A contabilidade criativa de Bolsonaro, a postura racista de quem deveria combater o racismo e as vivandeiras da ditadura atacando de novo, novamente, mais uma vez. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #75 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-02 and jun-08


Cuidado com a vivandeira aí, gente

Há um grande número de pessoas em todo o país dispostas a furar a quarentena para defender a democracia, retomar as ruas para si e lutar por outros vários valores muito legais. Como instituição democrática que é, o Exército já olha com tensão a possibilidade de tais manifestações ganharem força. Especialmente se o inevitável acontecer e uma boa parte dos manifestantes pró-democracia terminar o dia beijando o cassetete de um PM de modo não consensual.

O medo dos generais da ativa é de que um novo 2013 ocorra. Há quem suspeite que Bolsonaro utilizará as ruas tomadas de manifestações contra o seu governo para invocar o artigo 142 da Constituição de modo criminoso. O blog mantém, até segunda ordem, a ideia de que é pouco provável que isso aconteça e que, se acontecer, não terá o sucesso esperado.

Valsa verde oliva

Não faz muito tempo que Augusto Heleno disse que não há chance de o Exército brincar de abril de 1964 novamente. Hamilton Mourão, outro dia mesmo, falou que não via “motivo algum para golpe“. Já o ex-ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz disse que militar de reserva não representa a corporação.

Todos os três podem até estarem certos, mas lembraram-se de combinar com os russos antes de falar isso? Eles bateram um papinho com todos os policiais militares que não pensariam duas vezes em apoiar qualquer levante autoritário capitaneado pelo presidente e as suas ideias nebulosas? Ou são fortes o bastante para segurar qualquer quartelada que se formar no futuro? Afinal, até agora, estão se comportando como flocos de neve.

É melhor que a resposta para todas essas perguntas apontem para um cenário em que as Forças Armadas trabalhem em conjunto para manter a democracia (e não o contrário). A instituição já anda queimando o filme demais dando uma cor verde-oliva ao governo. Ficará pior ainda se torrar a sua imagem um pouco mais brincando de flashback com alguns cabos e alguns tanques.

Esqueçam tudo o que eu falei

Quem também botou as asinhas autoritárias de fora nos últimos dias foi o Procurador Geral do Bolsonaro, digo, da República. Augusto Aras, em entrevista a Pedro Bial, afirmou que “um poder que invade a competência de outro, em tese, não há de merecer a proteção desse garante da Constituição. Se os Poderes constituídos se manifestarem dentro das suas competências, sem invadir as competências dos demais Poderes, nós não precisamos enfrentar uma crise que exija dos garantes uma ação efetiva de qualquer natureza.”

Pegou tão mal quanto uma criança de cinco anos dirigindo um carro. Aras, vendo que ninguém gostou da sua ideia (além de Bolsonaro e três golpistas à sua escolha), emitiu nota corrigindo a sua fala. Disse o procurador que as instituições estão “funcionando normalmente” e que a Constituição “não admite intervenção militar” (mas se o Bolsonaro colocar ele no STF, dá para rever isso aí).

Radicalizar para não tombar

Fazendo coro ao presidente, Hamilton Mourão, seu vice, publicou um artigo afirmando todo tipo de impropério que só sairia da boca de um autocrata em formação. Chamou quem protesta a favor da democracia de baderneiro e classificou os protestos como abusivos.

Mourão também confundiu a oposição do presidente com os seus apoiadores e disse que os manifestantes pró-democracia querem ensanguentar as ruas da nação. E Jair Bolsonaro? Seguiu a linha retórica e chamou todo mundo de marginal e terrorista.

Se Mourão faz da sua mente uma sucursal das ideias do General Heleno, Bolsonaro age por motivos mais simples. O presidente está louco para fazer um outsourcing golpista (mas se for PPP, pode) e reduzir as chances de cair após o fim da pandemia. Pode não parecer, mas a água já bateu na bunda do ocupante do Planalto.

Em notas não relacionadas, Luís Roberto Barroso retomou o julgamento de duas ações que podem levar à cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no TSE nessa semana. No dia 10, o STF decidirá se o inquérito das fake news é constitucional ou não.

É pouco provável que as duas ações darão em algo. Mas é ainda menos provável que os ministros do STF e do TSE não se unirão para comer o cu de Bolsonaro e Mourão a médio e longo prazo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Gol contra com a mão

A última quarta-feira (03) terminou com um gosto amargo. No quarto dia em que o governo divulgava os dados consolidados da pandemia do coronavírus às 22h, o Brasil soube duas coisas: que uma pessoa estava morrendo a cada minuto e que mais de 32 mil brasileiros tinham perdido a luta contra a doença.

A princípio, o governo federal negou que o atraso seria proposital, mas as evidências de que o governo estava jogando contra a transparência aumentaram dia após dia. Rolou até confissão desavergonhada (mais sobre isso adiante).

Igualmente, quem acredita que Bolsonaro está a favor do vírus (e contra o país), conseguiu reforçar ainda mais o seu viés: o presidente vetou o repasse de R$ 8,6 bilhões ao combate à pandemia que seria direcionado aos estados e municípios. O dinheiro será direcionado para o pagamento da dívida pública (que segue alta).

A decisão foi tomada após Bolsonaro editar uma medida provisória acabando com um fundo do Banco Central. Diz o presidente que o voto foi necessário pois a ação dos parlamentares viola a lei. Agora caberá ao Congresso determinar se o veto será ou não derrubado e os estados receberão o primeiro (ou segundo) apoio financeiro do Planalto em 70 dias para lidar com a covid-19.

Pedalada sanitária

Não satisfeito em apenas divulgar os números da covid-19 após o Jornal Nacional (como se isso fosse impedir o Grupo Globo de fazer algo pior), o Ministério da Saúde passou, também, a fazer contabilidade criativa com o número de mortos da pandemia.

Na noite de domingo (07), a pasta bancou o contador bêbado e calculou os números do seu balanço com a precisão da vista de um míope. Às 20:40, o número de mortos registrados oficialmente nas últimas 24 horas era de 1.382 pessoas. Menos de duas horas depois, o site oficial indicava 525 óbitos.

A justificativa? O governo resolveu adotar uma nova estratégia para consolidar as informações, focando apenas nas mortes das últimas 24 horas. A “tortura de números” não passou despercebida.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde colocou a mão na massa e montou a sua própria plataforma de transparência. A iniciativa se junta a outras, movidas por veículos de imprensa e entidades civis, para contornar a falta de dados do Ministério da Saúde.

Como se a nova abordagem por si só não fosse um problema grave o bastante, o governo federal também reduziu o número de registros disponíveis para a população. O site oficial, que chegou a ficar em manutenção, deixou de exibir o número total de pessoas mortas pela covid-19 e infectatas por Sars-Cov-2. Medida semelhante foi adotada nos aplicativos oficiais do governo.

Vendo que enfrentaria ações com o apoio do Ministério Público Federal, o governo voltou atrás, mas não sem um empurrãozinho do STF: o ministro Alexandre de Moraes obrigou que o Ministério da Saúde voltasse a divulgar os dados consolidados de casos e mortes em seu site.

Mais transparente do que eu?

Não demorou muito para a história de mudança técnica ir pelos ares. Segundo Lauro Jardim, o presidente foi quem mandou a estratégia de divulgação ser modificada. O então chefe da Secretaria de Vigilância da Saúde, Eduardo Macário, não gostou da ideia. Foi trocado por alguém que concordava com elas e tudo seguiu-se normalmente.

A ideia era simples: mostrar que o número de mortes diárias jamais ficou acima de mil óbitos por dia. E quem é o dedo podre no meio da situação? Luciano Hang, que fez um vídeo encaminhado ao secretário-executivo da Saúde apontando a receita do bolo de cenoura sanitário.

A receita é criminosa. E dá impeachment. Basta o Congresso assim desejar.

A serviço secreto de sua majestade

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, caiu na net para mostrar a todos os que acusaram a sua nomeação de inválida que eles estavam errados. Na última semana, uma gravação de reunião veio a público mostrando que Camargo seria um ótimo exemplo de pessoa que seria combatida pela fundação. Teve de tudo, de ataques ao movimento negro à memória de Zumbi dos Palmares.

“Alguém quer me prejudicar, invadir esse prédio para me espancar, invadir com a ajuda de gente daqui”, afirmou Camargo. “O movimento negro, os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita”, também disse o presidente da fundação.

Camargo também falseou a história nacional e mostrou que está precisando de leituras menos politicamente incorretas. Disse que que não precisa admirar Zumbi dos Palmares, alguém que, para ele “era um filho da puta que escravizava pretos” (improvável). E para fechar com chave de ouro, disse que não apoia a “agenda consciência negra” e que no que depender dele, “vai ter zero da consciência negra.”

Há como dizer que, assim como o fazedor de dossiê que cheira ilegalidade, Camargo é um apoiador perfeito para fazer parte do governo Bolsonaro.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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