A importância da semiótica, o liberalismo de Paulo Guedes, a CPI da covid-19 e as derrotas do governo.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #122 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-03 and may-10


O novo som de Salvador: renanzei, renanzou

Renan Calheiros (MDB-AL) foi para a CPI da Covid pronto para cair na graça do jovem que deseja um fim doloroso ao governo Bolsonaro. O senador assumiu a relatoria da comissão pregando oposição ao negacionismo e aos que tentaram derrubar o seu brilho no passado.

Caminhos para o relator seguir não faltarão – mas o governo jura que está tudo bem. Uma das primeiras vítimas foi o ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde), que recebeu tiro de sal grosso antes mesmo de pegar um Uber para conversar com os senadores.

Pode ser que a CPI acabe dando em nada? Sim, como muitas deram no passado. Mas limão estragado para azedar a limonada de Bolsonaro tem para dar e vender.

Todo dia um 7×1

Independentemente do resultado da CPI, o despreocupado governo já tem alguns gols contra para chorar. O senador governista Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, votou no independente Omar Aziz (PSD-AM) para a presidência da comissão alegando a (falsa) promessa de imparcialidade do senador. Quem poderia imaginar que um político do centrão pensa mais na própria imagem do que no apoio ao governo da vez, não é mesmo?

As notícias ruins também envolveram a lista de nomes que serão ouvidos pela CPI nos próximos dias. O primeiro deles é o ex-ministro Henrique Mandetta, que promete utilizar o espaço da CPI para promover o seu livro de memórias e, eventualmente, galgar capital político para as eleições de 2022. Os outros ex-ministros da Saúde também serão ouvidos pela comissão e já estão preparando as melhores estratégias para promoverem as suas carreiras profissionais.

O senador governista Luiz do Carmo (MDB-GO) descobriu que estamos no meio de uma pandemia e pediu que os trabalhos da comissão só começassem em outubro (como se existisse alguma chance de o país estar vacinado até lá). Sem sucesso.

A situação ficou tão complicada que os senadores Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE) pediram ao Supremo que o relator e seu o suplente (Jáder Barbalho (MDB-PA)) fossem retirados da comissão, sob a alegação de que são pais dos governadores de seus estados. O pedido também não teve sucesso (e ainda irritou o presidente da comissão).

O ministro da Justiça também fez a sua parte em termos de ideias imbecis com resultados desastrosos (para o governo). Anderson Torres questionou se a comissão focaria apenas no governo federal ou também olharia para as verbas repassadas aos estados. Agora, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), quer ouvir o ministro.

Enquanto isso, o Planalto utilizava recursos do pagador de impostos para escrever pedidos de senadores governistas para serem utilizados na CPI da Covid. Já o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), chamou Pacheco de “ingrato” por ele não ter desobedecido o Supremo Tribunal Federal. Vai ver o presidente do Senado não ignorou o STF por saber que não tem um cabo e um soldado a tira colo.

Todo mundo pode tentar

Correndo por fora, um grupo de auxiliares de Bolsonaro tentou estreitar os laços do presidente com o Tribunal de Contas da União (TCU). A área técnica do órgão não deixou de registrar todas as falhas do governo no enfrentamento da pandemia. Bem utilizados, os dados do TCU podem ser uma bomba para o Planalto.

Para quem não se lembra, foi a ação do TCU que deu lenha para a fogueira do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. Então, ainda que o senador Ciro Nogueira tente negar o potencial da CPI em derrubar o presidente, é bom ficar de olho: Eduardo Cunha também jurou até o último minuto que não existiam motivos para abrir um processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

400.000 mortes

Pouco mais de um mês depois de registrar 300 mil vítimas pela covid-19, o Brasil registrou a marca de 400 mil mortes. Abril é o mês mais letal da doença (por enquanto). Sete em cada dez brasileiros conhecem alguém que morreu por causa da doença. Em cada 20 infelizes moradores do Brasil, pelo menos cinco perderam alguém próximo.

Em resposta, o Dia das Mães e os protestos de 1º de maio a favor do presidente (mais sobre isso adiante) prometeram trabalhar para quebrar o recorde do quarto mês do ano. A parceria firmada com as várias cepas de SARS covid-19 são apontadas como fundamentais no processo. O STF e a Câmara dos Deputados fizeram um minuto de silêncio pelas vidas perdidas enquanto o Planalto reafirmou que é central (para o sucesso do vírus).

O ministério da Saúde decidiu que as gestantes e puérperas serão parte do grupo prioritário de vacinação contra covid-19. Isso, é claro, se tivermos vacina para elas: em todo o país a aplicação do imunizante tem sido suspensa por prefeitos que não conseguiram a segunda dose (ou a primeira) dentro do prazo programado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Paulo Guedes e seus amigos liberais are at it again!

O ministro da Economia (nas horas vagas) e participante de live de banco (em tempo integral) Paulo Guedes mostrou, de novo, novamente, que ascensão social e diplomacia não é lá muito a sua praia. Em uma semana, Guedes disse que:

Vamos lá. Além de nossa maior parceira comercial, a China é o principal fornecedor das vacinas e dos insumos utilizados para fabricar imunizantes ao Brasil. O aumento da expectativa de vida é um dos maiores indicadores de que o país está se tornando desenvolvido. Ao mesmo tempo, a presença de filhos de porteiro em universidades é um bom indicativo de que uma nação tem algum nível de mobilidade social.

Houve quem olhou para essa sequência de falas do ministro da Economia (você é ministro quando a sua caneta está sem tinta?) e disse que ela não representa o liberalismo brasileiro de verdade. Balela. Nunca faltou liberal com espaço na mídia dizendo coisas parecidas com mais elegância e moderação.

Enquanto o liberalismo for utilizado para dar sentido a vida de quem não gosta de pagar IPVA, esse tipo de fala será mais a regra do que a exceção. Pode-se até negar isso, mas essa alternativa envolve brincar de liberalismo sem encarar a plenitude do que é ser liberal no Brasil, um caminho que já foi tentado no passado e não deu certo.

Mais um dia comum no Brasil de Jair Messias Bolsonaro

Após tomarem a sua dose de vacina, o grupo de apoiadores mais aguerridos do presidente foi às ruas mostrar que os seus problemas são apenas mentais. A aglomeração do grupo de risco de covid-19, dessa vez, foi para dizer que o presidente está autorizado a fazer o que ele não pode fazer.

A manifestação em Brasília contou com o presidente utilizando helicóptero das Forças Armadas para insinuar que ele e a instituição apoiam a manifestação golpista. Semiótica importa.

Em duas semanas nós veremos o resultado da brincadeira. Spoiler: não envolverá Jair Bolsonaro fazendo cosplay de presidente de El Salvador.

Olho na safadeza

Falando em gente com aspiração golpista, a presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), Bia Kicis (PSL-DF), vem dando ênfase a projetos que reduzem a ação do STF. Um deles pretende proibir decisões monocráticas liminares em ADIs (ações diretas de inconstitucionalidade) e ADPFs (arguições de descumprimento de preceito fundamental). Já outro quer vetar ações que se baseiem em questões de princípios da Constituição.

Às vezes o pessoal quer copiar o presidente de El Salvador e esqueceu de avisar a gente. O filho do nosso presidente apoia a ideia. A Constituição em vigor, porém, tem as suas dúvidas sobre a legalidade da aplicação da ideia em território nacional.

Bem-feito

Quem lembra do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul? E quem lembra dos vários alertas de que a postura ambiental do atual governo prejudicaria a iniciativa? O blog lembra.

Pelo visto, os parlamentares europeus estão dispostos a utilizar a nossa inabilidade em reservar dinheiro para manter árvores vivas, a nossa recusa em responder a críticas adequadamente e a nossa falta de humanidade como uma ferramenta para barrar a ratificação do acordo. O centro da disputa está em um anexo de compromissos ambientais adicionais que ainda deve ser negociado. Para quem não se lembra, apenas a parte comercial do acordo já foi assinada.

O ministro do Meio Ambiente pode reclamar de protecionismo à vontade. Mas enquanto o Brasil aparecer na mídia como o país em que os servidores públicos levam covid-19 para indígenas isolados, os parlamentares europeus terão todo o direito do mundo para não avançar com o acordo. Perdem eles? Sim. Mas nós perdemos muito mais.

Pede para sair (ou admite que gosta de ficar)

A ficha caiu nas Forças Armadas. Os militares notaram que emprestar o próprio prestígio para alguém como Bolsonaro e voltar ao centro do palco político pode não ter sido uma boa ideia. Para piorar, o dano à imagem pode ser de difícil reversão. Que coisa, hein.

O ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz disse que há “um número excessivo de militares no primeiro escalão” (a avaliação também pode ser aplicada ao segundo e ao terceiro escalão). A crise de identidade não impediu integrantes da ativa de publicarem milhares de tweets de conteúdo político ao longo dos últimos dois anos.

Então os usuários de farda precisam se decidir, de uma vez por todas, se o salário de cargo comissionado vale mais a pena do que ser associado ao número de mortes por covid-19 dos últimos meses. Assim a gente pode manter o debate político nacional mais às claras.

Luz no fim do túnel

Algumas notícias animadoras para terminar o post da semana:

  • O grupo técnico do Ministério da Saúde deve aplicar um sonífero em Bolsonaro e contraindicar o uso de cloroquina e ivermectina para pacientes internados com covid-19.
  • A vacina da Pfizer está chegando aos poucos no Brasil.
  • O Congresso começou a pressionar o governo pela continuidade do auxílio emergencial (ou um programa que substitua o auxílio).
  • Essa semana será menos ruim do que a semana que vem (já diria o tuiteiro).

Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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