O silêncio ensurdecedor de Paulo Guedes sobre a sua conta no exterior, o silêncio desconfortante de Jair Bolsonaro sobre os investimentos de seus ministros e as notícias horríveis da CPI da Covid.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #145 de governo Bolsonaro.


The following takes place between oct-05 and oct-11


Vem aí

A CPI da Covid está chegando ao seu fim. O relatório final deve ser apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) no dia 19 e votado no dia seguinte. O documento será encaminhado para o Ministério Público, que decidirá quem será indiciado.

A lista VIP de indiciamentos deve incluir o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Ambos são acusados de articular e buscar financiadores para uma rede de notícias falsas que espalharam desinformação sobre a covid-19. Outros nomes com foro privilegiado incluem o presidente Jair Bolsonaro e as deputadas Bia Kicis (PSL-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP).

Questão de semântica

Fora do círculo dos portadores de foro privilegiado, a CPI da Covid também deve indiciar os membros do “gabinete paralelo”. Para quem ficou isolado do país nos últimos meses, o “gabinete paralelo” é um grupo de médicos, empresários e outras pessoas com grande influência nas decisões do Ministério da Saúde.

A quebra de sigilos da comissão descobriu que a Prevent Senior criou um grupo de Whatsapp para abastecer o governo com notícias sobre o “kit covid”. A ação era praticamente uma newsletter diária de negacionismo científico.

Como apontou Nise Yamaguchi, a expressão “gabinete paralelo” só funciona quando existem dois gabinetes agindo lado a lado, mas sem jamais se encontrarem. Dá para falar em paralelismo se ninguém esconde o que faz, como faz e ao lado de quem faz?

Plano B

Todo mundo sabe que existem chances elevadas de o procurador-geral Augusto Aras ignorar todo o relatório da CPI da Covid. Se isso acontecer, a comissão já conta com um plano secundário: chamar a Ordem dos Advogados do Brasil para representar associações de famílias de vítimas da covid-19 em uma chuva de ações no Supremo Tribunal Federal (STF).

Não olha para o lado

Já está claro que a Prevent Senior não era a única operadora de saúde que distribuiu e incentivou tratamentos ineficazes para a covid-19 (beijos, Unimed). A Hapvida também está, oficialmente, na jogada.

Em um vídeo revelado na CPI da Covid, a secretária de Gestão e Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, aparece ao lado de Anderson Nascimento, o superintendente nacional da Hapvida, defendendo o “kit covid”. A gravação é de julho de 2020.

As ações da Prevent Senior, da Hapvida e de tantas outras operadoras de saúde ocorreram sem que o Conselho Federal de Medicina (CRM) ou a Agência Nacional de Saúde (ANS) fizessem algo. Quer dizer, o CRM até fez: na figura de seu presidente, Mauro Luiz de Brito Ribeiro, incentivou, e respaldou todo tipo de ideia negacionista durante a pandemia.

Analfabetismo funcional

Já o diretor-presidente da ANS, Paulo Rebello, jura que passou o período pandêmico em um isolamento tão forte que foi incapaz de fazer um dos POPs (Procedimento Operacional Padrão) mais básicos do seu trabalho: identificar se as operadoras de saúde estavam seguindo procedimentos médicos dentro dos padrões científicos.

Paulo Rebello afirmou que só soube das ações da Prevent Senior por meio da CPI da Covid. Foi desmentido rapidamente pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP): a ANS recebeu denúncias contra a operadora desde o ano passado, mas nada fez sobre o tema.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Olho no lance

A Unesco classificou a denúncia de 200 mortes de voluntários de uma pesquisa clínica feita com proxalutamida no Amazonas como uma das mais graves da história da América Latina. O medicamento é um bloqueador de hormônios masculinos que foi utilizado no combate à covid-19 no Brasil. A representação é mais uma das várias denúncias internacionais de gente brasileira envolvida em situações análogas a crimes contra a humanidade.

Na terceira vez é mais gostoso

A CPI da Covid convocou para depor o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pela terceira vez. A nova convocação se deu, entre outros motivos, pelo presidente Jair Bolsonaro ter pressionado o ministério a tirar de pauta a análise de um relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) que condenava o uso de cloroquina e de outros tratamentos ineficazes. O ministro também não respondeu perguntas da comissão dentro do prazo estipulado.

O horror

Quando ninguém acreditava que a CPI da Covid poderia ir a um nível de horror mais baixo, os depoimentos foram lá e mostraram que ainda havia espaço para revelações criminosas. O advogado Tadeu Frederico de Andrade, de 65 anos, disse aos senadores que após 30 dias internado na UTI de um hospital da Prevent Senior, a médica Daniela de Aguiar Moreira da Silva quis removê-lo para um leito híbrido com tratamento paliativo.

A decisão foi tomada com base em um prontuário médico que não era o dele. Além disso, havia a orientação para que ele não fosse reanimado em caso de parada cardíaca, afinal, “óbito também é alta”. A pressão pela aplicação de práticas nazistas e criminosas foram confirmadas pelo médico Walter Correa de Souza Neto.

A semana da pandemia

Após 20 meses de pandemia, o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortes por covid-19. O número foi alcançado 111 dias após registrarmos meio milhão de mortos pela doença.

Em protesto ao número de mortes, manifestantes penduraram 600 lenços brancos na Praia de Copacabana. Em protesto aos manifestantes que se importam com os mortos por covid-19 no Brasil, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, relativizou o número de vítimas da doença. Prioridades.

O número de vítimas por covid-19, se tudo der certo, não deve aumentar muito daqui para frente. Na última semana conseguimos atingir a taxa de 71% da população brasileira parcialmente imunizada contra a covid-19.

Agora precisamos torcer para que a nomeação de um novo coordenador do Programa Nacional de Imunização (PNI) não atrapalhe o ritmo de vacinação. O cargo ficou vago nos últimos três meses, justamente o período em que a aplicação de imunizantes contra a covid-19 foi o mais rápido. Não ter especialista em cargos de decisão, no governo Bolsonaro, é sempre uma ótima ideia.

A redução das taxas de morte (em alguns dos estados brasileiros) está animando prefeitos e governadores a abandonarem a exigência do uso de máscaras em lugares abertos e fechados. Nos locais em que ainda há a demanda pelo equipamento de proteção, é melhor não contar com a ajuda do governo federal: o Ministério da Saúde levou um calote de R$ 193,4 milhões na compra de máscaras chinesas.

Caminhando firme para o retrocesso

Um dos maiores problemas sociais causados pela pandemia está na área de educação. Milhões de estudantes (quase sempre pobres) ficaram sem acesso ao sistema de ensino ao longo da pandemia. O resultado? Os mais jovens regrediram no aprendizado, enquanto os mais velhos estão muito ocupado trabalhando para comprar ossos para o jantar.

É nesse contexto em que a Folha de S. Paulo noticiou que os governos estaduais seguraram os recursos disponíveis para a área. O “não gasto de verbas” aconteceu mesmo com o aumento dos repasses, a necessidade de fornecer equipamentos para alunos ou a simples reforma das escolas para a sua reabertura. Ao todo, desde 2019, a queda nos gastos foi de 7,4% em termos reais.

Para fechar o ciclo do desastre, o número de matrículas em creches recuou em 2020 mesmo antes da pandemia. Os dados de 2020 mostram que menos de 1/3 das crianças brasileiras estão matriculadas na rede pública ou privada. Os investimentos na área também caíram ao longo do governo atual.

Não há, no Brasil, passado que não pareça muito pior do que o nosso futuro. Mas tenha certeza que o governo Bolsonaro está trabalhando para mudar essa situação.


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Este texto foi escrito pelo Guilherme. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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