O país com um futuro mais incerto que aposta na loteria, a saúde do brasileiro indo pelo ralo e a educação dos jovens sendo tratada como a cloroquina trata o coronavírus. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #117 do governo Bolsonaro.

Não se esquece de compartilhar com o papai, a mamãe e o titio bolsonarista, hein?


The following takes place between mar-23 and mar-29


A semana da Covid-19

Assim como as notícias sobre a saúde da nossa democracia, as notícias sobre a saúde dos brasileiros seguem horríveis. Na última semana o país conseguiu atingir a marca de 3.000 mortes registradas em um único dia. Até o momento, somente os Estados Unidos haviam passado por este cenário (no distante 11 de janeiro).

O resumo do nosso caos sanitário pode ser feito lembrando que já passamos pelas situações de corpos de pessoas no chão de hospitais, dentistas sendo convocados para atuar na linha de frente e doentes com Covid morrendo em alta velocidade nas UTIs. O pesadelo é tamanho que os médicos agora precisam lidar com pacientes acordando durante a intubação por falta de sedativo.

Em Camaquã, no Rio Grande do Sul, três pessoas morreram após serem nebulizadas com hidroxicloroquina diluída em soro. Dias antes o presidente Bolsonaro tinha recomendado a ação em uma rádio local. Enquanto isso, o Conselho Federal da categoria se recusa a rever o aval do uso do medicamento no tratamento da Covid-19.

A contagem de mortes chegou a ter risco de subnotificação após o Ministério da Saúde mudar o modo como os registros são feitos. A medida foi revogada após secretários de saúde afirmarem que o novo processo era inviável.

Mas para não dizermos que tudo está horrível, o presidente Bolsonaro deu posse de maneira discreta ao quarto ministro da Saúde no período pandêmico. O presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) afirmou que novos erros não serão tolerados e que medidas drásticas serão tomadas caso eles aconteçam, como a divulgação de notas de repúdio em outdoors e correntes de Whatsapp.

Vivendo sempre no mundo da Lua

Enquanto isso, no Planalto, todo mundo segue tratando o prédio feito pelo Niemeyer como a Ilha da Fantasia. O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a noite de terça-feira (23) para dizer que 2021 será “o ano da vacinação” e que o seu governo combateu a pandemia com muito cuidado com a vida do brasileiro. A mentira foi desmentida em texto, vídeo e gráfico.

Enquanto panelas eram batidas de cabo a rabo, Bolsonaro prometeu que, assim que as nossas atenções migrarem para notícias piores, ele ignorará todas as recomendações da OMS e fará de conta que a ciência só é boa se validar as suas ideias. O Ministério da Saúde revisou a previsão de entregas de vacina para baixo mesmo com o ministro prometendo 1 milhão de vacinas sendo aplicadas diariamente no país (o que é basicamente uma terça-feira fraca para o SUS).

Pra inglês ver

Para não dizerem que Jair nada faz, o presidente finalmente reuniu no Palácio da Alvorada os presidentes dos Três Poderes, seus ministros e um grupo de puxa sacos travestidos de governadores (sim, o vendedor de liquidificador da Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves estava lá) para criar um comitê anti-Covid. O grupo será responsável por coordenar as ações contra a pandemia. Segundo fontes do blog, a ação pretende liberar espaço na agenda do presidente para que ele possa conversar com Osmar Terra e encontrar novas formas de sabotar as ações apoiadas pela ciência.

Pílulas de esperança e desespero

Se a entrada de Queiroga foi discreta e no sigilo, a saída de Pazuello foi digna de performance na Paulista. O agora ex-ministro disse que foi alvo de boicotes (dos integrantes do ministério, não do presidente) e que ministros interessados num “pixulé” fizeram pressão ao longo da sua gestão. Ele também afirmou que identificou oito “ações orquestradas” contra a sua gestão (nenhuma delas será formalmente denunciada para os órgãos responsáveis por averiguar este tipo de questão).

O novo ministro da Saúde também avisou ao Senado que pedirá aos hospitais privados que tirem os seus pacientes da rede pública. Após esta medida de grande efetividade, ele também fará uma campanha pelo uso racional de oxigênio nos hospitais. “Respire dia sim, dia não”, diz uma das peças obtidas com exclusividade pelo blog.

Por outro lado, a Anvisa autorizou o Instituto Butantan a testar em seres humanos um soro contra a Covid-19. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes anunciou um auxílio emergencial para 900 mil pessoas no município.

Governadores e prefeitos em todo país já não sabem mais o que fazer para tentar manter pessoas em casa. Tentando diminuir a circulação de pessoas indo e voltando do seu emprego, muitas cidades e alguns estados decretaram feriados prolongados. Aproveitando as restrições para ir ao trabalho, os brasileiros foram às praias brincar de transmitir Covid-19 para desconhecidos.

Enquanto isso tudo acontecia, João Dória (PSDB-SP) mostrou que é ótimo em vender evento para empresário e péssimo em fazer marketing político. O governador com mais potencial para virar presidenciável anunciou o desenvolvimento de uma nova vacina para o coronavírus. A pesquisa, que foi feita sem que o Planalto tomasse conhecimento, foi divulgada de tal maneira que o que era para ser um trampolim para a presidência virou motivo de chacota.

Tucanos precisam aprender que eles só chegam ao poder após resolverem uma grande crise do país e capitalizar rapidamente em cima dela. Se anúncios positivos só servem para o governo federal controlar as narrativas, melhor optar pela discrição mesmo.

Foda passar por isso

Os mais desavisados já devem ter se esquecido, mas na última terça (23), a segunda turma do STF (Supremo Tribunal Federal) declarou o juiz Sergio Moro parcial na condução do processo da Lava Jato que levou à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá (SP).

A votação foi marcada por um voto bem mela cueca do ministro Kassio Nunes Marques, que focou em coisas que não estavam em debate para se convencer da tese lavajatista. Os ministros divergentes rebateram falando que não era “hora de covardia”, questionando se alguém “compraria um carro usado de Moro” e afirmando que o argumento de Marques não era garantismo “nem aqui nem no Piauí”. Brincadeira, quem falou isso tudo foi o Gilmar Mendes, o usuário de alemão de primeira ordem e maior garantista do país.

Graças a anulação da sentença no último dia 8 de março, o caso do tríplex voltou à estaca zero. Além de ser mais uma derrota para a derrotadíssima Lava Jato, a decisão também sepulta um pouco mais a moral do ex-ministro, ex-bom falador de francês e ex-juiz Sergio Moro. Quem poderia imaginar que misturar o Poder Judiciário com a política daria errado, não é mesmo?

O Sergio Moro, aliás, disse que está convicto sobre as suas decisões. Ele não pode dizer o mesmo sobre as chances de chegar um dia ao STF ou ao Planalto, mas bem que gostaria.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

País deseducado é país sem democracia

Lembra quando o Ministério da Educação era focado em educar pessoas? O blog lembra e não é uma memória criada após 31 de dezembro de 2018. Nos últimos dias o grupo de especialistas responsável pela renovação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal avaliação nacional da qualidade da educação, foi dissolvido pelo MEC. Quem cuidará do indicador, agora, será a Secretaria Executiva da pasta, uma parte política do órgão.

Enquanto uma única pessoa cuidava de todos os repasses do Fundeb em uma planilha do Excel (e cometia erros na casa dos milhões de reais), o MEC também abriu um edital para contratar profissionais no mercado em um processo com cara, cheiro e gosto de mutreta. O objetivo? Achar pessoas para fazer um trabalho que os técnicos do Inep já fazem, mas utilizando uma metodologia que só conservador gosta e ignorando a prova que já está formulada.

Se a desgraça já não era o bastante, o péssimo orçamento que o governo enviou ao Congresso teve R$ 1 bilhão de reais em cortes de receitas na área do ensino superior. Como as instituições devem manter o ritmo de aula à distância até 2022, a falta de papel higiênico não será tão sentida desta vez.

O Brasil é um país em que a chance de um filho repetir a baixa escolaridade de sua família é o dobro da de um aluno americano. Se considerarmos fatores de raça e renda, as chances de mobilidade educacional ficam ainda piores. Considerando que a prioridade do governo federal é legalizar ensino doméstico, é pouco provável que a próxima versão deste tipo de estudo entregará um resultado diferente.

Brincando de fazer a coisa certa

Nas vésperas da conclusão do primeiro terço de 2021, o Congresso aprovou o Orçamento da União para 2021. O texto final está com mais inconsistência e tecnicalidade problemática do que um trabalho escolar feito por um bêbado. Para quem deseja apoiar um impeachment nos próximos meses, ele está um prato cheio de oportunidades.

Se sancionado como está, o presidente Jair Bolsonaro poderá entrar em situação de suspeita de crime fiscal. Quem esteve vivo nos últimos 10 anos sabe que não cumprir as normas fiscais do país é algo que pode até passar por debaixo dos panos por alguns anos, mas no contexto certo, pode ser a desculpa perfeita para tirar alguém do Planalto na base do tapa. Mas para que isso ocorra, é claro, alguém tem que puxar o bonde do impeachment.

Não é muito difícil colocar o presidente em uma situação complicada diante do TCU. Basta deixar o Paulo Guedes e a sua turma soltos pelas ruas de Brasília por umas duas semanas. Uma boa forma de pensar se isso vale a pena ou não é respondendo a seguinte pergunta: se o governo pode nos tirar a chance de fazer o Censo, por qual motivo não poderíamos nos dar ao direito de tirar o governo?

Entra e sai I

Eduardo Pazuello não foi o único que saiu do governo na última semana. O 4chanceler Ernesto Araújo conseguiu afundar a diplomacia do país e caçar confusão com o Senado a um nível tão grande que ele se viu forçado a pedir demissão do cargo. Vamos ao recap.

Primeiro, o ministro foi alvo de uma sabatina no Senado que abriu espaço para que todos os presentes destruíssem a moral do agora ex-chanceler. Até mesmo o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aproveitou a chance para bater no cachorro morto.

Após conversar com presidente da Câmara, o 4chanceler ganhou confiança e foi atrás de uma das piores pessoas do Legislativo para se caçar briga, a senadora Kátia Abreu (PP-TO). Obviamente a insinuação de que a senadora era lobista da Huawei não deu muito certo: a sua resposta veio por meio de uma nota chamando Ernesto de mentiroso e marginal.

Junto com a cartinha de 300 diplomatas contra o seu superior, a situação ficou tão complicada que mais um olavista foi demitido por Bolsonaro (para ser trocado por um olavista moderado). Não foi o maior especialista em fazer gestos fascistoide de Brasília, mas é menos um na conta dos imbecis que fazem parte do governo e trabalham para normalizar simbologia fascista diariamente.

Entra e sai II

O entra e sai continuou nas últimas horas da segunda-feira. A Folha trouxe um resumo de quem saiu, quem ficou e quem entrou. É gente com histórico político de baixa qualidade, fiel às ideias do presidente e com algum trânsito no Legislativo. Se isso for uma tentativa de ganhar tempo com o centrão, ela pode não dar muito certo.

Os três comandantes das Forças Armadas colocaram o seu cargo à disposição do governo [UPDATE: eles se demitiram enquanto este pedaço da edição era editado (sem brincadeira)]. A desculpa foi a mesma ventilada em alguns veículos para justificar a demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva: resistência dos representantes de instituições com histórico de 100 anos de golpismo escancarado nos últimos 131 anos de história republicana a embarcar na aspirações golpistas do presidente.

A demissão do general Fernando Azevedo e Silva acompanhada dos gestos dos comandantes das Forças Armadas pode ser o primeiro passo de um futuro horrível ou apenas mais um passo em direção a um futuro muito ruim. O saldo, até o momento, é uma versão piorada do que tivemos nas últimas semanas: um presidente que faz de conta que faz alguma coisa, um centrão que finge que fiscaliza o governo e um monte de militares que fingem que gostam de democracia por saberem que não precisam acabar com ela para dominar uma parte significativa do governo federal.

E o Guedes? O Guedes está por aí molhando os sonhos de investidores internos que ignoram a pressão de agentes externos e a situação lamentável deste país. Prioridades.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *