Ministro torturando número, fascistas indo à luta, o governo mentindo e os fantasmas do presidente dando um olá no noticiário. Tudo isso em uma única semana.

Não se esquece de compartilhar com a família.


The following takes place between dec-31 and jan-06


O ovo da serpente está pronto para ser chocado

Ao que tudo indica, o ataque ao Porta dos Fundos não deve dar em pizza. A polícia do Rio realizou, na última terça-feira (31), uma operação para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise. Ele é um dos cinco suspeitos de ter jogado bombas na sede da produtora do grupo.

Oficialmente foragido, Cerquise publicou um video no YouTube chamando os humoristas do Porta dos Fundos de “bandidos” e pedindo orações. A polícia encontrou na sua casa R$ 119 mil em dinheiro vivo, uma arma falsa e munições. De classe média alta, o integralista já foi condenado por lesão corporal e tem outras 15 anotações por ameaça e agressão na sua ficha – um claro sinal de que ele jamais seria capaz de atacar alguém por ir contra os seus valores.

Aliás, falando sobre os valores de Cerquise, o foragido foi filiado ao PSL entre 2001 e a última segunda-feira (portanto nada de ligações – ainda – com o atual morador do Palácio do Planalto). Ele também presidia a Frente Integralista Brasileira do Rio de Janeiro (o grupo afirmou em nota que ele foi expulso). Além disso, é apontado como parte de um grupo de milícia que atua em estacionamentos rotativos no centro da capital carioca.

Não demorou muito para saber onde Eduardo foi parar. O integralista embarcou para a Rússia na véspera da operação policial que pretendia prendê-lo e ainda deu uma entrevista assumindo para a internet que atacou a empresa de humor. O seu nome já está na lista de procurados da Interpol.

E atenção! Se liga aí, que é hora da revisão!

Já que o brasileiro não anda prestando muita atenção às aulas de história, vamos fazer aqui um recap. O integralismo é um movimento fascista de extrema direita que chupinhou umas ideias do fascismo italiano lá na década de 1930.

O movimento é formado por uma trupe de pessoas moralmente conservadoras, religiosamente cristãs e ultranacionalistas. O integralismo, porém, não adotou o componente racista do nazifascismo, afinal, a turma sabe que mora no Brasil.

Essa galera bacana sempre manteve-se próxima do poder e, em certa medida, próxima dos que hoje comandam o país graças a um trabalho que começou lá em 2005, quando o movimento ressurgiu como uma associação sem fins lucrativos. Rodando hora pelos submundos da internet, hora nos espaços de poder, eles conseguiram se organizar com mais capilaridade do que muito grupo político por aí.

Hoje, repassam as suas mensagens com cuidado e dedicação sem que muita gente note. Formam um exército de apoiadores que já tem cara, trejeito de monarquista e uma profunda repulsa pelos valores liberais que dizem moldar o nosso Brasil. São, junto com tantos os outros exemplos, mais uma prova de que a nossa democracia não anda muito bem das pernas.

BDSM autoritário

Praticamente metade dos brasileiros com baixo nível educacional ou baixa renda não se importaria com a volta de uma ditadura. Os dados foram revelados pela última pesquisa do Datafolha sobre o tema. Outros indicadores, como o dos número de pessoas que acham a democracia a melhor forma de governo sempre, apresentaram queda.

Felizmente, porém, a parcela dos que avaliam que o legado da ditadura civil-militar é positivo continua caindo. Já o número de pessoas que sabem o que foi o AI-5 segue absurdamente pequeno. Faltou perguntar a aderência dos entrevistados ao movimento fascista da semana. Saber pra qual tipo de autoritarismo político os ventos sopram a cada semana é sempre bom.

Torturando números e urinando em cima do trabalho alheio

Serio Moro está 100% um político tradicional. Agora, além de fazer o seu trabalho pela metade, quer tomar o mérito das políticas públicas de outros governos para si. Pelo menos é o que ele tentou fazer no Twitter no último dia 04.

Ironizando as pessoas que realmente pesquisam as políticas de segurança pública nacional, o ministro disse que os crimes só cresceram nos governos anteriores (não é verdade, também houve queda em 2018) e que a administração atual tem pouca influência nos bons resultados do último ano (o que é verdade). O ministro também confundiu o nome do ex-ministro Raul Jungmann e chamou o político de Mago Merlin.

Felizmente, o internauta que diz se chamar Matheus Leone (seria esse mesmo o nome dele?) estava lá para lembrar quem fez o SUSP, um dos principais mecanismos do governo Temer que ajudaram na redução da mortalidade nacional. Também foi o Leone o responsável por elencar as respostas com outras medidas que, ao contrário da liberalização da posse de armas, tiveram real impacto nos índices de violência (Jungmann não é muito bom com isso de rede social).

Os números, infelizmente, não caíram para quem está na mira das armas dos PMs. Ou para os policiais que estão na mira de bandidos. Não é errado dizer, portanto, que a política pública da Nova Era é focada em cancelar CPF e número de registro dos policiais que conseguem sobreviver à violência do seu cotidiano.

Governismo dos anos 2020

O governismo já digievoluiou. Após a queda de popularidade do governo e a manutenção do apoio a Moro, a revolução reaça resolveu tomar um novo rumo. Filipe G. Martins e os demais comissários do olavismo cultural querem salvar o governo e o seu projeto de poder com muito pragmatismo.

Ou melhor, Filipe G. Martins e os olavetes do governo querem salvar o seu projeto de poder com muito pragmatismo. Afinal, tudo fica mais fácil de entender se a gente considerar Olavo de Carvalho como aquilo que ele realmente é: um fascista que tem medo de ver o seu projeto dar errado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Mais pra cá do que pra lá

A balança comercial brasileira fechou 2019 com superavit de US $ 46,7 bilhões. O valor é o resultado mais baixo desde 2015. Além disso, representa um recuo de quase 20% a 2018.

Leitores mais assíduos de Adam Smith não exitariam dois segundos para levantar os dedos e lembrar que isso não é, necessariamente, algo ruim. Mas, conforme o próprio Ministério da Economia apontou, é um problema sim: o resultado se deve, especialmente, pela (eterna) crise argentina, um país que compra muita coisa da gente.

Quem valoriza o superávit da balança comercial nacional e/ou quer vender para todo mundo, portanto, deve temer. Não pelas perspectivas que tem em relação aos próximos passos que o governo argentino pode tomar na condução da economia, mas medidas que o nosso governo fará nos próximos anos. Não é de hoje que as pessoas razoáveis da diplomacia nacional avisaram que tratar mal a Argentina pode dar merda.

E agora para algo completamente relacionado ao tema do interlúdio anterior

Falando em diplomacia, o Itamaraty não quer deixar de vender só para os amigos da América Latina. A depender das declarações do nosso ministro das Alucinações Exteriores, vamos acabar deixando de exportar até para o Oriente Médio – outro lugar cheio de parceiro comercial de longa data.

Após a morte do general Qassem Soleimani e o alinhamento do Brasil com o atual presidente americano (e criminoso de guerra em potencial) Donald Trump, Teerã pediu esclarecimentos para a nossa embaixada.

Não foi sem motivo. Além de se alinhar com Trump outra vez sem a menor necessidade, o Brasil rompeu com a tradição nacional de só tratar como terroristas os grupos formalmente assim registrados pelo Conselho de Segurança da ONU. Seguindo nesse ritmo, terminaremos 2024 como uma economia que quer ser muito aberta, mas não consegue ser amiga de ninguém que pode comprar algo dela.

Mentindo na cara de otário e achando que todo mundo é otário

O presidente avisou que sancionará o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões para 2020. O valor é o proposto pelo governo quando o Planalto enviou o orçamento para aprovação. A desculpa de Jair, para os seus eleitores, é de que vetar a cifra poderia levar ele a sofrer um processo de impeachment.

Pura bobajada.

Bolsonaro é incapaz de dizer, com base na lei, como ele seria enquadrado na lei de impeachment se vetasse algo que ele mesmo pediu o poder Legislativo para aprovar. Ok, isso aqui é o Brasil e o governo pode cair por qualquer motivo a depender das vontades dos congressistas. Mas, como bem afirmou o primeiro ministro, o veto ou a sanção às propostas do Planalto são um direito do presidente, não algo que pode dar ruim a médio e longo prazo.

O gado, certamente, acreditará na desculpa do governo. Felizmente, fora das bolhas, é possível espalhar a verdade e lembrar que a história é mais complicada. O governo orientou voto SIM ao aumento do fundão eleitoral, o que é a última escolha que alguém com o discurso de Jair, em tese, faria.

Não fui eu, foi meu Eu lírico

O presidente tirou o sábado para falar coisas que só ele falaria. Em uma live no seu Facebook, disse que, se tivesse a capacidade de acabar com as investigações contra o seu filho, teria finalizado os trabalhos. Paranoico como sempre, também acusou o governo do Rio de Janeiro de incentivar a investigação para promover uma possível candidatura do governador para o Planalto.

Em notas não relacionadas, a ex-mulher do presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi convocada para depor pelo MP-RJ. Ela também é investigada por envolvimento em um suposto esquema de rachadinhas e emprego de funcionários fantasmas. Dessa vez, no gabinete do outro filho, Carlos Bolsonaro.

Ana Cristina é a mesma ex que ganhou uma capa da Veja após a revista ter obtido cópia de um processo no qual ela acusa Bolsonaro de ocultação de patrimônio, renda incompatível com a profissão do então deputado, agressividade e até um roubo. Não obstante, é aquela mulher que Jair já afirmou que não gostaria de ver por aí relevando os seus problemas do passado, mesmo que fossem verdadeiros.

O presidente, pelo visto, tem motivos para dormir com uma arma ao seu lado. A quantidade de fantasmas que tentam assombrá-lo a noite é gigante.


Eu escrevi e revisei (com preguiça) este texto. Mas apesar de a língua ser viva, você pode apontar qualquer erro diretamente no meu Twitter.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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