A semana #137 do governo Bolsonaro foi recheada de outros discursos golpistas saindo da boca do presidente. Também contamos com as Forças Armadas virando motivo de piada e a confirmação de que advogados especializados em leis eleitorais continuarão renovando os seus conhecimentos a cada dois anos.

Está difícil lá fora, está difícil aqui dentro. Mas não tenha medo: a última semana foi melhor do que a semana que vem por aí.


The following takes place between ago-10 and ago-17


A semana dos pré-candidatos

O sistema eleitoral mudou (de novo (novamente)). As urnas seguirão as mesmas e o distritão, aquela proposta horrível, deixou de ser um risco para quem quer ganhar um cargo eletivo ano que vem. No lugar, voltamos a ter coligações, aquela ótima maneira de garantir que partidos irrelevantes continuem vivos — mas que deve morrer no Senado.

Nada garante que tudo poderá mudar (de novo (novamente (mais uma vez))) no futuro. Arthur Lira (PP-AL) avisou que, se quiser, colocará algo parecido em pauta do voto impresso quando for conveniente. Em um aceno ao Planalto, o presidente da Câmara prometeu descontar na fatura da aprovação o bilhão já já foi pago pelo Planalto durante a sua tentativa de passar as mudanças nas urnas.

Se Arthur Lira colocará mesmo outras propostas de mudanças no sistema eleitoral em pauta ninguém sabe. Mas se elas forem semelhantes ao projeto que o governo queria aprovar, há grandes chances de que elas terão o apoio de gente do PDT, do PSDB, do DEM, do PSB e do Novo. Pois é: o centrão teve mais facilidade para ver que ser massa de manobra do presidente não era uma boa ideia do que os amigos de Godot.

Outra mudança aprovada pelos deputados é a criação das federações partidárias. A medida permitirá a duas ou mais legendas com programas e interesses compatíveis a montar uma federação que deve durar pelo menos quatro anos. Essas federações contarão com um único líder e não estarão sujeitas à cláusula de desempenho.

A semana da democracia

Bolsonaro perdeu a votação da PEC do voto impresso no papel, mas não na retórica. A ideia, defendida por alguns, de que o presidente foi o grande derrotado da noite do dia 11 só se sustenta quando se ignora o Bolsonaro da manhã seguinte: animado com a sua maioria simples, o presidente não deu o tema por encerrado, afirmou que deputados foram chantageados a votarem contra o projeto e que a eleição de 2022 não será confiável.

Jair Bolsonaro sabe que tem quem caminhe do seu lado nessa escalada golpista. Na Câmara, o deputado Felipe Barros (PSL-PR) quer criar uma CPI das urnas eletrônicas. Já no TCU, o único ministro indicado por Bolsonaro pediu vistas na votação que sacramentaria a auditoria feita pelo órgão nas urnas eletrônicas. A auditoria não encontrou problemas nas máquinas.

O líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), também deu a sua opinião semi-golpista sobre o tema. Barros afirmou que os membros do Tribunal Superior Federal “vão pagar o preço” por não terem buscado um meio termo sobre a questão do voto impresso. O deputado não apontou em qual parte das atribuições do TSE está “fazer política para agradar o governante da vez”.

Bolsonaro também anunciou, dois dias após prometer “diminuir a pressão”, que pedirá ao Senado a abertura de processos de impeachment contra dois ministros do Supremo Tribunal Federal, os juízes Luís Roberto Barroso e Alexandre Moraes. A ideia deve morrer na praia, mas será muito bem vista no submundo do Whatsapp. Muitas vezes vale mais vencer na retórica do que na prática.

A semana do braço fraco e da mão inimiga

Após uma semana de tensões e notinhas na imprensa, os militares finalmente saíram de suas bases para mostrarem o seu poder tático e operacional. Saiu de cena o medo de vermos blindados sendo utilizados para pressionar a Câmara, entrou em cena o desfile dos guardas de castelo franceses de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado.

Antes do evento, Bolsonaro chamou os presidentes do Legislativo e do Judiciário para apreciarem o desfile dos veículos militares pelas ruas de Brasília durante a Operação Formosa, algo inédito desde 1984. Assim como o vice-presidente, todos eles deixaram Bolsonaro passar essa vergonha sozinho. Erraram? De maneira alguma.

A semana da CPI da Covid

Crime ocorre, algo acontece

A CPI da Covid partiu para cima do presidente. A comissão decidiu denunciar Jair Bolsonaro por charlatanismo e propaganda enganosa. A decisão foi tomada após o depoimento de representantes da empresa responsável por um dos remédios que o presidente anunciou, incorretamente, que eram capazes de tratar da covid-19.

O presidente também deve ser acusado de cometer outros crimes. Até o momento, a comissão já viu que Bolsonaro teve condutas que se enquadram, entre outras coisas, nos crimes de causar epidemia, por omissão no combate à Covid-19 e advocacia administrativa, por usar o cargo para defender os interesses de grupos privado. Será um segundo semestre animado.

Propaganda enganosa

Falando em “kit covid-19”, a CPI está investigando os lucros que as farmacêuticas tiveram com a venda dos produtos. Os dados já levantados apontam que os fabricantes quase dobraram as suas vendas de cloroquina e hidroxicloroquina entre 2019 e 2020, enquanto as de ivermectina foram de R$ 44,4 milhões para R$ 409 milhões no mesmo período. Muita gente ganhou com as mentiras replicadas pelo presidente — e não estamos falando apenas empresas que fazem os medicamentos.

Não deve mentir, mas se quiser, pode

Sem a obrigação de falar a verdade, o líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), falou à CPI da Covid. Barros foi acusado de mentir e tentar fazer a cúpula da comissão de otária. O destaque do show do deputado foi a fala afirmando que a CPI afastou grandes vendedores de vacinas, como se o Brasil tivesse parado de comprar imunizantes após os trabalhos dos senadores — muito pelo contrário, a compra de vacinas foi ampliada após o começo da CPI.

O tenente-coronel Helcio Bruno, presidente do Instituto Força Brasil, também foi ouvido. Ele teria sido o responsável por indicar representantes da Davati Medial Suplly até Elcio Franco, ex-secretário-executivo da Saúde e atual Assessor da Casa Civil da Presidência. O militar afirmou conhecer Bolsonaro desde antes das eleições e que, no fundo, no fundo, só queria ajudar (o governo a sabotar as medidas sanitárias e a vender vacina para gente metida em rolo).

A semana de Paulo Guedes

Após Paulo Guedes ajudar o governo a dar o seu primeiro passo no projeto de roubar o Bolsa Família do PT (sem saber como ele será pago dentro da lei ou o seu nível de funcionalidade), o ministro da Economia resolveu ignorar as altas da Selic e da inflação para focar em coisas mais importantes do que a queda na qualidade de vida do brasileiro: a sua capacidade de falar lorota para a imprensa e para a Faria Lima.

Com a liberação da venda de etanol diretamente das usinas para os postos e a autorização para a venda de combustíveis de outras marcas nos mesmos locais, o ministro ventilou a possibilidade de termos Rappi de combustível. Imagine você, caro(a) leitor(a), vários veículos lotados de gasolina, diesel e álcool rodando pela sua cidade. Pois é.

Talvez seja interessante o ministro gastar menos tempo tendo ideias ruins e mais tempo olhando para o financiamento da União. O projeto de reforma tributária, que na verdade é do Imposto de Renda, deve causar perda de arrecadação em um cenário de aumento de gastos. Em algum momento os orçamentos paralelos não serão capazes de manter o governo dentro das regras fiscais vigentes e, quando isso acontecer, faltará aluno sem acesso à internet para o governo impedir um novo impeachment por crime de responsabilidade fiscal.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana dos educandos

Ser dependente da educação pública nunca foi algo fácil, mas o ministro da Educação jogou no lixo qualquer interesse em parecer comprometido a mudar este cenário. A depender dele, a autonomia para construir o próprio futuro será limitada aos que podem pagar por isso.

A universidade deveria ser para poucos”, disse o ministro sobre a dificuldade que recém graduados têm de se inserir no mercado de trabalho nas profissões que sonharam. Milton Ribeiro defendeu que pessoas foquem mais no ensino técnico, como se a economia estivesse aquecida apenas para as profissões com esse perfil. Durante a pandemia, o único tipo de profissional que ganhou bons motivos para comemorar no Linkedin foram os fazedores de rolo com a União.

Na mesma entrevista o ministro também aproveitou o espaço para: dizer que criança com necessidades especiais era mal inserida no ensino básico, criticar os professores que não querem dar aula para pessoas não vacinadas e dizer que não podemos ter reitores esquerdistas ou lulistas em universidades públicas. Mas sabe o que é pior? Isso não é a parte mais horrível do Ministério da Educação.

A semana da pandemia

O Senado aprovou a quebra temporária de patentes de vacinas em casos de emergência sanitária. O Planalto é contra a ideia, mas a lei permite que o Legislativo tome a responsabilidade para si. O texto foi encaminhado para sanção presidencial.

Pela primeira vez desde outubro as UTIs brasileiras estão com ocupação abaixo de 80% em todos os estados. A média móvel em sete dias também está em queda: registramos mais uma semana com indicadores abaixo de mil mortes diárias.

Segundo o Ministério da Saúde, sete milhões de brasileiros não apareceram para tomar a segunda parte do seu imunizante favorito. Faça a sua parte e tome a sua segunda dose: já basta o governo enrolando para entregar as 9,5 milhões de doses de vacinas da CoronaVac e da Pfizer que estão em seu depósito em Guarulhos (SP) ou as que devem faltar para quem tomou AstraZeneca.

A semana dos golpistas

Roberto Jefferson foi preso. A nova visita do presidente nacional do PDT ao cárcere foi autorizada, em caráter preventivo, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. O ministro tomou no âmbito do inquérito dos atos antidemocráticos.

A prisão foi definida após o político realizar a publicação de uma longa sequência de vídeos, textos e entrevistas em que ele ameaça, em alguns casos com armas em punho (ex-presidiário pode portar armas?) contra autoridades de todo o país. A sua filha, Cristiane Brasil, cobrou atitudes do presidente (e foi atendida), enquanto Jefferson chamou Moraes de “cachorro do STF” antes de virar vizinho de Sérgio Cabral e Dr. Jairinho.

A Procuradoria-geral da República foi convocada a se pronunciar sobre o caso antes que o político fosse preso. Augusto Aras não disse nada antes que Jefferson fosse parar atrás das grades. Após a prisão, afirmou ser a favor da liberdade de expressão, mas só quando ela é utilizada para ameaçar ministro do STF.

Há quem, junto do Procurador-geral da República, aponte que a prisão de alguém que critica as instituições públicas é um ataque à liberdade de expressão e que deveriam existir saídas melhores para quem incita a violência a autoridades na web do que o cerceamento da liberdade de ir e vir. Quem opta por este caminho deve estar disposto, também, a defender a liberdade de marxista pegar um fuzil e pregar a formação de guerrilhas armadas no YouTube. Qualquer postura diferente desta é optar ser um idiota útil apenas da extrema direita.

A semana do golpista ignorante

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, deu reforço às múltiplas falas golpistas de Bolsonaro. Em entrevista à Rádio Jovem Pan, o ministro disse que “o artigo 142 [da Constituição] é bastante claro” sobre as Forças Armadas serem um poder moderador da República. Na mesma fala, Heleno também afirmou que caberia ao presidente, o “comandante supremo das Forças Armadas”, convocar os militares em caso de crise política.

Felizmente ninguém conta com a sabedoria de Augusto Heleno para pensar a República e a divisão de poderes. Na última vez que tivemos alguém se dizendo chefe de um poder moderador, a República sequer existia. Não precisamos derrubar a atual para dar voz às mentiras de quem sequer deveria estar metido com política.

A semana do golpismo que virá

O presidente resolveu começar a sua semana da mesma forma como terminou a semana anterior: sendo golpista.

Jair Bolsonaro enviou mensagem para amigos, ministros e apoiadores afirmando que talvez seja provável e “necessário” realizar um contragolpe. Na mensagem, o presidente chamou apoiadores para uma manifestação no dia 7 de setembro, que seja grande o bastante para mostrar a sua força e dar a certeza de que as Forças Armadas apoiam uma eventual “ruptura institucional”. O frequentador do Planalto não apontou qual é a força golpista que ele está enfrentado, mas o Ministério da Defesa já avisou que não fará desfile no 7 de setembro em função da pandemia de covid-19.

Outro golpista que colocou as asinhas de fora foi Sérgio Reis. O cantor convocou caminhoneiros para fecharem as estradas após o feriado da Independência, intimidar o senador e parar o país até que os ministros do Supremo caiam. Mas, ao contrário do presidente, quando se viu alvo de uma representação de 29 subprocuradores por subversão e ser criticado publicamente por amigos próximos, o cantor não dobrou a aposta: afirmou que estava deprimido e passando mal com a repercussão do seu golpismo. A Polícia Federal, por outro lado, não achou que isso era motivo bom o bastante para deixar de abrir um inquérito para apurar a conduta do ex-deputado.

¯\_(ツ)_/¯


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Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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