O troca-troca nas Forças Armadas, a piora dos já péssimos indicadores da pandemia e um orçamento pra lá de criminoso.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #118 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mar-30 and apr-05


Mais uma semana de pandemia

Assim como a penúltima semana e a antepenúltima semana, a última semana de pandemia foi marcada pela explosão no número de casos, as filas nos postos de atendimento e outras cenas horrorosas. Ainda não estamos no nível “caminhão das Forças Armadas carregando caixão”, mas o vírus tem um futuro brilhante em um país que amarra os seus pacientes entubados por falta de sedativo.

Em São Paulo, o segundo maior cemitério da capital suspendeu novos enterros. O motivo? Falta vaga. E se o leitor tinha inveja da água com cocô do carioca, fique tranquilo: não demora muito e boa parte do país tomará água com chorume de morto.

E esse não é o único sinal de que a situação não ficará mais leve nas próximas semanas. Agora, além das variantes locais do Sars-Cov-2, temos também a sul-africana circulando em território nacional. Ela fará a festa nas UTIs nacionais, que já registram uma taxa de morte de 52,9% no SUS e 29,7% na rede privada.

Em Mongaguá (SP), o prefeito responde quase às lágrimas que tudo o que ele queria era ouvir do seu pai e do seu irmão, mortos por Covid-19, que ele queria ter sido o responsável pelo fim dos seus empreendimentos. O culpado é quem não comprou vacina quando era tempo, evita dar apoio financeiro aos empresários para que eles deixem de trabalhar e briga pelo fim do isolamento social.

O mundo mágico de Brasília

Em Brasília (DF), as coisas seguem funcionando dentro do esperado. A primeira reunião do comitê criado por Jair Bolsonaro para discutir medidas contra a pandemia de Covid-19 terminou com divergência. De um lado, os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defenderam as medidas de restrição social e recomendaram que as pessoas ficassem em casa. Do outro, Jair Bolsonaro falou que “as pessoas querem trabalhar” e que medida de restrição era semelhante a um estado de sítio (ele bem que queria que fosse o caso, né?).

Falando no governo federal, ele foi pego gastando mais de R$ 1,3 milhão para pagar 19 influenciadores digitais para fazer propaganda de medida ineficaz contra a Covid-19. Até o final desta edição, Paulo Guedes não foi encontrado pelo blog para apontar se o “investimento” conta ou não no cálculo do teto que obrigou o seu ministério a reduzir o auxílio emergencial.

O ministro da Saúde reduziu quase à metade a previsão de doses de vacinas que estarão disponíveis em abril. A culpa, desta vez, foi direcionada à Anvisa, que vetou a Covaxin e aos institutos Butantan e Fiocruz, que estão com a produção atrasada.

Burro, burro, burro

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques, resolveu ir contra o entendimento do Supremo Tribunal Federal e liberar a realização de cultos. A decisão do ministro a favor do direito do vírus de pagar o dízimo foi individual, enquanto a decisão do STF a favor do vírus fazer um pix para o pastor foi coletiva. Pegou mal.

Teve igreja que abriu, teve igreja que continuou fechada. Tudo dependeu da vontade do pastor/padre de colocar os fiéis um pouquinho mais próximos de Deus. Sabe como é, tem gente que quer muito ter a certeza de que Deus existe e só acredita vendo o cara frente a frente.

O prefeito de Belo Horizonte foi à Justiça tentar derrubar a decisão e avisou que, no que dependesse dele, a capital mineira não seguiria a ordem de Kassio. Kalil pode ficar tranquilo, pois a decisão do ministro já tem data marcada para ser derrubada: quarta-feira, 7 de abril.

Corta, corta, corta

O Farmácia Popular, aquele programa que distribui remédios gratuitos ou com descontos, virou botica popular nas mãos de Bolsonaro, especialmente durante a pandemia do coronavírus. A rede de farmácias teve uma queda, em 2020, de 1,2 milhão de beneficiados. Os dados são da Folha de S. Paulo.

O número de 20,1 milhões de atendidos é o menor desde 2014. O número de farmácias abertas também caiu para 30.988, o menor valor desde 2013. O Ministério da Economia pretende acabar com o programa e gastar o dinheiro em outras ações.

Entra e sai

Depois de colocarem o país com o cabelo em pé, Bolsonaro e os militares se acertaram (por hora) e a democracia segue funcionando. O troca troca de ministros, no final das contas, foi só mais um troca troca de ministros. A nova rodada, que teve só gente fina ganhando cargo bom, conseguiu ampliar para 50% a taxa de ministros que perderam o cargo desde 1 de janeiro de 2019.

Na área dos militares, eles seguem fingindo muito mal que gostam de democracia e a gente segue fingindo que eles precisam dar um golpe após conseguir mais de 6.000 cargos civils na máquina federal. Os novos comandantes das Forças armadas tem um perfil diversificado, mas que falha em uma coisa simples, porém fundamental: repudiar o que há de mais criminoso contra o estado democrático.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Meia mea culpa

Uma parte da elite brasileira começou a brincar de mea culpa pela eleição do presidente. Aparentemente, o pessoal percebeu que o Bolsonaro queria mesmo fazer aquilo que ele passou 30 anos dizendo que era necessário ser feito para resolver os problemas do país (matar um monte de brasileiro). O problema é que a autocrítica chegou tão tarde que faz a gente se perguntar se ela viria se o PIB estivesse em recuperação (o blog aposta que não seria o caso).

171 orçamentário

O governo segue brincando com o fogo e se arriscando a entrar em situação de crime fiscal. Guedes se recusa a sancionar o texto do orçamento de 2021 (sim, estamos sem orçamento) que ele enviou ao Congresso e não negociou de tal modo que ele ficasse dentro da lei. Agora tenta sair por cima e ameaçar voltar para a iniciativa privada junto com os seus subordinados.

Com crime de responsabilidade ou sem crime de responsabilidade, a gente já sabe que a prioridade maior do governo é garantir que as pautas do bolsonarismo não pragmático ganhem força em 2021. No lugar de investimento em política ambiental, teremos política a favor de um modelo conservador de família.

O que a gente não sabe muito bem ainda é quem ganhará a guerra de braços para colocar o orçamento dentro da lei. O centrão não está muito disposto a perder dinheiro que pode ser utilizado para garantir a reeleição em 2022. Ao mesmo tempo, o Bolsonaro não está muito disposto a deixar de vetar pedaços do orçamento que podem manter ele livre de um impeachment por pedalada fiscal. O blog, por outro lado, está muito feliz em saber que, se não for por pedalada, tem outros troféu.

O auxílio miou

O novo auxílio emergencial vem aí. A partir do dia 6 de abril, brasileiros poderão sacar o benefício que corresponde a 15% do que foi gasto em 2020. Além de insuficiente, o benefício chega atrasado e com a garantia de que não causará um impacto profundo nos indicadores econômicos nacionais.

ENGELS & MARX (1848)

Se o leitor do blog pensava que o marxismo cultural estava presente só nas faculdades de humanas é melhor ele rever os seus conceitos. O Manifesto Comunista também é lido nas faculdades de enfermagem, digo, nos cursos de cuidadores de idosos.

Os investigadores da Polícia Federal que averiguam o caso da farra da vacina em Minas Gerais descobriram que a vacina, na verdade, é soro. A informação foi divulgada após a PF realizar busca e apreensão na casa da responsável por vender e aplicar o medicamento nos pilantras.

O Brasil, pelo visto, chegou em um estado tão lamentável que a elite mineira do Belvedere não pode sequer comprar uma vacina ilegal sem ser feita de trouxa. Horrível, horrível.

Vá com Deus

O Supremo pretende tirar um pouco do ranço da ditadura civil-militar que ainda existe na Lei de Segurança Nacional. O projeto de desmantelamento da lei começará pelos pedaços que o governo federal utiliza para perseguir opositores.

Enquanto isso, tem gente por aí na Câmara querendo acabar com ela por completo. O que parece muito belo e muito moral tem um grande problema: se a gente acabar com a lei e não colocar algo no lugar, gente que articula pelo fim da democracia voltará a articular livremente pelo fim da democracia. Melhor seguir o caminho do Supremo.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog ou até mesmo no meu Curious Cat.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *