Mandetta virando nota no rodapé da História, o governo tripudiando do pobre, Sergio Moro jogando uma cabeça de cavalo na cama de Jair Bolsonaro e mais uma penca de motivos para derrubar o presidente.

Não se esquece de compartilhar com o papai, a mamãe e a titia.


The following takes place between abr-21 and abr-27


Brincando com a saúde financeira alheia

O governo federal resolveu adotar uma nova estratégia para o combate às medidas de isolamento. Enquanto o ministro da Saúde trata a formulação de medidas para orientar o fim do isolamento como Paulo Guedes trata a reforma administrativa, o executivo resolveu segurar a segunda parcela do auxílio emergencial. Afinal, não há melhor forma de garantir que os pobres queiram voltar à sua rotina normal deixando todos quase morrendo de fome, não é mesmo?

De certa forma, está dando certo. Enquanto o ministro da Saúde ainda aprende como a máquina pública funciona e se comunica de forma errática, chefes dos Executivos estaduais e municipais são pressionados para abrir a economia novamente. Sem nenhuma garantia, aliás, de que é o momento certo, João Dória, Romeu Zema e outros já estão apresentando as suas estratégias de flexibilização das medidas de isolamento social.

Talvez seja cedo demais. Infelizmente, só saberemos ao certo quando for tarde demais.

Dando uma lustrada na nova nova nova política

O presidente está determinado a cometer mais um leve gaslight com as suas vivandeiras golpistas. Mesmo negando que faria a velha política, Bolsonaro passou a semana empenhado em dar espaço no seu governo para o Centrão. Valdemar da Costa Neto, Roberto Jefferson, Gilberto Kassab, e a turma do PP já estão ganhando espaço em lugares importantes da administração pública federal. Fica de fora o MDB, que não considera o governo atual bom o bastante para merecer o seu apoio formal.

Além de dar apoio, a medida ajuda a esvaziar parte do poder de Rodrigo Maia. Em alguns meses, o atual primeiro ministro sairá do cargo. Se Bolsonaro fizer o seu trabalho direito, conseguirá sonhar em emplacar um novo presidente para a casa legislativa com sucesso. Tudo isso com o melhor da “velha política”.

Planinho Marshallzinho para gerar um novo pibinho

O Planalto está ensaiando um novo Plano Marshall. Mas pode chamar de PND, se quiser. Ou PAC, se o seu interlocutor for um millennial.

Paulo Guedes é contra, mas faz parte do grupo de trabalho que pensou a proposta. Junto a ele estão os ministros da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, e o do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Na liderança, o chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto.

O objetivo principal do plano é gerar desenvolvimento e empregos para o país por meio de investimentos em infraestrutura. Brincadeira. É galgar a reeleição de Bolsonaro em 2022 com um monte de obra pública.

O Pró-Brasil é, até o momento, a representação do governo Bolsonaro: um slide mal diagramado com várias intenções e poucas medidas práticas para atingir os objetivos esperados. Ficou tão ruim que ninguém da equipe de Guedes quis ir ao anúncio para a imprensa.

A equipe econômica está só o Marcio Braga das ideias. O secretário especial de Desestatização (que pouco privatiza) afirmou em entrevista coletiva que não há dinheiro disponível para construir ponte. Também disse que não existe clima para chegar mais próximo do trilhão em venda de bem da União (no que ele está certo).

Mas, no final do dia, quem ganha espaço com o anúncio dos projetos de medidas de investimento público são os parlamentares do Centrão e a ala militar do governo. Não é de hoje que as Forças Armadas adoram um grande projeto nacionalista e desenvolvimentista para a nação. Engraçado, porém, é ver que teve liberista acreditando em canto de sereia e na promessa de que Bolsonaro defenderia um projeto liberalizante a todo custo quando a situação ficasse feia pro lado dele.

One down, one to go

O ministro Sergio Moro pediu demissão. Não pelo governo ter barrado a nomeação de gente importante para conselho que nada manda. Tão menos por Bolsonaro ter feito corpo mole para manter o seu pacote anti-crime intacto.

O ex-juiz resolveu sair do governo federal por motivos que em nada estão relacionados à presença de vários acusados de corrupção ou dotados de pouco instinto democrático em cargos de livre distribuição do Executivo. O motivo foi outro, igualmente grave (se for provado verdade): tentativa de mudança da direção na Polícia Federal para barrar investigações de corrupção de seu interesse (e que podem atingir um de seus filhos). E um pedido do Centrão.

Como toda morte de ministro muito bem aprovado, essa veio com várias tentativas de apaziguar ânimos, ameaças, conversinha fiada e fofoca de bastidor. Cansado de ficar engolindo sapo, Moro chegou a tentar negociar condições para a sua permanência no cargo (nomear o próximo diretor). Não teve sucesso.

A publicação da demissão do diretor da PF saiu como se tivesse a autorização formal de Moro e o apoio do agora ex-ocupante do cargo. Não parece que foi o caso. E se não for, é crime.

Dando tiro como se fosse o pião da casa própria

Moro saiu do governo como quem quer ver o mundo pegar fogo (ou apenas quer derrubar mais um governo em menos de 10 anos). Em entrevista coletiva, fez insinuações e deu a entender que o ex-chefe cometeu crimes. Não escondeu o seu rancor com algumas medidas e a falta de apoio.

Moro também aproveitou para fazer justiça ao PT. Segundo o ministro, nem mesmo Dilma e Lula tentaram interferir na PF como Bolsonaro queria. Como era de se esperar, Moro foi apoiado por procuradores da Lava Jato do Paraná na sua tentativa de melindrar o presidente.

Faltou para Sergio Moro explicar algumas questões. Desde quando ele sabia que o chefe queria interferir politicamente na PF? O ex-ministro não deveria ter informado às autoridades os fatos que sabia antes? Isso não é crime? O Nexo explica.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Deixando Montesquieu orgulhoso

Enquanto o país se debatia sobre quem estava mais errado na história (e a turma do Bolsonaromorismo ficava sem saber como reagir), Augusto Aras foi mostrar que o Ministério Público ainda é independente. O PGR pediu ao Supremo autorização para investigar as denúncias feitas por Moro contra Bolsonaro. Os possíveis crimes envolvem (mas não se limitam a) ilegalidades como falsidade ideológica e obstrução de Justiça.

Sergio Moro também pode se dar mal nessa história. Se for comprovado que ele mentiu, o ex-ministro pode ser processado por denunciação caluniosa e crime contra a honra.

Em notas não relacionadas: Moro foi o ministro da Justiça que mais abriu inquéritos para investigar possíveis crimes contra honra do chefe do executivo nos últimos 25 anos.

Pane no sistema alguém me desconfigurou

O pedido de demissão de Moro fez bolsonarista fiel à Lava Jato ficar em curto circuito. Alguns correram para questionar se o ex-juiz agiu da forma certa. Outros tentaram manter a imagem do ex-ministro intacta e a sua ação como um leve erro incapaz de macular a sua imagem e a do governo.

Mas, no Twitter, a rede de bots e influenciadores reacionários entrou, no geral, em pane. Dados da Daap (da FGV) apontaram que a maior parte das manifestações iniciais sobre o caso vieram de grupos de oposição. Mas, para a felicidade dos especialistas em robótica digital, o discurso oficial foi afinado no mesmo dia: Moro passou a ser tratado como traidor, X9 e até possível comunista (mas jamais como um mentiroso).

Bate boca de abobado

No horário em que muita gente pensou que o ministro da Economia (e participador de live de banco) Paulo Guedes pediria a sua demissão, Bolsonaro abriu espaço para a sua versão dos fatos. Em um longo, constrangedor e mal organizado discurso, o presidente fez de tudo para se defender.

Ao lado dos ministros que ainda o suportam, falou sobre as suas conversas com Moro, citou gente morta e o seu filho feio (o mais novo, no caso). Disse que não é mentiroso e que Moro é movido pelo ego (o que é melhor do que ser movido pelo ódio, mas isso é detalhe). Ainda questionou se as suas ações são mesmo uma interferência na PF (a resposta, pelo visto, é positiva).

Sobre a acusação de que Moro estava disposto a trocar a diretoria geral da PF por uma vaguinha no STF, moro afirmou, pelo Twitter, que não era o caso (talvez fosse, mas quem somos nós para afirmar isso com certeza, não é mesmo?). Para a mídia golpista, digo, o Jornal Nacional, enviou prints de conversas privadas com o presidente e a deputada federal Carla Zambelli sobre a troca do diretor.

Já há a suspeita de que o ministro criará a sua própria Vaza Jato nas próximas semanas. Diz a boca miúda que Moro também está munido de áudios e um histórico maior de falas comprometedoras do presidente. O blog mantém a sua postura para todas as as situações em que otário resolve brigar na esfera pública: sentado com um balde de pipoca no colo e uma soda italiana sabor tangerina na mão.

Patrimonialismo técnico

A depender do presidente, quem ganhará a diretoria da PF é Alexandre Ramagem. O atual diretor da Abin é amigo pessoal de Carlos. Para Bolsonaro, aquele profundo conhecedor das boas práticas de administração pública, não há nada de errado nisso.

A ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal) soltou carta pública pedindo autonomia financeira para a PF e melhores práticas de gestão. Afinal, tudo o que precisamos é de mais um órgão com poder para gastar loucamente.

Para o lugar de Moro entrará André Mendonça. Ex-chefe da Advocacia-Geral da União, Mendonça é amigo antigo de Bolsonaro. Se alguém realmente duvida que o presidente queria ter maior controle sobre os órgãos de investigação federais mesmo após isso tudo, vamos para uma historia leve:

Nos últimos meses, a Polícia Federal andou investigando Carlos Bolsonaro (e associados) em um possível esquema de divulgação de fake news. O inquérito avalia a possibilidade das ações serem feitas à margem da lei e tem à sua frente o STF. Se dependesse de Bolsonaro (e o que ele já fez no Rio de Janeiro para atrapalhar as investigações que envolvem indiretamente a sua família), nada disso estaria acontecendo.

Há para muitos a ideia de que, em breve, o Supremo pedirá a prisão de aliados do presidente. Ninguém que se chame Carlos Bolsonaro estaria envolvido na primeira movimentação nesse sentido. Nas próximas, porém, só Deus sabe.

Olha o impeachment aí, gente

Pouca gente notou, mas o presidente andou futucando no Exército as suas medidas de controle, rastreabilidade e identificação de armas e munições. Não faz muito tempo que as regras foram modificadas para tornar as normas mais rígidas.

Bolsonaro, para variar, não gostou. Mesmo sabendo que isso pode beneficiar milicianos e outros criminosos, o presidente derrubou as portarias publicadas pelo Exército. O que não seria um problema, se não fosse possível violação à Constituição.

Caberá ao Ministério Público Federal apurar se é o caso. Enquanto Jair Bolsonaro torna o seu governo um governo de guerra, a oposição poderia ficar atenta ao caso. Impeachment se constrói em cima de qualquer coisa se você estiver com a confiança necessária, mas é mais fácil de fazer se você estiver apoiado em uma frente ampla que envolve até um monte de general rancoroso.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *