Perceba, Brasil, a petulância e a falta de sensibilidade de Bolsonaro. E outras coisas mais.

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The following takes place between abr-28 and may-04


Rastejando na desumanidade

Na noite de terça-feira (29), o Brasil batia um novo recorde de mortes registradas em um período de 24 horas. Dias depois, o país registraria, também, um novo recorde de novos casos. Até aquele momento, já tinham sido registradas 5.017 vítimas fatais da Covid-19 (sem contar as subnotificações) no país, número acima do que é registrado oficialmente na China.

Quando questionado sobre o tema, Jair Bolsonaro respondeu com “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre“. Ao ser questionado sobre a decisão judicial a favor da divulgação do resultado de seu exame da Covid-19, o presidente que mantinha essa placa em seu gabinete de deputado, questionou os jornalistas se eles o viram rastejando na frente do Palácio.

Jair Bolsonaro tem a sensibilidade de um tijolo.

Dobrando a aposta na falta de empatia

Pegou mal a fala do presidente nas mentes de qualquer pessoa que é dotada de um pingo de amor ao próximo. Como uma boa noite de sono não é capaz de fazer Jair Bolsonaro se tornar uma pessoa que se guia pelos valores humanistas, ele resolveu reafirmar as suas falas. Como o seu tempo livre é grande, também aproveitou para atacar governadores e tentar tirar de si a conta das mortes pela Covid-19.

No dia seguinte, o presidente mandou cobrar de governadores e prefeitos a conta pelas mortes pela Covid-19. Afinal, a sua caneta é incapaz de fazer qualquer coisa que possa ajudar os entes federativos a combater a pandemia. A tinta só está disponível para demitir ministro e nomear amigo para cargo de confiança.

“Não adianta a imprensa querer botar na minha conta estas questões que não cabem a mim. Não adianta a Folha de S.Paulo, O Globo, que fez uma manchete mentirosa, tendenciosa”, afirmou Bolsonaro. Quando questionado diretamente sobre a sua frase do dia anterior, o presidente respondeu afirmando que ela estava fora de contexto. Quem olha até pensa que alguma frase dele pode ficar mais bonita dentro do contexto. Merda bem enquadrada ainda é fedida, presidente.

Mas quando soube que estava sendo gravado, Bolsonaro mudou de tom. Disse que lamenta a situação que o país se encontra. Disse, também, que se solidariza com as famílias que perderam pessoas queridas e que deseja que todos tenham uma morte digna.

Pelo menos Bolsonaro não tem a vergonha de ser um hipócrita.

A resposta dos governadores

João Doria foi um dos primeiros a responder o presidente de maneira ativa. Disse que pode enumerar as atitudes que Bolsonaro deveria ter tomado e não tomou. Também pediu a ele que respeitasse os mortos e seus familiares e lembrou que o presidente da República minimizou a pandemia repetidas vezes.

Outros governadores resolveram se unir e responder às críticas em uma carta formal. Romeu Zema, novamente, ficará de fora. O governador mineiro segue acreditando que se posicionar contra o presidente é uma forma de totalitarismo. O blog apoia que mandem uma cópia de As origens do totalitarismo para o gabinete do político do partido Novo lá na Cidade Administrativa.

Entra e sai, entra e sai

Bolsonaro enfrentou mais dificuldades do que imaginava para nomear o novo diretor da PF e o seu novo ministro da Justiça. A posse de Alexandre Ramagem, por exemplo, foi acompanhada de meia dúzia de ações judiciais pedindo pela sua suspensão. Alexandre de Moraes gilmarmendeou uma delas e impediu que Ramagen ganhasse o cargo.

A posse do advogado André de Almeida (que não sabe quantas balas tem um revolver 38) foi feita silenciosamente em um porão pouco claro do Planalto. Vai ver o presidente não queria ser barrado também nesse ato administrativo. O novo ministro, aliás, chamou Bolsonaro de profeta (do apocalipse?) e prometeu novas operações da PF (para prender estudante de humanas?).

A princípio, Bolsonaro afirmou que aceitaria a decisão do ministro do STF e se limitaria a defender a separação entre poderes. Mas sabe como é, né? Um macho viril e altivo como Bolsonaro não pode sair perdendo de uma luta (mesmo sabendo que as chances de vitória são pequenas).

Em um súbito senso de autoridade, afirmou que quem manda é ele. Acontece que, por mais que o presidente queira dizer o contrário, martelo de juiz do Supremo pode mais do que caneta presidencial. Há maioria formada no STF a favor de Alexandre de Moraes e o seu desejo de impor limites ao Executivo.

Por hora, enquanto Lula mantém-se ao lado do Bolsonaro e os delegados ficam contra, fica no cargo Rolando Alexandre Souza. Número dois de Ramagem na Abin, Souza já está agindo como o presidente gostaria: trocou o comando da PF no Rio de Janeiro, local em que há algumas investigações feitas pela PF que podem atrapalhar a vida dos filhos de Bolsonaro.

Indiretas de toga

Os ministros do STF não estão ao lado de Alexandre de Moraes apenas na sua decisão contra Bolsonaro. Eles também estão dispostos a mandar uma série de indiretas ao presidente. Exceto o Toffoli, claro, que é articulador de primeira ordem do Executivo.

Em um julgamento recente, Moraes lembrou que o país só sairá da crise com uma boa liderança e foi apoiado por Barroso. Já Gilmar Mendes disse que não se aceita “censura personalista aos membros do Judiciário“. Que a sua palavra continue a ter alguma validade pelo bem dessa nação.

Gente em cargo comissionado passando vergonha

Agora vamos ao momento em que nós paramos para ver quais são as merdas que aconteceram na Esplanada dos Ministérios. O primeiro é o melhor pior ministro da Educação da história recente. Ignorando que 1/3 dos estudantes brasileiros não possuem acesso a condições de estudo e à internet de qualidade, manteve a data do Enem com direito a uma propaganda imoral sobre o tema. A colega de curso do blog, Debora Aladim, fez um ótimo comentário sobre o tema.

O 4chanceler, por outro lado, achou que era de bom gosto comparar o isolamento social com os campos de concentração nazista na Segunda Guerra. Quando o Comitê Judaico Americano exigiu uma retratação, Araújo utilizou a ferramenta retórica preferida do governo: alegar que as suas falas foram distorcidas pela imprensa.

Já o casamento de Regina Duarte com Jair Bolsonaro vai de mal a pior. A secretária da Cultura já é vista dormindo todas as noites no sofá e só esperando a carta de divórcio. Enquanto ela tenta agradar olavista deixando de emitir nota pública de pesar pela morte de grandes nomes da música brasileira, Dante Henrique Mantovani, o que afirmou que rock é coisa do diabo, voltou para a Funarte.

A Economia é um caso a parte. O STF decidiu liberar as empresas para recolher o FGTS por três meses. A decisão se deu em um julgamento sobre a MP de Bolsonaro para modificar as regras trabalhistas durante a pandemia. A antecipação de feriados e a suspensão das férias de profissionais de saúde também foram mantidas.

Após engolir o sapo do plano Pró Brasil, Guedes apareceu ao lado de Braga Netto em entrevista coletiva. Os dois trataram de colocar panos quentes nas notícias sobre os atritos entre ambos e afirmaram que foi tudo um mal entendido (por parte da imprensa). O ministro da Economia também resolveu brincar de fazer política e fechar um acordo com o presidente do Senado sobre o pacote de ajuda aos estados, que agora demandará R$ 120 bilhões dos cofres públicos.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Vaza Jato Personnalité

Sergio Moro começou a mostrar para quem realmente importa as provas de que o presidente da República tentou interferir nas investigações que envolvem o seu filho. No mesmo prédio em Curitiba em que Lula já prestou depoimentos, o ex-juiz passou mais de oito horas depondo para a PF. A oitiva se deu por ordem do STF e teve direito até a extração de conversas por Whatsapp do telefone de Moro.

Para a Veja o ex-ministro da Justiça reiterou tudo o que disse em seu pronunciamento. Afirmou que outras provas serão apresentadas quando for necessário para a Justiça. Também disse ter testemunhas de que Jair ameaçou demiti-lo caso não agisse conforme as ordens do presidente: os ministros Augusto Heleno, Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos.

Se os ministros palacianos confirmarem o que Moro disse, demonstrarão falta de lealdade ao governo e colocarão Jair na corda bamba. Caso fiquem ao lado de Bolsonaro (e Moro estiver certo), também desmoralizam o governo e colocam Jair na corda bamba. Em todos os casos, podem ser processados por isso.

Felizmente, as reuniões a que Moro se refere estão gravadas. Descobrir quem fala a verdade nesse caso será quase tão fácil quanto atender ao pedido de Moro para que o seu depoimento seja publicizado. Para todos os fins, a PGR já pediu que os três ministros generais abram a boca e falem o que sabem para a Justiça.

Um golpinho pelo amor de Deus, um golpinho por caridade

O agitador de vivandeira saiu de casa para colocar-se contra a democracia mais uma vez. Enquanto um grupo (menor do que parece) se reuniu na frente do Palácio do Planalto para pedir o fechamento do Congresso e um novo AI-5, Bolsonaro legitimou os pedidos e disse que as Forças Armadas “estão com o povo” (não é bem o caso). Também afirmou que chegou “no limite”, que não há “mais conversa” e que o seu governo fará de tudo para “cumprir a Constituição”.

A aglomeração se deu no dia em que o país confirmou mais de 7.000 mortes pela Covid-19. O grupo de reacionários que se unia na frente do Palácio do Planalto aproveitou a oportunidade para agredir profissionais do Estadão que tentavam cobrir o evento. Em apoio a eles, nada foi dito pelo presidente da República.

Central de nota de repúdio

A máquina de notas de repúdio entrou em ação para repudiar, com várias palavras bonitas, os ataques do presidente e dos seus apoiadores às bases da democracia. Dessa vez, até o vice entrou na brincadeira. Hamilton Mourão afirmou que é “contra qualquer tipo de covardia” e que “agredir quem está fazendo seu trabalho” não faz parte da sua cultura.

Junto com ministros do STF, o primeiro ministro também publicou a sua notinha. No Twitter, disse que repudia as agressões a jornalistas. Afirmou, também, que as instituições democráticas devem “impor a ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror“.

Estadão , a TV Globo, o jornal O Globo e a Folha de S. Paulo, junto com outros veículos, se posicionaram contra as ações dos manifestantes e do presidente. A insistência do deputado medíocre em atentar contra a ordem institucional no meio da marcha dos covardes pegou mal. Mas seria de bom grado se alguma medida contra o “agitador de sempre” fosse tomada, já que dizem não existir clima para impeachment.

Ao menos três generais da reserva afirmaram que o presidente não bate bem das ideias. Deixaram claro em entrevista ao jornalista Chico Alves que Bolsonaro está enganado e que as Forças Armadas não farão parte de uma aventura. Já o Ministério da Defesa afirmou que as Forças Armadas “estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade“.

Não deveria ser papel das Forças Armadas decidir o que faz ou não parte da ordem democrática do país. Também não deveria ser normal general participar de governo civil como militar. Mas o Brasil tem as suas jabuticabas, não é mesmo?

Algo de muito estranho acontece em um país em que as Forças Armadas se colocam como as instituições capazes de definir os rumos da democracia e o presidente precisa reafirmar o seu poder continuamente.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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