O Brasil chega à sua semana #131 do governo Bolsonaro com o autoproclamado centro-democrático-de-verdade percebendo que, assim como quem depende da sua imagem para fazer dinheiro, ser contra o presidente pode dar mais lucro do que prejuízos. Já era hora.

Enquanto isso, a pandemia apresenta uma leve queda antes de sentir os efeitos da variante delta do coronavírus e a trama do escândalo de corrupção se adensa. Tudo isso e muito mais você encontra no resumo da semana #131 da nova era.


The following takes place between jun-29 and jul-05


Sua vida vale duas latas de Coca

A suspeita de que queriam “levar um por fora” na compra de vacinas cresceu na última semana. Reportagens reforçaram o envolvimento direto e indireto do líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), na tentativa de obter propina na compra de vacinas contra a covid-19. Tudo isso com o apoio de gente em cargo comissionado no governo federal.

O principal responsável por tornar a informação pública é Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Ele se coloca como representante da Davati Medical Supply (depois das 18:00, já que em horário comercial ele é PM) e disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu duas latas de Coca Cola para dar para a empresa o direito de vacinar cada brasileiro (isso, é claro, se ela fosse realmente capaz de entregar vacinas). A compra não foi efetuada pelo ministério.

Saudades Piantella

A cobrança de propina teria sido realizada em um restaurante de shopping. Ao lado de Dominguetti e do funcionário do Ministério da Saúde estavam, também, um militar e um empresário de Brasília-DF. No dia seguinte, Dominguetti e Dias tiveram uma reunião oficial que incluía o coronel Elcio Franco, secretário-executivo do Ministério levado pelo general Eduardo Pazuello.

As tentativas de ganhar um extra com a vacinação de brasileiros também podem ter ocorrido entre março e maio. O deputado Luis Miranda (DEM-DF) acusou o lobista Silvio Assis de tentar comprar o seu silêncio diante das irregularidades na compra do imunizante indiano Covaxin. A oferta teria ocorrido na presença de Ricardo Barros.

Nada acontecendo aqui

Negando irregularidades, Marcelo Queiroga, o ministro da Saúde, decidiu exonerar Roberto Ferreira Dias da direção de logística da pasta. Ricardo Barros também avisou que jamais envolveu em esquemas de corrupção como os citados nas matérias com o seu nome na manchete. Já o governo, no lugar de negar a acusação, simplesmente suspendeu o contrato de compra da Covaxin.

Roberto Ferreira Dias foi demitido, mas não sem antes deixar um rastro de pequenas notícias que mostram a alta temperatura das suas costas. Em outubro do ano passado, Dias chegou a ser demitido por Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde. Voltou ao cargo com o apoio do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP).

No campo das informações desencontradas, a AstraZeneca informou que não opera com intermediários. Já a Davati, sediada nos EUA, confirmou que tentou vender vacinas ao governo Brasileiro com o apoio de atravessadores. A oferta, porém, não teria sido respondida pelo governo federal.

Atestando e dando fé

Em depoimento à CPI da Covid, Luiz Paulo Dominguetti reafirmou ser o representante comercial da Davati. Ele também reforçou a acusação de pedido de propina por parte de um funcionário do Ministério da Saúde em fevereiro deste ano. Jair Bolsonaro, ao comentar o tema, fez ironias e chamou os integrantes da comissão de “bandidos” (sem citar nomes diretamente ou encaminhar denúncia às autoridades competentes).

Cavalo de Troia

Do outro lado da história, Roberto Ferreira Dias, o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, avisou que talvez estivesse sendo vítima de uma armação. A declaração foi realizada horas após Dominguetti apresentar uma gravação na CPI que seria a prova de que o deputado Luís Miranda negociava com o representante de fato da Davati, Cristiano Alberto Carvalho, uma compra, segundo o PM, também de vacinas.

O problema é que Carvalho entrou em contato com a CPI e avisou que não era o caso. Já Miranda foi até o Senado desmentir o depoente pessoalmente e afirmar que a conversa se trata da compra de luvas. O celular do PM foi apreendido e, até o momento, sabemos que ele pretendia receber US$ 0,25 de comissão por dose vendida ao governo federal e que, segundo ele, Bolsonaro sabia de muita coisa.

A confusão fez o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acusar Dominguetti de ser um infiltrado do governo para desviar a atenção da CPI a assuntos realmente importantes — as suspeitas de corrupção envolvendo a compra da Covaxin. Se for o caso, o policial falhou na missão.

Agora não

Diante da denúncia de que o presidente prevaricou no caso Covaxin, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal para aguardar o fim da CPI antes de tomar qualquer decisão sobre a possibilidade de investigar ou não Bolsonaro. O pedido foi recusado pela ministra Rosa Weber.

Entre as possíveis testemunhas do inquérito, nós esperamos que Aras chame o vice-presidente Hamilton Mourão. O general disse em entrevista que a corrupção sempre “andou” no Ministério da Saúde. Agora falta falar quem é o responsável por ajudar nessa caminhada.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

  • O PL 490, que tem tudo para ser inconstitucional, avançou mais um pouco.
  • Em alta: o PIB, o desemprego e o seu custo de vida.
  • Representantes de 10 partidos estão se colocando contra a PEC do voto impresso. Falta combinar com as suas bancadas.
  • Tudo indica que todo o gasto que o Augusto Aras teve com lubrificante durante as suas visitas ao presidente não renderá um assento no STF.
  • A Fundação Palmares quer livrar-se da “dominação marxista” expurgando obras de ícones do pensamento progressista como Thomas Sowell e Machado de Assis.
  • A expectativa de vida ao nascer dos brasileiros caiu em 2020.
  • O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PDSB), assumiu a sua orientação sexual, criticou o presidente e disse que ter votado em Bolsonaro não é a mesma coisa de ter dado apoio a ele (mais ou menos nessa ordem).
  • A Amazônia registrou o maior número de focos de incêndio em junho para o mês desde 2007. A “temporada de queimadas” só será iniciada em agosto.
  • Investidores estrangeiros colocaram mais de R$ 60 bilhões na bolsa de valores brasileira no primeiro semestre de 2021. Entenda o que isso significa.
  • O Partido Novo é institucionalmente a favor do impeachment, mas a sua bancada mandou avisar que não é bem assim.

Frente meio ampla

No mundo dos que gostam de um teatro e procuram motivos para criar esperanças, movimentos sociais, partidos e bolsonaristas arrependidos protocolocaram um pedido de impeachment (mais um) na Câmara. Arthur Lira (PP-AL) já avisou que o Planalto já pagou a conta de luz que liga a trituradora de papel que dará ao pedido o mesmo fim dos outros 120 já apresentados.

O fato importante, porém, é que o “superpedido” conseguiu reunir uma sopa de letrinhas que começa no Unidade Popular e termina no Movimento Brasil Livre. Situação semelhante se repetiu no terceiro ato nacional contra o presidente: impulsionado pelas denúncias de corrupção, contou com o apoio institucional de movimentos liberais como o Livres e do diretório estadual do PSDB paulista.

Há quem continue insistindo que a meia dúzia de revoltados do PCO são um motivo relevante o bastante para não lutar contra o presidente nas ruas. Os movimentos de direita podem aproveitar que a Av. Paulista é grande e convocar as suas manifestações a qualquer momento. Mas se a ideia é esperar a pandemia acabar, o projeto só será colocado em prática em 2023, após a revelação do segundo escândalo de corrupção do segundo mandato do governo Bolsonaro.

A magia do silêncio

O empresário e trambiqueiro Carlos Wizard ficou em silêncio na CPI da Covid. Após citar Deus, negar a existência do gabinete paralelo e tentar vender um livro, o depoente fez uso do seu habeas corpus e calou-se. A boca de Wizard, pelo visto, só serve para rir de quem morreu de covid após ficar em casa.

Em notas relacionadas

A CPI da Covid não está focada apenas em rastrear possíveis esquemas de corrupção envolvendo a compra de vacinas. Nas atividades paralelas, a comissão tem investigado a propagação de notícias falsas durante a pandemia. A suspeita é que havia dinheiro público financiando o trabalho sujo.

Para tentar impedir que o seu nome continue a ser jogado na lama, o deputado Ricardo Barros foi ao STF pedir para ter o seu depoimento adiantado. Política é timing e, se a comissão continuar relevando os seus possíveis podres, ele pode perder o cargo de líder do governo Bolsonaro sem conseguir dar o seu show antes.

E de maneira completamente espontânea, a Polícia Federal indiciou o senador Renan Calheiros (MDB-AL) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O relator da comissão é acusado de ter recebido R$ 1 milhão em propinas da Odebrecht. Aqui, suspeitamos da denúncia e da sua integridade: alguém como o Renan não se venderia por tão pouco nem mesmo em épocas de vacas magras.

Trocando óculos

Falando em quem conta mentira com dinheiro de origem duvidosa, o ministro do STF Alexandre de Moraes arquivou o inquérito dos atos golpistas. Os trabalhos serão executados a partir de novas frentes, considerando o que foi obtido até o momento.

O foco das investigações não será mais a busca pelos financiadores das manifestações e o nível de legalidade deste processo. Agora, Moraes quer saber quem, no poder Legislativo ou no poder Executivo federal, estava envolvido nas ações. Boa sorte ao ministro.

Suposto ladrão que rouba suposto ladrão tem…

Para a surpresa de praticamente ninguém, mais uma pessoa ligada à família Bolsonaro está acusando a família Bolsonaro de realizar corrupção de baixo escalão. Dessa vez foi a ex-cunhada do presidente. Gravações obtidas pela jornalista Juliana Dal Piva implicam o presidente no esquema de “rachadinhas” (esse sinônimo bonito para peculato).

Bolsonaro foi acusado de demitir o irmão de Andrea após ele supostamente roubar o suposto roubo do atual presidente do Brasil. Em outro áudio, a filha e a mulher de Fabrício Queiroz também apontam Jair Bolsonaro como a gênesis de um esquema de roubo que passa por toda a família e que teria o envolvimento até mesmo de coronel da reserva do Exército.

O advogado do presidente negou as acusações. Aqui, fizemos cara de surpresa por 2 segundos.

Enquanto isso, no Brasil pandêmico

As coisas no Brasil da pandemia vão se encaminhando aos poucos (e aos trancos e barrancos) para o seu fim enquanto a média móvel de óbitos pela covid-19 cai conforme a vacinação avança. O maior desafio dos últimos dias, porém, foi a figura do sommelier de vacina, que não entende que os imunizantes não contam com eficiência comparável e gostam de brincar com a morte.

A Anvisa e o Instituto Butantan estão se bicando por conta dos testes da Butanvac,vacina produzida pelo instituto paulista 100% localmente. O Butantan quer encurtar o prazo de testes do imunizante, mas a agência sanitária não está animada com a ideia.

O Tribunal de Contas da União (TCU) avisou ao governo que ele terá dez dias para explicar por que o preço da Covaxin aumentou 50% entre a primeira e a última oferta de venda. O ministério também terá que informar ao TCU se houve ou não pesquisa de preços antes que o acordo de compra fosse finalizado.

E a gente? A gente, que é brasileiro, fica se perguntando se morar no Brasil ainda é pior do que morar fora dele.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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