Chegamos à semana #132 da Nova Era. Nos últimos dias a corrupção do governo Bolsonaro ficou mais próxima de Jair Bolsonaro e dos militares de alta patente em cargos comissionados.

Em resposta às acusações de corrupção, os chefes das forças armadas demonstraram a sua falta de apreço pela democracia — como se os livros de história já não estivessem cheios de exemplos disso. Falando em história, o Estadão chegou em 1985 e percebeu que Jair Bolsonaro foi um mal aluno quando esteve na academia militar. Pedir a queda do presidente se tornou uma escolha muito fácil.

Confira tudo isso e muito mais no resumo da semana #132 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jul-06 and jul-12


Mutreta

No dia 23 de junho o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência da República, brincou de mafioso e tentou desmentir o deputado Luis Miranda (DEM-DF). A sua argumentação tinha como foco mostrar que a nota de compra da Covaxin apresentada por Miranda na CPI da Covid era falsa. Para isso, Lorenzoni apresentou o que seria a nota verdadeira, em inglês, para todos os jornalistas.

O problema é que o documento é falso. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) debruçou-se sobre as duas notas e encontrou todo tipo de indicativo de fraude na base do argumento de Lorenzoni. A mentira do governo foi tão mal diagramada quanto a logo da Bharat Biotech na nota apresentada pelo governo.

Mutretona

Como se um ministro apresentando um documento fraudulento não fosse indicativo de coisa estranha o bastante, o depoimento da servidora Regina Célia Silva Oliveira, do Ministério da Saúde, também trouxe mais fogo para a fumaça que ronda a compra da Covaxin. Oliveira afirmou que não viu “nada atípico” na compra, mesmo tendo sido nomeada dois dias após os irmãos Miranda denunciarem os problemas para o presidente. A servidora aprovou o contrato mesmo com ele tendo ficado um mês sem fiscalização e a Precisa Medicamentos não ter entregado o primeiro lote acordado.

Mutretaça

Em notas relacionadas, a CPI da Covid também encontrou informações comprometedoras no celular do PM Luiz Paulo Dominguetti. O PM que intermediou a venda de vacinas da AstraZeneca por meio da empresa americana Davati Medical Supply, trocou mensagens afirmando receber informações diretamente do gabinete de Bolsonaro. Em um determinado momento, Dominguetti chega a afirmar que seria recebido pelo próprio presidente.

Tudo pode ser mentira, é claro. Mas os amigos do PM viam as ações do representante da Davati como um ótimo mecanismo de mobilidade social. Ninguém pensa em comprar um Jaguar sem esperar ter dinheiro para comprar um Jaguar.

Teje preso

Finalmente a CPI da Covid prendeu alguém. Roberto Ferreira Dias, que era diretor de Logística no Ministério da Saúde, foi o primeiro depoente a ter a sua prisão decretada pelo senador Omar Azis (PSD-AM). O motivo foi o mesmo que quase levou outros depoentes à cadeia: falso testemunho.

Dias é suspeito de pedir propina ao vendedor de vacina Luiz Paulo Dominguetti. Segundo Dominguetti, o pagamento deveria ser de US$ 1 por dose de vacina, o que dá mais ou menos um pastel e uma Coca para cada brasileiro vacinado. Dias negou as acusações e disse que o encontro no shopping em que o pedido tinha sido realizado era casual — não era.

O ex-diretor de Logística não conseguiu se afastar dos trabalhos da CPI por completo. A cúpula da CPI teria sido informada que Dias tem um dossiê detalhado sobre os dois grupos que trabalhavam para “conseguir um extra” na Saúde: o centrão e as Forças Armadas. À boca miúda, circula a ideia de que Azis decretou voz de prisão apenas para forçar o ex-diretor a entregar o documento.

Prevaricou?

Duas semanas após o deputado Luis Miranda acusar o presidente Jair Bolsonaro de não ter feito nada diante de uma acusação de corrupção, o presidente da CPI da Covid enviou uma carta inquirindo Bolsonaro sobre o tema. “Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição dos ombros deste experimentado político, o deputado Ricardo Barros”, escreveu.

Ao contrário do que diz o presidente, a suspeição em questão é crime. Mas Bolsonaro, pelo visto, não se importa. Na última quinta, em sua live, ele informou que não responderia à carta e que cagou para a CPI.

Bolsonaro não disse se cagará, também, para a Polícia Federal. A PF abriu um inquérito para investigar se o presidente prevaricou ou não e em quais circunstâncias isso pode ter ocorrido. Não deve ser muito difícil obter uma resposta: ontem, dia 12, Jair Bolsonaro afirmou que Mirando entregou-lhe “alguns papéis”, que ele prontamente “passou pra frente”.

O “passar para frente” foi direcionado ao então ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello. Ao fim e ao cabo, o vai e vem de Bolsonaro prejudica o governo em todas as frentes possíveis. Os deputados governistas ficam sem conseguir defender o governo na CPI, e o governo, se não se mover corretamente, pode se ver brigando com Arthur Lira (PP-AL), a única pessoa que pode dar abertura a um processo de impeachment no momento atual.

Arthur Lira é o atual presidente da Câmara. Este é o mesmo cargo que Eduardo Cunha ocupava quando colocou o processo de impeachment de Dilma Rouseff (PT) para rodar. A ação ocorreu horas após o Partido dos Trabalhadores recusar-se a defender Cunha no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

Se corrompeu?

Prevaricação não é a única acusação que pode atingir alguém com sobrenome Bolsonaro nas próximas semanas. No telefone do PM Luiz Paulo Dominguetti, há indicativos de que o presidente esteve pessoalmente envolvido na negociação da compra das vacinas. Em algumas mensagens, Dominguetti cobra de um interlocutor documentos que “Bolsonaro está pedindo” e diz que “o presidente tá apertando o reverendo”.

O reverendo, no caso, é Amilton Gomes, outro suposto intermediário da compra de vacinas. Gomes afirma que Dominguetti lhe ofereceu uma doação não especificada para que ele ajudasse na venda de vacinas à Saúde.

A primeira-dama também encontra-se em maus lençóis. Michelle Bolsonaro apareceu nas mensagens de Dominguetti como alguém que “está no circuito”. A CPI da Covid poderia nos ajudar a identificar qual circuito é esse.

Em paralelo a todas essas questões, a CPI da Covid também trabalha investigando o organograma do (suposto) esquema de corrupção que envolveu a compra de vacinas pelo governo federal. A lista de nomes vai até aos filhos do presidente. Segundo fontes ouvidas pelo Globo, os senadores já têm indícios de ações estranhas saindo de dentro da Casa Civil, quando esta era comandada pelo general Braga Netto.

Enquanto isso, como quem não quer nada, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), voltou a reclamar que a CPI da Covid não o convoca para depor. Apresentando o número de vezes que ele foi citado na comissão (96), Barros negou as acusações de que teria feito algo de errado. Para ele, a recusa da CPI em ouvi-lo tem nome: covardia.

Nós preferimos acreditar que é jogo político mesmo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Godot vem aí?

A ex-presidente Lula (PT) está cada dia mais próximo de voltar a nadar na piscina do Planalto. Mantidas as condições de temperatura e pressão, o petista poderia vencer de Bolsonaro no primeiro turno de 2022. E os grandes nomes da Terceira Via? Não conseguem chegar em terceiro lugar direito nem se a sua intenção de voto fosse unificada em uma única chapa.

Os dados foram obtidos pelo instituto Datafolha. A pesquisa também indicou que o número de pessoas que não votaria em Lula e em Bolsonaro está na casa do único dígito. Portanto, quanto mais cedo a Frente Ampla Liberal Isentona Unida entender que Godot virá em outro dia, mais cedo ela conseguirá aceitar que terá que decidir entre ser governada pelo político do governo que roubou para financiar submarino que nunca viu a água do mar e o presidente do governo que tentou roubar para comprar vacina.

Impedir que Bolsonaro fique elegível antes de abril de 2022 pode ser uma ótima oportunidade para as terceiras vias (ou para Lula se eleger no primeiro turno). O presidente, que está com muita dificuldade para encontrar um partido, é reprovado pela maioria dos brasileiros. A maioria do país também considera Bolsonaro incompetente (58%), desonesto (52%), falso (55%), indeciso (57%), despreparado (62%), autoritário (66%) e pouco inteligente (57%).

O problema de recorrer à nº 1.079, de 10 de abril de 1950, é que você precisa, primeiro, combinar com os russos. E o general Hamilton Mourão não parece estar muito disposto a colocar as mãos no volante do Planalto.

Veja bem, não faltam brasileiros apoiando a pauta ou acreditando que o governo é cheio de gente corrupta (fora das elites que ainda abraçam Guedes, claro). O problema é que nem todo mundo nasce com a vaidade e a habilidade de conspirar de Michel Temer (MDB). Pelo sim, pelo não, sigam os donos do centrão.

Sobrou o golpismo

Diante de todas as pressões, o inacreditável Jair Bolsonaro recorreu ao golpismo. Ao longo de toda a semana, o presidente atacou o sistema eleitoral. De novo, novamente, mais uma vez, Bolsonaro afirmou que o sistema é fraudulento e que as eleições de 2022 só acontecerão caso o voto impresso seja aprovado.

No meio do caminho sobrou até o para o decadente Partido da Social Democracia Brasileira. Em suas redes sociais, Jair Bolsonaro publicou um vídeo no qual o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) falava da auditoria sobre as eleições de 2014 que o seu partido realizou como uma prova de que o sistema eleitoral contém espaço para fraudes. Os tucanos dizem o contrário.

O TSE trucou as acusações de Bolsonaro e continuou a cobrar do presidente a entrega de provas de fraudes em 2018 (ou em qualquer outro ano). Mesmo com a ajuda da Polícia Federal, Bolsonaro tem falhado nas suas tentativas de atender ao pedido. Restou aos presidentes da Câmara, do Senado e do TSE defenderem a democracia com poderosas notas de repúdio.

Falando enquanto exerce o direito de se manter em silêncio

Na lista de depoimentos menos barulhentos da CPI da Covid, a ex-gestora do Programa de Imunizações, Francieli Fantinato, é o destaque da semana. Apesar do direito de se manter em silêncio garantido pelo STF (e a recusa em jurar dizer a verdade), ela falou tanto que saiu da lista de investigados. Segundo Fantinato, “qualquer indivíduo que fale contrário à vacinação vai trazer dúvidas à população brasileira”.

Braço forte, corrupção amiga

Os senadores estão cada dia mais próximos de transformar joguete de palavras em acusação de corrupção fardada. Omar Azis, por exemplo, quase conseguiu arrancar de Roberto Dias o nome de quem estava no topo da cadeia que agiu para roubar dinheiro público durante a compra de vacinas.

Apesar de ter chegado ao Ministério da Saúde com a ajuda de civis, é importante lembrarmos que ele respondia a pessoas originárias das Forças Armadas brasileiras. Acima dele, estava um militar. Acima deste militar, estava outro militar. E na frente do comitê de crise contra a covid-19, estava mais um militar.

É tanta marca de bota no escândalo de corrupção que Aziz não aguentou e fez uma crítica à banda podre das Forças Armadas que agora é acusada de praticar corrupção. Os militares, que sempre foram vistos como bastiões de moralidade, sentiram o golpe: em nota conjunta, o ministro da Defesa, Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica divulgaram nota golpista rechaçando a acusação e se dizendo aquilo que eles nunca foram (guardiões da Constituição).

O suspiro golpista não parou por aí. Em entrevista a’O Globo, o comandante da Aeronáutica, Carlos Alberto Baptista Junior, dobrou a aposta e demonstrou que os quartéis não estão ensinando para que serve a Constituição. Aviso do blog: não serve para ser rasgada como ela foi nos primeiros 130 anos de República.

A semana da pandemia

A média móvel de mortes por covid-19 segue em queda. Mas que fique claro: ela está baixa o bastante para mostrar que vacinas funcionam, mas não baixa o bastante para você organizar uma orgia no parque com os seus amigos e amigas.

A prefeitura de São Paulo acredita que o primeiro caso de contaminação pela variante delta na cidade ocorreu por transmissão local. O doente não viajou ao exterior ou teve contato com pessoas que tivessem viajado. Não custa lembrar: essa é a cepa que tem tudo para dominar os números de novos casos da doença como a Red Bull dominou a Formula 1 antes do começo da era híbrida da categoria.

Apesar dos avanços, os problemas na distribuição de imunizantes continuam. Em alguns lugares, há suspensão da vacinação por excesso de procurainclusive na ilegalidade. Em outros, há sobra graças aos sommeliers de vacina.

Mas nem todo é horrível. Na última semana, a Câmara dos Deputados autorizou o governo a quebrar patentes de remédios e vacinas em casos de emergência nacional (com votos contrários da liderança do governo e do oposicionista partido Novo). Que o Planalto use a caneta para quebrar a patente dos remédios certos.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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