Ameaças de prisão na CPI da Covid, o acúmulo de provas de que o governo Bolsonaro teve comportamento semelhante ao de uma gestão genocida e o desastre ambiental e educacional que é realidade no país.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #124 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-11 and may-17


Esse trator aí é de que?

O tratoraço está ganhando menos atenção em comparação à CPI da Covid (mais sobre isso adiante), mas não deixa de ser um ótimo escândalo. O presidente, por exemplo, já mostrou que não está muito feliz em todo mundo saber que existe um “orçamento secreto” de R$ 3 bilhões para os seus amigos. Falar sobre o tema, que pelo visto envolve uma cifra de R$ 20 bilhões, virou coisa de canalha.

Como aqui no blog ninguém se coloca como portador da moral e dos bons costumes, falaremos sobre o tema. Começando pelo pelo fato de que o senador Roberto Rocha (PSDB-MA) entrou com um pedido de CPI para investigar o caso. Rocha é aliado do Planalto e tem apadrinhados na empresa pública usada no esquema, o que é um claro sinal de que o governo deveria ter pago um boleto maior para ele.

E a Procuradoria-Geral da República? Ficará na dela enquanto a situação política e a disponibilidade de uma vaga no Supremo Tribunal Federal forem alinhadas com o desejo de Augusto Aras de trabalhar no STF. Em outras palavras, o [CENSURADO]-geral da República seguirá exercendo o seu trabalho de [LIMITADO PELO DEPARTAMENTO JURÍDICO]-geral da República.

Olho no lance

Em pleno clima de democracia e alegria, a Polícia Federal encaminhou ao STF um pedido de abertura de inquérito para investigar supostos pagamentos ao ministro Dias Toffoli em troca de decisões favoráveis. A solicitação partiu da análise da delação premiada de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro.

Cabral afirmou que Toffoli recebeu R$ 4 milhões para favorecer dois prefeitos em processos quando era presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Toffoli, obviamente, negou as acusações. A delação não foi homologada, mas o inquérito contra Toffoli foi barrado.

Governo técnico, destruição de credibilidade técnica

A CPI da Covid foi animada. Durante o depoimento do diretor-presidente da Anvisa, o senhor Antônio Barra Torres, Jair Bolsonaro foi criticado com o rigor técnico de quem exerce um cargo técnico com indicação política. Coisa linda, linda. Teve até pedido de desculpas pelos erros do verão passado.

Torres criticou as falas e ações negacionistas do presidente e confirmou que o governo queria mudar a bula da hidroxicloroquina para indicar que ela é capaz de tratar a covid-19 (não é). Alteração de bula por decreto é ilegal, mesmo que seja apoiada (supostamente) por médica bolsonarista. Em resumo, o depoimento foi mais uma oportunidade de registrar, nos anais do Senado, o que já se sabia pela imprensa.

Quem tem cu, tem medo?

O grande depoimento da semana foi o de Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação do Planalto. Após atribuir em cadeia de imprensa nacional o atraso na compra de vacinas à incompetência do ex-ministro Eduardo Pazuello, a CPI o convocou para explicar exatamente o que ela já sabia. Infelizmente, Wajngarten não estava muito disposto a fazer isso.

As falas de Wajngarten foram compostas por muita mentira, contradição, confusão e ameaça. Na parte da verdade, Wajngarten admitiu que uma carta com ofertas de vacinas da Pfizer ao Brasil ficou por ao menos dois meses na gaveta do governo em 2020.

A carta trazia, entre outras coisas, a proposta de transformar o Brasil em uma vitrine mundial de vacinação. O governo recusou as propostas todas as vezes em que elas foram feitas. Todo mundo sabe que somos párias, não imaginávamos que também nos colocaríamos voluntariamente na posição de nação que não curte um soft-power diplomático.

Saiu barato

Após afirmar que abandonou esposa e filhas em São Paulo para servir ao país, Wajngarten foi pego na mentira. Renan Calheiros e outros senadores pediram a prisão de Wajngarten, mas o senador Omar Aziz (PSD-AM) entregou apenas um pedido de investigação de crime de falso testemunho ao Ministério Público.

A medida fez a entrevista dada à revista Veja e a briga com Markinhos Show custarem um pouco menos do que um pedido de prisão, mas não o bastante para dizermos que a mentira do ex-chefe da Secom saiu barata. Em todo caso, o alerta foi dado: senadores não aceitarão que depoentes e convidados tratem a casa do povo como um grupo de Whatsapp bolsonarista.

Bagunça gostosa

A CPI ainda pretende quebrar os sigilos de Wajngarten e dos integrantes do “gabinete do ódio” para saber se houve dinheiro público na propagação de notícias falsas sobre a pandemia. Que houve dinheiro público na propagação de campanha contra as medidas de isolamento por parte do governo, a gente sabe. O Wajngarten até tentou dizer que não, mas todo mundo sabe que houve.

No apagar das luzes, vendo que a situação do governo estava pior do que o esperado, o senador Flávio B. (Republicanos-RJ) invadiu a CPI para chamar Renan Calheiros de “vagabundo” e mandá-lo “se foder“. Renan lembrou que F. B. também tem os seus B.O.s com a Justiça e ficou tudo por isso mesmo. Por enquanto (o Renan Calheiros tem memória boa).

Em notas não relacionadas, o Ministério da Saúde apagou links que prescreviam remédio ineficaz para cuidar da covid-19 de seu site. Não se sabe, ainda, se Wajngarten passou pelo departamento de TI do ministério antes que a remoção dos dados fosse executada.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Vitrine quebrada

Retomando à história do Brasil ajudando a vacinar o mundo com muito samba, cerveja ruim (todas) e mulheres com pouca roupa sambando no aeroporto, o gerente-geral da Pfizer na América Latina afirmou que o governo recusou ao menos cinco ofertas de vacina em 2020. A primeira oferta incluía a entrega de 4,5 milhões de doses do imunizante fabricado pela empresa, o bastante para evitar algo próximo de 5.000 mortes.

O relato é mais um dos depoimentos que mostram como o governo foi negligente na condução da pandemia e na compra de vacinas (para bater papo com cantor ruim). Ele também adiciona um fato novo aos anais da comissão. O vereador federal Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, participaram das reuniões com os representantes do laboratório.

Alguém aí falou em ingerência externa nos assuntos da União? O blog está falando em ingerência externa nos assuntos da União.

A semana da covid-19: the good

A média móvel de mortes por covid-l9 atingiu, pela primeira vez em 55 dias, um número abaixo de 2 mil óbitos diários. Ele ficou em 1.980. O número é uma redução de 17% em comparação com o período anterior.

A aplicação de vacinas segue claudicante. O Ministério da Saúde suspendeu a aplicação da vacina da AstraZeneca em grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz e tenham comorbidades, inclusive da segunda dose. A medida foi tomada após a morte de uma gestante que recebeu o imunizante no Rio de Janeiro, mas ao contrário de muitos de seus maridos, as grávidas ainda preferem as vacinas à morte por covid-19.

O Ministério da Saúde também anunciou o segundo contrato para compra de 100 milhões de doses da vacina da Pfizer. A quantidade é a mesma do acordo anterior e os insumos só devem chegar em setembro. O prazo não incluiu os atrasos que acontecerão após alguma fala horrorosa do presidente.

Na fileira de boas notícias da Saúde, o ministério também anunciou o lançamento de uma campanha de conscientização sobre o uso de máscaras e pela vacinação. As peças publicitárias, segundo informações exclusivas do blog, mostrarão a melhor maneira de usar máscaras de crochê e a proteção menos adequada para ver o presidente falar absurdo em protesto golpista. No que se refere às vacinas, os roteiros devem indicar os melhores cuidados a serem adotados quando a segunda dose ficar atrasada em função da inabilidade do presidente manter a boca calada.

A semana da covid-19: the bad

O governo admitiu que pode perder 2,3 milhões de testes de covid-19 nos próximos meses (na base do fogo e na base da inércia). Eles poderiam evitar o quase meio milhão de mortes que já registramos se tivéssemos um sistema de rastreamento de casos funcional. As vítimas, juntas, tornaram o país R$ 165,8 bilhões mais pobre (por enquanto).

Outra coisa que poderia ajudar o brasileiro a enfrentar a pandemia era um maior número de médicos trabalhando na rede de saúde, mas o Conselho Federal de Medicina tem dificultado a validação de diplomas estrangeiros.

Seria uma boa ideia se alguém avisasse o pessoal do CFM que nem todo médico estrangeiro veio de Cuba. Vai que isso ajuda a turma a ser mais aberta ao capital humano estrangeiro e mais fechada a ideias ruins.

A semana da covid-19: the ugly

O nível de isolamento dos brasileiros é o mais baixo desde o início da pandemia do coronavírus. O dado foi obtido pelo Instituto Datafolha e apontou que apenas 30% dos brasileiros adultos estão totalmente isolados. O resto sai de casa sempre ou quando é evitável.

Não se sabe se estas pessoas que saem de casa em nome da saúde mental e da ativação das zonas erógenas por terceiros fazem os seus passeios por se importarem com as opiniões do presidente, mas é fato que todos são considerados muito espertos por Jair Bolsonaro. Querer viver é coisa de gente idiota.

Colocando a bola no nosso pé, na frente do gol

Por razões que o blog é incapaz de compreender, o preposto do presidente Joe Biden para assuntos de meio ambiente, John Kerry, acredita que o Brasil tem responsabilidade em liderar a busca por uma solução para a crise climática. Se o leitor não entendeu, o blog repete: os Estados Unidos acreditam que o Brasil deve retomar o papel de liderança ecológica global que perdeu, nos últimos anos, para os Estados Unidos.

Kerry também está disposto a cooperar com o governo Bolsonaro sem recorrer a sanções desde que o governo tome “medidas imediatas para reduzir significativamente o desmatamento em 2021”. Para demonstrar a disposição da nação em voltar ao seu posto de destaque global, a Câmara dos Deputados aprovou um novo modelo de licenciamento que pode jogar todos os tipos de avanços dos anos anteriores no lixo. Exemplo importa, especialmente exemplo negativo.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Erros, comentários ou críticas devem ser apontados diretamente no Twitter do blog.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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