A semana #140 do governo Bolsonaro foi marcada pelos preparativos da marcha que pregou golpismo disfarçado de luta pela liberdade. Mas a escala autoritária do presidente não foi o único ponto relevante da semana: também contamos com novas revelações sobre os investimentos dos Bolsonaros, depoimentos na CPI da Covid e as elites econômicas percebendo que talvez não seja uma boa ideia manter a neutralidade diante do governo atual.

Veja como chegamos até aqui a seguir.


The following takes place between aug-30 and sep-06

(e um cadinho de 7 de setembro também)


Uma corretagem de imóveis tão eficiente quanto uma filial da 5àsec

Já sabíamos que a família Bolsonaro faz uma corretagem de imóveis melhor do que a média desde quando a imprensa começou a noticiar os rolos imobiliários do presidente e do Flávio B. A novidade, agora, é que Carlos Bolsonaro também se mostrou um ótimo negociador de imóveis.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro ficou tão surpreso com a qualidade do trabalho prestado que determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal do vereador do partido Republicanos. A decisão também afetou outras 26 pessoas e sete empresas. Todo mundo é investigado desde 2019 por suspeita de ter desviado dinheiro público em um esquema que pode ter atingido a cifra de R$ 7 milhões.

Rouba e não faz

Bolsonaro temia que o seu filho Carlos fosse pego pelas suas estratégias de marketing político na web. Como essa frente ainda está em passos lentos, o presidente terá que se contentar com as suas crias sendo investigadas por algo que ele conhece bem: emprego de funcionário fantasma e corrupção de pobre.

A quebra de sigilos bancários também atingiu a ex-mulher do presidente, a advogada Ana Cristina Valle — além de seis de seus parentes. Segundo as investigações, ela gerenciou o esquema de desvio de dinheiro público no gabinete de Flávio B. e de Carlos B. até 2007, quando se separou do atual presidente do Brasil.

Alguns dos funcionários que trabalharam no gabinete de Carlos Bolsonaro (oficialmente) já admitiram que não trabalhavam no gabinete do vereador (não oficialmente). A ocultação de patrimônio teria ocorrido através de laranjas, que assumiriam a posse de residências como a mansão em Brasília na qual Ana Cristina vive.

Quem ajudou a revelar tudo isso para a imprensa foi Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, que trabalhou com a família Bolsonaro nos últimos 19 anos e recebeu homenagem de Jair Renan há dois meses. Fica a dúvida: no próximo aniversário também tem parabéns ou ele já teve o nome riscado até da listinha de presente de Natal?

Absolutamente normal? Depende

A CPI da Covid ouviu o motoboy da Ivanildo Gonçalves da Silva, empregado da VTCLog que é acusado de pagar ao menos quatro boletos em benefício de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde. Dias admitiu ter feito pagamentos de boletos e saques de até R$ 400 mil reais em contas da VTCLog. Segundo o Coaf, o motoboy sacou R$ 4,7 milhões em dois anos.

A movimentação é esperada se estivermos falando de uma empresa que não sabe utilizar internet banking e manda seus empregados realizarem o pagamento de suas contas na boca do caixa. Ela só não explica muito bem por qual motivo o pagamento de contas de gente que ocupou cargo comissionado no Ministério da Saúde e foi demitida após denúncia de cobrança de propina também estava na lista de tarefas dos seus empregados.

Absolutamente normal? Não muito

A CPI da Covid também ouviu o lobista Marconny Albernaz de Faria. Faria é apontado como um intermediário da Precisa Medicamentos, uma das empresas investigadas no processo de compra suspeita da vacina indiana Covaxin.

O lobista quase fugiu de seu depoimento. Primeiro, alegou ter um atestado médico — prontamente anulado pelo médico. Depois, pediu à ministra Carmem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que ele fosse desobrigado a depor — o pedido foi negado.

Para além das suas ações à frente da Precisa Medicamentos, Faria teria ajudado Jair Renan Bolsonaro a abrir uma empresa de eventos em Brasília. A experiência do filho do presidente com eventos? Nenhuma, mas todo lobista adora fazer negócios em festas privadas na região do Lago Paranoá.

Absolutamente normal? Nesse governo, sim

Agora vamos falar dos lugares do governo em que nada de bom é esperado. Sérgio Camargo, atual presidente da Fundação Palmares, se tornou investigado por assédio moral, discriminação e perseguição ideológica. As ações do bolsonarista foram divulgadas em detalhe pelo Fantástico.

Em resposta, Sergio Camargo desqualificou a reportagem — mas não negou o seu conteúdo — e atacou a apresentadora Maju Coutinho, que sequer esteve envolvida na matéria. Após receber um alerta do jurídico, apagou a postagem. O problema é que o print é eterno e os advogados da global devem ser bons de serviço.

A Secretaria de Cultura virou o único front da jornada olavista dentro do governo federal. Após perderem espaço para o centrão e os militares em outros corredores de Brasília, sobrou para a turma mais reacionária da nossa política a área da Cultura. E para sobreviver sem cair na caça às bruxas não basta ser meio bolsonarista: é preciso ser full bolsonarista.

Choque de realidade caro

O Brasil está ficando com um preço mais elevado do que o brasileiro pode administrar — e olha que ele não é muito bom em gerenciar as suas contas. Assim como o nível de endividamento das nossas famílias, a inflação das despesas básicas tem crescido rapidamente nos últimos meses e já atingiu a taxa de 33%.

A média de preços dos produtos que pesam mais no bolso dos pobres foi mensurada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Para quem gosta de ter esperança, é melhor começar a rezar: o aumento em 6,78% no valor médio das contas de luz não deve melhorar a situação nos próximos meses — e o governo sabe disso, mesmo que tente ignorar.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Apesar das contínuas quedas nas médias móveis de mortes, a variante delta do Sars-Cov-2 segue mostrando que talvez não seja a melhor hora de cuidar da sua saúde mental em mesa de bar. Os novos registros de casos de pessoas infectadas com a variante não param de crescer e os casos de mortos estão ganhando presença no noticiário.

Enquanto a Secretaria de Saúde de São Paulo descobria que doses da CoronaVac de um lote suspenso pela Anvisaforam aplicadas, o governo federal cortou em 85% a previsão de verba para compra de novas vacinas contra a covid-19 em 2022. O valor não é capaz de garantir uma terceira dose de imunizante para adultos quando for necessário.

Falando em pessoas vacinadas, a prefeitura do Rio de Janeiro suspendeu até o dia 15 de setembro a exigência do uso de um comprovante de vacinação para que pessoas possam entrar em locais de uso público. A decisão foi tomada em função das instabilidades do aplicativo ConecteSUS, que emite o documento.

Por último, mas não menos importante, a editoria “bate canela” trouxe uma situação que é 100% a cara do governo Bolsonaro. Uma partida entre Brasil e Argentina nas eliminatórias da Copa do Mundo foi suspensa em São Paulo após sete minutos de jogo. A decisão aconteceu após agentes da Anvisa entrarem no gramado alegando que quatro jogadores argentinos haviam descumprido as normas sanitárias brasileiras.

A Conmebol correu para tirar o seu da reta e culpar o governo federal. Já o Ministério da Saúde divulgou nota respaldando a decisão da Anvisa. No meio do vai e vem, a CBF se fez de desentendida e a CPI da Covid começou a debater a possibilidade de convocar membros da confederação para explicar quem é que deu a liberdade para os jogadores entrarem em campo ilegalmente.

Que saudades do futuro

O Brasil passou a última semana se preparando para a micareta dos velhos golpistas promovida por Bolsonaro. O Supremo Tribunal Federal decretou ponto facultativo no dia 06 para montar um esquema de segurança capaz de proteger o tribunal diante das manifestações que ocorreriam na Esplanada dos Ministérios. A Corte pediu ajuda da ineficiente polícia do Distrito Federal na tarefa — mais sobre isso adiante.

O presidente passou a semana demonstrando o seu baixo nível político e cultural. Na terça-feira (31) disse para seus apoiadores que “a vontade que vale é a vontade de todos vocês” (não é bem assim que a democracia funciona).

No dia seguinte, afirmou que “quando se fala em armamento, quem quer a paz, se prepare para a guerra” (como se a expressão indicasse apoio a uma corrida armamentista). Já na quinta-feira (02), avisou que “ninguém precisa temer o Sete de Setembro” e que os seus ataques ao judiciário eram apenas uma tentativa de garantir a liberdade alheia.

Como a realidade é dura até com o mais bruto dos mentirosos, uma ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) teve que arquivar dois pedidos de habeas corpus para que fardados participassem dos atos sem receberem punições das corporações militares. Aparentemente o milico brasileiro só gosta de ser milico quando é para ganhar aposentadoria precoce e aumento de salário acima da inflação.

Isso não impediu que membros das forças de segurança do país participassem à paisana dos protestos pró-governo. Em sintonia com os indicadores de adesão ao bolsonarismo levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um grande contingente de PMs se uniu a grupos de evangélicos e caminhoneiros nas ruas de São Paulo, Brasília e três outras capitais à sua escolha. Só faltou estarem em grande quantidade para colocarem medo em alguém.

Então tá

Depois de quase três anos completos de governo, o autoritarismo de Bolsonaro começou a incomodar as Forças Armadas. Generais afirmaram que ser golpista no sigilo é tranquilo, o problema é ser golpista na frente das crianças.

Já o ministro Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, passou a semana tentando amenizar os ânimos dos movimentos que representam os caminhoneiros. Após meia hora de papo, o ministro foi para um evento chamar Bolsonaro de “um escolhido que foi tocado por Deus”. O presidente retribuiu dando uma carona para Tarcísio ficar ao seu lado quando ele atacou o STF na Av. Paulista na tarde de terça-feira (07).

Adam Smith deve ter falado sobre isso em Riqueza das Nações

No grupo das elites que dependem mais ou menos do Estado para lucrarem ainda há dúvidas de que o presidente é uma ameaça a democracia. A Febraban continua com as suas brigas internas. A Caixa e o Banco do Brasil ganharam um bancão para ficar ao seu lado: o BTG, ligado ao ministro Paulo Guedes, não quer criar conflitos com o Planalto. Mesmo assim, a federação publicou uma nota reiterando o seu apoio à democracia.

O fato é que nenhum presidente brigou diretamente com donos de banco e saiu vivo. Se Bolsonaro está em pé até agora é por ser capaz de dar bons lucros para as instituições financeiras e, ao mesmo tempo, não ser golpista o bastante para elas conspirarem pelo fim do seu governo. Mas nada impede que isso mude nos próximos meses: o empresário brasileiro precisa do Estado para muita coisa, mas chega uma hora que ele perde a paciência com governos ruins.

Morde e não assopra

Os esforços para impedir que a marcha golpista fosse mais golpista do que o normal atingiram todo o país. Promotores do Ministério Público e um juiz militar entraram com ações em seis estados — CE, MS, PA, PE, SC e SP — e o Distrito Federal para questionar a participação de PMs nos atos do Sete de Setembro e interpelar o governo do DF sobre a possibilidade de não punir fardado que fosse contra a lei. Tiveram relativo sucesso.

O ministro Luiz Fux, do STF, avisou que “liberdade de expressão não comporta violência”. Já os governadores, ou melhor, parte deles, dobraram a manga de suas camisas e foram trabalhar para evitar a participação de PMs fardados nas manifestações. Rolou até ameaça de deserção da corporação.

Enquanto isso, o STF mandou bloquear as contas da Aprosoja Nacional (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) e da Aprosoja de Mato Grosso (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso). As organizações são suspeitas de terem financiado os atos do dia 07 com dinheiro que é, em parte, público. Já o ministro Alexandre Moraes, após pedido da Procuradoria-geral da República, mandou prender gente que utilizou a sua liberdade de expressão para se colocar em situação de criminhos.

Que horrível o passado

Antes que o dia 06 virasse dia 07, os manifestantes pró-Bolsonaro romperam a barreira policial feita para proteger os prédios públicos da Esplanada dos Ministérios. O sorridente grupo era liderado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) e foi parcialmente dispersado. Assim, em Brasília, o dia começou com o nível de álcool ingerido pelos bolsonaristas como a maior preocupação dos PMs.

A demonstração de força do presidente em Brasília foi um repeteco do que ele já disse. Ataque ao STF, ameaça de crimes e negação da realidade do país foi a retórica utilizada em Brasília. Em São Paulo, além dos itens anteriores, Bolsonaro também utilizou o seu palanque para pregar a aprovação de pautas que já foram recusadas pelo Congresso.

A única surpresa do dia 07 foi a quantidade de pessoas que o presidente ainda consegue colocar nas ruas. 125 mil. É um nível de engajamento menor do que o visto na internet, mas certamente é um nível bom o bastante para ele.

É melhor jair se moderando?

A estratégia de Jair Bolsonaro ao longo de todo o seu governo mostra que oposição e governo são muito ruins de estratégia. O presidente depende do Congresso e do Supremo Tribunal Federal para ter o mínimo de viabilidade em 2022. Mesmo assim, briga com ambos dia sim, dia também e suas derrotas se devem mais à sua dificuldade de modular pautas do que de a sua força (é não é por falta de boa vontade do Congresso ou do STF).

Enquanto isso as oposições à esquerda e à direita seguem se odiando mais do que odeiam Bolsonaro. O único “ato unificado” contra o presidente realizado até agora não foi unificado e MBL e CUT seguem fazendo cara feia quando alguém fala em dividirem palanque na Av. Paulista. E olha que estamos falando de uma luta contra um grupo que age como se fosse um pinscher golpista: muito barulho, pouca força prática.

No debate “Bolsonaro vs todo mundo”, Bolsonaro é a única pessoa que conseguiu unir um grupo político relativamente bem organizado e que se dispõe a passar vergonha na rua em um dia de domingo. É para defender pautas totalmente ilegítimas? Sim, mas são pautas políticas.

A nossa sorte é que estamos falando de uma galera que é muito ruim em colocar as suas estratégias em prática. O que o presidente mais deseja é uma tomada de democracia que só daria certo em um cenário de grande caos social. Se dependêssemos das oposições organizadas para defendermos a nossa democracia e do desejo das lideranças políticas de colocar um impeachment para rodar estávamos lascados.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *