A aprovação da “PEC kamicaze”, mortes políticas e o ensaio de um golpe.

Tudo isso e muito mais no resumo das semanas #185 e #186 do governo Bolsonaro.


The following takes place between 06-jul and 18-jul


Investigue-se

O Tribunal de Contas da União investigará o ex-presidente da Caixa Econômica Federal Pedro Guimarães. O inquérito deverá apurar se as acusações de assédio sexual e moral são verdadeiras ou não. As suspeitas também são investigadas pelo banco, pela Justiça Criminal e pela Justiça Trabalhista.

Ajudando o pobre hoje

O Governo Federal conseguiu aprovar, na Câmara e no Senado, a “PEC das bondades/kamicaze/eleitoral”. Ao todo, o Planalto pretende gastar R$ 50 bi com aumentos temporários no Auxílio Brasil e ajuda para taxistas, caminhoneiros e donos de empresas de ônibus. Tudo isso com o apoio da vastíssima maioria dos deputados e senadores — mesmo com o texto final sendo absurdamente inconstitucional.

Os únicos políticos que votaram contra a PEC foram o senador José Serra (PSDB-SP) e a bancada do Novo. Todos estes votaram certo, mas por motivos diferentes. Houve quem votasse contra por não gostar de pobre, mas também teve voto contra pela parte de quem sabe que não precisa apoiar essa PEC por estar em fim de carreira e por gostar de pobre.

Para aumentar a miséria amanhã

Via de regra, as maiores dificuldades enfrentadas pelo governo para aprovar a PEC foram os pedidos de ordem da oposição e o processo que convenceu o deputado federal Danilo Forte (União-CE), relator da PEC na Câmara, a não alterar o texto que veio do Senado. Arthur Lira (PP-AL) fez tudo o que esteve ao seu alcance (mesmo que isso envolvesse alguns dribles nas normas do Congresso) para aprovar o texto antes que os parlamentares entrassem em recesso.

Judicialize-se

Antes que o texto chegasse à Câmara, o Ministério Público pediu para que o Tribunal de Contas da União avaliasse a legalidade do projeto. O objetivo do MP é impedir que a PEC cause um furo no teto de gastos, o que significa, efetivamente, acabar com o projeto. A Confederação Nacional de Municípios também foi contra a medida, mas por outras razões.

Fatura

O fato é que os poucos que tiveram a coragem de votar contra a PEC fizeram certo. Sim, falar para o eleitor que deixar ele sem comida hoje, ajuda ele a ter comida amanhã, não é fácil. É simplesmente irreal esperar que essa explicação funcione fora de partidos de nicho, como é o caso do Novo.

Mas a PEC de Bolsonaro causará uma piora dos fundamentos fiscais do país ao longo dos próximos meses que será capaz de anular o efeito dos benefícios aprovados antes mesmo que eles cheguem aos bolsos dos beneficiários — no melhor dos cenários. No pior dos cenários, teremos desancoragem da meta de inflação, alta do dólar, queda da Bolsa, piora do risco-país e aumento da taxa de juros. Tudo isso enquanto o planeta corre o risco de ter que lidar com uma recessão global.

2022 prometeu e está entregando muita desgraça. Mas 2023 promete ser ainda pior.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Barbárie

Enquanto gritava “Aqui é Bolsonaro!”, o agente penitenciário Jorge José da Rocha Guaranho invadiu uma festa e assassinou a tiros o aniversariante, Marcelo Arruda. Arruda era tesoureiro municipal do Partido dos Trabalhadores e resolveu decorar a sua festa com fotos do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. Guaranho, por outro lado, não era um convidado da festa e sequer conhecia a vítima, mas tinha como intenção matar todos os presentes da festa e votar em Bolsonaro nas próximas eleições.

Quem pariu Mateus que o embale

Lula lamentou a morte de arruda. Ciro Gomes pediu que Deus trouxesse conforto às duas famílias. Simone Tebet lembrou que “adversários não são inimigos”.

Bolsonaro, presidente apoiado pelo assassino? Afirmou que o apoio daquele que já tirou foto com os seus filhos era dispensado e que atitudes políticas violentas são coisas de gente de esquerda. O presidente não explicou, porém, onde é que afirmar que é necessário “fuzilar a petralhada” é uma postura comunista.

Como quem já não tinha desafinado bastante o soneto, o presidente também resolveu ligar para familiares de Marcelo Arruda. Os parentes escolhidos não estavam na festa de aniversário em que Arruda foi morto e eram apoiadores de Bolsonaro. Mesmo assim, o presidente considerou interessante convidá-los para uma entrevista voltada para “despolitizar” uma morte política.

Crime político sem política

Este não foi o primeiro, o segundo ou o terceiro caso de violência política no Brasil que virou notícia nos últimos anos. E, tal qual aquele enfrentado por Marcelo Freixo no último final de semana, teve como alvo pessoas ligadas à esquerda. Para reforçar o Índice de Coincidências Incríveis, também foi praticado por alguém que está ligado, direitamente ou indiretamente, ao presidente Jair Bolsonaro.

Inicialmente, a investigação do caso ficou com a delegada Iane Cardoso. Ela foi substituída por Camila Ceconetto após postagens de Cardoso em apoio ao presidente terem viralizado. A nova delegada, porém, não demorou muito para demonstrar que a sua escolha não foi a melhor ideia do mundo.

Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil do Paraná afirmou que o crime ocorreu por motivo torpe, mas não por razões políticas. Segundo os responsáveis pela investigação, “é complicado a gente dizer que esse homicídio ocorreu porque o autor queria impedir os direitos políticos da vítima”. Em entrevista, a delegada responsável pelo caso também afirmou que, apesar de ter anunciado o que faria, Guaranho cometeu o assassinato por impulso.

De fato, não há tipificação penal para crime político no Brasil há alguns anos. A Polícia Civil, inclusive, pode tentar falar que foi isso o que ela afirmou. Mas, vamos combinar, não foi bem o caso.

Teaser do trailer da bagunça constitucional

O presidente Jair Bolsonaro terminou a sua segunda-feira repetindo as suas mentiras habituais sobre o sistema eleitoral para um grande grupo de autoridades estrangeiras enquanto alternava ataques ao Supremo e ao TSE. Autoridades reagiram apontando o nível de absurdo das falas do presidente, defendendo o sistema eleitoral e afastando as chances de um levante golpista dar certo. Arthur Lira deu folga para o redator de notas de repúdio.

Quem acreditou nas mentiras do presidente provavelmente já está corrompido pelo espírito bolsonarista. Se este não for o caso do(a) leitor(a), vale se perguntar ao longo dos próximos meses o seguinte: o(a) seu(ua) candidato(a) repudiou as falas de Jair Bolsonaro?


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

Publicado por guilhermehmds

Guilherme gosta de História, de discutir, de estudar, de Formula 1 e de batata. Guilherme adora uma batata.

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