O Brasil no top 3 da Covid-19, a reunião do horror finalmente vindo à tona e o ministério da Saúde virando um puxadinho do exército.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #73 da Nova Era!


The following takes place between mai-19 and mai-25


Quartel fazendo cosplay de ministério

Finalmente Bolsonaro conseguiu autenticar em cartório uma procuração em três vias para chamar o Ministério da Saúde de seu quintal pessoal de experimentos sanitários. Sem um ministro que entenda de medicina para comandar a pasta, a área apresentou um novo protocolo para o uso da cloroquina. Agora, médicos podem utilizar o medicamento mesmo que o paciente apresente sintomas leves ou não faça parte de uma pesquisa científica.

Profissionais da rede pública de saúde já relatam a pressão pelo uso do medicamento em tratamentos, situação que também se repete na rede privada. As prioridades são claras: manter a produção e distribuição oficial do medicamento no nível máximo enquanto Jair faz piada com quem se recusa a não seguir as recomendações da Organização Pan-Americana de Saúde (ou da OMS).

O gigante dormiu

O blog é grande entusiasta da sociedade civil ativa. Sabe como é: aqui praticamos o liberalismo político, econômico e social sempre que possível.

Justamente por isso, o blog se manteve muito feliz com a criação da filial nacional do Sleeping Giants, projeto norte-americano que informa a grandes empresas que seus anúncios estão sendo vinculados em sites propagadores de notícias falsas. A ação da versão brasileira já tirou anúncios de empresas como a Samsung e O Boticário. Tudo isso graças a um estudante solitário (e anônimo).

A reação da direita bolsonarista foi carregada de vitimismo e análises ideológicas de quinta categoria. A Dell foi chamada de comunista e um monte de gente jogou a carta do whataboutism para fazer de conta que não existam denúncias parecidas nos governos petistas (o que é uma baita de uma mentira). O incômodo foi tão grande que o Carluxo foi ao Twitter reclamar que o Banco do Brasil retirou a publicidade do Jornal da Cidade Online (duas vezes).

Após a reclamação, em um claro sinal de não interferência privada na coisa pública, o BB retomou a divulgação de anúncios na página.

Agora é tarde

Aparentemente uma parte da elite militar anda percebendo que aventurar-se ao lado de Bolsonaro pode ser mais perigoso para a imagem da instituição a médio e longo prazo do que alavancar uma nova aventura ditatorial. Diz o jornalista Valdo Cruz, que parte dos militares da ativa andam preocupados com a militarização do Ministério da Saúde e os impactos que as medidas tomadas terão para as Forças Armadas.

O blog torce para que militares fiquem com a imagem prejudicada o bastante para que terminem a sua participação no governo desejando continuar trabalhando dentro de quartéis por mais três décadas. Governo civil bom é aquele que é ocupado apenas por gente sem farda.

Tirando o peixe, a vara e a isca da mão de quem quer pescar

Com os sinais de que a pandemia durará mais tempo do que o previsto, já há discussões no governo sobre a possibilidade de ampliar o corona voucher (que não é voucher) para além de 30 de maio. Paulo Guedes concorda? Concorda se, e somente se, cortarem o abono salarial, o seguro-defeso e a farmácia popular. Isso daria ao governo fôlego para pagar os R$ 45 bilhões mensais que o auxílio custa para os cofres públicos.

A medida também pode ajudar Bolsonaro a manter parte da sua base de apoio nas classes mais vulneráveis. Segundo o DataPoder360, parte da popularidade do presidente está associada ao benefício. Resta saber se isso acontecerá se o auxílio cair para o valor de R$ 200,00.

Na dúvida, é só todo mundo ler essa coluna do Samuel Pessoa na Folha de S. Paulo.

Meu partido, minhas regras

O senador Flávio Bolsonaro tratou a verba do PSL como o seu pai quer tratar o seu cargo. Segundo a Folha de S. Paulo, F.B. utilizou o orçamento do PSL, quando ainda era membro do partido, para contratar o escritório de advocacia de um ex-assessor que estaria envolvido no vazamento de dados da PF. Ao longo dos 13 meses e meio em que o contrato ficou ativo, o PSL direcionou meio milhão de reais para a conta da empresa.

As notas fiscais apontam que o dinheiro utilizado para o pagamento tem como origem o fundo partidário. Victor Granado Alves, dono da empresa, é citado por Paulo Marinho como uma das pessoas que recebeu a informação de que o cu de Flávio B. estava em perigo. O PSL mandou avisar que quer o dinheiro de volta.

Futucando o cocô da onça

O Ministério Público Federal começou a investigar o possível vazamento da Operação Furna da Onça para a trupe do Bolsonaro. Segundo afirmou o empresário Paulo Marinho, um delegado da PF pode ter agido para beneficiar o presidente e os seus filhos.

Marinho disse que o vazamento pode ter ocorrido entre o 1º e o 2º turno das eleições de 2018. Serão ouvidos a delegada e os policiais que fizeram parte da ação, assim como o empresário.

2020 tem se relevado um ano triste para a instituição Polícia Federal. Foram de heróis da Lava Jato para acusados de ajudarem um presidente que hoje futuca na corporação. Em breve começam a pedir a volta do PT.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Esqueçam tudo o que escrevi

Baixou o espírito de Fernando Henrique Cardoso no número dois da Polícia Federal, Carlos Henrique de Souza. O diretor-executivo da organização procurou os investigadores do inquérito que investiga as denúncias de Sergio Moro para refazer o seu depoimento.

Segundo o texto, “o depoente gostaria de esclarecer que foi procurado no dia 27 de abril do corrente ano pelo delegado de polícia Alexandre Ramagem, que perguntou para ele, depoente, se aceitaria ser diretor-executivo da Polícia Federal durante sua gestão; que o depoente afirmou que aceitaria”. Anteriormente, Souza disse que não tinha sido procurado por ninguém. Agora, mudou de ideia.

O diretor-executivo é uma das principais testemunhas no inquérito. Ao mudar a sua fala, Souza contradiz Ramagem, que foi o favorito de Bolsonaro para comandar a PF. E se o seu novo depoimento confirmar-se, isso indicará que Ramagem ocultou informações para os investigadores.

Uma mão lava a outra

Bolsonaro ensaiou mais um momento de civilidade e respeito ao próximo. No mesmo dia em que passamos a barreira de vinte mil mortos pela Covid-19, o presidente foi atrás de governadores e parlamentares pedir trégua. Recebeu elogios até mesmo de João Dória.

O motivo? Dinheiro. O presidente quer apoio formal dos governadores para manter no Congresso os vetos a pedidos de reajustes dos funcionários públicos. Se tudo der certo, concursados não terão aumento até o final do ano que vem e os governadores receberão mais ajuda financeira do Planalto.

Guedes ficou aliviado com a medida. Afinal, o ministro sabe que não há fiscalismo que andou resistindo à pandemia. Mas vale lembrar: parte do congelamento foi prejudicado por ação da base do governo, não dos governadores. Talvez seja mais interessante negociar com a liderança na Câmara do que pagar de pacífico na frente de João Dória na próxima.

Aqui me tens regresso

O Centrão abraçou o governo como um filho com medo abraça a sua mãe. Com o apoio dos generais palacianos, a distribuição de cargos para gente como Arthur Lira segue firme e forte. Tudo feito à luz do dia e sem nem um pingo de vergonha.

Os deputados já são chamados de “Centrão Verde-Oliva“. Faz sentido. Enquanto a liderança do governo se reúne com os parlamentares fisiológicos, Roberto Jefferson vai à imprensa afirmar que lutará contra às esquerdas na base da bala. A realidade e o custo de sobreviver a um impeachment dobrou até mesmo os discursos mais apaixonados de Augusto Heleno.

Brazzers

O dia 18 foi cheio de correria no departamento de TI do Supremo Tribunal Federal. O site do STF e os seus servidores ficaram instáveis por uma boa parte da tarde. Não por um ataque hacker: apenas testes de segurança.

No final daquela segunda-feira, o ministro Celso de Melo recebeu em sua casa o link de acesso para o streaming da reunião ministerial mais comentada do Brasil. Vídeo esse que, na sexta, tornou-se público para o desgosto de todo mundo que ainda apoia a manutenção do decoro dentro do ambiente público.

A conversa teve todo tipo de vulgaridade. Nenhuma linha sobre a covid-19 e que medidas deveriam ser tomadas para conter a pandemia. E mentira. O que não faltou foi mentira saindo da boca do projetinho de Mussolini.

Quem quiser ver a transcrição, é só clicar aqui. Houve ministro falando em colocar gente do STF na cadeia e ministro afirmando que deveríamos aproveitar o momento para desregulamentar o que não deve ser desregulamentado na miúda. E no meio das brigas de Paulo Guedes com Braga Netto, a Damares até achou tempo para afirmar que o governo deveria processar governadores e prefeitos por adotar medidas restritivas.

Há quem diga que o boca suja que chamamos de presidente saiu mais forte após a divulgação do vídeo. O blog espera que esse lado do debate esteja errado e que isso seja o começo do fim para o governo Bolsonaro.

Pois, veja bem, se a prova em vídeo de que somos governados por um bando de lunáticos, que flertam com o fascismo sempre que podem, tratam a coisa pública como um curral para os seus interesses, consideram as instituições democráticas como um problema, são loucos para terem a própria milícia armada e querem tratar todo mundo que não está ao lado deles como bandidos não for o bastante para desmoralizar o governo e quem andou ao lado dele no último ano, é melhor pararem de fazer oposição e deixarem Bolsonaro virar o rei destas terras. Não vale manter a disputa política viva se as oposições tratam qualquer ação e fala de Bolsonaro como uma vitória automática. Melhor irem ver o filme do Pelé.

Engavetador-Geral da República 2.0

Há quem diga que na Pizzaria-Geral da República o vídeo é tratado como coisa séria. O blog duvida, mas aparentemente a equipe de investigações considera o vídeo como um sinal de que Bolsonaro queria sim meter o dedo na PF por motivos pessoais.

Mas, para quem acompanha o caso há mais tempo e possui uma memória boa, há a lembrança de que essa não é a única prova que pode ser utilizada contra o presidente da República. Moro deixou o seu telefone nas mãos da Polícia Federal para a recuperação das mensagens trocadas entre ele e Bolsonaro. Há também todas as falas do presidente que vão à favor do que disse o ex-juiz e a boca larga de Carla Zambelli.

Resta saber, porém, se o PGR vai mesmo acusar o presidente. Veja bem, ninguém duvida do desejo de Augusto Aras de manter a imagem do MPF brilhando (mentira), mas fica complicado confiar no desejo do procurador quando o presidente chama o profissional de “maravilhoso da Procuradoria-Geral da República”. Mais ainda quando há até publicação de notinha afirmando que o Planalto espera o arquivamento do inquérito e visita surpresa ao prédio da PGR.

Não é a primeira vez que um presidente ganha um procurador omisso para chamar de seu.

Em notas relacionadas: o golpismo segue forte

Além de publicar o vídeo, o decano do Supremo também mandou para a Procuradoria Geral da Republica três notícias-crime sobre a possibilidade de Bolsonaro ter metido o dedo na PF. Há o desejo de três partidos de esquerda de apreender os celulares de Maurício Valeixo, do ex-ministro Sérgio Moro, da deputada Carla Zambelli, do Vereador Carlos Bolsonaro e de seu pai, Jair Bolsonaro. O blog acredita que o pedido foi engavetado mais rápido do que a velocidade de troca de marchas de um carro da Fórmula 1.

A certeza de que as queixas serão arquivadas, porém, não impediu o ministro Augusto Heleno de deixar o seu autoritarismo à mostra. O filhotinho de ditadura publicou nota afirmando que o “pedido de apreensão do celular do presidente é inconcebível e, até certo ponto, inacreditável”. Também disse que, se a medida fosse executada, ela seria vista como uma “afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro poder”.

Alguém deveria bater na cabeça do “ameaçador geral da União” com uma cópia da versão de O espírito das leis traduzida pelo FHC até ele perceber que não é de bom grado alertar as autoridades de que atitudes que ele não gosta são vistas como “uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes” que pode “ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional.” O tempo da ditadura civil-militar da qual ele fez parte acabou.

O mesmo vale para o presidente Jair Bolsonaro. Em vez de ficar de indiretinha no Twitter, o chefe do Executivo deveria tomar cuidado. Para os ministros do STF se unirem contra ele, pouco custa. Aí não vai ter aprendiz de miliciano que salve Bolsonaro de uma queda horrível.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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