A semana #133 de governo Bolsonaro foi, por assim dizer, complexa. Enquanto o presidente ficava ocupado com as suas situações intestinais, a CPI da Covid encontrou mais provas de que o Ministério da Saúde estava negociando vacinas com gente pouquíssimo confiável. E se você se assustou com as enchentes na Europa, fique tranquilo: o nosso desastre ambiental já está encomendado e pronto para entrar em vigor.

O estagiário pede desculpas pelo atraso da newsletter. Não é só o intestino do presidente que está funcionando em marcha lenta nos últimos dias.


The following takes place between jul-13 and jul-19


Travadão

Encontraram a razão dos dias de soluços constantes de Jair Bolsonaro: intestino travado e estômago cheio de fezes.

Sem conseguir ir ao banheiro, o presidente foi hospitalizado com um quadro de obstrução intestinal. O tratamento escolhido reproduziu as ideias do presidente e optou pelo conservadorismo. Após tentar se martirizar na web e contar algumas mentiras, Jair Bolsonaro foi liberado e voltou a usar a boca para expelir bostas não literais.

Subindo a temperatura

A CPI da Covid passou a semana pensando se vale a pena ou não peitar o ministro da Defesa, o general Walter Braga Netto, diretamente. Antigo ministro da Casa Civil, o general é suspeito de ter se envolvido em situação análoga à corrupção durante a negociação de vacinas. O Alto Comando das Forças Armadas adiantou que já está rascunhando mais uma nota de tom golpista caso o café de Braga Netto esteja frio.

Cansei

Falando na CPI, o depoimento de Emanuela Medrades, da Precisa Medicamentos, demonstrou que a Lei é muita coisa, menos uma ciência exata. Medrades utilizou um habeas corpus que lhe dava a liberdade de se manter em silêncio para não produzir prova contra si mesma, para não produzir prova alguma. Os senadores se irritaram e foram ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, pedir para explicar como as coisas funcionam.

Após um vai e vem de sete horas, Medrades ficou cansada e a sua fala foi remarcada para o dia seguinte, agora sem ela poder calar-se a qualquer momento. O resultadocontradições, a reprodução de alguns argumentos do Planalto e mais motivos para a CPI da Covid desconfiar que a Precisa Medicamentos está envolvida em situações que podem ser enquadradas como criminosas.

Constrangedor

Essa é a palavra que podemos utilizar para o depoimento de Cristiano Carvalho, o representante da Davati Medical Supply no Brasil. Carvalho confirmou que pessoas (civis e militares) do Ministério da Saúde pediram propina, digo, “comissionamento extra”, durante a negociação de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca — que já eram vendidas ao governo sem intermediários.

As conversas mostradas durante o depoimento causaram vergonha até mesmo para os mais governistas dos senadores que são capazes de ter esse tipo de sentimento (beijos, Flávio Bolsonaro). O nível de acesso da empresa ao governo chegou a ser comparado com o ghosting constante que era praticado pelo Planalto com o laboratório Pfizer.

Coincidência? Eu acho que não

A CPI da Covid não cutuca só militares, ela também cutuca gente da Polícia Federal. Os senadores suspeitam que as investigações da PF estão sendo utilizadas para interferir nos trabalhos da comissão. A PF, é claro, nega.

A ação estaria acontecendo de um modo bem simples. Nas vésperas dos depoimentos no Senado, a PF interrogaria os depoentes como interrogados — e não como testemunhas. Isso facilitaria a obtenção de habeas corpus como o que foi obtido por Emanuela Medrades e, consequentemente, deixaria a CPI sem respostas.

Muito dinheiro

O Congresso Nacional aprovou o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias para a elaboração do Orçamento da União de 2022. Com um déficit de R$ 170,47 bilhões, ele tem um teto de gastos impulsionado pela inflação em alta. O texto foi encaminhado para a sanção presidencial.

Entre as cifras que só importam para meia dúzia de pessoas, há um aumento da verba para o fundo eleitoral (algo que era esperado desde o instante em que o dinheiro público se tornou a principal forma de financiamento das eleições) e verbas para a realização do Censo Demográfico. O programa nacional de vacinação também ganhou prioridade — mas nada garante que Bolsonaro aumentará os seus esforços na área.

Bolsonaro disse que não tem nada a ver com as verbas para o fundo eleitoral que foram aprovadas com o apoio da sua base e afirmou que vetará o aumento do fundo. Faltou dizer se comprará a briga política que envolve manter o veto em pé e contrariar os interesses de seus aliados.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Em breve, na “editoria mutreta”

Foi ao ar um vídeo em que o general Pazuello afirmou se reunir com intermediários da Coronavac (que não podem vender vacina) para negociar a compra de 30 milhões de doses do imunizante, supostamente pelo triplo do preço. O acordo não chegou a ser fechado, o ministro negou o que disse ter feito em vídeo e a venda não era autorizada pelo instituto Butantan. Bolsonaro disse que não há nada de errado na história.

Também na “editoria mutreta”, uma empresa que faz a distribuição de imunizantes para o Programa Nacional de Imunização, a VTCLog, se tornou alvo da CPI da Covid. A VTCLog foi contratada pelo governo em 2018, quando Ricardo Barros era ministro da Saúde. O processo, anteriormente, era executado diretamente pela pasta, mas foi terceirizado a mando do então ministro, um ótimo gestor de operações, nas palavras de Paulo Maluf.

Por último — e não menos importante — o filho do presidente da Câmara, Arthur Lira, é dono de uma empresa que presta serviços para órgãos públicos e que teve as receitas impulsionadas nos últimos meses. A atividade principal do CPNJ é a representação de veículos publicitários diante do governo federal. O negócio não conta com sede, site ou e-mail institucional e o endereço que está vinculado ao registro oficial é o do apartamento dos pais de um dos sócios.

Orgulho de Montesquieu

Luiz Fux, presidente do STF, se reuniu com Jair Bolsonaro, os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para falarem sobre o espírito das leis. Mais especificamente, para reafirmar “o respeito às instituições e os limites impostos pela Constituição Federal”.

Para comemorar o aprendizado e demonstrar comprometimento com a ação, Bolsonaro atacou a credibilidade das eleições outra vez.

Desastre previsível

Estudo da revista Nature apontou que a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que ela consegue absorver. O principal motivo, naturalmente, são as queimadas, que seguem atingindo o bioma em uma escala que, hoje, é maior do que ontem, mas menor do que amanhã. O motivo secundário é o estresse causado pela queda de árvores: com menos árvores, as chuvas diminuem, a temperatura da região aumenta e as plantas não conseguem fazer fotossíntese como deveriam.

A semana da pandemia de covid-19

O Ministério da Saúde explicou por qual razão não aderiu à Covax Facility, iniciativa da OMS para a distribuição de vacinas em escala global, já em 2020. Segundo o Radar, os documentos foram entregues em setembro do ano passado pelo órgão. Porém, a resposta só aconteceu em março de 2021 por falta de pessoa com “conhecimento suficiente” de inglês para “emitir manifestação conclusiva”.

O ministério também reconheceu que o “kit covid” não serve para tratar covid-19. A pasta emitiu nota técnica para não recomendar o uso de medicamentos ineficazes no tratamento de quem está internado com a doença. Agora falta reconhecer, também, que eles não servem para a prevenção da covid-19.

A Anvisa também autorizou a realização de um estudo para medir a segurança da aplicação de uma terceira dose da AstraZeneca. O trabalho contará com o apoio dos voluntários que testaram o imunizante durante os ensaios clínicos. Estudos semelhantes já são realizados em outras partes do mundo e podem se tornar anuais.

Na área de boas notícias, a taxa de transmissão de covid-19 segue em queda. Outro número bom é o indicador de quantos brasileiros são favoráveis à vacina contra a doença: 94%, segundo o Datafolha.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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