Vem aí: Lula neoliberaldesenvolvimentista, um Ciro Gomes com um vocabulário cada dia mais deselegante, um Bolsonaro que não se difere do que ele sempre foi e um Novo novo.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana 114 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mar-02 and mar-08


Essa semana na Covidparty chamada “viver no Brasil”

Os burocratas da saúde perceberam o abismo em que nos encontramos

Já diria a Laerte: a ficha demora a cair, mas uma hora ela cai. A última semana começou com os secretários estaduais de Saúde afirmando que o país vive o “pior momento da crise sanitária” e terminou com a crise sanitária dobrando a aposta. O caos nas redes públicas e privadas foi generalizado e, atendendo ao pedido de Romeu Zema (Novo-MG), o vírus viajou o bastante para ser cliente Smiles na categoria Diamante.

O documento, que foi assinado pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), defendia coisas simples e que acabaram sendo adotadas por muitas cidades ao longo dos últimos dias. O destaque em especial do blog fica para algo que o pessoal continua a dizer que não deve ser feito: a suspensão das aulas presenciais.

Dilmas Covas, diretor do Instituto Butatan, deu entrevista afirmando que “a tragédia entrará na conta dos negacionistas”. Considerando que os negacionistas são muito bons em dar socos e pontapés em quem defende a vida, o blog pede ao cobrador muito juízo (e umas aulas de karatê antes de entregar o boleto).

Os governadores brincaram de Rodrigo Maia

Se os secretários de Saúde estão implorando para que o país se cuide, os governadores estão sendo dobrados pela realidade pouco a pouco enquanto brincam de Rodrigo Maia. Dezenove governadores começaram a semana publicando uma carta que contestava a mentira do presidente sobre os repasses federais feitos aos estados.

Dias depois, um número menor (14) de governadores mandou uma carta para Bolsonaro lembrando que o país está no “limite de suas forças” e pedindo um “esforço ainda maior” da União para a compra de mais vacinas. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, respondeu à carta com um “se fode aí“.

É fácil entender o desespero. Em pelo menos oito estados o número de mortes por Covid-19 nos dois primeiros meses do ano foi mais do que o dobro das que foram registradas no último bimestre de 2020.

Enquanto João Dória fala em defesa da ciência no almoço e chama escola e igreja de atividade essencial no jantar, os hospitais de São Paulo ganharam um grande número de pacientes com idade entre 30 e 50 anos e sem doença prévia. Eles ocupam a maioria dos leitos de UTI e passam mais tempo internados,

Em Porto Alegre temos hospital alugando contêiner refrigerado para acomodar cadáver de mortos pela Covid. Em Santa Catarina, pelo menos 35 pessoas morreram sem ter acesso a um leito para se cuidarem.

No Rio Grande do Norte, a região metropolitana de Natal ficou sem leitos vagos de UTI, e Mossoró tornou o colapso da sua rede de saúde oficial. No centro-oeste, Mato Grosso tentou transferir seus doentes para outros estados e não conseguiu: as regiões próximas não tinham leitos disponíveis.

Aqui na terrinha do blog o governador Romeu Zema decretou medidas restritivas em quase 200 cidades. Elas são semelhantes àquelas adotadas pelo governador Eduardo Leite (PSDB-RS) e criticadas pelos seus companheiros sulistas de partido. A chamada “onda roxa” é de adoção impositiva (ao contrário das outras faixas do programa de combate à pandemia estadual) e tem até toque de recolher.

Ao fim e ao cabo, o Brasil tem 3% da população mundial e 10% das mortes por Covid-19. O Ministério da Saúde acredita que, em breve, teremos 3 mil mortes diárias em todo o país. Teve gente falando no começo da pandemia que nós surpreenderíamos o mundo e pelo visto o pessoal estava certo.

O Bolsonaro foi o Bolsonaro

O paquiderme autoritário que nos acostumamos a chamar de presidente disse que a sua insistência em um tratamento precoce que não trata ninguém e as críticas ao isolamento que matam todo mundo foram acertos, não erros.

A fala se une a todas as outras vezes que ele disse algum absurdo durante a pandemia, como chamar a Covid-19 de “gripezinha”, a defesa do uso da cloroquina e a afirmação de que a pandemia estava acabando (bônus: a luta contra o uso das máscaras a partir de pesquisas que eram enquetes).

Bolsonaro também disse que, para a mídia, o vírus era ele. Quem dera. Se assim fosse, bastava servir um impeachment a milanesa para a pandemia acabar no território nacional.

Enquanto os governadores imploravam por um apoio nacional às medidas de restrição de circulação, Bolsonaro afirmou que, no que depender dele, “nunca teremos lockdown” e que esse tipo de política pública “não deu certo em lugar nenhum do mundo“. O presidente precisa ler um pouco mais do noticiário de Portugal: o país foi de 16.432 casos diários a 979 em pouco mais de um mês com medidas restritivas pesadas e uma boa campanha de vacinação.

Para fechar a sequência de absurdos, o humanista Jair Bolsonaro foi a Goiás afirmar que “nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?“. O país tinha acabado de bater mais um recorde de mortes pela pandemia.

Em Minas Gerais, Bolsonaro avisou que “Tem idiota que a gente vê nas redes sociais, na imprensa, [dizendo] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe. Não tem [vacina] para vender no mundo”. O presidente passou parte da sua última segunda-feira (08) negociando a compra de vacinas da Pfizer que ele disse que não compraria.

E se você acha que todos esses absurdos foram o bastante para tornar a vida do brasileiro infernal e que não havia como piorar, agradeça o burocrata mais próximo de Brasília. A última semana foi marcada por uma “operação segura“: o Idi Amin Dada latinoamericano estava louco para ir até as redes de rádio e TV fazer a sua pregação obscurantista e falar por vários minutos (e sem alguém para rebater) sobre pandemia e vacinas. Contentou-se em falar que o Exército é seu (o que pode ser bem verdade).

Vem, vacina

Aos trancos e barrancos a gente vai se vacinando. O Ministério da Saúde montou um cronograma que pretende vacinar todo o país até o fim deste ano. É muito tarde, mas é melhor do que nada (mas o blog fará de conta que acredita no cronograma do ministério enquanto o ministério faz de conta que está trabalhando, de fato, pela vacinação em massa).

O governo sabe que, até o momento, só garantiu 2/3 das vacinas que ele precisa. Isso se a gente ignorar os atrasos que já estão ocorrendo e que ocorrerão no futuro. O Senado até que fez a sua parte e aprovou uma MP que permite a compra de vacinas sem licitação e/ou registro na Anvisa. Ao mesmo tempo, a Câmara liberou a compra de vacinas por empresas privadas.

Falta, agora, combinar o seguinte:

Um impeachment pode sair mais barato do que encarar o presidente.

Editoria: normal isso

E na editoria “normal isso” da semana, o Executivo investigou professores universitários que criticaram Jair Bolsonaro em eventos pela internet. Os dois docentes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) foram acusados de “desapreço” ao presidente.

A censura foi resolvida com a assinatura de um termo de ajustamento de conduta (TAC). O TAC é o modo como um amigo que já trabalhou com gestão pública chama o documento que um servidor assina quando quer evitar um problema maior com os órgãos de fiscalização, mesmo sabendo que está certo.

Um mês atrás o MEC mandou ofício às universidades federais solicitando ações contra “atos político-partidários“. Medida semelhante foi tomada pela ditadura civil-militar, mas para os nossos liberais de abstrações convenientes, isto é só uma coincidência.

Fora do malabarismo do mundo em que liberdade de expressão, estado de direito e outras coisas que liberais adoram são defendidas em completo descompasso com a nossa realidade presente, é importante pensar: se um professor de Ciência Política fala em sala de aula, corretamente, que Bolsonaro é um reacionário com sonhos molhados com o Ustra, a fala será considerada política? Professor de faculdade de Medicina que defenda o uso de máscara e afirma que o presidente mais atrapalha do que ajuda no combate à pandemia é considerado político?

Atos de censura não são ruins apenas pelo que eles representam debaixo do sol do meio dia. Eles também são prejudiciais à sociedade por criarem o ambiente de auto-censura que é o sonho de todo mundo que só quer ouvir o que gosta.

Enquanto isso, a Polícia Militar de Minas Gerais prendeu em Uberlândia um estudante de 24 anos que publicou uma piada de qualidade duvidosa no Twitter. A prisão foi ratificada pela Polícia Federal como incitação ao assassinato do presidente.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Passando a mão na cabeça do caminhoneiro antes de meter a mão na bunda

Lembra daquele descontinho de imposto que o presidente falou que daria no preço dos combustíveis para agradar a sua base? Ele virou realidade. A conta foi encaminhada para todo mundo que usa serviços bancários.

Mas essa história não acabou ainda. O fantasma de Roberto Campos Neto ainda ronda a petroleira, que anunciou um novo aumento dos preços da gasolina e do diesel nas refinarias. Quem frequenta o posto semanalmente já sabe que o tanque cheio ficou 5% mais caro.

Billions

Enquanto todos os brasileiros perdiam dinheiro indiretamente ou diretamente com a brincadeira do presidente na Petrobras, umas pessoas brincavam de algo que tem cara, cheiro e cor de inside trading. Segundo Malu Gaspar, investidores apostaram contra a petroleira pouco antes de Bolsonaro anunciar que meteria o dedo na empresa. A operação pode ter rendido, sozinha, R$ 18 milhões e será investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Jogando na cara

Flávio B. (Republicanos-RJ e filho do presidente) fez pirocóptero na cara da nação mas não contou com a chance das gotinhas que estavam entaladas na sua uretra caírem na sua calça. A compra foi dissecada pelo bom jornalismo e mostrou que ela está mais confusa do que um ninho de mafagafo.

A escritura, por exemplo, foi lavrada num cartório da cidade-satélite de Brazlândia, a 45 quilômetros de onde fica o imóvel, e foi muito bem censurada pelo tabelião. O modelo de compras seguiu os esquemas clássicos de lavagem de dinheiro ao ponto de até mesmo o pessoal do Palácio do Planalto achar que a atitude do senador foi exagerada.

F. B. se defendeu afirmando que a casa foi comprada com o dinheiro ganho na sua loja de chocolates (aquela que é vista como mecanismo de lavagem de dinheiro). O resto do financiamento utilizou a renda do casal que, em resumo, não deveria ser considerada boa o bastante para isso. E o apartamento funcional? Continuará sendo pago pelo Senado.

O mesmo Senado, aliás, está fazendo a segurança da mansão do filho do presidente. Se você achou que o maior absurdo da semana relacionado aos parentes de Bolsonaro era o fato da madrinha de casamento da advogada do senador ser responsável por investigá-lo, você estava muito enganado.

Não como PIB, cadê o meu auxílio emergencial?

Nem tudo sobe muito no Brasil. O Produto Interno Bruto, por exemplo, caiu 4,1% em 2020. A economia deveria ter pego umas dicas com o Bolsonaro para ficar menos brocha.

Esta é a pior queda em 30 anos, e se considerarmos que já tivemos uma crise nos últimos 10 anos, já dá para chamar a década atual de mais uma década perdida.

Enquanto isso o Congresso tenta emplacar mais um auxílio emergencial para impedir a pandemia de afundar ainda mais e dar um conforto para quem não quer sair de casa para colocar a vida em risco em troca de pão de sal caro.

Via de regra o importante é o que importa e o que importa é que a economia estava mal e ficará pior. Com ou sem auxílio, o que pode impedir o PIB de afundar ainda mais é uma única coisa: vacina.

Mas aí a gente depende de uma presidente que compre ela.

É o novo som de Salvador: eu lulei, tu lulou

Dias atrás a defesa do ex-presidente Lula adicionou ao pedido de anulação do processo do triplex (que corria no STF) algumas mensagens da #VazaJato. Durante a conversa os procuradores decidiram descartar uma gravação na qual uma funcionária da Odebrecht confirmava que a ex-primeira-dama Marisa Letícia tinha desistido da compra do imóvel em Guarujá (SP). Os projetinhos de Rubens Ricupero deixaram o testemunho de lado pois, segundo eles, isso fortaleceria a defesa de Lula.

O tempo passou e o ministro Edson Fachin resolveu dar um presente para os advogados do Lula e anulou todas as condenações que ocorreram em Curitiba no âmbito da Lava Jato. A decisão pegou de surpresa todo mundo e fez Ciro Gomes renovar o seu estoque de palavrões. Já os liberais do bolsonarismo pragmático renovaram as desculpas para anular e/ou apertar o número do Bolsonaro em 2022 com pouca ou nenhuma vergonha.

A decisão do ministro foi tomada a partir de uma análise simples. Não caberia à Curitiba analisar o processo do triplex. O blog se pergunta onde é que estava o ministro ao longo de todos os últimos anos, já que ele se viu incapaz de reparar neste detalhe básico do andamento da Justiça desde quando o processo começou.

A decisão não torna Lula inocente (por hora), mas permitirá a ele disputar a eleição em 2022 se o procurador-geral da República (ou outra pessoa do Ministério Público) não conseguir condenar ele novamente em segunda instância nos próximos meses. Se a alternativa de alguns para impedir ele de ser eleito novamente é essa, é melhor correr: Lula tem um potencial de votos maior até do que o do presidente.

Luiz Henrique Mandetta, lendo a notícia, disse que “os extremos comemoram” (está errado). Já Huck falou que “figurinha repetida não completa álbum” (figurinha que não sai do pacote menos ainda). O comunista Flávio (o Dino) comemorou. Arthur Lira (PP-AL) comentou como alguém do centrão comentaria. Ciro Gomes disse que não era para contarem com ele (não contarão, já que o PT chegou ao segundo turno em 2018 sem o apoio do PDT).

E os liberais? Bem, eles seguem deixando claro que não estão muito dispostos a disputar uma vaga no segundo turno contra o presidente (ao lado dele, depende) ou contra o Lula. Veja bem, existem dois caminhos fáceis para chegar ao segundo turno: tirar o Bolsonaro de lá ou tirar o Lula.

Em ambos os casos a dita centro-direita democrática teria que disputar votos que não estão muito ao seu lado. Afinal de contas, esquerda e direita sabem que não precisam muito do apoio de quem veste gravata laranja com tucaninhos na estampa para chegar no segundo turno. Talvez, talvez, embalar um impeachment seja mais fácil.

Mas aí todo mundo tem que estar disposto a encarar o fato de que boa parte do centro-democrático-liberal está muito confortável em ser governado por um projeto de autocrata reacionário que tem como maior vantagem não ser petista.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no meu Twitter ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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