Mandetta saindo pela esquerda, Bolsonaro relembrando que ele não gosta de democracia e a abertura de mais um bolão de ministro em queda.

Não se esquece de compartilhar o texto com os seus coleguinhas!


The following takes place between abr-14 and abr-20


Rip Mandetta

A aposta de Mandetta de que era possível continuar provocando o seu chefe deu errado. Ou certo. Depende do referencial.

O ministro conseguiu, com algum mérito, cavar a sua (inevitável) demissão culpabilizando o real culpado dela: Jair Messias Bolsonaro.

Durante toda a semana, o ministro perdeu o apoio de militares e líderes políticos. O presidente se reuniu com a sua equipe próxima e começou a identificar possíveis nomes para o cargo. Sobrou até para o Osmar Terra.

Pouco antes da sua demissão (e após uma entrevista à Veja em tom de tiro para todos os lados (mas com foco especial para um deles)), Mandetta apareceu em entrevista no Palácio do Planalto. Já tratando a demissão como certa, fez questão de reafirmar que era o presidente o responsável maior pela sua saída. Em tom de despedida, o ministro reforçou que a sua visão estava lastreada na ciência e nos números à sua disposição, enquanto outros adotavam “angulações” baseadas apenas em fé.

A queda do ministro ocorre em meio a maior crise de saúde pública da nossa história. Entra em seu lugar o natimorto Nelson Teich. O oncologista afirmou que estará alinhado ao presidente e que saúde e economia “não competem entre si”. Para todos os fins, porém, o ministro não poderá realizar as ações de flexibilização do isolamento que o presidente tanto sonha.

Não dá para dizer que Mandetta fez um trabalho de ponta. Comparado com o presidente, o ex-ministro da Saúde foi uma pessoa razoável. Comparado com qualquer pessoa normal, Mandetta acumulou uma sequência de erros que dão ao seu teto um vidro tão fino quanto o de Bolsonaro.

Deus tenha misericórdia dessa nação

O novo ministro se alinhou ao presidente nos discursos de flexibilização gradual do isolamento social. Também em alinhamento com Bolsonaro, não afirmou como e quando isso poderia ser feito. O blog aposta que o melhor caminho seja o mesmo adotado para a reforma administrativa: deixe para semana que vem e, na semana que vem, deixe para a semana seguinte.

Teich realmente jura que está alinhado com o presidente. Porém, anteriormente, já fez a defesa das medidas de isolamento vertical e a liberação das atividades apenas com grande realização de testes. Além disso, aproveitando-se da falta de intelecto do chefe do Executivo, não perdeu uma oportunidade de corrigir Bolsonaro em suas lives.

Pano de prato travestido de cortina de fumaça

A demissão de Mandetta levou a uma nova onda de panelas amassadas por todo o país. E quando Bolsonaro viu que a sua decisão atingiu o resultado inesperado (por ele), o presidente foi à CNN fazer a sua jogada mais tradicional: caçar confusão com os chefes dos outros poderes.

A vítima da vez foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Bolsonaro disse que Maia está jogando os governadores contra ele (não é o caso), que falta patriotismo ao parlamentar (não é o caso) e que ele conspira contra o governo federal (talvez seja o caso, mas depende mais da convicção alheia do que da presença de provas). Apesar de ter trabalhado como deputado por algumas décadas, disse que Maia fez o Senado aprovar medidas contra o governo (ainda que o presidente do Senado fosse outra pessoa).

Pegou mal, e dessa vez nem foi por ser mais um ataque às instituições. Em mais uma notinha a favor do bom senso, Maia clamou por mais “responsabilidade, sangue frio e pauta“. Também afirmou que as pedras do presidente serão rebatidas com flores. Torcemos para ser um ramo de cravos.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Brincando de golpismo

Falando em golpismo, o presidente conseguiu fazer tanta merda que até mesmo os golpistas de outrora, que ele tanto gosta, ficaram constrangidos. No domingo (19), um grupo de apoiadores foram para a frente de um quartel gritar a favor de um golpe militar e um novo AI-5. A sanha golpista, para variar, foi validada pelo presidente.

Entre uma tosse e outra, Bolsonaro afirmou que não quer negociar nada com o Congresso. Ele desejava, apenas, “ação pelo Brasil”. Como bom populista, falou que agora é a hora do “povo no poder”.

A República da Nota de Repúdio entrou em ação diante dos atos do chefe do executivo. Governadores de 20 estados, parlamentares e até ministros do Supremo reagiram negativamente ao discurso do presidente. Maia, o maior democrata vivo em Brasília, afirmou que o país “não tem tempo para perder com retóricas golpistas”. Pelo visto, a ideia de não dar tanta bola para os ataques à democracia feitos por Bolsonaro está mesmo sendo colocada em prática.

Os militares ficaram sem graça diante das falas de Jair Messias. Os milicos avaliaram a atitude como “desnecessária” e “fora de hora”. Imagina se eles tivessem a mesma visão em relação às vivandeiras de quartel de 1964, não é mesmo?

Não é de surpreender que um país que mal educa os seus estudantes para ler textos corretamente tenha viúvas da ditadura andando por aí. Surpreende menos ainda que o bolsonarismo, como movimento, tenha retórica e ideias de ação política semelhante às de Hugo Chávez. Ou às do Fujimorismo. Bolsonaro jamais escondeu isso.

Já estamos há mais de 14 meses sendo governados por um presidente que se mantém exatamente igual ao que ele foi nos 30 anos anteriores. Não há (e nem haveria de ter) desejo na mente de Bolsonaro pelo fortalecimento da democracia. O discurso à frente do quartel militar só mostra que pandemias também não são capazes de fazer o presidente mudar de ideia.

Os_Trapalhões-O_governo_tá_certis.mp4

Enquanto bancava o democrata que não é e deixava os seus apoiadores confusos, Bolsonaro foi garantir um pouco de governabilidade. Os responsáveis pela articulação política compraram um Uno Mille 1000 e foram brincar de fisiologismo pelos diretórios nacionais dos partidos do centrão. Afinal, era necessário liberar espaço para os bots de Twitter trabalharem nas redes sociais contra o presidente da Câmara.

Roberto Jefferson, Valdemar da Costa Neto e outros corruptos de carteirinha voltaram a defender o presidente da vez junto com os seus aliados. Tudo isso pelo módico preço de algumas cadeiras em estatais, Bancos Públicos e outros órgãos com grande orçamento. Já temos uma nova vítima para a Covid-19: a nova política.

E agora, para algo completamente semelhante

A fala do presidente à frente do Palácio do Alvorada desmentindo a fala do presidente à frente do quartel foi uma negação de tudo o que ele já disse ao longo de sua vida. Ou melhor, foi outra negação de tudo o que ele acredita e sonha quando deita a cabeça em seu travesseiro.

Como qualquer gesto não sincero, não se sustentou por muito tempo: com um “eu sou realmente a Constituição“, Jair Bolsonaro lembrou que essa coisa de separação entre poderes e democracia liberal é a inspiração política para outras pessoas.

Não havia motivo para o presidente fazer-se de desentendido na frente da sua claque de apoiadores. Eles também desejam que o Brasil faça um revival dos anos de chumbo. Do lado democrático do jogo político, são poucos os que ainda acham que há alguma chance de Bolsonaro ganhar um espírito democrático nos próximos anos.

Para a nossa tristeza, já nos acostumamos com a retórica populista e autoritária do presidente. Aliás, já estávamos preparados para ela graças aos exemplos de dentro e de fora da América Latina.

O maior problema deste episódio em específico está na ausência de uma postura mais crítica dos militares contra as falas de Bolsonaro. Se eles realmente não estão dispostos a aventuras e rememorações do passado, seria de bom grado que deixassem isso mais claro. Ou, assim como o presidente, perdessem a vergonha de manter o ranço autoritário.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *