O Moro jogando mais cartas na mesa, o PGR mostrando a que veio, o ministro da Saúde não cuidando da saúde e Paulo Guedes sendo jogado pra escanteio. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #71 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between mai-05 and mai-11.


Cheirinho de marguerita com calabresa

A denúncia de que Jair Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal feita por Sergio Moro anda com cara e cheiro de massa de pizza. Mas será que o ministro conseguirá transformar essa calabresa com borda de catupiry em um prato de calzones?

Quando bateu um papo com a PF em Curitiba, o ex-ministro da Justiça afirmou que Bolsonaro pediu a troca do chefe da Superintendência carioca da PF no começo de março. A medida, por sinal, foi confirmada por Bolsonaro (que também não fez muito esforço para validar os prints que o ex-juiz disponibilizou ao Jornal Nacional).

O que o presidente nega, porém, é que isso tenha sido feito para ajudar os seus filhos (o que é um pouco de mentira) ou os seus amigos. O interesse é mais pessoal, sabe? Jair Bolsonaro está louco para utilizar a PF para ir atrás de Wilson Witzel e do porteiro que afirmou que ele recebeu um dos suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco.

Jair também não perdeu a chance de acusar Sergio Moro de cometer crimes. Segundo o presidente, o ex-ministro era responsável por vazar relatórios para a Globo e não repassá-los a Bolsonaro por completo. Também disse que o ministro mentiu ao afirmar que ele teria solicitado relatórios de inquérito. Mas a validade dessas informações nós devemos verificar nas próximas semanas.

Não há nada que indique, até o momento, que essa acusação não transformará Moro em um novo Joesley Batista. O ministro, de fato, entregou provas, indicou evidências, apontou testemunhas e caminhos para a investigação. Também se preveniu evitando acusar o presidente de crimes que ele eventualmente cometeu ou de se incriminar.

Mas conforme Jair Bolsonaro abraça o Centrão como uma mãe abraça o seu filho, é difícil dizer que isso tudo poderá direcionar o seu governo para um fim rápido. Falar mal de outros poderes Jair já fala dia sim, dia talvez. Falar ao ponto de ter menos de 170 deputados ao seu lado, porém, é outra história.

A boca meio fechada, meio aberta, dos (não) comparsas de Bolsonaro

Ao longo da semana a trupe de Bolsonaro que ainda está vinculada ao governo (ou não) começou a depor para a justiça. Um dos primeiros foi o ex-diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Valeixo confirmou que foi demitido sem o apoio de Moro e que Bolsonaro tentou sim interferir em investigações.

Passou meio batido, porém, uma afirmação sobre Adriano da Nóbrega. Segundo Valeixo, alguém, dentro do ministério da Justiça, tentou mobilizar um helicóptero e policiais da PF para trabalhar na operação que levou à morte do ex-miliciano. O problema? A operação era secreta e somente os envolvidos diretamente nas investigações deveriam saber sobre a sua execução.

Caiu na net

No vai e vem de acusações, o ministro do Supremo, Celso de Mello, mandou o Palácio do Planalto apresentar o registro em vídeo da reunião em que estiveram presentes Bolsonaro, alguns ministros e presidentes de bancos públicos. O encontro, que ocorreu em 22 de abril, seria o que Jair utilizou para dar o seu ultimato sobre as mudanças na Política Federal carioca.

Por alguns instantes ocorreu por Brasília a possibilidade de o registro ter sido apagado (o que tornaria o presidente uma pessoa muito feliz). A Advocacia-Geral da União tentou entregar o vídeo editado (alegando sigilo) ou simplesmente não entregar. Atitude seguida por Bolsonaro, que após afirmar que colocaria o vídeo no ar, mudou de ideia.

Há, porém, uma fotografia da reunião que nos permite detectar quem pode negar ou confirmar o falatório de Moro. A torneira dos vazamentos já começou a pingar e já sabemos que Bolsonaro chegou na reunião de péssimo humor, ameaçando demitir todo mundo. Virou-se contra o PGR a raiva do presidente, que queria ver a investigação aberta contra ele num futuro mais distante.

Mas não é só o presidente que olha para Augusto Aras com maus olhos. Dentro do próprio Ministério Público o procurador é mal visto. Os seus funcionários acham, com algum motivo, que ele não está completamente disposto a fazer uma denuncia contra o presidente mesmo que as investigações descubram elementos o bastante para isso.

Foda quando você bajula tanto um sujeito que ninguém acredita que você se colocará contra ele.

A próxima vítima

Pobre coitado do ministro da Saúde. Quando não está bancando o Mandetta em fim de emprego, está mais perdido que virgem em casa de contensão. Não entrega testes, não coordena ações, não contradiz o seu chefe mas certamente será culpado por tudo o que acontecer de errado.

O Ministério da Saúde prometeu 46 milhões de testes para todo o país. Entregou 5,1 milhões (11% do total). Parte deles, por sinal, doados pela iniciativa privada.

Ao lado de Teich, cinco militares foram colocados em cargos de coordenação e direção. Afinal, tudo o que precisamos neste momento é de gente que não está acostumada a trabalhar com saúde e crises sanitárias. Certamente não havia ninguém melhor para ajudar o ministro nessa hora do que o monte de milico que está transformando a pasta em uma sucursal das Forças Amadas.

Após a Covid-19 atingir todas as unidades federativas o ministro se comprometeu, no dia 5 de maio, a fazer uma campanha publicitária pelo isolamento social. Tomara que ela seja vinculada apenas na Folha de S. Paulo, na Globo e no Estadão. Assim, as chances de a Secom derrubar as propagandas são mínimas.

Enquanto Teich dá respostas grossas a jornalistas, Bolsonaro trata os serviços essenciais como a esquerda desenvolvimentista trata os setores estratégicos da economia. Agora, o presidente quer colocar as importantes empresas do setor das academias e dos salões de beleza para trabalhar. Tudo isso sem passar a canetada pelos olhos de alguém da Saúde.

Felizmente, as ações de Bolsonaro só serão efetivas na medida em que prefeitos e governadores concordarem com elas, o que não parece ser muito o caso. Vale lembrar: o Supremo delegou às prefeituras e aos governadores o direito de limitar quem abre e quem fecha até que a situação se normalize.

A Joaquim Levyzação de Paulo Guedes

Dia desses falamos aqui no blog que o ministro da Economia não gostou muito do que a Câmara fez para ajudar os estados e municípios. Sem ter feito muito esforço para mudar a tramitação dos projetos, o Congresso foi generoso e abriu a torneira do gasto público.

Até aí, tudo bem, faz parte do jogo democrático. Engraçado, porém, é ver que o ministro está se tornando o próprio Joaquim Levy em 2016.

O projeto de auxílio financeiro a estados e municípios passou por nova votação na Câmara. O ministro pediu apenas (e nada mais do que isso) que os salários de servidores fossem congelados. Acontece que o lobby das categorias bem articuladas e do próprio Planalto conseguiu derrubar a medida.

Disse o líder do governo, o Major Vitor Hugo, que ele é “líder do governo e não líder de qualquer ministério” (grifo nosso). Era comum, nos primeiros meses do segundo governo Dilma, ver o ministério da Fazenda enviar medidas para a Câmara e elas serem desidratadas com apoio dos petistas. O que é novo, porém, é ver gente que jura não ser parte da base de apoio de Bolsonaro criticando as medidas tomadas com apoio do presidente.

Talvez seja a hora do liberal médio repensar as suas avaliações do ministro que prometeu, há 10 semanas, transformar o Brasil em 15.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Desperate times calls for desperate measures

Falando em governadores e prefeitos, é crescente a quantidade de governantes que estão tornando as medidas de isolamento mais restritivas. Na ausência de lideranças federais que demonstrem a importância de ficar em casa, os números da pandemia crescem em ritmo acelerado (ainda que especialistas em administração de empresas apontem que, em breve, as coisas devem melhorar).

Belém e outros nove municípios do Pará já aplicam medidas de confinamento mais radicais. Quem ignorar as ordens pode tomar multas de R$ 150 a R$ 50 mil reais. Tudo depende de quem receberá a penalização.

Diz a Fiocruz que o confinamento radical pode acontecer de modo intermitente pelos próximos dois anos no Rio de Janeiro. Assim como em outros lugares, tudo dependerá da habilidade das pessoas de ficarem em casa. Mas se o país depender do apoio do presidente e de seus seguidores, estamos fodidos.

Bolsochavismo

Ainda no tópico de gente que não curte a democracia liberal e é meio chegada num fascismo à brasileira, o bolsonarismo não conta apenas com uma militância virtual pronta para espalhar ataques com dinheiro público. Agora também temos uma milícia armada determinada a defender o presidente e auxiliares de políticos da base do governo prontos para financiar toda a brincadeira.

Aquela manifestação nada democrática que ocorreu no dia 3? Ela foi mobilizada por grupos religiosos e pró-golpe com o apoio de assessores e ex-auxiliares de políticos bolsonaristas.

Entre os grupos está o “Os 300 do Brasil”. O agrupamento é o suprassumo dos Camisas Negras italianos (mas se quiser fazer um paralelos com os camisas pardas nacionais, pode). É organizado com o apoio de um dos assessores parlamentar da deputada federal Bias Kicis e liderado por Sara Winter.

O movimento roda pela internet pedindo apoio e procurando quem queira passar por um treinamento com especialistas em “revolução não-violenta e desobediência civil”. Também faz parte do cronograma de estudos da turma protofascista técnicas de “estratégia, inteligência e investigação” e “táticas de guerra de informação”. Ou, em bom português, o grupo quer aprender a andar sem máscara na rua, espalhar notícia falsa pela internet e buscar dados de opositores na internet.

Até o dia 5, mais de R$ 57 mil já tinham sido arrecadados para ajudar o grupo a fazer a sua guerra. Quem topar entrar para a brincadeira deveria fazer coisas que não informaremos e, assim, serem encaminhados para uma base secreta (????). Vale lembrar: o financiamento de idéias contrárias à ordem constitucional e o estado democrático de Direito é crime inafiançável, assim como propagar processos violentos ou ilegais de alteração da ordem política ou social ou que levam à animosidade entre as Forças Armadas.

Vai dar cadeia para alguém? Não. Talvez, com sorte, duas notas de repúdio em papel timbrado A4.

MAV presidencial

Pouco a pouco a CPI da Fake News e o inquérito do STF sobre o tema estão abrindo as entranhas da milícia digital dos Bolsonaros. Nos últimos dias, a página Bolsofeios saiu do ar. Mas se engana quem acredita que o movimento se deu após o Instagram começar a tomar ações efetivas para combater quem divulga conteúdo pouco democrático na sua rede.

Pouco antes da página cair, o UOL revelou que uma quebra de sigilo vinculou o perfil ao gabinete do deputado Eduardo Bolsonaro. A conta foi criada com o IP de um aparelho dentro da Câmara dos Deputados. Nos dados de cadastro encontravam-se o telefone do secretário parlamentar do Dudu e o e-mail utilizado pela assessoria do filho do presidente para compra de passagens e a reserva de hotéis.

A grande rede de notícias falsas e mobilização política envolve Twitter, Facebook e até podcasts. Tem gente que ganhou fama fazendo assédio direcionado (contra o blog, inclusive) e que surgiu do nada e morrerá em lugar algum. Mas, dessa vez, eles contarão com menos anuência dos deputados.

A insustentável crueldade do ser

Regina Duarte está se apresentando como uma legítima substituta de Ricardo Alvim. Em entrevista à CNN Brasil, a atriz minimizou a censura e a tortura da ditadura militar. Ignorando que o seu trabalho foi censurado pelo regime, descartou os mortos e torturados e louvou os militares.

Quando questionada sobre a falta de notas da sua pasta relacionadas aos artistas que morreram de Covid-19, disse que “não vive quem fica arrastando cordéis de caixões“. Pegou tão mal a postura da atriz que 29 autores da Globo assinaram carta de repúdio contra ela. Como disse o Mano Ferreria, “a secretaria de Cultura deixou de ter um nazista ideológico para ter uma nazista burocrática”.

Dando tiro na cabecinha do CNPJ

A quinta-feira (7) começou tensa. No meio da manhã, Jair Messias Bolsonaro saiu de seu local de trabalho acompanhado de um grupo de empresários na direção do STF. Sem anunciar o que faria, bateu na porta de Dias Toffoli para conversar como quem não quer nada.

Um dos empresários pediu o que o presidente não quer colocar o seu governo para fazer. Bolsonaro afirmou que havia CNPJs na UTI, como se o presidente do Supremo fosse capaz de fazer o trabalho do chefe do Executivo. Já Toffoli recomendou a Bolsonaro que ele fizesse o seu trabalho e articulasse com os estados e os municípios ações de combate à pandemia.

Até agora, a recomendação de Toffoli não foi colocada em prática.

A tentativa de Bolsonaro de pressionar o judiciário indevidamente pareceu uma das cenas de The Office em que Michael Scott recebe alguém da matriz de sua empresa. Enquanto todos tentam fazer o seu trabalho, Bolsonaro seguia com as suas próprias agendas e uma constante necessidade de protagonizar momentos constrangedores e em que nada agregam ao país.

Enquanto Guedes afirmava que a economia estava prestes a entrar no mesmo estado da situação Venezuelana (sem apontar o que faria para impedir isso (talvez uma nova reforma?)), Bolsonaro ignorava as recomendações do seu ministro da Saúde (outra vez). Foi desconsertante ver Toffoli lembrar a Bolsonaro que é ele o presidente do país. Infelizmente, Jair precisará de mais aulas para entender como fazer o seu trabalho.

Até lá, o número de mortes da Covid-19 no país continuará nos colocando no top 10 do rank mundial.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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