O presidente isolado nos seus próprios pensamentos, discussões inúteis e a Covid-19 sendo menos notificada que telefone no “não perturbe”. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #66 do governo Bolsonaro.

Não saia de casa para ver conteúdos que estão disponíveis na internet, lave corretamente os seus alimentos, mantenha a sua mão limpa e compartilhe esse texto com os seus amiguinhos. Até o próximo post!


The following takes place between mar-31 and abr-06


Uma mudança de 360°

Terça-feira (30) terminou com o brasileiro passando raiva. O presidente utilizou todos os canais que encontrou disponíveis para fingir que não é crítico do isolamento social e não apoia o uso de remédios de qualidade duvidosa. Apropriou-se das falas do representante da OMS de uma maneira muito canalha e, debaixo do som de panelas, abriu espaço para diálogo.

O recuo tático apresentado no discurso durou pouco, quase nada. Já na manhã seguinte, na frente do Alvorada, o presidente reutilizou a falta do diretor-geral da OMS em defesa do apoio aos mais pobres e o isolamento de pessoas. O abuso foi tanto que a organização teve que emitir uma declaração corrigindo Bolsonaro.

O mitômano também acusou os governadores (o mineiro, mais especificamente) de manterem políticas que causam desabastecimento. Bolsonaro compartilhou um vídeo em seu Twitter acusando a Ceasa mineira de estar sem produtos. Era mentira.

Na quinta-feira (02), o presidente retomou o seu roteiro tradicional. Disse que não conhece “qualquer hospital que esteja lotado” e falou que não receberá a culpa da crise econômica que certamente virá. Para fechar o pacote, compartilhou um vídeo com um depoimento (falso) de uma professora (que não era professora) pedindo para que o mandatário colocasse militares na rua para finalizar as medidas de isolamento.

Cutucando o trigre com a vara curta

Como se o país já não tivesse problemas o bastante, o ministro da Educação resolveu sair do buraco em que ele se enfiou e provocar o nosso maior parceiro comercial. Abraham Weintraub gastou, nos últimos dias, um tempo precioso atacando a China.

O primeiro ataque ocorreu em uma live. O ministro afirmou que a próxima pandemia certamente virá do país asiático. Depois, Weintraub publicou um tweet de caráter racista ironizando o país (e fazendo mal uso de uma referência ao Cebolinha).

A embaixada e o consul chinês no Brasil protestaram e pediram retratação. Não custa lembrar: para além de nosso maior parceiro comercial, a China é o país que tem o maior estoque de equipamentos médicos para distribuir para o mundo. Talvez o ministro devesse calar mais a boca e parar de falar mais alto do que ele consegue.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Escolha técnica, política burra

Se a pandemia serviu para reforçar as piores características (não que ele tenha alguma boa) de Jair Bolsonaro, ela também mostrou que o titular da Economia não serve para o cargo que ocupa (e tão menos para uma posição três, sete ou vinte escalões abaixo). Após a aprovação das medidas de apoio aos mais pobres no Congresso, Paulo Guedes afirmou que não poderia iniciar os pagamentos sem a aprovação de uma PEC pelo Legislativo.

Bobagem (ou mentira, depende do seu referencial). Não há impedimento nas leis fiscais para a liberação de recursos, especialmente o chamado “Coronavoucher” (que de voucher não tem nada). A Câmara e o STF já fizeram toda a movimentação de pauzinhos legais para o financiamento dos recursos não colocar o governo na corda bamba e em risco de ter cometido um crime fiscal.

Guedes deveria aproveitar melhor o regime de home office e buscar melhorar os resultados da sua pasta. Quem tem fome, tem pressa. Ignorar os caminhos já abertos na legislação nacional é certamente a pior forma de não sair dessa crise com cara de tigrão dos mais pobres e tchutchuca dos fiscalistas da Faria Lima e dos banqueiros da Paulista.

✂ ✂ ✂ ✂ ✂ acima de tudo, ✂ ✂ ✂ ✂ ✂ acima de todos

O governo apresentou uma nova medida provisória para permitir o corte de salários e jornadas de trabalho por até três meses. Dessa vez, com apoio federal para os assalariados que forem atingidos. O resumo: não dá para dizer que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder (mas uns perderão mais do que os outros).

Nesse meio tempo, os R$ 5 bilhões que Guedes prometeu utilizar para vencer o Coronavírus viraram R$ 750 bilhões. O valor, que equivale a 2,6% do PIB nacional, está dividido entre auxílio a informais e a antecipação de seguro-desemprego. Mas algumas coisas ficaram para essa semana (ou a próxima (como parecia ser o caso da RBE (não foi) e da reforma administrativa (saudades, sumida))).

Marco Aurélio Cômodo tupiniquim

A postura do presidente na última semana foi uma mistura de sadismo com paranoia. Ainda que o exército (em vídeo e em texto), a OMS, o ministério da Saúde, Sergio Moro, o FMI e o Trump já defendam o isolamento social geral e irrestrito, Jair Bolsonaro seguiu indo contra tudo e contra todos na batalha a favor da Covid-19.

Só não dá para chamar ele de Bolsomaduro: dessa vez, o projeto de ditador esquerdista que está adotando postura semelhante ao nosso presidente é Daniel Ortega, na Nicarágua (mas se quiser alguém à esquerda que só fez merda nessa pandemia e gosta mais da democracia do que Ortega, o presidente mexicano também é um ótimo exemplo para irritar o seu tio reaça).

Os militares estão tratando a Covid-19 como a “missão mais importante de nossa geração”. E, segundo a folha, temem que Jair Bolsonaro e a sua irresponsabilidade afetem a imagem da instituição.

Quem poderia imaginar que colocar um chorão autoritário no poder causaria um impacto maior nas relações públicas das Forças Armadas do que uma ditadura que durou mais de duas décadas e matou algumas centenas de pessoas, não é mesmo?

Para a nossa felicidade, quanto mais Bolsonaro sobe o tom, mais ele é tratado como Marco Aurélio Cômodo, o imperador sanguinário romano que foi isolado e morto pelos seus aliados. O presidente se coloca contra qualquer pessoa que tenha o menor apreço pela democracia liberal e os valores iluministas. Até Witzel conseguiu melhorar a sua imagem nessa crise.

Nada disso deve ser visto, porém, como um motivo para otimismo. Ainda que as atitudes do presidente da República marquem ele como alguém que, diante da maior pandemia do século XXI, se ocupou de fazer gracinhas, provocações, delírios autoritários e confusões com a saúde alheia, não temos (até o momento), uma liderança capaz de tirá-lo do segundo turno em 2022. As suas atitudes são absurdas, mas estão longe de serem algo diferente do esperado ou que façam muitos eleitores deixarem de apoiá-lo.

A vendetta do Mandetta

A vida de Mandetta está cada dia mais difícil. Quando o ministro não para em noticia conspiratória contra o governo, ele fica ocupado tentando fazer o país seguir as recomendações da OMS. O responsável pela pasta que coordena as ações contra a Covid-19 teve que chamar até o presidente do STF para tentar calar a boquinha de inferno do Planalto.

O ministro Alexandre Moraes determinou que o presidente deveria estabelecer um conjunto de operações para conter o coronavírus no país (em sintonia com as recomendações da OMS). Ao mesmo tempo, proibiu Bolsonaro de interferir em ações técnicas do Ministério da Saúde.

Quando deu entrevista à Rádio Jovem Pan, na quinta-feira (02), o presidente também disse que o ministro da Saúde precisa de “um pouco mais de humildade“. Além disso, recomendou que Mandetta ouvisse “um pouco mais o presidente da República”.

Quando perguntado sobre o que o impede de retomar a normalidade (além da insistência de Mandetta em tomar decisões técnicas), o presidente afirmou que pode muito, mas não pode tudo. Mas jura que, se o povo pedir (não será o caso), ele assina um decreto nada técnico acabando com a política de isolamento.

If ain’t broke don’t fix it

Se alguém está tomando medidas técnicas no seu governo e isso te incomoda, qual a melhor alternativa? Certamente demitir o responsável pelo crime de acreditar na ciência e chamar o profissional que não sabe ler um gráfico, não é mesmo?

O final de semana foi marcado pelas várias insinuações e conversas sobre a possível demissão de Mandetta. Em seu lugar entraria o bull mais famoso do país: Osmar Terra.

O burburinho iniciou com Jair afirmando a apoiadores que alguns integrantes do governo “viraram estrelas”, mas que a sua hora logo chegaria. Disse, também, que não tem “medo de usar a caneta”.

O governo até chegou a ensaiar a demissão do ministro da Saúde. A seguir o roteiro tradicional, Mandetta deve perder o cargo na próxima terça-feira. Pelo sim, pelo não, o ministro terminou a segunda-feira (07) dizendo ao povo que ficava.

Em fala a jornalistas, Mandetta disse que permanece no cargo e solicitou “o melhor ambiente” para poder trabalhar. Pode não ter o apoio de Bolsonaro, mas tem do vice-presidente e do resto de Brasília. Aproveitou, inclusive, o espaço para jogar todo tipo de indireta para os que estão acima e abaixo dele na cadeia alimentar do país.

Horas antes, tinha proposto (mas não obrigado) a possibilidade de cidades pequenas e com poucas pessoas infectadas adotarem medidas de isolamento mais flexíveis. Não deve demorar muito para ninguém seguir a sugestão: o número de cidades de pequeno e médio porte com doentes não para de crescer.

Até segunda ordem, as coisas ficam assim: o ministro que gosta de participar de live no Instagram está no cargo, o presidente é pior avaliado do que Mandetta e 76% dos brasileiros querem ficar em casa. Ainda bem.

Com quantos caixões se faz o PIB?

Vírus não são dotados de ideologia. E, até onde vai a memória do blog, teorias políticas não são dotadas de resoluções funcionais para cenários catastróficos. Seja em Marx ou em Rawls, qualquer ideia pressupõe um conjunto específico de ações para funcionar.

Aqueles que se levantam contra o liberalismo de quermesse para apontar que as ações tomadas pelos governantes em nada se compararam com o que diz a tradição, o fazem ou por desconhecimento, ou por desonestidade. A defesa de um ativismo cívico, da necessidade de um Estado institucionalmente forte e de políticas que protegem os mais pobres em momentos de crise são ideias que liberais de todas as espécies já defenderam e continuarão a defender.

A valorização da ciência, a defesa de uma democracia que não se rompe mesmo em cenários de calamidade e de uma imprensa livre, são posturas que não deveriam ser apenas um lado do espectro político. Os valores da tolerância e da ação da sociedade civil, aliás, precisam estar na pauta do dia ao discutirmos o que fazer diante de um vírus que não é portador de preferência sócio-econômica ou ideológica. Eles são a base da sociedade moderna e fundamento de todas as correntes políticas que surgiram com o espírito das Luzes

Enquanto se perde tempo com as falas dos defensores da Medicina Austríaca, há um presidente que utiliza-se do momento para atacar as instituições democráticas, pregar a anti-ciência e tratar a economia como algo de responsabilidade alheia. O que não é de todo assustador. Somente os mais otimistas acreditaram que alguém que jamais abandonou a ação política movida por paranoias, psicopatias e um fluxo contínuo de mentiras adotaria uma práxis responsável agora.

Não é e nunca foi do interesse de Bolsonaro reduzir os conflitos por ele gerados e criar pontos, ainda que isso tenha como consequência a formulação de um darwnismo sanitário de caráter nacional. Considerando que 72% dos pretos de tão pobres e pobres de tão pretos terão queda na sua receita, os que adotam uma vivência democrática poderiam parar de tentar identificar em qual ideologia as ações de combate à crise se encaixam.


Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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