Os primeiros grandes passos da CPI da Covid, novos sucessos do coronavírus em terras brasileiras e o presidente tentando desviar o foco da mídia. De novo.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #123 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-04 and may-10


A abertura da caixa de Pandora I

A CPI da covid iniciou a sua rodada de depoimentos de ex-ministros da Saúde com Luiz Henrique Mandetta. O terror das velhinhas prestou depoimento e reafirmou quase tudo o que já estava dito no seu livro. Ou seja, quem não gosta de ler poderá ver o filme (mas a duração é de sete horas).

A grande surpresa estava na carta enviada ao presidente ainda em março de 2020 e que foi tornada pública pelo ex-ministro. O documento previa o colapso do sistema de saúde (e foi ignorado pelo presidente). O texto será mais uma prova que poderá ser utilizada por aí para pessoas falarem que Jair Bolsonaro fez e faz cosplay de genocida com o povo brasileiro.

Outra grande surpresa (já confirmada pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antônio Barra Torres, durante o fechamento desta edição) foi a sugestão de um agente secreto (não literal) para incluir o tratamento de covid na bula de remédios sem eficácia contra a doença. A decisão chegou a ser apoiada por parte do Planalto, mas acabou sendo jogada fora após protestos de Barra Torres.

Para muitos, a situação é outro exemplo de que Bolsonaro cuida da saúde do brasileiro sem consultar especialistas em cuidar da saúde do brasileiro. Vai ver Bolsonaro é um desses liberais que acredita que faculdade não serve para nada e a gente não sabia.

O amigo do meu inimigo pode ser o meu amigo

O depoimento do ex-ministro foi bem morno. Quem conhece a história das nossas CPIs sabe que elas podem ser bem piores. Em alguns casos, dão até capa para revista de mulher pelada.

No geral, Mandetta procurou ser técnico nas respostas e driblou as armadilhas da minoria governista, chegando a provocar um momento de constrangimento. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, conseguiu entrar para os anais da comissão mesmo sem atuar no combate à pandemia diretamente: o ministro enviou uma pergunta a Ciro Nogueira (PP-PI) que foi feita a Mandetta no dia anterior ao seu depoimento.

Esse é o tipo de situação que faz a gente pensar que estamos sendo governados por pessoas que não sabem utilizar o telefone para coisas que não envolvam compartilhar mentiras, pornografia ilegal e memes de política no Whatsapp. Elas se juntará à descoberta de que o Planalto elaborou requerimentos de convocações e pedidos de informações, no hall de provas de que o governo não está preocupado com a CPI, só com a vergonha que passa graças ao Twitter @tesoureiros.

A abertura da caixa de Pandora II

O segundo depoimento de ex-ministro foi o de Nelson Teich. Ele também não trouxe muito de novo: afirmou que saiu da pasta por falta de autonomia e por ser contra a ideia de indicar remédio que não serve para tratar covid para tratar covid.

Teich evitou fazer críticas diretas ao presidente ou ao então secretário-executivo do ministério, o general Eduardo Pazuello, que viria a sucedê-lo. Suas tentativas de sair da CPI sem se queimar com geral irritou o presidente da comissão, o senador Omar Aziz (PSD-AM), mas não é como se o ex-ministro tivesse prometido grandes revelações ou um pirocóptero de absurdos para a comissão.

A abertura da caixa de Pandora III

Marcelo Queiroga, o atual ocupante do cargo de ministro da Saúde, também foi ouvido. Ele chegou à CPI com um novo acordo de compra de vacinas assinado com a Pfizer (com um valor de compra maior do que o original) e tentou utilizar a novidade como uma forma de aliviar a pressão na comissão. Sem sucesso.

Ao longo de seu depoimento, Queiroga deixou os senadores não governistas mais irritados do que o normal. O nível de teflon presente na sua língua era absurdo, mas não deve ser bom o bastante para impedir que ele seja reconvocado. Ao longo da sua fala, o ministro driblou todas as perguntas incisivas, ignorou o seu diploma, fez de conta que a descrição do seu cargo não existe e que não lembrava do passado.

G*******o

Em notas relacionadas, a secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, admitiu ao MPF que, por ordem de Pazuello, organizou a ida de uma comitiva a Manaus em nome do Ministério da Saúde. O objetivo do passeio foi a difusão de tratamentos ineficazes às vésperas de a cidade entrar em colapso.

O vice-governador Carlos Almeida Filho (sem partido) acusou o governador Wilson Lima (PSC-AM) de ter implantado uma política de “imunidade de rebanho”, que contou com o apoio de Bolsonaro e foi apontada como responsável pelo caos que atingiu os hospitais da capital do Amazonas.

Existe um nome não muito elogioso para quem faz experimentos de saúde em grandes populações sem o seu consentimento. Quem possui acesso a um dicionário consegue encontrar esse termo com alguma facilidade.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Fujão

E o ex-ministro Eduardo Pazuello, do Partido das Forças Armadas do Brasil? Alegou que não compareceria por ter tido contato com duas pessoas que podem ou não terem sido infectadas com covid-19 em algum momento da pandemia. É meio confuso, mas a desculpa foi essa.

Os governistas até tentaram fazer o general falar por vídeo (ótima alternativa para quem quer ser assessorado na hora do depoimento), mas o presidente da CPI remarcou o depoimento para a próxima semana. Com a decisão, o ex-ministro ganhou mais alguns dias para se preparar para falar coisas que não o coloquem na cadeia. Ou deixar de ser abandonado por Bolsonaro e pelos militares.

Pazuello protegeu os senadores, mas não protegeu os ministros do governo. Onyx Lorenzoni (DEM), que é o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, visitou o ex-ministro para ajudar na sua preparação. Pegou mal e houve quem pensou em realizar uma condução coercitiva do general para a CPI.

A semana da covid

O resumo de mais uma semana de pandemia é semelhante àquela época da F1 em que a Lotus fez um carro tão bom que utilizou o mesmo bólido em duas temporadas. O presidente continua apoiando a luta do vírus para acabar com a humanidade e segue sem tomar a sua vacina.

Enquanto isso, uma nova variante do vírus foi identificada no Rio de Janeiro. A notícia foi publicada no tempo certo para garantir a manutenção da liderança do Rio no ranking de Unidade Federativa mais desgraçada do país. Ao mesmo tempo, soubemos que:

Ficou para as semanas que vem

Lembra da reforma tributária que o Maia tocou quase que sozinho? Ficou para a semana que vem, graças a Arthur Lira (PP-AL). O presidente da Câmara acabou com a comissão mista de deputados e senadores que era responsável por analisar o texto apoiado pelo deputado do DEM. Se aprovado, o parecer recomendaria a união de cinco tributos sobre o consumo.

Lira disse que a decisão foi tomada pois ele percebeu que o prazo para a comissão tinha esgotado. O processo, agora, pode voltar à estaca zero. Sai feliz dessa história Paulo Guedes, que nunca gostou da ideia de Maia e prefere realizar uma reforma mais difícil de ter grandes impactos estruturais e de ser aprovada.

Meu trator, seu trator, nosso trator

O governo Bolsonaro tem um possível escândalo de corrupção para chamar de seu. Ou pelo menos um escândalo de imoralidade. Depende do bom humor do leitor com o chefe do Executivo.

Segundo o jornal Estado de S. Paulo, o governo Bolsonaro montou um orçamento secreto de R$ 3 bilhões em emendas para um grupo de parlamentares da base aliada. Os congressistas teriam indicado diretamente o destino de valores ao Ministério do Desenvolvimento Regional, atropelando leis orçamentárias. Entre os beneficiários estão o presidente da Câmara, Arthur Lira, o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), e a atual ministra da Secretaria de Governo, a deputada Flávia Arruda (PL-DF).

O carro chefe da planilha era a compra de tratores. Cerca de R$ 270 milhões foram usados com o tipo de veículo e há todo tipo de suspeita de superfaturamento. Algumas compras foram realizadas com um valor 259% maior do que o listado na tabela de referência do próprio governo federal.

O orçamento foi criado para comprar aumentar os incentivos técnicos e políticos para que parlamentares atuassem em sintonia com o governo federal. Essa verba deveria ter o destino estabelecido pelos ministérios com critérios técnicos. O governo, porém, utilizou uma “taxa de fidelidade” para definir a distribuição dos recursos.

Normal isso

Políticos de oposição e especialistas tratam o caso como gravíssimo. Há quem voltou ao passado para fazer um paralelo com o caso dos Anões do Orçamento. O Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas da União devem investigar o orçamento paralelo e até que ponto a planilha está dentro da legalidade.

A oposição está trabalhando, também, para a criação de uma CPI do Tratoraço (que não deve investigar só a compra de veículos). Há um pequeno problema: tem muita gente importante envolvida no possível esquema ilegal.

Se o presidente não tem o que temer, é fundamental que a CPI seja aberta por gente com muito rancor e o país entenda exatamente até que ponto a notícia do Estadão passa da imoralidade e entra na ilegalidade (provavelmente mais o último do que o primeiro). Na melhor das hipóteses, ela pode explicar muitas coisas que foram vistas, no passado, como má articulação política. Da diáspora no DEM ao ocaso de Rodrigo Maia, há mais coisas entre o céu azul e a terra vermelha de Brasília do que pode imaginar nossa vã filosofia.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Erros, comentários ou críticas devem ser apontados diretamente no Twitter do blog.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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