Uma semana digna de 1979.


The following takes place between feb-16 and feb-22


Valeu a pena?

Lembra quando o pessoal falava que o problema era o Rodrigo Maia e que um presidente da Câmara alinhado com o Planalto ajudaria o Executivo a destravar as suas pautas? O blog lembra e o blog traz a verdade: não será o caso.

O Centrão já mandou o aviso de que as pautas que o Bolsonaro mais gosta não terão um apoio automático no Congresso Nacional. Essa coisa de aliviar a barra de PM que não conhece o Estado de Direito, ampliar o acesso a armas para projetos de milicianos e deixar a Damares feliz ficará para outro dia.

Tudo pode mudar com o apoio de umas indicações para ministérios, meia dúzia de diretorias de estatais e um pouco mais de verbas para emendas? Sim. Mas por hora, é melhor o presidente repensar as prioridades da sua agenda de 37 prioridades para o país.

Não dá mais para culpar o Maia.

Intervenção militar liberal constitucional

Após tentar afagar a sua base louca por um tanque de guerra na garagem, o presidente Jair Bolsonaro foi prestar ouvidos aos caminhoneiros de todo o país. O presidente partiu para cima da Petrobras (de novo), falou que os seus produtos finais são para as pessoas e que o preço deveria cair. Como? Bem, na base da dedada no cu e da gritaria, ou algo assim.

O presidente indicou um general para substituir o atual presidente e, como consequência, tentar mudar a política de preços da petroleira. E após intervir na empresa, o seu indicado disse que aquilo não era uma intervenção. É golpe então? Pois todo mundo sabe que militar adora um golpe.

A intervenção liberal para promover redução de liberalismo também deve chegar na Eletrobras. O esquema será o mesmo: dedada.

Choque de realidade

As ações na Petrobras e o aviso de que a diretoria da Eletrobras deveria renovar o estoque de KY fez a Faria Lima perceber que alguém que gastou quase três décadas da sua vida não sendo liberal não era liberal. Os conselheiros, por outro lado, seguem em um estado de negação da realidade e acreditando que a política de preços está imune a mudanças.

No meio desse rolo todo, o blog fica se perguntando como é que pode um monte de gente conseguir gerenciar bilhões de reais e não reservar R$ 1.500,00 para contratar um cientista político para fazer análise política. Só quem fez de conta que as páginas de jornais citando o presidente nos últimos 30 anos não existiam foi capaz de acreditar que ele seria “liberal por inteiro”.

Ler planilha o dia todo acaba com a habilidade de ler notícia do caderno de política? O blog aceita a resposta de algum Faria Limer com carinho e amor.

Querida você está: abatida

A dedada do Bolsonaro custou caro. Para ser mais preciso, a interferência do presidente fez a estatal perder R$ 100 bilhões em valor de mercado. Isso mesmo: cem bilhões de reais.

Sabe o que dá para fazer com R$ 100 bilhões? Comprar uma empresa que faz vacina. Ou muita vacina, tanto faz.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Merece pena? Não merece pena

O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) resolveu brincar de golpismo e você não sabe o que aconteceu: ele se fodeu.

Após falar todo tipo de absurdo em vídeo, o deputado foi preso em flagrante pela Polícia Federal. Utilizando uma grande artimanha jurídica, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes enquadrou o ex-PM na Lei de Segurança Nacional (aquela mesmo).

O gente fina é investigado pelo STF nos inquéritos dos atos golpistas e das fake news. A sua prisão se deu no âmbito do último, mas poderia ser do primeiro também, era só o STF desejar.

Diante da prisão, Silveira seguiu o manual do vigarista de direita e reafirmou tudo o que disse em um novo vídeo (preso pode gravar vídeo enquanto é preso?). Disse que o ministro estava entrando em uma queda de braço que ele não poderia vencer (o que é mentira, já que não era uma questão de quem malha melhor o tríceps). Também lembrou, com orgulho (!), que já foi preso mais de 90 vezes na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Eu-eu-eu, otário se fodeu

Naturalmente a defesa formal (e informal) de Silveira partiu para o discurso de ataque à liberdade de expressão como se a gente vivesse em um mundo de conceitos abstratos e uma má leitura de Stuart Mill. Não vivemos.

Daniel estava muito confiante de que seria salvo por alguém e que a sua postura era adequada. Ao chegar no IML, continuou desrespeitando a lei e mostrando que é tigrão com mulher e tchuchuca com bombadão.

O PM licenciado foi transferido para um batalhão da PM e aproveitou para continuar falando frase de golpista. E como bom cidadão de bem que é, foi pego pela PF com dois celulares em sua cela. Ninguém sabe como eles chegaram lá, mas Alexandre Moraes já pediu uma perícia nos dois aparelhos.

O gigante acordou

Enquanto a Suprema Corte se movia para referendar por ampla maioria a decisão de Moraes, o Executivo ficou calado. Jair Bolsonaro fez o que lhe parecia mais adequado e tratou o problema como se não fosse relacionado a ele (até que é, mas não dá para fazer cara de surpresa ao ver o presidente brincando de “filho feio não tem pai” quando a corda aperta).

Ao mesmo tempo, a Procuradoria-Geral da República tomou um energético, saiu do estado de constante inércia e denunciou Silveira com a acusação de incitação do emprego de violência e grave ameaça para tentar impedir o livre exercício dos Poderes Legislativo e Judiciário (e instigar a animosidade entre as Forças Armadas e o Supremo).

Meme do Centrão não corporativo

O preso também contava com a anuência e o corporativismo da Câmara. No lugar, teve senso de autopreservação e defesa da democracia por parte dos deputados (ou pelo menos a parte deles que realmente se importa em manter a coerência).

Arthur Lira (PP-AL) foi avisado previamente por Moraes sobre a prisão, pouco fez para conter a Polícia Federal na execução do seu trabalho e ainda deixou claro que na Câmara o pássaro pode cantar diferente quando for conveniente.

Levemente abandonado pelo partido e apoiado apenas por algumas pessoas, a maioria dos deputados votou a favor da manutenção da prisão de Silveira. O relatório foi assinado por um tucano pouco afeito a essa coisa de atacar as instituições e foi impresso após a audiência de custódia referendar os atos do STF. Ficou difícil sustentar o discurso da inconstitucionalidade neste caso.

É o que tem pra hoje

O blog gosta da Lei de Segurança Nacional? Não, o blog prefere ver ela no valão das leis do país. O blog acha que esse era o melhor caminho para punir gente com discurso abertamente golpista? Também não.

Mas vivemos em tempos complicados demais, com a bolsonarização das formas públicas, a milicialização da vida privada, as forças armadas deixando o golpismo escapar pelo rabo da saia, policiais praticando motim sem o presidente repudiar e um presidente pouco democrático. Até apresentador pedindo por golpe em programa de TV a gente já teve nos últimos dias.

Isso não é coisa de uma democracia saudável. Aliás, fôssemos uma democracia saudável é pouco provável que o STF teria que entrar na frente dos outros poderes e fazer o que a Câmara deveria ter feito. Ou, talvez, ele sequer teria sido eleito.

Os tempos não são fáceis e se o custo de ver gente golpista pagando pelo seu golpismo é o STF fazendo malabarismo constitucional, bem, que a gente pague esse boleto com um Pix feito diretamente da nossa NuConta. A vida nem sempre nos entrega o que queremos.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *