Os não ministros da Educação atacando novamente, as dores de Bolsonaro e as mágoas de Paulo Guedes. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #78 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between jun-30 and jul-06


O novo ex-quase-ministro da Educação

A horrível educação brasileira segue sem alguém para cuidar dela. Ao longo da semana, o secretário da Educação do Paraná, Renato Feder, foi cotado para assumir a pasta. Mas era um nome que desagradava a militares, líderes religiosos e olavistas. A repulsa era tanto que chegou a rolar dossiê contra o quase ministro.

Mas não foi necessário jogar o nome de Feder na lama. Ao longo do final de semana, o secretário recusou publicamente o convite. O que fez até bem.

Em notas relacionadas, como secretário de educação do Paraná, Feder deixou 165 cidades sem aulas televisionadas durante a pandemia de covid-19. Imagine o que seria do Enem digital com uma pessoas dessa cuidando da pasta. Pois é.

Também é, mas não é só isso

Carlos Decotelli, que foi demitido sem cerimônia de posse, acusou o racismo estrutural como um dos motivos para ter sido expulso do cargo. “Brancos trabalham com imperfeições em currículo sem incomodar”, afirmou.

É mentira? Não é mentira. Ricardo Salles, do Meio Ambiente e Damares Alves, da Pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também mentiram nas suas apresentações. Na Educação, Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub também apresentaram uma biografia falsificada.

E olha que o nosso recorte foi do governo Bolsonaro. Se voltarmos para outros, há mais absurdos por aí.

Mas é necessário uma ingenuidade muito grande para achar que o único motivo para Decotelli ter caído em desgraça é o racismo estrutural. O governo Bolsonaro já demonstrou não ter vergonha de manter no poder quem comete os mesmos erros do quase ministro.

Se há um grande culpado nisso tudo é o bolsolavismo. Os 15% de radicais que apoiam o governo a todo custo e seguem o guru da Virgínia querem utilizar o MEC como ambiente para a construção de uma revolução cultural. E enquanto um novo radical não for chamado para o ambiente, eles não se cansarão.

Vendedor de ilusões

Dia vai, dia vem, e Paulo Guedes segue sendo um dos nomes que mais mancham a imagem do liberalismo brasileiro no século XXI. São poucos os pretensos liberais que conseguem jogar na lata de lixo um movimento de defensores de ideias da liberdade com tanta eficiência.

Já vamos para um ano desde que a última grande reforma de iniciativa do Planalto foi aprovada no Congresso. Apesar da nulidade que a oposição organizada se tornou, a semana da reforma administrativa ainda não chegou. O mesmo vale para a tributária, que deve ser aprovada até o final do ano (certamente por boa vontade do Congresso e não pelo desejo reformista do Executivo).

Na CNN, o ministro faz discurso onde era para ser entrevistado. Jura que há um espírito de autossabotagem no Brasil enquanto promete vender até a mãe do leitor. No meio do caminho, faz negacionismo da ação do governo que mais tirou gente da extrema pobreza no espaço de 365 dias na nossa história.

O nome disso aí? O nome disso aí é inveja e ressentimento. Só isso explica o modo como Guedes trata quem esteve nos governos anteriores ao atual e fizeram muito mais do que ele jamais pensou em fazer pelo país.

Fica cada vez mais difícil para o ministro mostrar que não é apenas um liberista medíocre que vive de vender discurso motivacional para quem bate ponto na Faria Lima. O blog, nessa história, fica do lado dos liberais por inteiro que tiraram pessoas da pobreza com o Bolsa Família, o tripé macroeconômico e o Plano Real. Coisa de valores.

Fica de olho nisso aí

Mentira agora é crime. Ou quase isso. Por 44 votos a 32, o Senado aprovou o projeto de lei que pretende endurecer o combate às notícias falsas.

Agora o PL das fake news segue para a Câmara. A versão atual obriga plataformas com mais de 2 milhões de usuários a cobrar dos membros documentos que comprovem a sua identidade em caso de denúncia. Há também limites para contas vinculadas a uma única pessoa e novas regras para o armazenamento de dados.

Muita gente protestou. E com razão. O texto, que não era lá aquilo tudo, ficou só um pouco melhor após ser aprovado. Mas será necessário um debate muito mais aprofundado por parte dos defensores do status quo para que o PL seja melhorado e consiga garantir um combate à rede de disseminação de mentiras sem destruir a nossa liberdade de mandar pack do pezinho no Whatsapp.

Um bom caminho é começar a focar mais no financiamento da mensagem do que nos meios de divulgação. Essa prática funcionou bem nas últimas décadas.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A liberdade é boa demais

Na última semana um monte de profissional livremente associado às plataformas de entregas digitais se organizou de modo autônomo para exercer a sua liberdade de expressão e tentar negociar mudanças nos contratos por eles firmados sem a interlocução com entes estatais. Coisa linda.

A pauta envolvia mudança nos valores da corrida, melhores comunicações sobre os bloqueios e até mesmo EPIs. Não passavam, porém, pela sindicalização da categoria (mas se quiser, pode) ou a sua CLTização.

Grupos de esquerda tentaram surfar no movimento e pediram até que os apps fossem mal avaliados. O iFood se manifestou com continhas safadas e dizendo que algumas (mas não todas) pautas já eram atendidas. Alguns liberais, porém, saíram por aí falando que os incomodados deveriam criar o próprio app. Sim, pois é muito fácil para trabalhadores com baixa formação entrar em um mercado dominado por empresas multimilionárias e crescer rapidamente.

É uma pena que boa parte dos liberais tirou o dia para fazer grandes análises técnicas sobre a inviabilidade do movimento dos entregadores. Parece até que a ação foi organizada por pessoas não adultas e não alfabetizadas e que precisam mesmo da condescendência alheia. Tudo isso por ter sido uma ação apoiada por Laura Carvalho, CUT e PSOL.

O movimento liberal ganhará muito se os pretensos liberais por inteiro gastarem 5 minutos do seu dia para avaliar movimentos autônomos pelas palavras de quem os organiza (e não de quem o apoia). Ganhará, também, se ler mais Adam Smith e aprender a diferença entre boicote e greve.

Já passou da hora dessa gente perceber que o Brasil é formado mais por gente que pedala várias horas por dia do que por dono de startup que desconhece um ambiente sem ar-condicionado. Merquior e John Rawls agradecem.

Essa água vai bater no bumbum logo logo

O governo amansou. Desde o começo de junho o presidente está ouvindo mais do que falando. E um Bolsonaro que fala pouco é um Bolsonaro que fala pouca bosta autoritária, sempre.

O esforço para evitar novas crises foi notado por todos. Um Bolsonaro calado, abatido e pouco crítico aos outros poderes é bem diferente daquele que bradava a força da sua caneta. Também é um que quer muito proteger o seu pescoço e o de seus filhos.

Nas últimas semanas, o justiça começou a cercar a família e as suas rachadinhas. A própria rachadinha do Bolsonaro, aliás, veio à tona. Há também as chances sempre grandes de um impeachment ser alavancado com o fim da pandemia e do auxílio emergencial.

E ainda existe a possibilidade de Joe Biben ser eleito e o presidente perder uma bola para chupar no cenário internacional. Tudo isso, é claro, acendeu um alerta vermelho no Planalto. Vamos ver por quanto tempo essa luz ficará acesa e o sinal verde do autoritarismo se fará presente novamente no nosso dia a dia.

Hidra de Lerna

Enquanto isso, os olavistas dentro e fora do governo são desmoralizados e perdem força. Ernesto Araújo, o 4chanceler, não consegue elencar meia dúzia de feitos positivos do seu trabalho. Até mesmo as exportações nacionais são motivo de vergonha para alguém que cuida da imagem de uma nação que é um dos celeiros do mundo.

Nas redes sociais, estão perdendo forças e voltando para nichos de internet. Ou melhor, expandindo as suas garras para novos canais. Tudo isso sem uma oposição que se organiza achando que não convertido quer ouvir Alexandre Padilha em pleno 2020 de nosso senhor Jesus Cristo.

Se Bolsonaro mantém radicais isolados, consegue governar com um pouco mais de facilidade. Se ele mantém os olavistas com poder, perde a chance de ter quadros minimamente preparados para cuidar das políticas públicas do seu governo. Em todos os cenários, a força dos cruzados olavistas é algo que deveria ser motivo de preocupação para todo mundo que quer viver sob a proteção de um Estado minimamente funcional e guiado pelos valores iluministas.

E agora, para o dodói da semana

Jair Bolsonaro está com covid-19. Ou pelo menos é o que ele quer fazer o país acreditar. O presidente afirmou que já está tomando cloroquina e que tirará a semana de folga.

O blog não fará um apanhado de todas as falas desumanas que o doente em idade para se aposentar já disse em três décadas de carreira para justificar o desejo de morte ao mandatário da nação. Também não fará um projeto de cálculo utilitarista para apontar que a vitória da doença seria um bem para o brasileiro médio.

Ou listar todas as ações do presidente nos últimos dias que inviabilizam o combate à pandemia para desejar que ele se foda para um caralho alado do tamanho de um cometa. Já há muita gente boa fazendo isso.

Mas não será, também, o blog o responsável por escrever belas palavras desejando a rápida retomada da saúde de Bolsonaro para que ele pague pelos seus possíveis crimes. Ou que isso sirva para que ele aprenda a ter mais empatia com o outro. Aqui se trabalha com realismo (em geral).

Importa, como disse Reinaldo Azevedo, o modo como a política de saúde do país é conduzida. E com presidente doente ou saudável, infelizmente, ela será conduzida da pior maneira possível por um bom tempo.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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