Enquanto o Brasil afunda (literalmente), passamos a última semana nos preparando para a volta da CPI da Covid. Que ela seja mais quente do que o sul e o sudeste nos últimos dias.

Antes disso, a nossa história foi queimada e o nosso futuro democrático, ameaçado. No meio do caminho, a Justiça percebeu que nota de repúdio não funciona.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #135 de governo Bolsonaro.


The following takes place between jul-27 and ago-02


Querida, cheguei

A entrada (oficial) do centrão no governo Bolsonaro foi oficializada. O presidente entregou a “alma do governo” ao Progressistas para melhorar a relação do Executivo com o Legislativo. Não é a primeira vez que isso acontece e, via de regra, o PP geralmente entra em governos procurando outras coisas.

Como consequência, o senador Flávio B. (Patriota-RJ) agora é suplente na CPI da Pandemia. Já os deputados do PP ganharam calafrios: todo mundo em suas bases está odiando o presidente que eles apoiam.

Realidade paralela

Jair Bolsonaro utilizou a noite de quinta-feira para mentir em uma live. Disse que as eleições de 2018 foram marcadas por urnas falhas. É mentira, mentira das bravas. Também disse que o sistema brasileiro é usado somente no Butão e em Bangladesh, o que também é mentira: outros 46 países fazem uso de urnas eletrônicas.

Dias após afirmar que as eleições de 2014, auditadas pelo PSDB, foram fraudadas — mesmo com o PSDB dizendo que não era o caso — ele também afirmou que o sistema brasileiro seria inauditável. Outra mentira. Falando em auditoria, ele afirmou que voto impresso é mecanismo adicional de auditoria, ignorando que isso só torna a eleição menos segura.

Na sequência, Bolsonaro apontou que há uma sala secreta no Tribunal Superior Eleitoral em que a apuração dos votos é realizada, o que é outra uma mentira. Sobre as urnas, disse que elas não evoluíram desde 1996, o que tem o mesmo grau de verdade do que a afirmação de um suposto hacker sobre a possibilidade de invadir o sistema do TSE: zero.

Ainda sobre as urnas, Bolsonaro validou o discurso de que a tecnologia brasileira da urna eletrônica é de geração única e que é possível alterar o código-fonte do equipamento. Em ambos os casos, o presidente mentiu. Também é mentiroso o vídeo referenciado por ele ao dizer essas coisas.

Bolsonaro disse que os resultados demoram a serem disponibilizados pelo TSE, o que é uma mentira absurda até para os seus padrões. Disse que existiram fraudes em 2018 (mentira), em 2014 (mentira), em Caxias (MA) (mentira) e problemas na apuração de São Paulo em 2020 (mentira). Não adianta o presidente se esconder sobre o argumento da soberania popular por meio do voto: uma mentira contada 1000 vezes ainda é uma mentira.

Cheiro de botina

A live foi uma obra do ministro (e militar) Luiz Eduardo Ramos, que descobriu um empresário paulista que jura ter provas de que Aécio Neves venceu Dilma Rousseff em 2014. Ao lado do coronel Eduardo Gomes, Ramos fez o media training do presidente antes que ele fosse ao ar. A ação provavelmente foi combinada com os generais da caserna, que soltaram nota por meio do Clube Militar afirmando que “o prazo final para a resolução desse imbróglio, visando as eleições de 2022, será outubro. Esperamos que não seja um outubro vermelho, mas sim verde e amarelo, pelo bem do Brasil”.

Queima de arquivo

Enquanto Bolsonaro mentia em praça pública, um incêndio atingiu a Cinemateca Brasileira. O depósito atingido tinha pelo menos duas mil cópias de filmes, além de documentação histórica. A instituição estava sem verbas para funcionar corretamente há alguns anos, mas a situação piorou bastante após 2019, quando o contrato para administração do órgão foi encerrado pelo governo e uma enchente atingiu o local.

Em janeiro, uma licitação para a prevenção de incêndios na instituição foi suspensa. Pouco tempo depois, o Governo Federal afirmava que a Cinemateca tinha plenas condições de segurança, mas se recusava a publicar imagens do local. O resultado de todo esse descaso ainda não está mensurado, mas o incêndio certamente não aconteceu por falta de aviso.

Dava para ser diferente?

Além da gradual e progressiva redução de recursos direcionados pelo governo Bolsonaro às instituições de memória do nosso país, o mau trato com a nossa memória também é simbólico. No último final de semana, o Museu da Língua Portuguesa foi reinaugurado com a presença dos presidentes de Portugal e de Cabo Verde, além dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Jair Bolsonaro foi passear de moto em Presidente Prudente (SP) e não enviou representante para o evento.

Voz do Brasil (paralelo)

As 15 pessoas que ainda apoiam o presidente se reuniram neste final de semana para pedir voto impresso nas ruas. Bolsonaro validou os protestos e, em vídeo, disse que “sem eleições limpas e democráticas não haverá eleição”. A fala veio logo após integrantes do centrão pedirem moderação a Jair.

É melhor o pessoal do voto impresso zapear mais alto, já que Arthur Lira (PP-AL) não está escutando. Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, as chances de mudanças no sistema de votação serem aprovadas são mínimas — e estão em queda.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

  • Após se reunir com neonazista da Alemanha, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) fez propaganda de neonazista argentino.
  • Bolsonaro gosta de: imposto baixo para o skate. Bolsonaro não gosta de: imposto baixo para arroz e feijão.
  • Volta das aulas presenciais com protocolos mal seguidos pode aumentar o número de casos por covid-19 em até 1.141%.
  • Não só Lula está livre: Haddad também.
  • O Ministério do Trabalho e Previdência está de volta, longe do Paulo Guedes, perto do Onyx Lorenzoni.
  • Quer imposto sobre grandes fortunas? Vote Ciro, não Lula (mas saiba que o Ciro não aprovaria essa medida).
  • Arthur Lira (PP-AL) defendeu o fundão eleitoral e disse que, sem verba pública, campanhas podem ser bancadas por milícia e tráfico (mais ou menos igual hoje).
  • O Serpro comprou um pacote de R$ 200 mil em anúncios do Twitter, sem afirmar o que deseja divulgar.
  • A frente fria que atingiu o Brasil nos últimos dias pode impulsionar a inflação a 7% (e não tem agricultor armado que evitará isso).
  • A Lei Rouanet será modificada (para pior).

A triste vida de Paulo Guedes

O ministro da Economia deveria se preocupar mais com a economia (e o centrão) do que se preocupa com a qualidade do trabalho do IBGE. Enquanto o ministro critica o fato da instituição ter informações mais precisas que o Caged sobre a situação do mercado de trabalho, os parlamentares que agora apoiam o presidente estão trabalhando para tirar mais uma secretaria do Ministério da Economia e transformá-la em ministério.

A luta do centrão é para recriar o Ministério do Planejamento, que seria integrado a atual Secretaria de Orçamento Federal (SOF). Guedes sempre foi um defensor de um orçamento controlado mais pelo parlamento do que pelo Poder Executivo, mas temos a impressão, aqui na redação, de que ele não estava falando disso quando apoiou publicamente a ideia no final de 2019.

Também seria interessante Guedes direcionar a sua atenção para outros problemas urgentes, como os R$ 90 bilhões em precatórios que devem ser pagos em 2022. Melhor do que criar soluções inusitadas (ou potencialmente criminosas) para o problema, o ministro poderia admitir que não sabe o que está fazendo em Brasília e voltar a ser palestrante em período integral. A máscara de liberal entre bolsonaristas já caiu, mas o mercado de lorota conservadora-liberal nunca esteve tão aquecido.

Funcionários do mês

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, afirmou à Polícia Federal que o presidente Jair Bolsonaro fez um “pedido verbal” para que ele apurasse denúncias de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin. O caso teria sido encaminhado para o então secretário-executivo da pasta, o coronel Elcio Franco, também verbalmente. Franco não teria encontrado qualquer problema no contrato.

Até aí, tudo mais ou menos bem. O coronel Elcio Franco era o responsável, no ministério da Saúde, por gerenciar a compra da Covaxin. Segundo os irmãos Miranda, que fizeram a denúncia de problemas ao presidente, parte das pressões pela compra da vacina vinham de subordinados de Franco, o que certamente é um sinal de que Franco está comprometido com a verdade e nada mais do que a verdade.

O império (da Lei) contra ataca

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou que as investigações do inquérito que apura as acusações de interferências na Polícia Federal fossem retomadas. A acusação partiu de Sergio Moro e foi direcionada para o presidente Jair Bolsonaro. Os que contam com ótima memória se lembrarão de que há um vídeo em que o presidente diz coisas bem parecidas com as que seriam ditas caso ele quisesse acabar com a autonomia do órgão.

Inicialmente, a decisão de Moraes foi vista como uma resposta à participação do ministro da Justiça na live em que Bolsonaro disse mentiras sobre o sistema eleitoral. Se enganaram: ela é apenas o primeiro de vários passos que o cosplayer de Michel Foucault pretende dar após Luiz Fux tentar, mais vezes do que o recomendável, domar o presidente.

Ontem (02), por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral pediu para que o STF investigue o presidente por disseminar notícias falsas sobre as urnas eletrônicas. O pedido foi realizado na mesma data em que Bolsonaro afirmou que Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, queria “eleições sujas”. Alexandre de Moraes — pois é — é o relator do pedido.

O TSE também abriu um inquérito administrativo sobre as declarações de Bolsonaro. Essa investigação tem o potencial de torná-lo inelegível no próximo ano. A apuração de ofício foi realizada sem passar pelo Ministério Público Eleitoral.

Morde e não assopra

As ações da Justiça se deram após o presidente do Supremo, Luiz Fux, discursar afirmando que a busca pela harmonia entre os Poderes não deve ser interpretada como sinônimo de “impunidade”. O juiz lembrou que os “juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças”.

Pelo visto, este momento chegou, goste Bolsonaro ou não. Ainda bem.

A semana da pandemia

It shrinks?

Secretários da Saúde de todo o país pressionaram o governo federal para autorizar a redução do prazo entre as duas aplicações da vacina da Pfizer para 21 dias. Este é o período recomendado pelo fabricante, mas o governo adotou o prazo de 3 meses em função da escassez do imunizante. Em resposta, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que isso só acontecerá após todos os adultos receberem a primeira dose do produto.

Preparando o camarote

João Dória (PSDB-SP) está liderando o bonde do “abrimos tudo e estamos seguindo todos os protocolos”. O governador de São Paulo avisou que, a partir de 17 de agosto, quase tudo voltará à normalidade. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM-RJ) mandou dizer que rolará até festa para comemorar o fim da pandemia. Falta dizer quais variantes ele quer na sua festa.

Follow the money

Enquanto isso, um jornalista alemão denunciou uma campanha para utilizar influenciadores para disseminar mentiras sobre a vacina da Pfizer. No meio dessa história, há um brasileiro: Emerson Zóio, que conta com 12 milhões de seguidos no YouTube e 3 milhões no Instagram.

Onde o auxílio emergencial não chega

Em São Paulo, a combinação de crise econômica, sanitária e social fez famílias migrarem para as ruas após perderem empregos e casas nos últimos meses. No meio de lixo e frio, essas pessoas tentam retomar a vida e manter os filhos vinculados ao sistema público de ensino. Cenário semelhante é encontrado em outras capitais de todo o país.

Justa causa? Justa causa

Quem ainda tem emprego, mas não quer se cuidar é melhor abrir o próprio MEI. A Justiça do Trabalho autorizou demissão por justa causa de uma trabalhadora que furou quarentena enquanto estava suspeita de ter pego covid. Exemplos semelhantes devem se repetir quando a vacinação já atingir toda a população economicamente ativa.

Solidariedade demoníaca

O Ministério da Saúde travou R$ 666 milhões que tinham sido reservados pelo Congresso para o combate à pandemia. O dinheiro deveria ser enviado para ajudar os estados e municípios nas suas medidas sanitárias. A pasta não explicou o motivo para os recursos não terem sido utilizados.

Também falta aos brasileiros saber o seguinte: variante delta ou vacinas, os dois a 80 km/h, quem mais impacta a pandemia?


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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