A torneirinha vazante da reunião de Bolsonaro, os exames do presidente e a pandemia enfiando um braço no orifício anal do país. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #72 do governo Bolsonaro.

Não se esquece de compartilhar com o papai, a mamãe e a titia.


The following takes place between mar-12 and may-18.


Proto-Joesleyday intensifies

Vamos começar pelo assunto da semana #72: o vídeo da reunião de Jair Bolsonaro em que ele teria explicado as suas intenções não republicanas com a Polícia Federal.

Segundo os relatos de quem estava presente, Bolsonaro afirmou que trocaria todos da “segurança” do Rio, nem que fosse necessário substituir o ministro (como ele eventualmente fez). Segundo Jair, ele não poderia ser “surpreendido” e a PF deveria passar mais informações.

Disse o presidente que no vídeo não há a expressão “Polícia Federal” presente (e que ele estava se preocupando com a segurança da sua família). Muito pelo contrário: há apenas o uso do termo “PF”. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República mudou de nome agora?

Mas o que há de mais legal no vídeo são os assuntos paralelos. Dizem os que viram a gravação que Bolsonaro chamou João Dória de “bosta” e Wilson Witzel de “estrume”. O ministro da Educação? Falou que todos os ministros do STF deveriam ir para a cadeia.

Quando Celso de Mello ampliar o número de pessoas que podem ver a gravação é melhor que muita gente esteja longe do poder. Eu não gostaria de contar com a boa vontade de um ministro do STF após afirmar que ele deveria ser preso.

Os depoimentos dos generais que também são ministros

Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, ministros de Bolsonaro, depuseram e negaram que Jair queria interferir na PF. Segundo Ramos, o presidente teria apenas se queixado da qualidade dos relatórios que recebia. Ambos confirmaram que Jair estava apenas muito preocupado com a sua segurança pessoal (algo que jamais foi da responsabilidade de Sergio Moro).

Bala de lata

Para quem trata o vídeo como uma bala de prata no governo, o blog recomenda cautela. Não deve ser muito difícil utilizar o que parece estar lá dentro como algo que é grave, mas não grave o bastante para derrubar Jair Bolsonaro. Afinal de contas, todo impeachment é uma batalha de narrativas políticas e convencimento da opinião pública.

Mas vamos por partes.

Durante os próximos dias o ministro Celso de Mello decidirá se o vídeo da reunião de Jair com Moro e companhia se tornará totalmente público. Sabe-se, porém, que as imagens são tão pesadas que o Procurador Geral da República ficou surpreso com o seu conteúdo.

Falando no PGR, se o vídeo for realmente tudo o que queremos que ele seja, Augusto Aras ficará em uma situação complicada. Se fornece denúncia para Bolsonaro, perde a cadeira no STF e salva a sua imagem nos anais da história nacional. Se faz o que o presidente sonha que ele faça, aumenta as suas chances de ganhar uma vaga no STF, mas certamente joga a sua reputação no lixo.

Em notas não necessariamente relacionadas: a pressão de Bolsonaro para a troca do comando da PF ocorreu duas semanas após um juiz eleitoral enviar um inquérito contra o seu filho senador para a PF carioca. Também não necessariamente relacionado com isso tudo, a deputada Carla Zambelli esteve no ministério da Justiça no último dia em que Moro bateu cartão na pasta, afirmando que atuava em nome do Planalto.

Fogo no parquinho

Quando o diretor-executivo da PF, Carlos Henrique Oliveira, abriu a sua boca para a Jusitça, a palavra de Bolsonaro começou a valer menos do que nota de 3 reais. Segundo o policial, a produtividade da Superintendência do Rio de Janeiro da PF estava dentro dos padrões mínimos de qualidade.

Mas as dores de cabeça que a Superintendência carioca da PF trouxeram para o Planalto nessa semana vão além do atestado de bons serviços prestados. O empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro, afirmou em entrevista que o senador foi alertado sobre o caso Queiroz. Mais do que isso: o ex-aliado de Bolsonaro também disse que uma operação da PF foi adiada para não prejudicar a eleição do presidente.

Não se sabe quem é o delegado em questão (ainda). Alexandre Ramagem já está fora da lista de suspeitos, mas a PGR já pediu que uma investigação sobre o caso ocorra.

O vazamento, se real, tem potencial para prejudicar mais a PF do que a família Bolsonaro. Flavio B. jura que é tudo invenção e que Marinho quer prejudicá-lo. O importante, sempre, é que quem não deve, não teme, não é?

O blog não se dará o trabalho de fazer exercício de história contrafactual aqui. Mas não deixa de ser verdade o fato de que a acusação só serve para reforçar a ideia de que Jair tinha sim motivos para interferir na PF carioca. Agora resta saber se o advogado-geral da República tratará as acusações como o novo ministro da Justiça trata as falas de seu antecessor.

Unhéé

A dificuldade de Bolsonaro lidar com algo que algo que não sai conforme os seus planos é fascinante. Gravar suas reuniões com ministros? Não pode mais.

Agora as reuniões serão todas individuais. As reuniões do conselho do governo viraram peça do passado. Se mais de um ministro quiser sentar-se à frente do presidente, terá que bater ponto no cafezinho mensal com ministros.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Agora, sim

Durou pouco o período em que Nelson Teich ficou à frente do ministério da Saúde. Após seguir a OMS (e não os desejos de Bolsonaro), o ministro entrou no azeite fervente.

Primeiro, Jair disse que todos os ministros precisam estar alinhados com ele. Depois, afirmou que discutia ampliar a recomendação do uso da cloroquina em pacientes com covid-19.

Conforme a fritura continuava, Bolsonaro já colocou o seu futuro testa de ferro ministerial a postos. O presidente colocou Eduardo Pazuello (número 2 no ministério da Saúde) de prontidão para quando Teich saísse. Mas antes mesmo que Pazuello terminasse o seu aquecimento, Teich resolveu salvar o que lhe restava de reputação e pediu para sair.

Triste é o país em que, no meio da sua maior pandemia sanitária, troca de ministro da Saúde na mesma frequência em que o seu presidente ataca a democracia.

Bolsomaduro intensifies

Sabe o acampamento da milícia armada chamada “300 do Brasil”? O Ministério Público do Distrito Federal quer obter um mandato de buscas para verificar se todas as armas ali são legalizadas. Enquanto isso, o presidente valida os seus atos ao lado de ministros de seu governo.

A nossa democracia vai bem demais.

Centrão 1 x 0 Impeachment

Manter-se no poder custa caro. No caso de Jair Bolsonaro, custará uma reviravolta no seu discurso político. Mas tudo bem, os minions disfarçados de comentaristas políticos na CNN já adotaram um novo pano para ser passado diante das novas articulações políticas do governo.

A nova base do governo já quer colocar os seus bracinhos na PF, no MEC e em três outros órgãos públicos à sua escolha. Só falta descobrir se os ocupantes farão parte do centrão raiz ou do centrão Nutella.

Ma-ma-ta

Sabe o auxílio emergencial? O ministério da Defesa descobriu que um montão de milico pode ter recebido o auxílio indevidamente.

A coisa ficou tão feia que o Tribunal de Contas da União teve que entrar na história. O órgão determinou que o nome de todo mundo que ganhou o benefício fosse parar no Portal da Transparência.

Mas segundo o presidente, somente soldadinhos de Deus sem asa ganharam o benefício. Uma “garotada” que, pelo visto, não pode ser penalizada por isso. Ainda bem que ele não trata o benefício como tratava o Bolsa Família, não é mesmo?

Bolsonaro 2022

Quanto mais a pandemia avança, maior a capacidade de Bolsonaro montar um governo que seja realmente seu. A sua aliança tática com o centrão e o apoio desavergonhado com a trupe de protofascistas que circula por Brasília nesses dias é apenas um sinal de que Jair quer voltar ao lugar em que sente-se mais confortável: subjugando os seus subordinados aos seus desejos e andando com o que há de pior na política nacional.

A empatia de Bolsonaro serve apenas para si próprio. Não há espaço para amor ao próximo na mente do homem que já disse que sacrificaria o próprio filho se necessário fosse. A depender do presidente, o país pode virar terra arrasada se preciso for para que ele possa ignorar leis e não prestar contas do que faz. Não é como se ele fosse um grande conhecedor do modo como o governo funciona.

Nunca fez parte do programa do bolsonarismo um combate à corrupção que seja efetivo. Alguém com tantos esqueletos no seu próprio armário jamais correria esse risco.

O mesmo vale para a sua defesa do liberalismo econômico. Não existe liberalismo pela metade. Da mesma forma, não existe liberalismo em quem ignora que está vivendo em uma ditadura e justifica a possibilidade de um AI-5 acontecer caso as oposições tomem as ruas para se manifestarem.

Há quem diga que a democracia não está em risco. O blog prefere confiar na sua habilidade de ganhar na loteria do que na força das instituições democráticas nacionais. Sabe como é, o nosso histórico não é dos melhores.

Ficará difícil, porém, construir um futuro em que a família Bolsonaro encontre-se longe do poder se aqueles que desejam manter-se longe de seu projeto (ainda que nem tão longe assim) insistirem em remoer rusgas do passado ou aceitar a derrota como a única possibilidade possível. Jair Bolsonaro continuará sendo impulsivo, compulsivo e autoritário. Mas se parte da esquerda mantém-se agarrada a um condenado na justiça, parte dos liberais tratam o seu projeto como impossível de ser vendido e a parte restante da esquerda não consegue abandonar ideias ruins, estamos todos fodidos.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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