A CPI da Covid se encaminha para um final com cenas lamentáveis, trágicas e revoltantes. Enquanto isso, Paulo Guedes passa vergonha e Bolsonaro passeia em Nova York.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #142 do governo Bolsonaro.


The following takes place between sep-14 and sep-20


O banco que não é banco

A CPI da Covid finalmente ouviu o advogado Marcos Tolentino, que é apontado como sócio oculto da Fib Bank, o banco que não é banco. Tolentino negou acusações, foi acusado de ter seis registros de CPF (o que é ilegal) e se calou quando se encontrou em uma situação mais complicada do que o recomendado: a possibilidade de admitir que estava acusando a Receita de má fé.

O lobista que é lobista

A comissão também ouviu o lobista Marconny Albernaz de Faria. Ele é acusado de interceder pela Precisa Medicamentos nas negociações feitas pela empresa com o Ministério da Saúde. O lobista calou-se quando foi cobrado sobre a sua relação com a advogada de Bolsonaro, negou que era lobista e disse que não conhecia senadores (após afirmar no privado o contrário).

Pelo menos o depoimento do lobista serviu para algo: após a sua fala, a comissão aprovou a convocação de Ana Cristina Valle, segunda ex-mulher do presidente Bolsonaro. Os senadores querem que ela explique a sua ligação com o lobista — isso, é claro, se ela realmente for ao Senado depor.

É preciso contar com o fator safadeza

A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da Precisa Medicamentos. A ação foi autorizada pelo STF após a CPI da Covid entender que a empresa não entregou todos os documentos que ela solicitou (mais especificamente, os contratos relacionados às operações de venda da Covaxin). Mas e se eles não existirem?

Preparando a bandeirada final

A CPI da Covid ainda tem muito para render, mas já está chegando ao fim. O seu relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou que o relatório deve ser apresentado em menos de duas semanas. Tudo depende do que será encontrado nas investigações da Prevent Sênior (mais sobre isso adiante) e da Precisa Medicamentos.

Por hora, já existem algumas certezas. A primeira é que haverá o pedido de indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por prevaricação no caso da vacina indiana Covaxin — e outras coisas mais que podem ajudar em um eventual processo de impeachment. A segunda é que o “gabinete paralelo” deve entrar no relatório final ao lado da Prevent Sênior e a longa rede de pessoas que propagaram, financiaram e traficaram remédios ineficazes contra a covid-19 no último ano.

Torta de climão

Paulo Guedes está constrangendo toda a República. A última vítima foi Luiz Fux. O ministro da Economia fez, no dia 15, um “pedido desesperado de socorro” ao ministro do STF. O motivo? O impasse do pagamento dos precatórios em 2022.

Os precatórios são as dívidas da União que o governo Bolsonaro recusou-se a negociar quando era possível e agora virou um montante que impede a Economia de pagar um novo Bolsa Família e, ao mesmo tempo, manter o orçamento secreto com o tamanho adequado para acalmar o centrão. A resposta de Fux foi diplomática: [o ministro] “é tão amigo que coloca no meu colo um filho que não é meu”.

A solução, por sinal, passou pelo centrão. A partir de um grande “devo, não nego, pago na semana que vem”, o governo parcelou parte do montante que deveria ser pago ano que vem (R$ 89,1 bilhões) e tentará renegociar o pagamento da dívida com um desconto. Ou o Bolsonaro pode não se reeleger e deixar essa “pica do tamanho de um cometa” na mão de outra pessoa.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

A semana da pandemia

Dados públicos mostraram que, em 2020, o número de mortes por covid-19 foi maior do que a soma de mortes causadas por infarto, diabetes e pneumonia em todo o país. As três doenças causaram 190,2 mil vítimas. Já o coronavírus foi responsável por 194,9 mil fatalidades.

O ministro da Saúde afirmou que há excesso de doses de vacina no Brasil, suspendeu e criticou a antecipação da vacinação de adolescentes. O jurídico nos obrigou a não comentar a fala.

Todo ano essa merda piora

A participação de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU foi um repeteco das cenas lamentáveis que vimos no primeiro ano, mas agora com mais pessoas passando vergonha. Quando não tínhamos o ministro da Saúde sendo indecente para os manifestantes, tínhamos o próprio presidente fazendo piada do direito de manifestação alheio. Como ninguém ali admite que já foi vacinado, estão todos comendo na rua (literalmente) e fazendo de conta que não estão gastando mais do que deveriam com cartão corporativo.

Sabe como é, aparências importam, mesmo que sejam aquelas que agradam só a sua militância.

Brincando com a vida alheia

A CPI da Covid tem revelado em detalhes como o grupo Prevent Senior foi de empresa de saúde para uma grande rede de laboratórios mengeleanos durante a pandemia. Os dados que se tornaram públicos nos últimos dias mostram que a empresa daria orgulho para Jair Bolsonaro: “a regra era, ‘espirrou no PS [Pronto Socorro], entrega o kit”, disse um médico ligado à empresa à jornalista Chloé Pinheiro, da Veja.

As pessoas que chegavam a um consultório da rede estavam sujeitas à própria sorte. Na melhor das hipóteses, ganhavam um kit de remédios ineficazes contra a covid — mesmo se estivessem sem covid —, na pior das hipóteses, se tornavam vítimas de tratamentos experimentais sem autorização de autoridades e com a possibilidade de terem as suas mortes ocultadas (até mesmo médico contratado pela empresa teve a morte ocultada).

Lucrando com a vida alheia

O número de clientes da Prevent Sênior cresceu 15% durante a pandemia (mesmo com a concorrência perdendo consumidores). Os lucros aumentaram em 18% em um ano, atingindo R$ 4,3 bilhões em 2020. Esses dados mostram que as escolhas da Prevent Senior deram muito certo para os donos da empresa, só não tiraram ela da mira da CPI da Covid.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) realizou diligências na sede da empresa na última segunda-feira (17). A ação teve como objetivo esclarecer as denúncias apresentadas na CPI da Covid de que os pacientes receberam remédios ineficazes contra a covid-19 sem saberem.

Segundo o Sindicato dos Médicos do Estado de SP (Simesp), a pressão para que os remédios fossem distribuídos aos pacientes vinha dos doentes bolsonaristas e da própria Prevent Senior. O plano de saúde teria pressionado os médicos a tomarem toda a responsabilidade pela prescrição do medicamento, livrando a Prevent Sênior de qualquer problema judicial.

Não adianta o grupo empresarial falar em “denúncias infundadas e anônimas”, acusar politicagem e ameaçar entrar na Justiça contra quem quer revelar o que os médicos da empresa fizeram durante a pandemia. A CPI está indo com tudo para cima da empresa e não parece haver um grande interesse da comissão em comer uma marguerita com borda de cheddar nas próximas semanas.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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