A CPI da Covid se preparada para acabar. O governo federal se prepara para o apagão que dizia não existir. O Brasil se preparada para um 7 de setembro golpista.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #139 do governo Bolsonaro.


The following takes place between ago-24 and ago-30


Virando à esquerda na curva do laranjinha

A CPI da Covid está chegando ao fim. O que isso significa? Pouco político depondo, mas muito relatório do jurídico rolando. Os senadores querem, até o final de setembro, montar um relatório que incrimine o presidente, seus aliados e apoiadores diretamente (e indiretamente) ligados ao combate à pandemia da covid-19.

Enquanto isso não acontece, os senadores continuam a realizar interrogatórios. Nesta semana, a comissão teve a presença do diretor-presidente da Belcher Farmacêutica, Emanuel Cartori, que afirmou que não tinha um facilitador político, mas confirmou sua presença em uma reunião agendada no Ministério da Saúde graças ao apoio do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). O executivo também chamou encontro privado de audiência pública e cometeu outras três contradições à sua escolha.

Também depôs para a CPI da Covid o diretor do FIB Bank, o executivo Geraldo Rodrigues Machado. O banco foi a empresa garantidora do contrato da Covaxin com o Ministério da Saúde. Tudo o que você precisa saber sobre ele — e a empresa que ele representa — é que o FBI Bank conta com capital de R$ 7,5 bilhões, divididos em dois imóveis (um deles com valor declarado de R$ 7,2 bilhões).

O homem que agradava demais

Augusto Aras continuará à frente da Procuradoria-geral da República. Por 55 votos a 10 (e uma abstenção), Aras foi reconduzido ao cargo após uma sabatina cheia de críticas e segundas chances.

O trabalho de Aras à frente da PGR foi marcada pelo enfraquecimento da Lava Jato, a redução do número de denúncias contra políticos, ataques à imprensa e leniência diante das ações de Bolsonaro. Nas audiências no Senado, ele negou que fez o que fez — ou que as suas atitudes são prejudiciais para a democracia brasileira. Os senadores concordaram: nada melhor para as suas noites de sono do que um PGR que reduziu em quase um terço as acusações durante a sua gestão.

A procura de um braço forte e uma mão amiga

As tensões em torno dos atos de Sete de Setembro — e a conhecida bolsonarização das Polícias Militares — colocou os governadores para tentar conversar com as Forças Armadas. O objetivo da reunião será o mesmo de outras várias reuniões feitas nas últimas semanas: tentar dar ar de normalidade a uma situação que não deveria ser normalizada.

Em São Paulo, a PM paulista manteve o afastamento do coronel Aleksander Lacerda. O militar utilizou as suas redes sociais para atacar autoridades e convocar amigos para atividades políticas fora de horário de trabalho. A punição foi tomada como uma forma de evitar um “efeito Pazuelo” em nível estadual.

Ignorando a meia centena de ônibus alugados por PMs para levar pessoas para a av. Paulista, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes, disse que o temor com os atos do feriado são infundados. A garantia? A confiável fala de secretários de Segurança estaduais, que mantém um contato constante com o ministro.

Dando uma apaziguada

Na tentativa de apaziguar os ânimos da República, o presidente do Senado negou o pedido de impeachment de Alexandre Moraes feito por Bolsonaro. A ação de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) foi respondida pelo presidente com o trecho de uma live em que ele diz que sabe onde está o “câncer do Brasil” e que, se precisarem, ele poderia ser mais preciso sobre o que seria a doença do país. Talvez seja a hora de Pacheco perceber que não há como pacificar quem só quer guerra.

Em notas relacionadas, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, afirmou que as Forças Armadas estão a serviço da democracia e pediu que os militares fossem “inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso”. Essa foi a primeira fala do militar a favor da democracia — em público — desde que as ameaças do presidente Jair Bolsonaro subiram de tom. O presidente, por sinal, não respondeu ao militar diretamente.

Ideias ruins para um cenário horroroso

Diante da defesa da democracia feita pelo comandante do Exército, o núcleo duro do governo quer utilizar a Força Nacional para “manter a ordem” mesmo quando não for necessário. A ideia, se colocada em prática, permitiria aos integrantes da FN (a vasta maioria policiais militares) intervirem na segurança pública estadual à revelia de governadores. O uso da Força sem o pedido prévio dos estados já foi derrubado no STF, mas não falta quem esteja disposto a mudar isso em Brasília.

É melhor fazer concurso

A reforma do Código Eleitoral pode fazer muito bem ao Brasil, ou melhor, a quem acredita que concurseiros dos sistemas Judiciário e de segurança Pública não deveriam utilizar seus cargos para potencializar ambições políticas. Uma proposta da deputada Soraya Santos (PL-RJ) estabelece que magistrados, policiais, militares e integrantes do MP deveriam passar por uma quarentena de 5 anos antes de se candidatarem a um cargo eletivo.

A medida acabaria com as chances de vários cabos, coronéis e soldados serem vereadores e deputados em todo o país. Ela também sepultaria os planos eleitorais de Sergio Moro: se aprovada antes de outubro, a norma impediria o ex-juiz de participar do pleito de 2022.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Brasil à luz de velas

O governo brasileiro começou a notar que estamos prestes a ter um apagão. Em sua live, o presidente afirmou que as hidrelétricas podem parar de funcionar por causa da crise hídrica. Para evitar o problema, Bolsonaro sugeriu que o brasileiro seguisse o regime de banhos do inverno da Sibéria — como se isso fosse mudar algo.

Paulo Guedes, o Faria Loser, que não vê problemas em um aumento de dois dígitos no preço da conta de luz, afirmou que o problema deve ser enfrentado sem choro. Sobre o que os grandes consumidores devem fazer para economizar energia, porém, o ministro nada disse. Mesmo que falasse, não ajudaria em muita coisa: vários setores da indústria já avisaram que não poderão aderir a uma eventual iniciativa de economia de energia nos próximos meses.

A semana da pandemia: esperança

Após Rio de Janeiro e São Paulo anunciarem a aplicação de doses de reforço de vacinas contra a covid-19, o Ministério da Saúde se mexeu e anunciou a mesma medida, mas agora a nível nacional. A terceira dose será administrada inicialmente em pessoas com mais de 70 anos, que sejam profissionais de saúde ou quem tenha um sistema imunológico comprometido. O grupo é composto por aproximadamente 35 milhões de pessoas.

Em notas relacionadas, o Brasil ultrapassou os EUA no percentual de população vacinada com ao menos uma dose de um dos imunizantes disponíveis. Mas é importante deixar o alerta: nós ainda perdemos em termos de imunização completa para os vizinhos do norte.

A semana da pandemia: terror

As várias doses já aplicadas ajudaram o país a registrar a menor média móvel semanal deste ano. Em resposta, o Distrito Federal, o Rio de Janeiro, Acre e Sergipe afirmaram que estão trabalhando forte para mudar esse cenário. O aumento do número de mortes registrado nesses estados não seria possível sem a parceria com a variante delta (que foi anunciada anteriormente neste canal).

Falando no Rio de Janeiro, o estado conta com 12 cidades com ocupação de UTI por covid-19 acima de 90%. Para ampliar a adesão aos protocolos de segurança e dar mais motivos para pessoas se vacinarem, a prefeitura da capital anunciou o seu passaporte vacinal. O ministro da Saúde posicionou-se contra a afirmou que “o povo brasileiro é livre” (para morrer?).

Direto do Sul veio a notícia mais macabra da semana. Pacientes internados com covid-19 no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre teriam sido cobaias em um experimento não autorizado pela Anvisa. Os testes foram organizados por gente que chegou a depor na CPI da Covid em defesa de remédio que não funciona contra a covid-19. Os responsáveis afirmaram que seguiram todos os processos legais adequados e se negaram a apresentar documentação que comprovasse isso.

Tripé autoritário-econômico

As manifestações bolsonaristas do Sete de Setembro não serão compostas apenas por fardados em horário de folga. Silas Malafaia está trabalhando com um grupo de pastores para que evangélicos façam parte das manifestações. O tripé do bolsonarismo tardio também será composto pelo agro, que é pop e é golpe.

A elite política está olhando todas essas movimentações com medo. Há até quem insista que dessa vez dará para moderar o presidente. Quem deitou-se na própria cama sábado a noite afirmando que isso seria possível deveria ter lido o que o presidente disse no jornal do dia seguinte. Ou você é “moderável”, ou você faz ameaças semanais contra outros poderes da República. Não dá para ter os dois ao mesmo tempo.

Empresa pública, defesa de interesse privado

Com alguns anos de atraso, as elites perderam a paciência com o governo. A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), capitaneada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apoiou a construção e publicação de um adocicado manifesto pela harmonia entre os Poderes e o respeito à democracia.

200 entidades empresariais apoiaram o documento. Ficaram de fora a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e a Federação das Indústrias do Rio (Firjan). Ficou dentro o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), uma das associações do agronegócio que sabem que o Brasil mais perde do que ganha com o atual presidente.

Quem não gostou disso foi o governo federal. Com o aval de Bolsonaro, Paulo Guedes colocou os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa para lutarem contra o documento (com direito a ameaça de rompimento com a Febraban e a Anbima). A defesa da democracia é uma crítica ao governo federal (a Febraban nega).

Como a posturas do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, demonstra, não basta ter independência no papel. É preciso, também, ter independência na prática. O uso de bancos públicos para a defesa do governo entra para a história como mais uma daquelas promessas que Bolsonaro fez, mas não hesitou em descumprir quando foi necessário.

Engatando a ré

Depois de muito vai e vem, a Fiesp decidiu postergar a publicação do manifesto. A medida foi realizada de supetão e surpreendeu algumas entidades. O Fiesp afirmou que tudo não passou de um “recuo tático”, mas Paulo Skaf confirmou que o motivo mesmo era a pressão do presidente da Câmara — e parceiro nas horas vagas —, Arthur Lira (PP-AL).

Mesmo assim, um grupo de sete associações do agronegócio emitiu uma nota em defesa da democracia. Nenhuma delas têm um histórico de apoio ao presidente. Já no jornal de sábado (28), Ricardo Lewandowski avisou: ação contra a ordem constitucional e o Estado democrático é “crime inafiançável e imprescritível”. Faltou só explicar o que a gente faz quando os golpistas são os responsáveis por prender criminosos.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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