ele alçasse voos mais altos do que as suas asas o permitiam. A prova máxima de que terapia é algo importante e capaz de evitar estragos que afetam milhões

Enquanto o ministro pagava caro pela mentira no plenário, nas ruas do país multidões promoveram a balbúrdia contra Weintraub. O que se viu nas imagens de todas as capitais e 200 outras cidades era a prova de que a estratégia adotada pelo governo deu mais errado do que o esperado. 

As camisas utilizadas pelo “pessoalzinho” que ficou sem dinheiro não tinham estampas apenas do PCO ou da campanha Lula Livre. Elas estavam coloridas com diferentes cores e mostravam algo inédito: nunca um presidente colocou tanta oposição na rua com tamanhna velocidade em seu primeiro ano no poder. 

Resta saber agora o que cai mais rápido: Bolsonaro, o índice Bovespa ou o ministro da Educação. 

Tudo pequenininho aí? 

Não é só o mercado que está reduzindo as previsões de crescimento do PIB. O governo confirmou, na terça-feira (14), que a sua previsão foi reajustada de 2% para 1,5%. Quem poderia imaginar que a economia não cresce na base de tweet raivoso, não é mesmo? 

001 e o homem que lavava dinheiro demais 

A semana não começou muito bem para o senador Flávio Bolsonaro. Tão menos terminou digna de sorrisos. 

Na segunda-feira (13), soubemos que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou a quebra do sigilo fiscal do filho do presidente e do ex-policial militar Fabrício Queiroz em 24 de abril. Também terão as contas vasculhadas a mulher de Flávio, a empresa de ambos, a mulher de Queiroz, as suas duas filhas e outras 90 pessoas e empresas. O pedido foi realizado pelo Ministério Público do Rio, que também afirmou que Flávio tentou, algumas vezes, interromper as investigações

Flávio, que deve ter visto alguns vídeos de discursos do ex-presidente Lula, afirmou que as investigações são ilegais e que devem ser anuladas. Falhou, porém, em justificar as movimentações bancárias em suas contas bancáriasLágrimas jamais provaram a inocência de alguém. 

Segundo informações da revista Veja, o senador movimentou uma quantia milionária com a compra e venda de imóveis entre 2010 e 2017. O processo lembra uma das práticas básicas de um dos manuais de lavagem de dinheiro utilizados por mafiosos e outros tipos de criminosos: a compra de algo por um valor abaixo do preço de mercado e a sua revenda superfaturada. 

Mas que fique claro: o blog não acredita que Flávio seja um mafioso. Ainda que os Bolsonaros tenham mantido os seus negócios estranhos em família, beijado filho de criminoso, tirado foto com bands, morado ao lado de miliciano e ganhado voto em área dominada por assassinos, falta inteligência ao clã para serem batizados de Corleones brasileiros. 

Você tem um minuto para ouvir a palavra do bolsonarismo cultural? 

Como não existem problemas em sua família ou mesmo no seu governo, Bolsonaro foi passear. Dessa vez, no Texas. 

Após ter todas as portas fechadas em Nova York, Jair e a sua trupe fizeram turismo com o dinheiro público em uma cidade de baixa relevância para receber o prêmio de Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. O prefeito da cidade, assim como o de Nova York, ignorou a visita

Sobrou para o ex-presidente George W. Bush. Sem aviso prévio, a comitiva de brasileiros bateu na porta do republicano para um chá. Ele não teve a sorte de Mike Pompeo, que conseguiu fugir de Bolsonaro em Nova York e no Texas

Pequenas notas do Quinto dos Infernos 

Falta um chá de camomila ao presidente 

Jair Bolsonaro está muito irritado. Nos EUA, quando questionado sobre os protestos, Bolsonaro afirmou que os manifestantes eram “idiotas úteis, uns imbecis” e “massa de manobra”, que não sabem a fórmula da água. Sobrou até para uma repórter da Folha de S.Paulo

Ao ser questionado sobre as investigações que atingem o seu filho, afirmou que estavam realizando um “esculacho” em cima do anjo sem asas que bate ponto no Senado. Disse, também, que se quisessem atingi-lo, deveriam partir para cima do homem de 75 kg. 

Cabe ao presidente um chá de camomila, uma amitriptilina ou até mesmo um cigarrinho do capeta. Ou dormir mais. Estresse prejudica a expectativa de vida de qualquer pessoa e, bem, não queremos o presidente abandonando o cargo por uma morte precoce (mas por outros motivos, pode).

A terceira guerra mundial será tributada 

Na última semana, EUA e China deram uma nova escalada a sua guerra tarifária. Beijing anunciou as suas intenções de impor tributos em até US$ 60 bilhões de produtos que são importados dos EUA pelo país. Na sexta-feira (10), Trump já tinha anunciado um aumento de impostos em até US$ 200 bilhões de produtos. 

O bate-boca entre o não liberal Donald Trump e o iliberal governo chinês começou com o presidente americano reclamando do déficit na balança comercial entre os dois países. Washington também acusa a China de obrigar qualquer empresa que atue no país a realizar transferência de tecnologia – algo que Beijing nega. 

Sobrou até para a fabricante de tecnologia móvel Huawei. Empresas americanas como Google e Intel começaram a segunda-feira anunciando o fim das relações com a companhia responsável pela maior parte da infraestrutura de 5G brasileira e europeia (e uma das maiores fabricantes de telefones do mundo). 

O golpe veio no mês em que os telefones da marca são lançados no Brasil, o novo mercado em que a companhia pretende atuar. O Henrique Martin, do Ztop e da ótima newsletter Interfaces, explica melhor o que houve

A guerra tributária entre os dois países já fez o FMI diminuir a previsão do PIB mundial três vezes. Sem uma resolução clara a vista, o banco prevê o pior crescimento desde 2009: 3,3% de aumento. 

O Brasil pode, a princípio, se beneficiar. Em alguns mercados, competimos com a economia americana com igual nível de qualidade. Mas, quando consideramos o papel que a China tem para o mercado mundial, é impossível negar que a nação asiática pode foder com todo mundo rapidamente. 

O tiozão do Power Point moderno acha que é Ciro II 

O governo Bolsonaro diminuiu o horizonte de expectativas do brasileiro para o dia seguinte. Dormimos à espera não de um futuro próspero, mas sim do absurdo antidemocrático que estará nas capas dos jornais ao acordarmos. 

Nas suas redes sociais, Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo em que um pastor afirma que o presidente foi “escolhido por Deus”. Um Ciro II, como dizem ser Donald Trump. “Não existe teoria da conspiração” (nesse caso) para o presidente. Há, porém, uma “mudança de paradigma na política”. 

O blog concorda. Fomos de uma política pouco institucional, mas funcional (e que permitia avanços lentos e graduais), para uma política nem um pouco institucional ou funcional. Jair Bolsonaro está, dia após dia, brigando contra as bases da nossa República e destruindo qualquer apoio ao seu governo. 

O presidente começou o ano com pouco mais de 1,83m de altura. Cinco meses depois, se encolhe ao compartilhar, no Whatsapp, um texto que trata o país como “ingovernável” fora dos “conchavos políticos”. Criticado, o presidente fez de conta que o filho feio não tinha pai

Enquanto passam o tempo se divertindo no telefone, os bolsolavetes distribuem o que seria de sua responsabilidade a ministros e líderes de outros poderes. Esperam, com suas pernas cruzadas (de um modo hétero, que fique claro), que o Congresso aprove as ideias do Planalto sem negociar ou votar contra. Da mesma maneira, se assustam quando há discordância na sociedade civil. 

Quem poderia imaginar que na democracia liberal há pluralidade de pensamento, não é mesmo? 

A Nova Era tanto forçou que recuperou a Teoria da Ferradura. Os militantes do bolsolavismo se comportam como os membros de um movimento estudantil liderado por gente do PCR: para não ser vítima de expurgo, é necessário sempre seguir o grande líder de maneira acrítica e servil. Aos que exercerem a menor oposição, a fogueira. 

Em meio a paranoias, promoção de hashtag com erro de português e autoritarismo, os templários brasileiros jogam um jogo em que todos os resultados os levam à vitória. Se o Brasil terminar de afundar, a culpa é da mídia, do judiciário e da classe política, dominada por filósofos e comunistas ocultos. Se o país sair do abismo em que se encontra, o mérito é da política da Nova Era, que foi capaz de curvar Deus e o Diabo para destruir (e reconstruir) a nação. 

O grande problema do país não é a classe política (ainda que ela ajude bastante). É um grupo de lunáticos que tomou o poder com um discurso conservador, reacionário e caretão. Um bando de bolsolavetes que adoram o poder, mas detestam governar. Mas sobre isso eu falarei com mais calma na semana que vem. 

Enquanto isso, o pato virou sapo e o vice está virando príncipe


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme. Editado e revisado pela Luana.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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