A CPI da Covid voltou, mas o Brasil ficou ocupado passando raiva com o rebosteio golpista de Bolsonaro. Para além das acusações — falsas — de fraude eleitoral e as denúncias (verdadeiras) em tribunais internacionais, a semana #136 da nova era foi marcada por brigas entre poderes e Paulo Roberto Nunes Guedes querendo ajudar o governo a cometer infrações fiscais para financiar a reeleição.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #136 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between ago-03 and ago-09


Normal isso

As quebras de sigilo promovidas pela CPI da Covid trouxeram resultados. Um deles se refere aos materiais coletados no sigilo telefônico da diretora da Precisa Medicamentos, Emanuela Medrades.

No telefone da executiva foram encontradas oito ligações de um militar com cargo de gerência no Ministério da Defesa. Também foram achadas quatro ligações do senador governista Luis Carlos Heinze (PP-RS).

Tudo absolutamente normal. O senador disse que não se lembrava dos quatro telefones. Já a Defesa escolheu uma estratégia alinhada com o governo Bolsonaro e as posturas das Forças Armadas nos últimos meses: o silêncio.

Abre e fecha

A CPI da Covid quebrou os sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário do líder do governo na Câmara, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR). Barros é um nome recorrente no caso Covaxin — e em outros casos de corrupção. O deputado falará a CPI da Covid nesta semana.

Enquanto a CPI quebrava sigilos, o Ministério da Saúde tomava medida no sentido contrário. A pasta colocou sob sigilo os documentos relativos ao contrato de compra da vacina indiana Covaxin. O material já está com a CPI da Covid, mas ficará inacessível para quem não faz parte da comissão, reforçando o compromisso da Saúde em ter um nível de transparência inversamente proporcional ao não compromisso do presidente com a democracia.

Sentiu

Bolsonaro não está gostando das respostas da Justiça aos seus discursos golpistas. Ao longo da semana, em resposta à investigação aberta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sua inclusão no inquérito das fake news, o presidente disse que os magistrados não passarão, divulgou dado sigiloso (de maneira mentirosa), falou algumas mentiras, afirmou que não se calará e apontou que golpismo é top. Só não esclareceu a sua postura diante do que pode acontecer se a maré deixar de ficar ao seu favor.

Em resposta, o ministro Luiz Fux, presidente do STF, deixou a caneta das notas de repúdio de lado e cancelou uma reunião com o presidente. Arthur Lira (PP-AL) e Augusto Aras, o procurador-geral da República, se calaram.

Bagunça e choro

A CPI da Covid voltou aos seus trabalhos com depoimentos muito menos interessantes do que os dos próximos dias. O primeiro foi do reverendo Amilton Gomes de Paula, que intermediou uma compra de vacinas ao Ministério da Saúde que está entupida de suspeitas.

O reverendo chorou, disse que foi usado, mentiu, tentou proteger o governo e negou o que fez no verão passado. Os senadores riram da cara de pau e perguntaram se ele precisava de óleo de peroba antes de sair do prédio do Senado.

Enquanto isso

As investigações da Polícia Federal sobre as prováveis corrupções no Ministério da Saúde também estão bem divertidas. Em depoimento à PF, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), disse que ouviu, da boca do general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, que Arthur Lira o impedia de agir contra a pandemia. O motivo? O general não direcionar verbas para os locais que Lira tinha interesse.

A mesma PF que escuta é a PF que fala, ou melhor, compartilha (na medida do possível). Os delegados enviaram à CPI uma versão cortada do depoimento de Pazuello. Certamente uma atitude completamente normal para uma instituição que jura apoiar o combate à corrupção no nosso país.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Briga, briga, briga

O segundo dia da segunda temporada da CPI da Covid teve bate boca entre Omar Azis (PSD-AM) e o senador governista Marcos Rogério (DEM-RO). Azis teve que lembrar ao senador que os dados da investigação são públicos e que, portanto, podem ser divulgados por qualquer um. A PF, porém, tem dúvidas.

Já no depoimento de quarta-feira (04), o tenente-coronel e ex-assessor do Ministério da Saúde, Marcelo Bianco, admitiu que levou o PM Luiz Paulo Dominguetti a um jantar com o então diretor de Logística do ministério. O jantar foi apontado como evento de pedido de propina, o que o depoente negou.

Não fui eu, foi meu eu lírico

O empresário e ex-assessor do Ministério da Saúde, Airton Soligo, tentou diminuir a sua importância nas decisões que eram tomadas pelo Ministério da Saúde nos dois meses em que esteve à serviço da nação. Cascavel depôs como testemunha e apoiado por um habeas corpus que, segundo ele, foi conseguido por seus advogados contra a sua vontade.

Apesar de jurar ter atuado apenas como um despachante informal para secretários de Saúde de todo o país, o empresário era visto como braço direito de Pazuello na pasta. Soligo era tão importante que, segundo as bocas miúdas, fazia cosplay de ministro da Saúde quando o general estava ocupado tomando chá no Planalto.

Fui eu, e também o meu eu lírico

A CPI da Covid também levantou dados sobre como o presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da Casal Civil, o general Braga Netto, interferiram na Saúde enquanto Mandetta eram ministro. As ordens do Planalto, documentadas em papel timbrado, tinham como foco a “unificação da narrativa” do governo, um ótimo sinônimo para “não vamos deixar o cara trabalhar”. Depois não adianta reclamar que foi derrubado, hein.

A semana da pandemia

Vamos ao nosso resumo semanal do inferno:

  • O governo de São Paulo teve que ameaçar ir à Justiça para receber 228 mil doses de vacinas que tinham sido prometidas pelo Ministério da Saúde.
  • 94% das mortes registradas no Mato Grosso por covid-19 entre janeiro e julho foram de pessoas não imunizadas.
  • Já no Rio de Janeiro, 95% dos internados não estão imunizados.
  • 45% das amostras de vírus analisadas no Rio de Janeiro nas últimas semanas foram da variante delta.
  • Estados do Norte e do Nordeste, que contam com população mais jovem, estão com problemas para vacinarem as suas populações rapidamente.
  • Especialistas avisaram que retomar os planos de abertura, no cenário atual, é algo irresponsável. Todos foram solenemente ignorados pelo poder público.

A eleição é logo ali

2022 chegará em um suspiro e Jair Bolsonaro sabe disso. Tanto sabe que está até transformando a finada “TV Lula” em “TV Bolsonaro”. Documentos obtidos pelo TSE demonstram que o presidente utilizou a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) para fins políticos, o que pode se tornar um crime eleitoral com potencial de inelegibilidade a depender do humor da elite política nacional.

Enquanto passeia pelo país na sua motinha, o governo gasta algumas dezenas de bilhões de reais para tentar alavancar a popularidade do presidente. As medidas incluem subsídio de combustível fóssil, o novo Bolsa Família e o aumento dos salários dos servidores. Resta perguntar para Paulo Guedes de onde é que ele tirará verba e apoio político para bancar isso tudo sem colocar o Planalto na mira da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não custa lembrar: Dilma Rousseff (PT) caiu sendo acusada de cometer pedalas fiscais principalmente (mas não somente) no seu primeiro mandato. O impeachment foi possível, entre outras coisas, graças a um entendimento criativo — e conveniente — de que os atos pré-2015 poderiam ser punidos após o início do seu segundo governo. Se eu fosse Bolsonaro, tomava cuidado com o Posto Ipiranga.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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