Bolsonaristas se sacrificando pelo chefe na CPI da Covid, os rolos internacionais de Ricardo Salles e mais uma semana de sucesso da covid na sua luta contra o brasileiro.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #125 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-18 and may-24


A voz trêmula do templário

A CPI da Pandemia finalmente sentou para ouvir o 4-chanceler. E, para a surpresa de poucas pessoas, a tratativa foi um grande spoiler do que aconteceria nos próximos dias: um discurso muito bem estruturado para proteger Jair Bolsonaro e seu filho de serem punidos pelos seus atos (e se sobrar tempo, Filipe Martins).

O ministro, em específico, foi cobrado pela sua ação direta nas negociações com a China para a compra de vacinas. Quem acompanha o blog com cuidado lembra que o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, acusou o ex-4chanceler de atrapalhar o diálogo com representantes do país asiático. A prioridade naquela época, como já sabemos, era comprar medicamento ineficaz contra covid.

Quando questionado sobre o que fez no verão, na primavera, no outono e no inverno passado, o ex-chanceler afirmou que a estrutura do seu ministério foi sim utilizada para comprar medicamento que não funciona para a covid (com o apoio do presidente). Mas, segundo ele, a culpa não deveria ser direcionada ao morador do Palácio do Planalto e sim aos ex-ocupantes do Ministério da Saúde. Why not both?

Jair Bolsonaro falando em vachina? Dizendo que o vírus é chinês? Que não compraria imunizante feito na Ásia? Tudo absolutamente normal e incapaz de gerar algum tipo de impacto para a nação, segundo o especialista em diplomacia.

O grande destaque do passeio de Ernesto Araújo no Senado foi o momento em que ele teve que encontrar a senadora Kátia Abreu (PP-TO). A feminista que melhor manuseia uma motosserra do país lembrou ao “negacionista compulsivo” que ele é uma bússola que não aponta para o norte, mas para o caos. Araújo não se abalou e seguiu a sua sequência de mentiras em um nível de mitomania tão elevado que nos faz pensar que o nome dele, na verdade, é Joaquim.

Coincidências do destino

Enquanto Ernesto era comido em cadeia nacional pela senadora Kátia Abreu, Bolsonaro estava preocupado com uma das suas únicas três preocupações. Diante das ameaças de que o seu filho Carlos seja convocado a depor na CPI, o presidente avisou que rebateria a convocação com a publicação de um decreto para usar as Forças Armadas contra qualquer medida de isolamento social.

A defesa da convocação do vereador federal começou com a afirmação, por parte do executivo da Pfizer, Carlos Murillo, de que ele esteve presente em reuniões do governo federal com o laboratório. Sem validar ou não a legalidade da ideia presidencial, o senador Omar Aziz (PSD-AM) acalmou os ânimos de todos os envolvidos e disse que não há necessidade de um depoimento do filho de Bolsonaro (ainda).

Sem farda, sem medo…

O segundo ex-ministro a falar na CPI da covid na última semana foi Eduardo Pazuello. O general, que ficou à frente da Saúde na época em que a pasta executou obras sem licitação no valor de R$ 28,8 milhões de reais, chegou a ganhar o direito de ficar calado. Mas, para todos os efeitos, ele falou muita mentira e o que mais fosse necessário para proteger Bolsonaro.

Pazuello negou que o presidente interferiu nos assuntos da sua pasta (mentira), afirmou que as manifestações de Bolsonaro eram “coisa de internet” (também mentira), que o TrateCov foi obra de criminosos (meia verdade) e que a compra de vacinas da Pfizer demorou graças a pareceres do Tribunal de Contas da União (outra mentira). Apesar de tudo, o general, ao contrário de outras pessoas, não correu o risco de sair do Senado e ir para a delegacia mais próxima, mas virou escala para piada da parte de Renan Calheiros (MDB-AL).

O primeiro dia de depoimento de Pazuello foi interrompido após ele passar mal, mas o ex-ministro também negou que isso fosse verdade.

… e sem verdade

Em seu segundo dia de depoimentos, o general Eduardo Pazuello foi tão consistente quanto Esteban Ocon durante a sua primeira temporada na Formula 1 em 2017. O problema é que dessa vez os senadores estavam tão preparados para estragar a sua sequência de mentiras quanto o circuito de Interlagos estava preparado para acabar com a sequência de corridas sem abandonos do piloto europeu. Dessa vez as suas mentiras não passaram batido (ou contrário do carro de Ocon, que se envolveu em batida naquele final de semana).

Pazuello não conseguiu sequer manter em pé as afirmações do dia anterior. E olha que nesse caso nem precisou de um senador para ser desmascarado. Em outros casos, a sua mitomania foi tratada com escárnio por Omar Aziz.

Em outras palavras, a interrupção da oitiva serviu para que os senadores recebessem mais relatórios de internautas que sabem utilizar o Internet Archive. Isso ajudou todo mundo a rebater melhor as contradições e mentiras do ex-ministro. Vitória para o Senado e vitória para o presidente, que agora pode reforçar mais as suas narrativas com a sua rede de apoiadores.

Ai ai esse general é brincalhão d+

Para reforçar os elogios e demonstrar para todo o país que o presidente está do seu lado, Pazuello resolveu fazer de conta que não é obrigado a seguir nenhum tipo de lei. O general se uniu ao presidente no último domingo em um “memorável” e bem caro passeio de bicicleta no Rio de Janeiro. Com custo de quase meio milhão de reais, o bate perna presidencial foi uma ótima forma de colocar o Rio na liderança dos novos casos de covid em duas semanas.

No Twitter, o novo petista general Santos Cruz criticou a ação. A cúpula do Exército acompanhou o ex-ministro e ameaçou aplicar uma punição pesada para Pazuello (aposentadoria precoce com remuneração integral). Já Bolsonaro correu para calar a boca institucional de qualquer representante das Forças Armadas.

Ô pega ele, Renan

A lista de vítimas da CPI da covid não para de crescer. Um dos nomes que podem ser ouvidos é o ex-assessor da Presidência, Arthur Weintraub. Ele é acusado de coordenar uma sucursal não oficial do Ministério da Saúde e até o momento não saiu do país para deixar de encarar os senadores por estar muito ocupado apagando seus rastros na web.

Outra que deve ser ouvida é a infectologista Luana Araújo. Ela deixou o cargo de secretária de Enfrentamento À covid-19 dez dias após ser nomeada. Com sorte sobra até para o confiável e grande representante do liberalismo brasileiro Hélio Beltrão.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Uma tragédia de vários atos

O currículo (verdadeiro, não o falso) de Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente, é de dar inveja a quem não gosta do meio ambiente. Ele já adulterou mapas para beneficiar mineradoras, loteou cargos de comando entre policiais da Rota e deu poder a gente que autorizou exportação de madeira sem documentação no Pará.

Nos finais de semana, impede servidores de órgãos ambientais de fazerem o seu trabalho e abre mão de dinheiro de multa ambiental. Nos dias úteis, garante que o país registre o maior desmatamento em um mês de abril em dez anos e o número de espécies da Mata Atlântica que foram extintas continue a crescer.

Na última semana, ele ganhou uma nova conquista: recebeu uma visita da Polícia Federal.

Ato I: intimidação e lobby para suposto criminoso

As suspeitas da PF são graves. As investigações levaram os policiais a acreditarem que Salles intercedeu a favor de madeireiros paraenses que derrubaram madeira nobre na Amazônia ilegalmente. Tudo isso, segundo a PF, com a devida remuneração.

O caso envolveu afrouxamento da fiscalização ambiental, emissão de autorizações retroativas, o FBI e a Inglaterra, como explica o Intercept. A Polícia Federal brasileira entrou na história após a polícia estadunidense enviar um zap zap para os seus companheiros tupiniquins. Com o apoio do ministro do STF, Alexandre Foucault de Moraes, a ação foi deflagrada.

Ato II: toca pra cadeia

O ministro Alexandre Vigia&Pune de Moraes autorizou a coleta de documentos e provas nos endereços de Salles, além da quebra dos sigilos fiscal e bancário dele e de outros envolvidos no caso, como o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, afastado do cargo por ordem da justiça. Essas medidas devem dar à PF a liberdade para verificar se o ministro e seus homens de confiança cometeram crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação ao contrabando.

O trabalho de Moraes também suspendeu o despacho do Ibama que ajudaria os madeireiros acusados de fazer a extração de madeira ilegal a venderem o seu produto no mercado internacional. Salles negou que cometeu crimes.

Ato III: normal isso

Para demonstrar o seu interesse em colaborar com a Justiça e provar que não tem medo, o “excepcional ministro” visitou a superintendência do órgão em Brasília acompanhado de um assessor armado para tirar satisfações sobre o inquérito (Salles achou que a PF é uma unidade do Ibama?). À tarde, foi ao Planalto se reunir com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça.

O ministro da Justiça é responsável por coordenar as ações da PF. Entre as suas últimas medidas, está a proposta de reestruturar o órgão. Se ele conseguir o que deseja, delegados perderão a autonomia para investigar autoridades com foro especial, como é o caso de ministros do Meio Ambiente.

A semana da covid-19

A falta de insumos para a fabricação da CoronaVac fez com que o número de brasileiros com a segunda dose da vacina atrasada triplicasse em pouco mais de um mês. Para piorar a situação, a China mandou avisar que o volume de insumo farmacêutico ativo (IFA) do imunizante que será entregue amanhã será reduzido em 25%.

Já a Fiocruz recebeu da China uma remessa de IFA para retomar a produção da vacina AstraZeneca. Em nota, o Ministério da Saúde anunciou que os insumos vieram “do exterior”. Após ironia do embaixador Yang Wanming, o Itamaraty agradeceu a China adequadamente.

Em São Paulo, três cidades do interior voltaram a decretar lockdowns em função do aumento do número de casos. O governador João Dória (PSDB-SP) respondeu anunciando uma nova flexibilização das regras de isolamento para o próximo mês. Em nota exclusiva para o blog, o Sars-Cov-2 informou que está preparado para transformar a oportunidade de se propagar em uma nova variante.

Falando em nova variante, a indiana já está em território nacional. Ele pegou carona em um navio de bandeira de Hong Kong que foi fretado pela vale para transporte de minério de ferro. Cem pessoas tiveram contato com infectados com a variante.

Nem tudo é horrível, porém. Filhos de mães que receberam a CoronaVac estão nascendo imunes a doença. O aleitamento é uma das medidas que podem ser adotadas para reforçar a imunidade contra a covid.

O ministro da Saúde reteve 3 milhões de testes de covid-19. Parte deles foram entregues a São Luís nos últimos dias. O ministério não informou se também entregou mascaras chinesas com suspeita de falsificação no evento, mas deixou escapar que entregou comprimido que não trata covid-19 para indígenas tratarem covid-19.

Queiroga negou que corremos risco de uma terceira onda. Especialistas discordam. O país atingiu 450.000 mortes pela covid-19 na última semana e já estamos prestes a entrar no top 10 de média de mortos por 100 mil habitantes.

New phone who dis

A CPI da Covid nos permitiu conhecer em detalhes o que o governo não fez para comprar as vacinas da Pfizer. Entre agosto e setembro de 2020, dez e-mails foram enviados ao governo oferecendo entre 30 milhões e 70 milhões de doses do imunizante. As mensagens não foram respondidas.

Os e-mails mostram que a empresa insistiu em ter o apoio de um Planalto que não pensava duas vezes antes de deixar de comprar vacina. O governo só respondeu em dezembro. A mensagem, segundo ele, foi bloqueada por um vírus.

As novas ideias ruins de Paulo Guedes

Paulo Guedes segue mostrando para todo mundo que há muito espaço no liberalismo brasileiro para ideias ruins e apoio a políticos autoritários. A eleição de 2022 vêm aí e o ministro da Economia está, novamente, prometendo vender terreno na lua e usar a verba para ajudar pobre a pagar o seu curso técnico (pois faculdade é coisa para rico, todo mundo sabe).

O ministro terá que afinar o discurso caso queira manter o apoio do grande empresariado. O ex-presidente da Fiesp e acionista da Klabin, Horácio Lafer Piva, não esconde o seu pessimismo. Motivo não falta.

Lulinha paz e amor

Lula quer mesmo fazer o grande megazord contra Bolsonaro. Jean Wyllys migrou para o PT e o ex-presidente reuniu com o único tucano que conseguiu derrotar o petista em eleições. O cardápio dos seus almoços? Reconciliação e democracia.

Os tucanos ficaram irritados com a ação de FHC, enquanto os petistas ficaram animados. A raiva do tucanato faz o blog refletir se um senhor com 9 décadas de vida deveria se importar com gente que não se importa tanto assim com ele. Quem vê até pensa que o ex-presidente é inocente.

A caravana de Lula envolveu o mercado financeiro, as igrejas evangélicas, José Sarney e até Romero Jucá. Pode-se dizer que tem sido tempos difíceis para quem brigou com a família durante a queda de Dilma Rousseff (PT).

Lula poderá ir aos debates falando que, no seu tempo, indígena não morria de desnutrição, que sobrava dinheiro para comprar uma picanha no final de semana e que as pessoas tinham vacina. Enfim, que o brasileiro tinha motivos reais para ser otimista. E Bolsonaro avisou: se o brasileiro não gostar do cenário atual, pode abraçar o petista.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Erros, comentários ou críticas devem ser apontados diretamente no Twitter do blog.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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