A Nova Era – semana #136:o tempo bom não volta nunca mais

A CPI da Covid voltou, mas o Brasil ficou ocupado passando raiva com o rebosteio golpista de Bolsonaro. Para além das acusações — falsas — de fraude eleitoral e as denúncias (verdadeiras) em tribunais internacionais, a semana #136 da nova era foi marcada por brigas entre poderes e Paulo Roberto Nunes Guedes querendo ajudar o governo a cometer infrações fiscais para financiar a reeleição.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #136 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between ago-03 and ago-09


Normal isso

As quebras de sigilo promovidas pela CPI da Covid trouxeram resultados. Um deles se refere aos materiais coletados no sigilo telefônico da diretora da Precisa Medicamentos, Emanuela Medrades.

No telefone da executiva foram encontradas oito ligações de um militar com cargo de gerência no Ministério da Defesa. Também foram achadas quatro ligações do senador governista Luis Carlos Heinze (PP-RS).

Tudo absolutamente normal. O senador disse que não se lembrava dos quatro telefones. Já a Defesa escolheu uma estratégia alinhada com o governo Bolsonaro e as posturas das Forças Armadas nos últimos meses: o silêncio.

Abre e fecha

A CPI da Covid quebrou os sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário do líder do governo na Câmara, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR). Barros é um nome recorrente no caso Covaxin — e em outros casos de corrupção. O deputado falará a CPI da Covid nesta semana.

Enquanto a CPI quebrava sigilos, o Ministério da Saúde tomava medida no sentido contrário. A pasta colocou sob sigilo os documentos relativos ao contrato de compra da vacina indiana Covaxin. O material já está com a CPI da Covid, mas ficará inacessível para quem não faz parte da comissão, reforçando o compromisso da Saúde em ter um nível de transparência inversamente proporcional ao não compromisso do presidente com a democracia.

Sentiu

Bolsonaro não está gostando das respostas da Justiça aos seus discursos golpistas. Ao longo da semana, em resposta à investigação aberta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sua inclusão no inquérito das fake news, o presidente disse que os magistrados não passarão, divulgou dado sigiloso (de maneira mentirosa), falou algumas mentiras, afirmou que não se calará e apontou que golpismo é top. Só não esclareceu a sua postura diante do que pode acontecer se a maré deixar de ficar ao seu favor.

Em resposta, o ministro Luiz Fux, presidente do STF, deixou a caneta das notas de repúdio de lado e cancelou uma reunião com o presidente. Arthur Lira (PP-AL) e Augusto Aras, o procurador-geral da República, se calaram.

Bagunça e choro

A CPI da Covid voltou aos seus trabalhos com depoimentos muito menos interessantes do que os dos próximos dias. O primeiro foi do reverendo Amilton Gomes de Paula, que intermediou uma compra de vacinas ao Ministério da Saúde que está entupida de suspeitas.

O reverendo chorou, disse que foi usado, mentiu, tentou proteger o governo e negou o que fez no verão passado. Os senadores riram da cara de pau e perguntaram se ele precisava de óleo de peroba antes de sair do prédio do Senado.

Enquanto isso

As investigações da Polícia Federal sobre as prováveis corrupções no Ministério da Saúde também estão bem divertidas. Em depoimento à PF, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), disse que ouviu, da boca do general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, que Arthur Lira o impedia de agir contra a pandemia. O motivo? O general não direcionar verbas para os locais que Lira tinha interesse.

A mesma PF que escuta é a PF que fala, ou melhor, compartilha (na medida do possível). Os delegados enviaram à CPI uma versão cortada do depoimento de Pazuello. Certamente uma atitude completamente normal para uma instituição que jura apoiar o combate à corrupção no nosso país.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Briga, briga, briga

O segundo dia da segunda temporada da CPI da Covid teve bate boca entre Omar Azis (PSD-AM) e o senador governista Marcos Rogério (DEM-RO). Azis teve que lembrar ao senador que os dados da investigação são públicos e que, portanto, podem ser divulgados por qualquer um. A PF, porém, tem dúvidas.

Já no depoimento de quarta-feira (04), o tenente-coronel e ex-assessor do Ministério da Saúde, Marcelo Bianco, admitiu que levou o PM Luiz Paulo Dominguetti a um jantar com o então diretor de Logística do ministério. O jantar foi apontado como evento de pedido de propina, o que o depoente negou.

Não fui eu, foi meu eu lírico

O empresário e ex-assessor do Ministério da Saúde, Airton Soligo, tentou diminuir a sua importância nas decisões que eram tomadas pelo Ministério da Saúde nos dois meses em que esteve à serviço da nação. Cascavel depôs como testemunha e apoiado por um habeas corpus que, segundo ele, foi conseguido por seus advogados contra a sua vontade.

Apesar de jurar ter atuado apenas como um despachante informal para secretários de Saúde de todo o país, o empresário era visto como braço direito de Pazuello na pasta. Soligo era tão importante que, segundo as bocas miúdas, fazia cosplay de ministro da Saúde quando o general estava ocupado tomando chá no Planalto.

Fui eu, e também o meu eu lírico

A CPI da Covid também levantou dados sobre como o presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da Casal Civil, o general Braga Netto, interferiram na Saúde enquanto Mandetta eram ministro. As ordens do Planalto, documentadas em papel timbrado, tinham como foco a “unificação da narrativa” do governo, um ótimo sinônimo para “não vamos deixar o cara trabalhar”. Depois não adianta reclamar que foi derrubado, hein.

A semana da pandemia

Vamos ao nosso resumo semanal do inferno:

  • O governo de São Paulo teve que ameaçar ir à Justiça para receber 228 mil doses de vacinas que tinham sido prometidas pelo Ministério da Saúde.
  • 94% das mortes registradas no Mato Grosso por covid-19 entre janeiro e julho foram de pessoas não imunizadas.
  • Já no Rio de Janeiro, 95% dos internados não estão imunizados.
  • 45% das amostras de vírus analisadas no Rio de Janeiro nas últimas semanas foram da variante delta.
  • Estados do Norte e do Nordeste, que contam com população mais jovem, estão com problemas para vacinarem as suas populações rapidamente.
  • Especialistas avisaram que retomar os planos de abertura, no cenário atual, é algo irresponsável. Todos foram solenemente ignorados pelo poder público.

A eleição é logo ali

2022 chegará em um suspiro e Jair Bolsonaro sabe disso. Tanto sabe que está até transformando a finada “TV Lula” em “TV Bolsonaro”. Documentos obtidos pelo TSE demonstram que o presidente utilizou a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) para fins políticos, o que pode se tornar um crime eleitoral com potencial de inelegibilidade a depender do humor da elite política nacional.

Enquanto passeia pelo país na sua motinha, o governo gasta algumas dezenas de bilhões de reais para tentar alavancar a popularidade do presidente. As medidas incluem subsídio de combustível fóssil, o novo Bolsa Família e o aumento dos salários dos servidores. Resta perguntar para Paulo Guedes de onde é que ele tirará verba e apoio político para bancar isso tudo sem colocar o Planalto na mira da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não custa lembrar: Dilma Rousseff (PT) caiu sendo acusada de cometer pedalas fiscais principalmente (mas não somente) no seu primeiro mandato. O impeachment foi possível, entre outras coisas, graças a um entendimento criativo — e conveniente — de que os atos pré-2015 poderiam ser punidos após o início do seu segundo governo. Se eu fosse Bolsonaro, tomava cuidado com o Posto Ipiranga.


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A Nova Era – semana #135: após as notícias ruins, temos as horríveis

Enquanto o Brasil afunda (literalmente), passamos a última semana nos preparando para a volta da CPI da Covid. Que ela seja mais quente do que o sul e o sudeste nos últimos dias.

Antes disso, a nossa história foi queimada e o nosso futuro democrático, ameaçado. No meio do caminho, a Justiça percebeu que nota de repúdio não funciona.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #135 de governo Bolsonaro.


The following takes place between jul-27 and ago-02


Querida, cheguei

A entrada (oficial) do centrão no governo Bolsonaro foi oficializada. O presidente entregou a “alma do governo” ao Progressistas para melhorar a relação do Executivo com o Legislativo. Não é a primeira vez que isso acontece e, via de regra, o PP geralmente entra em governos procurando outras coisas.

Como consequência, o senador Flávio B. (Patriota-RJ) agora é suplente na CPI da Pandemia. Já os deputados do PP ganharam calafrios: todo mundo em suas bases está odiando o presidente que eles apoiam.

Realidade paralela

Jair Bolsonaro utilizou a noite de quinta-feira para mentir em uma live. Disse que as eleições de 2018 foram marcadas por urnas falhas. É mentira, mentira das bravas. Também disse que o sistema brasileiro é usado somente no Butão e em Bangladesh, o que também é mentira: outros 46 países fazem uso de urnas eletrônicas.

Dias após afirmar que as eleições de 2014, auditadas pelo PSDB, foram fraudadas — mesmo com o PSDB dizendo que não era o caso — ele também afirmou que o sistema brasileiro seria inauditável. Outra mentira. Falando em auditoria, ele afirmou que voto impresso é mecanismo adicional de auditoria, ignorando que isso só torna a eleição menos segura.

Na sequência, Bolsonaro apontou que há uma sala secreta no Tribunal Superior Eleitoral em que a apuração dos votos é realizada, o que é outra uma mentira. Sobre as urnas, disse que elas não evoluíram desde 1996, o que tem o mesmo grau de verdade do que a afirmação de um suposto hacker sobre a possibilidade de invadir o sistema do TSE: zero.

Ainda sobre as urnas, Bolsonaro validou o discurso de que a tecnologia brasileira da urna eletrônica é de geração única e que é possível alterar o código-fonte do equipamento. Em ambos os casos, o presidente mentiu. Também é mentiroso o vídeo referenciado por ele ao dizer essas coisas.

Bolsonaro disse que os resultados demoram a serem disponibilizados pelo TSE, o que é uma mentira absurda até para os seus padrões. Disse que existiram fraudes em 2018 (mentira), em 2014 (mentira), em Caxias (MA) (mentira) e problemas na apuração de São Paulo em 2020 (mentira). Não adianta o presidente se esconder sobre o argumento da soberania popular por meio do voto: uma mentira contada 1000 vezes ainda é uma mentira.

Cheiro de botina

A live foi uma obra do ministro (e militar) Luiz Eduardo Ramos, que descobriu um empresário paulista que jura ter provas de que Aécio Neves venceu Dilma Rousseff em 2014. Ao lado do coronel Eduardo Gomes, Ramos fez o media training do presidente antes que ele fosse ao ar. A ação provavelmente foi combinada com os generais da caserna, que soltaram nota por meio do Clube Militar afirmando que “o prazo final para a resolução desse imbróglio, visando as eleições de 2022, será outubro. Esperamos que não seja um outubro vermelho, mas sim verde e amarelo, pelo bem do Brasil”.

Queima de arquivo

Enquanto Bolsonaro mentia em praça pública, um incêndio atingiu a Cinemateca Brasileira. O depósito atingido tinha pelo menos duas mil cópias de filmes, além de documentação histórica. A instituição estava sem verbas para funcionar corretamente há alguns anos, mas a situação piorou bastante após 2019, quando o contrato para administração do órgão foi encerrado pelo governo e uma enchente atingiu o local.

Em janeiro, uma licitação para a prevenção de incêndios na instituição foi suspensa. Pouco tempo depois, o Governo Federal afirmava que a Cinemateca tinha plenas condições de segurança, mas se recusava a publicar imagens do local. O resultado de todo esse descaso ainda não está mensurado, mas o incêndio certamente não aconteceu por falta de aviso.

Dava para ser diferente?

Além da gradual e progressiva redução de recursos direcionados pelo governo Bolsonaro às instituições de memória do nosso país, o mau trato com a nossa memória também é simbólico. No último final de semana, o Museu da Língua Portuguesa foi reinaugurado com a presença dos presidentes de Portugal e de Cabo Verde, além dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Jair Bolsonaro foi passear de moto em Presidente Prudente (SP) e não enviou representante para o evento.

Voz do Brasil (paralelo)

As 15 pessoas que ainda apoiam o presidente se reuniram neste final de semana para pedir voto impresso nas ruas. Bolsonaro validou os protestos e, em vídeo, disse que “sem eleições limpas e democráticas não haverá eleição”. A fala veio logo após integrantes do centrão pedirem moderação a Jair.

É melhor o pessoal do voto impresso zapear mais alto, já que Arthur Lira (PP-AL) não está escutando. Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, as chances de mudanças no sistema de votação serem aprovadas são mínimas — e estão em queda.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

  • Após se reunir com neonazista da Alemanha, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) fez propaganda de neonazista argentino.
  • Bolsonaro gosta de: imposto baixo para o skate. Bolsonaro não gosta de: imposto baixo para arroz e feijão.
  • Volta das aulas presenciais com protocolos mal seguidos pode aumentar o número de casos por covid-19 em até 1.141%.
  • Não só Lula está livre: Haddad também.
  • O Ministério do Trabalho e Previdência está de volta, longe do Paulo Guedes, perto do Onyx Lorenzoni.
  • Quer imposto sobre grandes fortunas? Vote Ciro, não Lula (mas saiba que o Ciro não aprovaria essa medida).
  • Arthur Lira (PP-AL) defendeu o fundão eleitoral e disse que, sem verba pública, campanhas podem ser bancadas por milícia e tráfico (mais ou menos igual hoje).
  • O Serpro comprou um pacote de R$ 200 mil em anúncios do Twitter, sem afirmar o que deseja divulgar.
  • A frente fria que atingiu o Brasil nos últimos dias pode impulsionar a inflação a 7% (e não tem agricultor armado que evitará isso).
  • A Lei Rouanet será modificada (para pior).

A triste vida de Paulo Guedes

O ministro da Economia deveria se preocupar mais com a economia (e o centrão) do que se preocupa com a qualidade do trabalho do IBGE. Enquanto o ministro critica o fato da instituição ter informações mais precisas que o Caged sobre a situação do mercado de trabalho, os parlamentares que agora apoiam o presidente estão trabalhando para tirar mais uma secretaria do Ministério da Economia e transformá-la em ministério.

A luta do centrão é para recriar o Ministério do Planejamento, que seria integrado a atual Secretaria de Orçamento Federal (SOF). Guedes sempre foi um defensor de um orçamento controlado mais pelo parlamento do que pelo Poder Executivo, mas temos a impressão, aqui na redação, de que ele não estava falando disso quando apoiou publicamente a ideia no final de 2019.

Também seria interessante Guedes direcionar a sua atenção para outros problemas urgentes, como os R$ 90 bilhões em precatórios que devem ser pagos em 2022. Melhor do que criar soluções inusitadas (ou potencialmente criminosas) para o problema, o ministro poderia admitir que não sabe o que está fazendo em Brasília e voltar a ser palestrante em período integral. A máscara de liberal entre bolsonaristas já caiu, mas o mercado de lorota conservadora-liberal nunca esteve tão aquecido.

Funcionários do mês

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, afirmou à Polícia Federal que o presidente Jair Bolsonaro fez um “pedido verbal” para que ele apurasse denúncias de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin. O caso teria sido encaminhado para o então secretário-executivo da pasta, o coronel Elcio Franco, também verbalmente. Franco não teria encontrado qualquer problema no contrato.

Até aí, tudo mais ou menos bem. O coronel Elcio Franco era o responsável, no ministério da Saúde, por gerenciar a compra da Covaxin. Segundo os irmãos Miranda, que fizeram a denúncia de problemas ao presidente, parte das pressões pela compra da vacina vinham de subordinados de Franco, o que certamente é um sinal de que Franco está comprometido com a verdade e nada mais do que a verdade.

O império (da Lei) contra ataca

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, determinou que as investigações do inquérito que apura as acusações de interferências na Polícia Federal fossem retomadas. A acusação partiu de Sergio Moro e foi direcionada para o presidente Jair Bolsonaro. Os que contam com ótima memória se lembrarão de que há um vídeo em que o presidente diz coisas bem parecidas com as que seriam ditas caso ele quisesse acabar com a autonomia do órgão.

Inicialmente, a decisão de Moraes foi vista como uma resposta à participação do ministro da Justiça na live em que Bolsonaro disse mentiras sobre o sistema eleitoral. Se enganaram: ela é apenas o primeiro de vários passos que o cosplayer de Michel Foucault pretende dar após Luiz Fux tentar, mais vezes do que o recomendável, domar o presidente.

Ontem (02), por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral pediu para que o STF investigue o presidente por disseminar notícias falsas sobre as urnas eletrônicas. O pedido foi realizado na mesma data em que Bolsonaro afirmou que Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, queria “eleições sujas”. Alexandre de Moraes — pois é — é o relator do pedido.

O TSE também abriu um inquérito administrativo sobre as declarações de Bolsonaro. Essa investigação tem o potencial de torná-lo inelegível no próximo ano. A apuração de ofício foi realizada sem passar pelo Ministério Público Eleitoral.

Morde e não assopra

As ações da Justiça se deram após o presidente do Supremo, Luiz Fux, discursar afirmando que a busca pela harmonia entre os Poderes não deve ser interpretada como sinônimo de “impunidade”. O juiz lembrou que os “juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças”.

Pelo visto, este momento chegou, goste Bolsonaro ou não. Ainda bem.

A semana da pandemia

It shrinks?

Secretários da Saúde de todo o país pressionaram o governo federal para autorizar a redução do prazo entre as duas aplicações da vacina da Pfizer para 21 dias. Este é o período recomendado pelo fabricante, mas o governo adotou o prazo de 3 meses em função da escassez do imunizante. Em resposta, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que isso só acontecerá após todos os adultos receberem a primeira dose do produto.

Preparando o camarote

João Dória (PSDB-SP) está liderando o bonde do “abrimos tudo e estamos seguindo todos os protocolos”. O governador de São Paulo avisou que, a partir de 17 de agosto, quase tudo voltará à normalidade. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM-RJ) mandou dizer que rolará até festa para comemorar o fim da pandemia. Falta dizer quais variantes ele quer na sua festa.

Follow the money

Enquanto isso, um jornalista alemão denunciou uma campanha para utilizar influenciadores para disseminar mentiras sobre a vacina da Pfizer. No meio dessa história, há um brasileiro: Emerson Zóio, que conta com 12 milhões de seguidos no YouTube e 3 milhões no Instagram.

Onde o auxílio emergencial não chega

Em São Paulo, a combinação de crise econômica, sanitária e social fez famílias migrarem para as ruas após perderem empregos e casas nos últimos meses. No meio de lixo e frio, essas pessoas tentam retomar a vida e manter os filhos vinculados ao sistema público de ensino. Cenário semelhante é encontrado em outras capitais de todo o país.

Justa causa? Justa causa

Quem ainda tem emprego, mas não quer se cuidar é melhor abrir o próprio MEI. A Justiça do Trabalho autorizou demissão por justa causa de uma trabalhadora que furou quarentena enquanto estava suspeita de ter pego covid. Exemplos semelhantes devem se repetir quando a vacinação já atingir toda a população economicamente ativa.

Solidariedade demoníaca

O Ministério da Saúde travou R$ 666 milhões que tinham sido reservados pelo Congresso para o combate à pandemia. O dinheiro deveria ser enviado para ajudar os estados e municípios nas suas medidas sanitárias. A pasta não explicou o motivo para os recursos não terem sido utilizados.

Também falta aos brasileiros saber o seguinte: variante delta ou vacinas, os dois a 80 km/h, quem mais impacta a pandemia?


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A Nova Era – semana #134: só não vale dançar homem com homem

Chegamos ao fim de mais uma semana do governo Bolsonaro. Nos últimos 7 dias aprendemos que se gritar pega centrão, o Bolsonaro fica amarradão.
Figuras como Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Paulo Guedes estão com tanto poder prático quando as emas do Planalto. Já o “Arenão” abocanha mais nacos do poder que o Arena abocanhava na ditadura civil-militar. Aparentemente a História não está rimando apenas em São Paulo, onde estátua de bandeirante — aquele pessoal que queimava indígena sempre que possível — pega fogo.

Confira tudo isso e muito mais a seguir.


The following takes place between jul-20 and jul-26


Passando uma nova demão de tinta e chamando de reforma

O planalto central está em reforma. Para garantir que o impeachment continue a ser um sonho molhado de muitos brasileiros, o presidente resolveu abrir espaço em seu governo para o Partido Progressista. Perdem espaço Guedes e Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e ganham espaço Ciro Nogueira (PP-PI) e companhia limitada.

O senador Ciro Nogueira será o novo chefe da Casa Civil (sujeito a mudanças), já o general Luiz Eduardo Ramos trocará a Casa Civil pela Secretaria-Geral da Presidência. Onyx Lorenzoni, por outro lado, abandonará a Secretaria-Geral para cuidar da geração de empregos no novo, novíssimo, de última geração, Ministério do Trabalho.

No meio desse processo, Ramos descobriu como é ser Paulo Guedes por um dia. As mudanças foram articuladas pelas suas costas. Já o ministro da Economia, diante de tudo o que acontecerá com uma Casa Civil comandada pelo centrão, ainda não conseguiu admitir que está cada vez menos ministro e menos economia.

O que aprendemos com essa história? Que hábitos antigos, como abraçar o centrão, morrem com muita dificuldade.

Engana trouxa

O fundo eleitoral aprovado pelo Congresso, se distribuído igualmente a todos os candidatos, daria um valor próximo de R$ 250.000,00 para cada postulante a um cargo nas eleições de 2022. Bolsonaro sabe que entregar R$ 250 mil para cada petista brasileiro não é algo muito popular entre a sua base. O que ele fez então?

Bem, primeiro ele fez de conta que não tinha nada a ver com a aprovação do projeto. Depois disse que o ajuste foi feito de acordo com a inflação do período, ou seja, que não era um aumento real. Não contente, insistiu que vetaria a nova cifra.

Depois, o presidente mudou de ideia e resolveu apenas dobrar o valor do fundo de financiamento eleitoral. O problema é que não há como vetar só R$ 2 bilhões: ou veta tudo e manda um novo projeto ao Congresso, ou não veta nada. Mas todas as escolhas são muito difíceis.

De recesso, mas com dados novos

A CPI da Covid não deixa de ser uma caixinha de surpresas, mesmo quando está sem depoimentos novos. Na última semana, a análise dos documentos que a Precisa Medicamentos enviou para a Advocacia-Geral da União encontrou uma larga quantidade de indícios de fraudes. A Bharat Biotech, fabricante da Covaxin, rompeu o contrato com a Precisa Medicamentos e reconheceu que a documentação apontada pela CBN é falsa.

Em outros tópicos, Mayra Pinheiro, conhecida como “capitão cloroquina”, caiu na net. A gestora do Ministério da Saúde teve uma reunião online entregue para a CPI da Covid. No vídeo, Pinheiro é preparada para o seu depoimento, dado em maio, e ensinada de que não há provas de que o tratamento precoce por ela divulgado funciona.

Na quinta vez é mais gostoso

Após muita confusão organizacional, partidos de esquerda, movimentos da sociedade civil e sindicatos ocuparam as ruas pela quinta vez contra o presidente Jair Bolsonaro. Os atos aconteceram em pelo menos 120 municípios. Em breve, teremos mais.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Tudo normal aqui

O ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, teria ameaçado o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que não haveria eleição em 2022 caso a Casa não aprovasse o voto impresso. A informação foi obtida pelo jornal O Estado de S.Paulo e não foi negada diretamente tanto por Lira quanto por Braga Netto.

Mas se os generais querem acabar com a democracia, eles precisam, primeiro, combinar com os russos. Ninguém duvida da falta de compromisso das Forças Armadas com a manutenção do poder nas mãos dos civis. Mas se elas querem ameaçar golpe com vontade e não tomar drible do centrão, é melhor ler algum livrinho de história e lembrar que, sem o apoio da parte mais fisiológica da política, não há golpe que se faça durar.

Em notas relacionadas, há algumas semanas a Polícia Federal saiu em busca de provas de fraudes no sistema eletrônico de votação, mas se recusa a mostrar se achou algum problema.

Tudo estranho por aqui

A deputada federal Joice Hasselman (PSL-SP) acionou a Polícia Legislativa após acordar em seu apartamento funcional coberta de ferimentos. Sem se lembrar como os sofrera, a deputada disse que o marido não foi o responsável pelas agressões e que a culpa, provavelmente, era de um inimigo político.

Até aí, tudo bem. A trama se intensificou após a Polícia Legislativa analisar as gravações do prédio em que mora a deputada ao longo do final de semana. Segundo a análise, nenhuma pessoa estranha ao local foi vista entrando ou saindo do prédio no período em que a agressão teria sido realizada.

Ainda há muito o que se desvendar dessa história. Mas nada indica que ela terá um final feliz.

Fogo no parquinho

Fabrício Queiroz, aquele que depositou muitos cheques na conta bancária da primeira dama, está procurando emprego e pedindo afeto. Afirmando que a sua metralhadora “está cheia de balas”, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) reclamou que está abandonado.

Queiroz deveria ter mais calma e pensar bem as suas palavras: gente que normalmente é acusada de se envolver com a milícia e que reclama muito não costuma viver até chegar a hora de aposentar-se por idade. Em todo caso, não podemos deixar de recomendar um advogado especializado em delações premiadas como um tipo de companhia ideal.

A semana da pandemia de covid-19

Vamos começar pela boa notícia: a média móvel de mortes por covid-19 continua em queda. Próxima de voltar a uma faixa abaixo de 1000 mortes, ela representa a certeza de que vacinas funcionam.

Agora vamos para a má notícia: o Brasil já soma mais de 100 casos da variante delta do coronavírus. Já temos, também, pessoas mortas pela nova cepa no Nordeste, no Sudeste e no Sul do país.

As coisas estão melhorando, mas podem piorar mais rápido do que gostaríamos. Menos da metade dos brasileiros já receberam a primeira dose da vacina e pelo menos nove capitais estão com dificuldades em receber imunizantes. O jeito é entrar para a Abin e receber vacina do exército na miúda.

Boas companhias

O presidente e deputados da base aliada do Planalto resolveram receber a deputada alemã Beatrix von Storch. Storch é vice-presidente do partido Alternativa pela Alemanha (AfD), neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler e defensora de ideias que a aproximam daquelas propagadas pelo ex-chefe do seu falecido avô. Além disso, seu partido é monitorado na Alemanha por ser considerado uma ameaça à democracia.

Quem abraça fascista aos risos pode ser chamado de fascista ou o presidente do Brasil tem carta branca para isso?


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Este texto foi escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Você também pode nos acompanhar no TikTok, no Twitter ou diretamente em sua caixa de entrada.

A Nova Era – semana #133: evitando o banheiro dia sim, dia também

A semana #133 de governo Bolsonaro foi, por assim dizer, complexa. Enquanto o presidente ficava ocupado com as suas situações intestinais, a CPI da Covid encontrou mais provas de que o Ministério da Saúde estava negociando vacinas com gente pouquíssimo confiável. E se você se assustou com as enchentes na Europa, fique tranquilo: o nosso desastre ambiental já está encomendado e pronto para entrar em vigor.

O estagiário pede desculpas pelo atraso da newsletter. Não é só o intestino do presidente que está funcionando em marcha lenta nos últimos dias.


The following takes place between jul-13 and jul-19


Travadão

Encontraram a razão dos dias de soluços constantes de Jair Bolsonaro: intestino travado e estômago cheio de fezes.

Sem conseguir ir ao banheiro, o presidente foi hospitalizado com um quadro de obstrução intestinal. O tratamento escolhido reproduziu as ideias do presidente e optou pelo conservadorismo. Após tentar se martirizar na web e contar algumas mentiras, Jair Bolsonaro foi liberado e voltou a usar a boca para expelir bostas não literais.

Subindo a temperatura

A CPI da Covid passou a semana pensando se vale a pena ou não peitar o ministro da Defesa, o general Walter Braga Netto, diretamente. Antigo ministro da Casa Civil, o general é suspeito de ter se envolvido em situação análoga à corrupção durante a negociação de vacinas. O Alto Comando das Forças Armadas adiantou que já está rascunhando mais uma nota de tom golpista caso o café de Braga Netto esteja frio.

Cansei

Falando na CPI, o depoimento de Emanuela Medrades, da Precisa Medicamentos, demonstrou que a Lei é muita coisa, menos uma ciência exata. Medrades utilizou um habeas corpus que lhe dava a liberdade de se manter em silêncio para não produzir prova contra si mesma, para não produzir prova alguma. Os senadores se irritaram e foram ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, pedir para explicar como as coisas funcionam.

Após um vai e vem de sete horas, Medrades ficou cansada e a sua fala foi remarcada para o dia seguinte, agora sem ela poder calar-se a qualquer momento. O resultadocontradições, a reprodução de alguns argumentos do Planalto e mais motivos para a CPI da Covid desconfiar que a Precisa Medicamentos está envolvida em situações que podem ser enquadradas como criminosas.

Constrangedor

Essa é a palavra que podemos utilizar para o depoimento de Cristiano Carvalho, o representante da Davati Medical Supply no Brasil. Carvalho confirmou que pessoas (civis e militares) do Ministério da Saúde pediram propina, digo, “comissionamento extra”, durante a negociação de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca — que já eram vendidas ao governo sem intermediários.

As conversas mostradas durante o depoimento causaram vergonha até mesmo para os mais governistas dos senadores que são capazes de ter esse tipo de sentimento (beijos, Flávio Bolsonaro). O nível de acesso da empresa ao governo chegou a ser comparado com o ghosting constante que era praticado pelo Planalto com o laboratório Pfizer.

Coincidência? Eu acho que não

A CPI da Covid não cutuca só militares, ela também cutuca gente da Polícia Federal. Os senadores suspeitam que as investigações da PF estão sendo utilizadas para interferir nos trabalhos da comissão. A PF, é claro, nega.

A ação estaria acontecendo de um modo bem simples. Nas vésperas dos depoimentos no Senado, a PF interrogaria os depoentes como interrogados — e não como testemunhas. Isso facilitaria a obtenção de habeas corpus como o que foi obtido por Emanuela Medrades e, consequentemente, deixaria a CPI sem respostas.

Muito dinheiro

O Congresso Nacional aprovou o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias para a elaboração do Orçamento da União de 2022. Com um déficit de R$ 170,47 bilhões, ele tem um teto de gastos impulsionado pela inflação em alta. O texto foi encaminhado para a sanção presidencial.

Entre as cifras que só importam para meia dúzia de pessoas, há um aumento da verba para o fundo eleitoral (algo que era esperado desde o instante em que o dinheiro público se tornou a principal forma de financiamento das eleições) e verbas para a realização do Censo Demográfico. O programa nacional de vacinação também ganhou prioridade — mas nada garante que Bolsonaro aumentará os seus esforços na área.

Bolsonaro disse que não tem nada a ver com as verbas para o fundo eleitoral que foram aprovadas com o apoio da sua base e afirmou que vetará o aumento do fundo. Faltou dizer se comprará a briga política que envolve manter o veto em pé e contrariar os interesses de seus aliados.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Em breve, na “editoria mutreta”

Foi ao ar um vídeo em que o general Pazuello afirmou se reunir com intermediários da Coronavac (que não podem vender vacina) para negociar a compra de 30 milhões de doses do imunizante, supostamente pelo triplo do preço. O acordo não chegou a ser fechado, o ministro negou o que disse ter feito em vídeo e a venda não era autorizada pelo instituto Butantan. Bolsonaro disse que não há nada de errado na história.

Também na “editoria mutreta”, uma empresa que faz a distribuição de imunizantes para o Programa Nacional de Imunização, a VTCLog, se tornou alvo da CPI da Covid. A VTCLog foi contratada pelo governo em 2018, quando Ricardo Barros era ministro da Saúde. O processo, anteriormente, era executado diretamente pela pasta, mas foi terceirizado a mando do então ministro, um ótimo gestor de operações, nas palavras de Paulo Maluf.

Por último — e não menos importante — o filho do presidente da Câmara, Arthur Lira, é dono de uma empresa que presta serviços para órgãos públicos e que teve as receitas impulsionadas nos últimos meses. A atividade principal do CPNJ é a representação de veículos publicitários diante do governo federal. O negócio não conta com sede, site ou e-mail institucional e o endereço que está vinculado ao registro oficial é o do apartamento dos pais de um dos sócios.

Orgulho de Montesquieu

Luiz Fux, presidente do STF, se reuniu com Jair Bolsonaro, os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para falarem sobre o espírito das leis. Mais especificamente, para reafirmar “o respeito às instituições e os limites impostos pela Constituição Federal”.

Para comemorar o aprendizado e demonstrar comprometimento com a ação, Bolsonaro atacou a credibilidade das eleições outra vez.

Desastre previsível

Estudo da revista Nature apontou que a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que ela consegue absorver. O principal motivo, naturalmente, são as queimadas, que seguem atingindo o bioma em uma escala que, hoje, é maior do que ontem, mas menor do que amanhã. O motivo secundário é o estresse causado pela queda de árvores: com menos árvores, as chuvas diminuem, a temperatura da região aumenta e as plantas não conseguem fazer fotossíntese como deveriam.

A semana da pandemia de covid-19

O Ministério da Saúde explicou por qual razão não aderiu à Covax Facility, iniciativa da OMS para a distribuição de vacinas em escala global, já em 2020. Segundo o Radar, os documentos foram entregues em setembro do ano passado pelo órgão. Porém, a resposta só aconteceu em março de 2021 por falta de pessoa com “conhecimento suficiente” de inglês para “emitir manifestação conclusiva”.

O ministério também reconheceu que o “kit covid” não serve para tratar covid-19. A pasta emitiu nota técnica para não recomendar o uso de medicamentos ineficazes no tratamento de quem está internado com a doença. Agora falta reconhecer, também, que eles não servem para a prevenção da covid-19.

A Anvisa também autorizou a realização de um estudo para medir a segurança da aplicação de uma terceira dose da AstraZeneca. O trabalho contará com o apoio dos voluntários que testaram o imunizante durante os ensaios clínicos. Estudos semelhantes já são realizados em outras partes do mundo e podem se tornar anuais.

Na área de boas notícias, a taxa de transmissão de covid-19 segue em queda. Outro número bom é o indicador de quantos brasileiros são favoráveis à vacina contra a doença: 94%, segundo o Datafolha.


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A Nova Era – semana #132: financiando golpismo com dinheiro público

Chegamos à semana #132 da Nova Era. Nos últimos dias a corrupção do governo Bolsonaro ficou mais próxima de Jair Bolsonaro e dos militares de alta patente em cargos comissionados.

Em resposta às acusações de corrupção, os chefes das forças armadas demonstraram a sua falta de apreço pela democracia — como se os livros de história já não estivessem cheios de exemplos disso. Falando em história, o Estadão chegou em 1985 e percebeu que Jair Bolsonaro foi um mal aluno quando esteve na academia militar. Pedir a queda do presidente se tornou uma escolha muito fácil.

Confira tudo isso e muito mais no resumo da semana #132 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jul-06 and jul-12


Mutreta

No dia 23 de junho o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência da República, brincou de mafioso e tentou desmentir o deputado Luis Miranda (DEM-DF). A sua argumentação tinha como foco mostrar que a nota de compra da Covaxin apresentada por Miranda na CPI da Covid era falsa. Para isso, Lorenzoni apresentou o que seria a nota verdadeira, em inglês, para todos os jornalistas.

O problema é que o documento é falso. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) debruçou-se sobre as duas notas e encontrou todo tipo de indicativo de fraude na base do argumento de Lorenzoni. A mentira do governo foi tão mal diagramada quanto a logo da Bharat Biotech na nota apresentada pelo governo.

Mutretona

Como se um ministro apresentando um documento fraudulento não fosse indicativo de coisa estranha o bastante, o depoimento da servidora Regina Célia Silva Oliveira, do Ministério da Saúde, também trouxe mais fogo para a fumaça que ronda a compra da Covaxin. Oliveira afirmou que não viu “nada atípico” na compra, mesmo tendo sido nomeada dois dias após os irmãos Miranda denunciarem os problemas para o presidente. A servidora aprovou o contrato mesmo com ele tendo ficado um mês sem fiscalização e a Precisa Medicamentos não ter entregado o primeiro lote acordado.

Mutretaça

Em notas relacionadas, a CPI da Covid também encontrou informações comprometedoras no celular do PM Luiz Paulo Dominguetti. O PM que intermediou a venda de vacinas da AstraZeneca por meio da empresa americana Davati Medical Supply, trocou mensagens afirmando receber informações diretamente do gabinete de Bolsonaro. Em um determinado momento, Dominguetti chega a afirmar que seria recebido pelo próprio presidente.

Tudo pode ser mentira, é claro. Mas os amigos do PM viam as ações do representante da Davati como um ótimo mecanismo de mobilidade social. Ninguém pensa em comprar um Jaguar sem esperar ter dinheiro para comprar um Jaguar.

Teje preso

Finalmente a CPI da Covid prendeu alguém. Roberto Ferreira Dias, que era diretor de Logística no Ministério da Saúde, foi o primeiro depoente a ter a sua prisão decretada pelo senador Omar Azis (PSD-AM). O motivo foi o mesmo que quase levou outros depoentes à cadeia: falso testemunho.

Dias é suspeito de pedir propina ao vendedor de vacina Luiz Paulo Dominguetti. Segundo Dominguetti, o pagamento deveria ser de US$ 1 por dose de vacina, o que dá mais ou menos um pastel e uma Coca para cada brasileiro vacinado. Dias negou as acusações e disse que o encontro no shopping em que o pedido tinha sido realizado era casual — não era.

O ex-diretor de Logística não conseguiu se afastar dos trabalhos da CPI por completo. A cúpula da CPI teria sido informada que Dias tem um dossiê detalhado sobre os dois grupos que trabalhavam para “conseguir um extra” na Saúde: o centrão e as Forças Armadas. À boca miúda, circula a ideia de que Azis decretou voz de prisão apenas para forçar o ex-diretor a entregar o documento.

Prevaricou?

Duas semanas após o deputado Luis Miranda acusar o presidente Jair Bolsonaro de não ter feito nada diante de uma acusação de corrupção, o presidente da CPI da Covid enviou uma carta inquirindo Bolsonaro sobre o tema. “Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição dos ombros deste experimentado político, o deputado Ricardo Barros”, escreveu.

Ao contrário do que diz o presidente, a suspeição em questão é crime. Mas Bolsonaro, pelo visto, não se importa. Na última quinta, em sua live, ele informou que não responderia à carta e que cagou para a CPI.

Bolsonaro não disse se cagará, também, para a Polícia Federal. A PF abriu um inquérito para investigar se o presidente prevaricou ou não e em quais circunstâncias isso pode ter ocorrido. Não deve ser muito difícil obter uma resposta: ontem, dia 12, Jair Bolsonaro afirmou que Mirando entregou-lhe “alguns papéis”, que ele prontamente “passou pra frente”.

O “passar para frente” foi direcionado ao então ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello. Ao fim e ao cabo, o vai e vem de Bolsonaro prejudica o governo em todas as frentes possíveis. Os deputados governistas ficam sem conseguir defender o governo na CPI, e o governo, se não se mover corretamente, pode se ver brigando com Arthur Lira (PP-AL), a única pessoa que pode dar abertura a um processo de impeachment no momento atual.

Arthur Lira é o atual presidente da Câmara. Este é o mesmo cargo que Eduardo Cunha ocupava quando colocou o processo de impeachment de Dilma Rouseff (PT) para rodar. A ação ocorreu horas após o Partido dos Trabalhadores recusar-se a defender Cunha no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

Se corrompeu?

Prevaricação não é a única acusação que pode atingir alguém com sobrenome Bolsonaro nas próximas semanas. No telefone do PM Luiz Paulo Dominguetti, há indicativos de que o presidente esteve pessoalmente envolvido na negociação da compra das vacinas. Em algumas mensagens, Dominguetti cobra de um interlocutor documentos que “Bolsonaro está pedindo” e diz que “o presidente tá apertando o reverendo”.

O reverendo, no caso, é Amilton Gomes, outro suposto intermediário da compra de vacinas. Gomes afirma que Dominguetti lhe ofereceu uma doação não especificada para que ele ajudasse na venda de vacinas à Saúde.

A primeira-dama também encontra-se em maus lençóis. Michelle Bolsonaro apareceu nas mensagens de Dominguetti como alguém que “está no circuito”. A CPI da Covid poderia nos ajudar a identificar qual circuito é esse.

Em paralelo a todas essas questões, a CPI da Covid também trabalha investigando o organograma do (suposto) esquema de corrupção que envolveu a compra de vacinas pelo governo federal. A lista de nomes vai até aos filhos do presidente. Segundo fontes ouvidas pelo Globo, os senadores já têm indícios de ações estranhas saindo de dentro da Casa Civil, quando esta era comandada pelo general Braga Netto.

Enquanto isso, como quem não quer nada, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), voltou a reclamar que a CPI da Covid não o convoca para depor. Apresentando o número de vezes que ele foi citado na comissão (96), Barros negou as acusações de que teria feito algo de errado. Para ele, a recusa da CPI em ouvi-lo tem nome: covardia.

Nós preferimos acreditar que é jogo político mesmo.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Godot vem aí?

A ex-presidente Lula (PT) está cada dia mais próximo de voltar a nadar na piscina do Planalto. Mantidas as condições de temperatura e pressão, o petista poderia vencer de Bolsonaro no primeiro turno de 2022. E os grandes nomes da Terceira Via? Não conseguem chegar em terceiro lugar direito nem se a sua intenção de voto fosse unificada em uma única chapa.

Os dados foram obtidos pelo instituto Datafolha. A pesquisa também indicou que o número de pessoas que não votaria em Lula e em Bolsonaro está na casa do único dígito. Portanto, quanto mais cedo a Frente Ampla Liberal Isentona Unida entender que Godot virá em outro dia, mais cedo ela conseguirá aceitar que terá que decidir entre ser governada pelo político do governo que roubou para financiar submarino que nunca viu a água do mar e o presidente do governo que tentou roubar para comprar vacina.

Impedir que Bolsonaro fique elegível antes de abril de 2022 pode ser uma ótima oportunidade para as terceiras vias (ou para Lula se eleger no primeiro turno). O presidente, que está com muita dificuldade para encontrar um partido, é reprovado pela maioria dos brasileiros. A maioria do país também considera Bolsonaro incompetente (58%), desonesto (52%), falso (55%), indeciso (57%), despreparado (62%), autoritário (66%) e pouco inteligente (57%).

O problema de recorrer à nº 1.079, de 10 de abril de 1950, é que você precisa, primeiro, combinar com os russos. E o general Hamilton Mourão não parece estar muito disposto a colocar as mãos no volante do Planalto.

Veja bem, não faltam brasileiros apoiando a pauta ou acreditando que o governo é cheio de gente corrupta (fora das elites que ainda abraçam Guedes, claro). O problema é que nem todo mundo nasce com a vaidade e a habilidade de conspirar de Michel Temer (MDB). Pelo sim, pelo não, sigam os donos do centrão.

Sobrou o golpismo

Diante de todas as pressões, o inacreditável Jair Bolsonaro recorreu ao golpismo. Ao longo de toda a semana, o presidente atacou o sistema eleitoral. De novo, novamente, mais uma vez, Bolsonaro afirmou que o sistema é fraudulento e que as eleições de 2022 só acontecerão caso o voto impresso seja aprovado.

No meio do caminho sobrou até o para o decadente Partido da Social Democracia Brasileira. Em suas redes sociais, Jair Bolsonaro publicou um vídeo no qual o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) falava da auditoria sobre as eleições de 2014 que o seu partido realizou como uma prova de que o sistema eleitoral contém espaço para fraudes. Os tucanos dizem o contrário.

O TSE trucou as acusações de Bolsonaro e continuou a cobrar do presidente a entrega de provas de fraudes em 2018 (ou em qualquer outro ano). Mesmo com a ajuda da Polícia Federal, Bolsonaro tem falhado nas suas tentativas de atender ao pedido. Restou aos presidentes da Câmara, do Senado e do TSE defenderem a democracia com poderosas notas de repúdio.

Falando enquanto exerce o direito de se manter em silêncio

Na lista de depoimentos menos barulhentos da CPI da Covid, a ex-gestora do Programa de Imunizações, Francieli Fantinato, é o destaque da semana. Apesar do direito de se manter em silêncio garantido pelo STF (e a recusa em jurar dizer a verdade), ela falou tanto que saiu da lista de investigados. Segundo Fantinato, “qualquer indivíduo que fale contrário à vacinação vai trazer dúvidas à população brasileira”.

Braço forte, corrupção amiga

Os senadores estão cada dia mais próximos de transformar joguete de palavras em acusação de corrupção fardada. Omar Azis, por exemplo, quase conseguiu arrancar de Roberto Dias o nome de quem estava no topo da cadeia que agiu para roubar dinheiro público durante a compra de vacinas.

Apesar de ter chegado ao Ministério da Saúde com a ajuda de civis, é importante lembrarmos que ele respondia a pessoas originárias das Forças Armadas brasileiras. Acima dele, estava um militar. Acima deste militar, estava outro militar. E na frente do comitê de crise contra a covid-19, estava mais um militar.

É tanta marca de bota no escândalo de corrupção que Aziz não aguentou e fez uma crítica à banda podre das Forças Armadas que agora é acusada de praticar corrupção. Os militares, que sempre foram vistos como bastiões de moralidade, sentiram o golpe: em nota conjunta, o ministro da Defesa, Braga Netto, e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica divulgaram nota golpista rechaçando a acusação e se dizendo aquilo que eles nunca foram (guardiões da Constituição).

O suspiro golpista não parou por aí. Em entrevista a’O Globo, o comandante da Aeronáutica, Carlos Alberto Baptista Junior, dobrou a aposta e demonstrou que os quartéis não estão ensinando para que serve a Constituição. Aviso do blog: não serve para ser rasgada como ela foi nos primeiros 130 anos de República.

A semana da pandemia

A média móvel de mortes por covid-19 segue em queda. Mas que fique claro: ela está baixa o bastante para mostrar que vacinas funcionam, mas não baixa o bastante para você organizar uma orgia no parque com os seus amigos e amigas.

A prefeitura de São Paulo acredita que o primeiro caso de contaminação pela variante delta na cidade ocorreu por transmissão local. O doente não viajou ao exterior ou teve contato com pessoas que tivessem viajado. Não custa lembrar: essa é a cepa que tem tudo para dominar os números de novos casos da doença como a Red Bull dominou a Formula 1 antes do começo da era híbrida da categoria.

Apesar dos avanços, os problemas na distribuição de imunizantes continuam. Em alguns lugares, há suspensão da vacinação por excesso de procurainclusive na ilegalidade. Em outros, há sobra graças aos sommeliers de vacina.

Mas nem todo é horrível. Na última semana, a Câmara dos Deputados autorizou o governo a quebrar patentes de remédios e vacinas em casos de emergência nacional (com votos contrários da liderança do governo e do oposicionista partido Novo). Que o Planalto use a caneta para quebrar a patente dos remédios certos.


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A Nova Era – semana #131: esperando incêndio e recebendo fumaceiro

O Brasil chega à sua semana #131 do governo Bolsonaro com o autoproclamado centro-democrático-de-verdade percebendo que, assim como quem depende da sua imagem para fazer dinheiro, ser contra o presidente pode dar mais lucro do que prejuízos. Já era hora.

Enquanto isso, a pandemia apresenta uma leve queda antes de sentir os efeitos da variante delta do coronavírus e a trama do escândalo de corrupção se adensa. Tudo isso e muito mais você encontra no resumo da semana #131 da nova era.


The following takes place between jun-29 and jul-05


Sua vida vale duas latas de Coca

A suspeita de que queriam “levar um por fora” na compra de vacinas cresceu na última semana. Reportagens reforçaram o envolvimento direto e indireto do líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), na tentativa de obter propina na compra de vacinas contra a covid-19. Tudo isso com o apoio de gente em cargo comissionado no governo federal.

O principal responsável por tornar a informação pública é Luiz Paulo Dominguetti Pereira. Ele se coloca como representante da Davati Medical Supply (depois das 18:00, já que em horário comercial ele é PM) e disse que o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, pediu duas latas de Coca Cola para dar para a empresa o direito de vacinar cada brasileiro (isso, é claro, se ela fosse realmente capaz de entregar vacinas). A compra não foi efetuada pelo ministério.

Saudades Piantella

A cobrança de propina teria sido realizada em um restaurante de shopping. Ao lado de Dominguetti e do funcionário do Ministério da Saúde estavam, também, um militar e um empresário de Brasília-DF. No dia seguinte, Dominguetti e Dias tiveram uma reunião oficial que incluía o coronel Elcio Franco, secretário-executivo do Ministério levado pelo general Eduardo Pazuello.

As tentativas de ganhar um extra com a vacinação de brasileiros também podem ter ocorrido entre março e maio. O deputado Luis Miranda (DEM-DF) acusou o lobista Silvio Assis de tentar comprar o seu silêncio diante das irregularidades na compra do imunizante indiano Covaxin. A oferta teria ocorrido na presença de Ricardo Barros.

Nada acontecendo aqui

Negando irregularidades, Marcelo Queiroga, o ministro da Saúde, decidiu exonerar Roberto Ferreira Dias da direção de logística da pasta. Ricardo Barros também avisou que jamais envolveu em esquemas de corrupção como os citados nas matérias com o seu nome na manchete. Já o governo, no lugar de negar a acusação, simplesmente suspendeu o contrato de compra da Covaxin.

Roberto Ferreira Dias foi demitido, mas não sem antes deixar um rastro de pequenas notícias que mostram a alta temperatura das suas costas. Em outubro do ano passado, Dias chegou a ser demitido por Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde. Voltou ao cargo com o apoio do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP).

No campo das informações desencontradas, a AstraZeneca informou que não opera com intermediários. Já a Davati, sediada nos EUA, confirmou que tentou vender vacinas ao governo Brasileiro com o apoio de atravessadores. A oferta, porém, não teria sido respondida pelo governo federal.

Atestando e dando fé

Em depoimento à CPI da Covid, Luiz Paulo Dominguetti reafirmou ser o representante comercial da Davati. Ele também reforçou a acusação de pedido de propina por parte de um funcionário do Ministério da Saúde em fevereiro deste ano. Jair Bolsonaro, ao comentar o tema, fez ironias e chamou os integrantes da comissão de “bandidos” (sem citar nomes diretamente ou encaminhar denúncia às autoridades competentes).

Cavalo de Troia

Do outro lado da história, Roberto Ferreira Dias, o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, avisou que talvez estivesse sendo vítima de uma armação. A declaração foi realizada horas após Dominguetti apresentar uma gravação na CPI que seria a prova de que o deputado Luís Miranda negociava com o representante de fato da Davati, Cristiano Alberto Carvalho, uma compra, segundo o PM, também de vacinas.

O problema é que Carvalho entrou em contato com a CPI e avisou que não era o caso. Já Miranda foi até o Senado desmentir o depoente pessoalmente e afirmar que a conversa se trata da compra de luvas. O celular do PM foi apreendido e, até o momento, sabemos que ele pretendia receber US$ 0,25 de comissão por dose vendida ao governo federal e que, segundo ele, Bolsonaro sabia de muita coisa.

A confusão fez o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acusar Dominguetti de ser um infiltrado do governo para desviar a atenção da CPI a assuntos realmente importantes — as suspeitas de corrupção envolvendo a compra da Covaxin. Se for o caso, o policial falhou na missão.

Agora não

Diante da denúncia de que o presidente prevaricou no caso Covaxin, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal para aguardar o fim da CPI antes de tomar qualquer decisão sobre a possibilidade de investigar ou não Bolsonaro. O pedido foi recusado pela ministra Rosa Weber.

Entre as possíveis testemunhas do inquérito, nós esperamos que Aras chame o vice-presidente Hamilton Mourão. O general disse em entrevista que a corrupção sempre “andou” no Ministério da Saúde. Agora falta falar quem é o responsável por ajudar nessa caminhada.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

  • O PL 490, que tem tudo para ser inconstitucional, avançou mais um pouco.
  • Em alta: o PIB, o desemprego e o seu custo de vida.
  • Representantes de 10 partidos estão se colocando contra a PEC do voto impresso. Falta combinar com as suas bancadas.
  • Tudo indica que todo o gasto que o Augusto Aras teve com lubrificante durante as suas visitas ao presidente não renderá um assento no STF.
  • A Fundação Palmares quer livrar-se da “dominação marxista” expurgando obras de ícones do pensamento progressista como Thomas Sowell e Machado de Assis.
  • A expectativa de vida ao nascer dos brasileiros caiu em 2020.
  • O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PDSB), assumiu a sua orientação sexual, criticou o presidente e disse que ter votado em Bolsonaro não é a mesma coisa de ter dado apoio a ele (mais ou menos nessa ordem).
  • A Amazônia registrou o maior número de focos de incêndio em junho para o mês desde 2007. A “temporada de queimadas” só será iniciada em agosto.
  • Investidores estrangeiros colocaram mais de R$ 60 bilhões na bolsa de valores brasileira no primeiro semestre de 2021. Entenda o que isso significa.
  • O Partido Novo é institucionalmente a favor do impeachment, mas a sua bancada mandou avisar que não é bem assim.

Frente meio ampla

No mundo dos que gostam de um teatro e procuram motivos para criar esperanças, movimentos sociais, partidos e bolsonaristas arrependidos protocolocaram um pedido de impeachment (mais um) na Câmara. Arthur Lira (PP-AL) já avisou que o Planalto já pagou a conta de luz que liga a trituradora de papel que dará ao pedido o mesmo fim dos outros 120 já apresentados.

O fato importante, porém, é que o “superpedido” conseguiu reunir uma sopa de letrinhas que começa no Unidade Popular e termina no Movimento Brasil Livre. Situação semelhante se repetiu no terceiro ato nacional contra o presidente: impulsionado pelas denúncias de corrupção, contou com o apoio institucional de movimentos liberais como o Livres e do diretório estadual do PSDB paulista.

Há quem continue insistindo que a meia dúzia de revoltados do PCO são um motivo relevante o bastante para não lutar contra o presidente nas ruas. Os movimentos de direita podem aproveitar que a Av. Paulista é grande e convocar as suas manifestações a qualquer momento. Mas se a ideia é esperar a pandemia acabar, o projeto só será colocado em prática em 2023, após a revelação do segundo escândalo de corrupção do segundo mandato do governo Bolsonaro.

A magia do silêncio

O empresário e trambiqueiro Carlos Wizard ficou em silêncio na CPI da Covid. Após citar Deus, negar a existência do gabinete paralelo e tentar vender um livro, o depoente fez uso do seu habeas corpus e calou-se. A boca de Wizard, pelo visto, só serve para rir de quem morreu de covid após ficar em casa.

Em notas relacionadas

A CPI da Covid não está focada apenas em rastrear possíveis esquemas de corrupção envolvendo a compra de vacinas. Nas atividades paralelas, a comissão tem investigado a propagação de notícias falsas durante a pandemia. A suspeita é que havia dinheiro público financiando o trabalho sujo.

Para tentar impedir que o seu nome continue a ser jogado na lama, o deputado Ricardo Barros foi ao STF pedir para ter o seu depoimento adiantado. Política é timing e, se a comissão continuar relevando os seus possíveis podres, ele pode perder o cargo de líder do governo Bolsonaro sem conseguir dar o seu show antes.

E de maneira completamente espontânea, a Polícia Federal indiciou o senador Renan Calheiros (MDB-AL) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O relator da comissão é acusado de ter recebido R$ 1 milhão em propinas da Odebrecht. Aqui, suspeitamos da denúncia e da sua integridade: alguém como o Renan não se venderia por tão pouco nem mesmo em épocas de vacas magras.

Trocando óculos

Falando em quem conta mentira com dinheiro de origem duvidosa, o ministro do STF Alexandre de Moraes arquivou o inquérito dos atos golpistas. Os trabalhos serão executados a partir de novas frentes, considerando o que foi obtido até o momento.

O foco das investigações não será mais a busca pelos financiadores das manifestações e o nível de legalidade deste processo. Agora, Moraes quer saber quem, no poder Legislativo ou no poder Executivo federal, estava envolvido nas ações. Boa sorte ao ministro.

Suposto ladrão que rouba suposto ladrão tem…

Para a surpresa de praticamente ninguém, mais uma pessoa ligada à família Bolsonaro está acusando a família Bolsonaro de realizar corrupção de baixo escalão. Dessa vez foi a ex-cunhada do presidente. Gravações obtidas pela jornalista Juliana Dal Piva implicam o presidente no esquema de “rachadinhas” (esse sinônimo bonito para peculato).

Bolsonaro foi acusado de demitir o irmão de Andrea após ele supostamente roubar o suposto roubo do atual presidente do Brasil. Em outro áudio, a filha e a mulher de Fabrício Queiroz também apontam Jair Bolsonaro como a gênesis de um esquema de roubo que passa por toda a família e que teria o envolvimento até mesmo de coronel da reserva do Exército.

O advogado do presidente negou as acusações. Aqui, fizemos cara de surpresa por 2 segundos.

Enquanto isso, no Brasil pandêmico

As coisas no Brasil da pandemia vão se encaminhando aos poucos (e aos trancos e barrancos) para o seu fim enquanto a média móvel de óbitos pela covid-19 cai conforme a vacinação avança. O maior desafio dos últimos dias, porém, foi a figura do sommelier de vacina, que não entende que os imunizantes não contam com eficiência comparável e gostam de brincar com a morte.

A Anvisa e o Instituto Butantan estão se bicando por conta dos testes da Butanvac,vacina produzida pelo instituto paulista 100% localmente. O Butantan quer encurtar o prazo de testes do imunizante, mas a agência sanitária não está animada com a ideia.

O Tribunal de Contas da União (TCU) avisou ao governo que ele terá dez dias para explicar por que o preço da Covaxin aumentou 50% entre a primeira e a última oferta de venda. O ministério também terá que informar ao TCU se houve ou não pesquisa de preços antes que o acordo de compra fosse finalizado.

E a gente? A gente, que é brasileiro, fica se perguntando se morar no Brasil ainda é pior do que morar fora dele.


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A Nova Era – semana #130: captain, it’s Brasil

A pandemia segue com o mesmo roteiro das últimas semanas, mas agora temos uma nova variante do coronavírus circulando no país. Enquanto isso, artistas, gamers e outras pessoas que precisam cuidar da sua imagem para fazer dinheiro perceberam que criticar o governo dá muito dinheiro.

Do lado do governo, há um novo escândalo para Bolsonaro chamar de seu. Não dá para dizermos o impacto que isso terá na sua popularidade, mas é um mal presságio para quem já aparece perdendo para o Lula no primeiro turno em pesquisa eleitoral, algo que o petista não conseguiu fazer nem quando o apagão se deu em um governo tucano.

Veja tudo isso e muito mais no resumo da semana #130 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-22 and jun-28


Racionamento de Schrödinger

O governo mandou avisar que, ao contrário do que afirma Arthur Lira, não teremos apagão em 2021 e em 2022. Sim, a conta de luz está aumentando em função da seca dos reservatórios, não há previsão de aumento de chuvas no futuro e a economia está, aos poucos, retomando os níveis de atividade pré-pandemia. Mas não há motivos para supor que a chegada das estações quentes, ao lado desses e outros fatores, impactará na nossa habilidade de acender uma lâmpada sem pagar o preço de um filet mignon (quando a energia chegar na nossa casa, claro).

É só ser educado, ignorar o Ibama e torcer a favor do país que dará tudo certo. Mas torça analogicamente, pois a bandeira tarifária ficou 52% mais cara somente nesta semana.

Números horríveis

Os últimos dias não foram de felicidade para quem se importa com a catástrofe climática que se avizinha no horizonte. Mesmo com a saída de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente (mais sobre isso adiante), as más notícias na área se acumulam como troncos de madeira cortados ilegalmente em um porto no alto do rio Amazonas.

A Câmara dos Deputados, por exemplo, quase votou uma alteração no Estatuto do Índio que não contava com o apoio dos indígenas. O texto mudaria o marco temporal para demarcação de terras indígenas e, basicamente, jogava no lixo todo o trabalho de reconhecimento de terras feito pelas autoridades após o dia 5 de outubro de 1988. Após o protesto de 700 indígenas, a decisão foi adiada.

Enquanto isso, no Pantanal e na Amazônia Legal Brasileira os indicadores de incêndio e desmatamento seguem muito melhores do que os do futuro, mas certamente bem piores do que os do passado. Segundo o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), as queimadas no Pantanal destruíram, a cada hora, o equivalente a 444 campos de futebol. Já o Instituto Socioambiental (ISA) descobriu que a taxa de desmatamento da Amazônia Legal Brasileira foi, em 2020, a maior em 12 anos.

Vale destacar, também, que o volume de apreensão de madeira ilegal pela PF só de janeiro a maio deste ano já é maior do que a quantidade interceptada desde 2018. Os dados foram obtidos pelo Achados e Pedidos, em parceria com a Fiquem Sabendo e a Abraji. Nada disso teria acontecido sem a ação humana.

Sai o vaqueiro, mas continua a passagem da boiada

Ricardo Salles não é mais um membro do governo Bolsonaro. Após garantir a queda de outro delegado da Polícia Federal que atuou na operação Akuanduba e receber elogios públicos do presidente, o agora ex-ministro do Meio Ambiente pode focar em outros projetos. O blog apoia a articulação para o afastamento de um deputado federal do partido Novo apenas pelo poder de entretenimento que o uso da sua suplência poderia causar.

O agora ex-ministro deixa para trás um rastro de desmatamento, queimada de florestas e frases dignas de quem só se importa com a opinião de madeireiro envolvido em atividade ilegal. Salles poderá aproveitar bastante o outono, o inverno, a primavera e o verão em solo brasileiro. Ao contrário de Abraham Weintraub, ele não poderá sair do país tão cedo.

Ricardo Salles continua a ser investigado pela operação Akuanduba. Os seus inquéritos podem sair do STF, o que o ajudaria a comprar tempo antes de ser julgado pelas suspeitas reveladas pelo Intercept em março do ano passado. E a situação não é lá muito favorável: mesmo tentando esconder o que está em seu telefone, a PF já levantou dados bem pesados sobre o ex-ministro e o blog não vê a hora em que assistiremos aos próximos episódios dessa saga.

Me engana que eu gosto

No lugar de Ricardo Salles entrou Joaquim Pereira Leite, até então secretário da Amazônia e Serviços Ambientais. O novo ministro é uma cópia do ministro anterior. Mesmo assim, fundos estrangeiros avisaram que estão com a esperança de que mudanças na área ocorrerão.

Esqueçam o que eu escrevi

Enquanto tudo isso acontecia, Osmar Terra foi à CPI da Covid dar o seu relato sobre a atuação do governo e as suas teses furadas. O aliado do governo foi confrontado sobre as teses de imunidade de rebanho e admitiu que aconselhou o presidente. Entre uma mentira e outra, insistiu no discurso negacionista e negou o que disse no verão passado.

Aula de epidemiologia e tapa de luva em arrombado

A CPI da Covid também escutou, no meio do escândalo da Covaxin (leia sobre isso a seguir), o epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal. Ao lado da diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, os senadores aprenderam como se combate uma pandemia e a porcentagem de mortes que poderiam ser evitadas se o governo não agisse como quem quer fazer um genocídio (80% das mais de 500 mil já registradas). Alguns senadores, em especial, aprenderam, também, como é receber um tapa de luva científico em cadeia nacional, mas isso é detalhe.

Minha mutreta, minha vida

A CPI da Covid e o Ministério Público Federal começaram a investigar a compra da vacina Covaxin. Produzida na Índia, a sua compra está cercada de indícios de crime. A falta de correções no contrato, o alto preço das vacinas e o fato de sócios da Precisa estarem envolvidos em outras investigações na Saúde são alguns deles.

A investigação, até então, estava restrita à esfera cível. A importação seria realizada por meio da Precisa Medicamentos e contou com o apoio do líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR). A negociação para a compra do imunizante foi a mais cara e mais rápida feita por um governo federal que não queria comprar vacina cara.

Tudo normal por aqui

A Precisa Medicamentos, por sinal, é um fenômeno. Durante o governo Bolsonaro, seus contratos com a União cresceram 6.000%. O seu dono, Francisco Maximiano, é dono de outra empresa (que vendeu e não entregou medicamentos ao governo) e contou com a ajuda do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) para receber apoio financeiro do BNDES. Logo após a ação, Flávio B. comprou uma mansão de maneira bem suspeita.

Agora é tarde

Como resposta às acusações de corrupção, o governo federal cancelou a compra da Covaxin a pedido da CGU enquanto essa edição era finalizada. R$ 1,6 bilhão já tinha sido empenhado para a compra dos imunizantes. Apesar de ser uma boa notícia, ela não livra ninguém que eventualmente tenha cometido delitos de ser preso.

Segundo os irmãos Miranda, Bolsonaro ouviu as acusações e disse que encaminharia o caso à Polícia Federal. Segundo a PF, nenhum pedido nesse sentido foi realizado. Toda a história foi levada a público com o apoio do presidente da Câmara, o deputado federal Arthur Lira (DEM-DF).

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Quem tem, tem medo

Falando em quem pode ter (ou não) cometido delitos, o sócio-administrador da Precisa, Francisco Emerson Maximiano, recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a quebra de seus sigilos. A abertura dos dados foi determinada pela CPI da Pandemia. Maximiano, por sinal, deveria prestar depoimento à comissão, mas a sua fala foi remarcada após ele alegar estar em quarentena após uma viagem à Índia.

Abrindo a boca informalmente

O deputado federal Luis Miranda disse à imprensa que o presidente Jair Bolsonaro foi alertado sobre as possíveis irregularidades na compra da Covaxin. Além disso, segundo Miranda, o general Eduardo Pazuello perdeu o posto de ministro da Saúde por não ceder à essa tentativa de corrupção de agentes públicos. O alerta a Bolsonaro teria sido realizado pessoalmente pelo irmão do deputado, Luis Ricardo Fernandes Miranda, que é servidor do Ministério da Saúde.

Curso de mafioso 101

Onyx Lorenzoni não gostou de saber que essa história foi a público. Para demonstrar isso, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência nos deu uma aula sobre como a máfia lida com quem fala mal dela. Com muita agressividade e citação cristã, avisou que o deputado e seu irmão seriam investigados por avisar ao povo que o governo deveria investigar operações suspeitas.

O ministro negou que o governo tenha feito algum pagamento à Precisa. O dinheiro só foi reservado para o pagamento do contrato — que foi anunciado em fevereiro.

Onyx também afirmou que o recibo de importação apresentado pelos irmãos era falso. Faltou combinar com o Ministério da Saúde: o documento está disponível para consulta no sistema da pasta e a própria empresa responsável pelo envio admitiu a sua veracidade.

Pode vir quente que eu não estou tremendo

Miranda reagiu afirmando que pediria à CPI da Covid-19 a prisão do ministro por coação de testemunha. O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), conhecendo quem realizou as ameaças de colocar os Miranda para conversar com Deus, pediu segurança para ambos e seus familiares. Já o senador Renan Calheiros (MDB-AL), ameaçou atender aos pedidos de Miranda.

Abrindo a boca formalmente

Em depoimento à CPI da Covid, os irmãos Miranda deram mais detalhes sobre o caso. A informação mais importante, porém, foi deixada para o final do dia: segundo o deputado, assim que o presidente Jair Bolsonaro soube do esquema, apontou o líder do governo na Câmara como o responsável pelo “rolo” (Ricardo Barros nega as acusações).

Os irmãos também insinuam terem gravado a conversa com Jair Bolsonaro. Se verdade, a gravação pode causar um impacto maior do que o bloqueio de Luis Roberto ao sistema do Ministério da Saúde.

Pega, pega, pega

Após tudo isso acontecer, os senadores Randolfe Rodrigues, Fabiano Contarato (Rede-ES) e Jorge Kajuru (Podemos-GO) apresentaram uma notícia-crime no Supremo contra Jair Bolsonaro. Os senadores querem que o presidente seja investigado pela suspeita do crime de prevaricação nas negociações da compra da Covaxin.

O caso ficou com a ministra Rosa Weber. A ministra, na última semana, já avisou que há “grave suspeita” de indícios de favorecimento e obtenção de vantagens indevidas no processo de compra da Covaxin. Resta saber, agora, se Bolsonaro adotará uma estratégia tão eficiente quanto a de Michel Temer.

Balança, mas cai?

O partido do deputado Luís Miranda, o PP, reagiu a tudo isso discutindo a possibilidade de realizar uma representação contra o deputado no conselho de ética da Câmara. Mas sabendo que ele pode ter uma gravação de Bolsonaro, viram que o lugar certo para enviar o boleto era o Palácio do Planalto, não a casa de Miranda.

Enquanto isso, a CPI quer fechar o cerco ao líder do governo. A ideia é ampliar as investigações para apurar possíveis irregularidades na compra de testes contra Covid-19. Além disso, o líder do governo seria convocado a depor nos próximos dias.

Bolsonaro pode até tentar entregar a cabeça do líder de seu governo para a CPI. A medida deixaria os senadores alegres e diminuiria a pressão sobre o Planalto. Mas Barros já foi Ministro da Saúde no governo Temer, relator do orçamento de 2015 do governo Dilma, vice-líder do governo Lula e líder do governo na Câmara nos tempos de FHC, o que nos faz imaginar que o nome mais forte dessa briga é Barros, não Bolsonaro.

Em notas relacionadas

A compra da Covaxin não é a única que entrou no radar da CPI da Covid. A comissão também investigará a negociação feita pelo Ministério da Saúde para a compra de 60 milhões de doses da vacina Convidecia. A compra custaria R$ 5 bilhões e foi intermediada por uma empresa investigada pela Polícia Federal e que teve a participação dos empresários Carlos Wizard e Luciano Hang.

A Belcher Farmacêutica do Brasil é suspeita de fraudar a venda de testes de covid-19 para o Distrito Federal. Um dos sócios é filho de Francisco Feio Ribeiro, que é ligado a Ricardo Barros. O negócio foi cancelado após o laboratório CanSino, responsável pelo imunizante, descredenciar a farmacêutica brasileira.

Já a ex-mulher de Eduardo Pazuello resolveu abrir a boca na CPI da Covid — se a comissão tiver interesse. Andréa Barbosa enviou um e-mail elencando os pontos que poderia abordar sobre a atuação do ex-marido na pasta. A sinopse é digna do que se espera de um general brasileiro.

Bolsonaro mandou avisar que não tinha como saber tudo o que acontece nos seus ministérios — o que não livra ele de ser acusado de ter cometido crimes. O centrão quer esperar a gravação da conversa antes de fazer algo. Já Kassab mandou a letra: a situação está ruim e deve piorar.

A lição que fica é a seguinte: se presidente de nação latina subdesenvolvida, evite associar-se a alguém que tem USA e emoji da bandeira dos Estados Unidos no nome.


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A Nova Era – semana #129: morte, fome e inflação

A última semana foi assim: quem não estava correndo atrás do abraço de um evangélico, estava sobrevivendo, falando absurdos, se filiando ao PT ou sendo investigado pela CPI da Covid. O enfrentamento da pandemia continua tão bom quanto as chances de termos um impeachment e a terceira via está mais perdida que um tubarão na nascente do São Francisco.

Pelo sim, pelo não, confira a seguir tudo o que aconteceu de importante na semana #129 do governo Bolsonaro enquanto estamos livres para falarmos mal de militar sem sermos julgados por um Tribunal Militar.


The following takes place between jun-15 and jun-21


O grande democrata Wilson Witzel

O grande depoimento da última semana de CPI da Covid foi o mais novo antifascista do Rio de Janeiro, o ex-governador Wilson Witzel. Em sua fala, o político, que teve o cargo cassado, afirmou que virou inimigo do Planalto após pressionar pela investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Houve bate boca com o senador Flávio B. (Republicanos-RJ).

Witzel não precisava falar, mas falou publicamente enquanto considerou conveniente. Publicamente, também acusou o governo federal de sabotagem e perseguição e disse ter provas de que Organizações Sociais ligadas a desvios de verbas públicas patrocinaram o seu afastamento. Antes de encerrar a sua fala, prometeu, em condição de discrição e sigilo, revelar muito mais para a CPI.

Ao chegar em casa, o governador cassado recebeu a notícia de que ele, a mulher e mais 11 pessoas se tornaram réus em um novo processo. A acusação é de desvio de dinheiro público.

Have you seen this Wizard?

A CPI também quebrou os sigilos fiscal e bancário de Carlos Wizard (não confundir com os atuais donos da rede Wizard de ensino de idiomas). Ele atuou informalmente no Ministério da Saúde durante a pandemia e deu bolo na comissão. Anteriormente, o negacionista já havia perdido os sigilos telefônico e telemático.

Wizard é suspeito de financiar e integrar o chamado “gabinete paralelo”. A CPI pretendia interrogar o bilionário e compreender a sua influência nas ações do governo federal (ou a ausência delas). Apesar de contar com um habeas corpus, ele tratou a CPI como o governo federal tratou a Pfizer e, agora, pode ser conduzido coercivamente ao Senado e ter o seu passaporte retido.

Meanwhile

A médica Nise Yamaguchi processou o senador Otto Alencar (PSD-BA) e o presidente da Comissão, o senador Omar Aziz (PSD-AM), por danos morais. Yamaguchi afirmou que os senadores a humilharam (mentira) e foram misóginos durante o seu depoimento (verdade, mas a misoginia não foi direcionada a ela). A médica busca R$ 320 mil em indenizações.

Já a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu a convocação de governadores pela CPI da Covid. A ordem deixou magoados os governistas que tentaram transformar o Senado em uma Contax das Assembleias Legislativas brasileiras. A decisão deve ser avaliada em plenário assim que possível.

Bolão: quanto tempo dura?

A Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 tem uma nova comandante. Rosana Leite de Melo será a responsável pela pasta. A médica se diz “defensora da ciência” e, no passado recente, apoiou os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro.

O blog paga um pão de queijo para quem nos avisar corretamente, pelo Twitter, quando ela cairá.

A gente sabe o que você não fez no verão passado

Outro grande depoimento prestado à CPI da Covid foi o de Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas. Ele esteve à frente da pasta quando o sistema de saúde de Manaus (AM) colapsou por falta de insumos básicos para o enfrentamento à doença, como tanques de oxigênio. Campêlo contradisse o ex-ministro e general Eduardo Pazuello e reforçou a tese de que o Planalto agiu como agiria um governo que faz genocídio (beijos, Haia).

A fala de Campêlo trouxe uma linha de tempo muito ruim para quem acreditou no depoimento do ex-ministro da Saúde. Enquanto o general da ativa afirmou que só soube do pedido do ex-secretário de Saúde no dia 10 de janeiro, Campêlo afirmou que solicitou apoio três dias antes. Além disso, o ex-secretário de Saúde também deu dados sobre como pessoas em cargo comissionado na administração pública insistiam no uso de tratamentos ineficazes contra a doença.

Parece ruim, e é mesmo

O inquérito dos atos golpistas está meio morto, mas segue rendendo muitas notícias desde que o ministro Alexandre de Moraes tornou públicos os relatórios da investigação. Nesta semana, por exemplo, reportagem do portal UOL afirmou que o comando da Polícia Federal tentou afastar uma delegada que pediu buscas no Palácio do Planalto. Após uma longa batalha política e judicial, a PF perdeu o timing da operação e desistiu da ação.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Boa notícia para o prefeito de Goiabinha do Oeste (MG)

A Câmara aprovou, após dois anos de debates, e por ampla maioria, um projeto que altera a Lei de Improbidade Administrativa. Procuradores do Ministério Público que adoram ir atrás de prefeitos e secretários que acordaram com o pé esquerdo terão mais dificuldades para punir atos administrativos. Agora será obrigatório provar a intenção do administrator em lesar os cofres públicos.

Se de um lado a medida dá mais paz a quem vive com o Ministério Público no cangote, ela também agradou Arthur Lira (PP-AL) e outros quatro líderes da Câmara. Todos eles respondem a processos por improbidade administrativa. Não dá para ser feliz por inteiro.

Era melhor não fazer nada

Paulo Guedes e o Congresso conseguiram fazer aquilo que muita gente gostaria de ver em 2022: unir esquerda e boa parte dos liberais contra uma ideia do governo Bolsonaro. A vítima da vez foi a MP da capitalização da Eletrobras.

Os trabalhadores da estatal até tentaram impedir a aprovação da medida provisória, mas o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado antes de caducar. Uma pena.

No Senado, o texto foi modificado para obrigar o governo a contratar quantidades fixas de energia de fontes poluentes, caras e não renováveis. A medida ajudará a encarecer a conta de luz a médio e longo prazo.

O texto também atropelou a obrigação de autorização do Ibama e da Funai na análise do licenciamento ambiental de projetos como a linha de transmissão de energia Manaus-Boa Vista. Ela passará por cima da terra de um povo indígena que, no seu último contato com obras do governo federal, quase deixou de existir.

Na Câmara, novos dispositivos com o potencial de encarecer o serviço foram incluídos. O governo nega que isso acontecerá. Mas ele também jura que não teremos racionamento nos próximos meses.

500.000

A terceira onda da covid-19 se aproxima, ainda que tenhamos dúvidas de quando a segunda onda acabou. Com o relaxamento de medidas de distanciamento e o ritmo lento de vacinação, especialistas não governistas não trazem boas notícias: o Brasil continuará com a sua indústria local de variantes trabalhando 24/7.

O Brasil atingiu, nos últimos dias, a taxa de 500.000 mortes (oficiais) por covid-19. Poderia ter sido diferente. Mas para isso teríamos que ter contado com um governo que não financiasse negacionista, que apoiasse o uso de máscaras de qualidade, não minimizasse a pandemia, não questionasse a eficiência de imunizantes e não ignorasse e-mails de farmacêuticas enquanto comprava remédios ruins para a doença.

Em outras palavras, teríamos que contar com outro governo. “Todos nós vamos morrer um dia“, mas seria bom não ter medo de essa morte ser causada pela inação de quem deveria zelar pela saúde de todos nós.

Bolsonaro sairá da pandemia com um legado de famílias despedaçadas, uma população mais pobre e uma economia que não deve melhorar tão cedo. Em 2022, iremos às urnas mais doentes, menos educados e com sonhos destruídos.

Enquanto isso, em Brasília, o céu estava claro e Jair Bolsonaro homenageava policiais. Três de 22 ministros do governo federal manifestaram pesar pelas mortes. O ministro da Comunicação, Fábio Faria, também disse algo: que deveríamos relembrar os vivos, não os mortos

Lento, gradual e sem segurança

Enquanto isso, as chances de termos que dar razão ao Imperial College estão cada vez mais elevadas. A prefeitura de São Paulo suspendeu a aplicação das duas doses de vacinas por falta de imunizantes. Em outras capitais, como Aracaju, Campo Grande e Belo Horizonte, os calendários estão sendo revistos com prazos maiores (por intrigas políticas, má gestão logística ou incompetência federal).

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma que todos os brasileiros adultos receberão a primeira dose de alguma vacina até setembro. Ele deve estar contando com a boa vontade de Joe Biden e não com o seu superior direto. Afinal de contas, até mesmo os lotes que compramos estão chegando com atraso e em doses abaixo do previsto.

A voz mascarada das ruas

No mesmo sábado em que atingimos 500 mil mortos por covid, milhares de brasileiros tomaram as ruas de 25 capitais e outras 118 cidades para protestar contra o governo Bolsonaro. As manifestações, apesar de ameaças de gente com projeto político pouco aderente no Brasil, já contam com ex-eleitores do presidente e gente de direita (em menor quantidade do que gostaríamos, mas em maior quantidade do que esperávamos).

Os organizadores mais pragmáticos das manifestações sabem que não há como o governo cair sem apoio de todo mundo que não é de esquerda e/ou venceu a eleição passada. É um desafio complicado: boa parte da direita não tem problemas em derrubar governo de esquerda ao lado de monarquista ou o Fã Clube Oficial do Ustra, mas morre de vergonha de aparecer no Instagram ao lado de um militante do (irrelevante) PCB para derrubar um presidente que ajudou a matar 0,25% da população brasileira.

Ironias da vida à parte, Bolsonaro se doeu com a manifestação. E é bom que fique doído. As ruas não estão dispostas a ficarem caladas e o (lento) avanço da vacinação deve ampliar a adesão ao movimento e obrigar o Planalto a já ir se acostumando com capas de jornais não agradáveis.

Godot 2022

A terceira via teve um forte tombo na última semana. Tudo bem, as suas chances nunca foram lá as maiores. Mas a decisão do grande democrata Luciano Huck em optar por uma promoção a ter que lidar com os problemas do Brasil não ajudou os mais otimistas a serem otimistas.

Enquanto isso, no partido que tinha tudo para levar a eleição do ano que vem de lavada, João Dória (o homem que vacinou a maior parte do Brasil com a força do ódio) terá que lidar com um modelo de prévias partidárias que dá mais peso aos votos dos caciques do PSDB. Isso é um problema, já que Dória só é popular entre a militância partidária (ou parte da sua setorial paulistana).

Em todo caso, a participação do governador no pleito do ano que vem dependerá da sua habilidade de enfrentar a concorrência interna. Mas ainda não se sabe se ela será representada pelo senador Tasso Jereissati (CE), pelo o governador Eduardo Leite (RS) ou pelo ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio (AM). Sabe como é: ser tucano é ter prudência na hora de tomar decisões.

Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro, se encontrou com gente do PSDB, Cidadania, PV, Podemos e DEM para tentar construir uma alternativa ao Partido dos Trabalhadores e ao ocupante do Planalto. As discussões estão acaloradas mas, até o momento, só conseguiram fechar o nome do grupo de Whatsapp em que os políticos se articularão. Ninguém precisa ter pressa.

À esquerda, os políticos Flávio Dino, governador do Maranhão, e o deputado Marcelo Freixo, do Rio de Janeiro, abandonaram as suas legendas. Ambos lembraram que a cláusula de barreira existe, que os nomes do PSOL e do PcdoB estão na lama e que era uma boa ideia ir para uma legenda menos sectária, mas que ainda tenha uma bandeira vermelha. Ou seja, foram para o PSB.

E o Lula? Nunca esteve tão tranquilo e livre. O principal nome na briga pelo Planalto que não é bolsonarista (pragmático ou assumido) já se colocou à disposição para lidar com outros candidatos. Ele sabe que na hora que a coisa apertar será ele ou Bolsonaro e que esperar por uma terceira via é como esperar pelo prêmio da Mega Sena da virada (mas no segundo caso você pode sair do país e ir morar em um lugar com saneamento básico).


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A Nova Era – semana #128: o Brasil que a gente não merece e não quer

A verdade sendo dobrada na CPI da Covid, as más notícias da economia brasileira superando a boa notícia e o presidente em uma campanha eleitoral antecipada bem cara.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #128 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-07 and jun-14


Quem, eu?

A última semana da CPI da Covid no Senado foi marcada pelo novo depoimento do ministro da Saúde. Em resumo, Marcelo Queiroga afirmou o que tinha negado no último depoimento, negou o que tinha afirmado no passado e contradisse o presidente. Além de tudo isso, o ministro também afirmou que o Planalto consulta a pasta antes de tomar decisões com a mesma frequência que Ricardo Salles consulta ambientalista antes de realizar lobby a favor de madeireiro ilegal (vai ver o presidente consulta algum gabinete paralelo, né?).

Disse Queiroga que, apesar de ter autonomia no cargo, ele não tem “carta branca para fazer tudo o que quer”. Para justificar a realização da Copa América no país, trouxe dados tão verdadeiros quanto o seu conhecimento sobre o significado da palavra autonomia. Ao mesmo tempo Queiroga questionou a efetividade de vacinas aprovadas pela Anvisa — mesmo ele não sabendo o que está na bula de todas elas.

Escapou por pouco

O governador Wilson Lima (PSC-AM) iria ao Senado depor na CPI da Covid. Agora não deve ir mais. A ministra do Supremo, Rosa Weber, autorizou o governador do Amazonas a não comparecer à CPI. O presidente da comissão, Omar Aziz, afirmou que irá recorrer.

Lima já foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por envolvimento em um esquema de desvio de verbas para o combate à covid-19. Por isso, tem o direito de não dar respostas que possam incriminá-lo nessa investigação.

Show de chorume

Enquanto Wilson Lima garantia uns dias longe de Brasília, o coronel Élcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, foi à CPI da Covid admitir que o governo utilizou tratamento ineficiente contra a covid como a principal medida de combate à covid. Já Jair Bolsonaro reforçou a falta de autonomia de Marcelo Queiroga mandando o ministro elaborar uma medida que desobrigue o uso de máscaras para quem já está vacinado ou tivesse contraído covid.

Como podemos ver, citações à ex-atriz pornô Mia Khalifa na CPI da Covid não são o ponto mais baixo das notícias da nossa semana. O fundo do poço é sempre um pouco mais fundo do que esperamos ser.

Pequenos achados

Os trabalhos da CPI da Covid não envolvem apenas a busca pela verdade em meio a falas cada vez mais contraditórias. Os senadores também estão rastreando o projeto de genocídio federal por meio da quebra de sigilos telefônicos e telemáticos de ex-ministros e integrantes do gabinete paralelo.

As medidas estão focadas em rastrear exatamente como o governo negou a gravidade da pandemia e trabalhou a favor do vírus. Elas também servirão para explicar algumas histórias mal contadas por gente como Carlos Wizard, que ajudou a desburocratizar a produção de remédio que não serve para tratar covid, mas que foi recomendado com esse fim.

Enquanto esses dados não são verificados, a CPI já tem em mãos documentos que mostram como o governo ignorou a Pfizer pouco mais de 80 vezes enquanto a farmacêutica procurava o Brasil com a mesma perseverança que Bolsonaro agora procura a Pfizer. A informação se une ao fato de que o governo também ignorou o Butantan e adquiriu a quantidade mínima de vacinas que era possível no Covax Facility.

Outra informação obtida pela CPI foi um telegrama do Itamaraty em que Pazuello é acusado de oferecer dados para o compartilhamento de protocolo ineficaz no tratamento da covid à Organização Mundial de Saúde. O mesmo protocolo estava disponível para todos os brasileiros no Tratecov, o aplicativo que só sabia indicar remédio ruim para cuidar da doença e que teve o apoio de Luciano Hang e seus amigos cheio de ambições políticas.

Falando em cloroquina, documentos enviados pelo Ministério das Relações Exteriores à CPI da Covid e obtidos pela TV Globo, mostram que o Itamaraty mobilizou o seu pessoal na Índia para procurar três empresas indianas em busca de cloroquina. Vacinas? Isso ficou para outro dia.

Deu ruim

Omar Aziz (PSD-AM) afirmou que o empresário Carlos Wizard (que não é mais ligado à rede Wizard de escolas de idiomas) deverá prestar depoimento presencialmente. Os advogados apontaram que o empresário está nos EUA “acompanhando tratamento médico de familiar”. Já o senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que passa as suas horas livres aloprando Wizard na internet.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos I

Filme repetido

O laboratório chinês SinoVac, que desenvolveu a CoronaVac e fornece insumos para o Butantan produzi-la, avisou que é melhor Bolsonaro moderar nas suas falas contra a China. Ataques futuros do governo federal (e de seus representantes) ao país podem levar ao atraso no envio de materiais que permitem a produção da vacina em território local.

O blog pede, portanto, cautela a quem está ficando animado com os calendários de vacinação publicados por governadores e prefeitos nas redes sociais. Todo mundo sabe que Bolsonaro tem uma dificuldade muito grande em não tratar a sua boca como se ela fosse uma latrina.

Saiu barato

A mentirinha de Jair Bolsonaro sobre o que o Tribunal de Contas da União acredita saiu barato (para ele). Após admitir que ele errou sobre o que o tribunal disse, o presidente insistiu na mentirosa tese de sobrenotificação de casos oficiais de mortes por covid-19 no Brasil. A mentira também veio acompanhada da insinuação de que vacinas, assim como cloroquina, são medidas experimentais para combate à pandemia (ainda que o remédio para malária seja comprovadamente ineficaz contra a doença).

Certeza de impunidade é tudo.

Me-ri-to-cra-cia

O TCU identificou quem foi o responsável por incluir um relatório com informações falsas em seu sistema eletrônico. O nome do auditor é Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques. Como apontado na última postagem deste blog, a ligação de Alexandre com a família Bolsonaro vai além das homenagens diretas e indiretas à ditadura civil-militar.

O Tribunal tratou o caso como grave e afastou por 60 dias o auditor. Ele poderá aproveitar o tempo para se preparar para o seu depoimento na CPI da Covid. Será importante fazer um bom trabalho, já que lá a influência do seu pai não será tão forte quanto é no Planalto.

Ó a merda

Os brasileiros que acompanham com atenção as notícias da chegada de vacinas no Brasil ficaram apreensivos na última semana. As doses do imunizante da Janssen previstas para chegar ao país em algum momento do futuro estavam com validade prevista para o dia 27, o que tornaria o esforço de vacinação bem complexo. Graças ao apoio da Anvisa, o prazo de validade foi ampliado em 30 dias.

Enquanto governadores e prefeitos se preparam para reabrir as escolas nacionais, a covid deixou de ser uma doença de idosos. O hospital curitibano Pequeno Príncipe, por exemplo, chegou a registrar 22 internações de crianças e adolescentes com a doença em um único dia. Este foi o maior número desde o começo da pandemia.

Em Brasília (DF), o Ministério da Saúde mudou de novo, novamente, mais uma vez, o calendário de vacinação nacional. A previsão de doses a serem entregues em julho foi reduzida em 2 milhões. A medida veio acompanhada do anúncio de não doação de vacinas por parte dos EUA: segundo os estadunidenses, nós temos grana o bastante para nos imunizarmos sozinhos.

Uma boa notícia

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou a realização de testes clínicos da Butanvac. A vacina contra a covid-19 foi desenvolvida pelo Instituto Butantan com tecnologia 100% nacional. Se tudo der certo, o imunizante estará disponível no último trimestre de 2021.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos II

Aquele livro do George Orwell

A Polícia Federal descobriu, meio sem querer, que empresários bolsonaristas discutiram com Fabio Wajngarten, o ex-secretário de Comunicação da Presidência, a criação de um departamento de “comunicação estratégica e contrainformação”. A informação foi revelada no inquérito de atos golpistas do STF.

Falando em golpista, a PF também descobriu que o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, e o empresário bolsonarista Otávio Fakhoury, debateram a possibilidade de dissolver o Supremo e o Superior Tribunal de Justiça (STJ). O blog confessa que, quando Jefferson afirmou que José Dirceu despertava nele os seus “instintos mais primitivos”, ele imaginou que os instintos eram violentos, não antidemocráticos.

Parece que está bom, mas vai piorar

Se você ficou feliz com a alta do PIB a níveis pré-pandêmicos, corra para tirar o seu cavalinho da chuva (frase não válida para quem está no topo da nossa pirâmide de renda). O blog reforça: o futuro é sombrio e com pouca chuva.

A inflação subiu 0,83% em maio de 2021. Pode parecer pouco, mas os dados divulgados pelo IBGE representam a maior alta do IPCA, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, para o mês desde 1996. No acumulado de 12 meses, o teto da meta inflacionária do Banco Central já foi estourado.

A energia elétrica deve estourar um pouco mais o teto da meta inflacionária. A crise hídrica levou o governo a contratar energia cara e mais poluente. O preço cobrado pelas usinas térmicas também deve crescer um pouco mais graças ao aumento de preço de combustíveis, os erros da Aneel e os gargalos na rede.

E o pobre? Enfrenta mais uma queda de renda e um aumento da inflação que impacta proporcionalmente mais a sua renda do que a renda das classes altas. Puro suco de Brasil.

Enquanto isso, nas rotas para 2022

João Amoedo está fora da disputa presidencial de 2022. Após a ala bolsonarista (pragmática e não pragmática) se revoltar contra a tentativa do multimilionário repetir a sua tentativa de ir ao Planalto, ele optou por recusar o convite feito pelo Novo para que ele participasse das prévias internas. Era mais fácil ter fundado, financiado e comprado o partido como fez Kassab.

No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo deu adeus ao PSOL. Enquanto a parte mais cri-cri da legenda acusava ele de se curvar ao liberalismo (como se isso fosse um demérito), o PSB aproveitou a oportunidade para buscar o governo do estado. O PT também puxou uma cadeira para conversar com o deputado, que chamou o ex-marqueteiro da Fiesp e de Sérgio Cabral para ser o seu funcionário.

Ainda no tópico “gente que briga com o próprio partido”, Ciro Gomes está batendo tanto no PT que os seus correligionários estão incomodados. As tentativas de ocupar o espaço do antipetismo no próximo ano é mal vista por alguns setores do PDT. A medida, porém, conta com o dedo de João Santana, o que é sempre um sinal de que pode dar muito certo.

Também neste tópico, o DEM decidiu expulsar o deputado federal Rodrigo Maia do partido. Já no PSL, a deputada Joice Hasselmann entrou na justiça para conseguir sair da legenda sem perder o cargo. Ambos se encrencam pela mesma razão: a certeza de que DEM e PSL estão vendidos para Bolsonaro.

E o presidente diante de todas as notícias listadas neste texto? Sacou R$ 1 milhão de reais e foi passear de moto (mas pode chamar de mais um ato de campanha eleitoral antecipada mesmo) com meia dúzia de milhares de motos e almoço grátis.


Todos os posts da série estão disponíveis aqui.

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A Nova Era – semana #127: um grande latifúndio de ideias ruins

Enquanto o internauta agia tal qual o adolescente diante de uma mulher bonita falando coisas normais, o Brasil acompanhou em dados o insustentável crescimento da economia brasileira, recebeu algumas boas notícias no campo do combate à pandemia e viu um monte de safadeza do governo federal.

Veja em detalhes tudo isso e muito mais no resumo da semana #127 do governo Bolsonaro.


The following takes place between jun-01 and jun-07


Subiu, mas com viagra

A economia cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021. O valor foi o bastante para zerar as perdas registradas desde o início da pandemia do coronavírus. Entretanto, ele não foi impulsionado pelo setor que mais emprega pessoas no país (o de serviços), logo, o número de desempregados segue elevado.

Também é importante afirmar que o crescimento não deve se sustentar até o final do ano. Com um racionamento cujo status é “o pacote saiu para entrega”, muita gente desempregada e novas cepas de vírus sendo gestadas no território nacional, é pouco provável que a situação melhore de fato — e para todos — até o fim do ano. Elevado, pelo visto, será apenas o número de mortes por covid-19.

Palestrinha do mal

A médica Nise Yamaguchi, defensora do uso de remédio que não serve para tratar covid-19 no tratamento de SARS Covid-19, confirmou à CPI da Covid ter participado de reuniões com o governo federal. O bate-papo no Planalto tinha como objetivo fazer lobby para remédio ineficaz no tratamento da covid e aconselhar o presidente de maneira inadequada.

O depoimento (ou palestra, para quem gosta de ouvir falas sem embasamento científico) foi marcado por senadores sem pouca paciência para mentiras. Apesar de ter aconselhado o governo a utilizar cloroquina para tratar covid-19, Nise Yamaguchi negou que o governo tivesse elaborado um decreto para incluir na bula do remédio a indicação de uso que ela apoiava. As provas por ela apresentadas discordam disso.

Yamaguchi também disse que o gabinete paralelo não existia — apesar das imagens mostrando que ele existiu. Ao ser confrontada, disse que o gabinete paralelo na verdade era perpendicular e com formato de “conselho independente“. Sabe como é, semântica importa, mas saber virologia, nem tanto.

Subiu, mas sem viagra

Se o depoimento de Nise Yamaguchi deixou o internauta irritado, o depoimento da infectologista Luana Araújo fez ele aparecer ouriçado na timeline. A médica, que ocupou uma cadeira na secretaria de enfrentamento à pandemia por 10 dias, disse que não sabia a razão por ter sido desligada. Não oficialmente, claro: segundo ela, o ministro da Saúde a demitiu por ela não ter um currículo alinhado com os requisitos do Planalto (que demanda especialização em mentira, MBA em conspiracionismo e cursinho extracurricular do Olavo de Carvalho).

A médica também usou o espaço da CPI para reafirmar que está do lado da OMS e que o governo esteve errado em quase todas as suas decisões sobre o combate médico à pandemia. Araújo também elogiou Queiroga, lembrou que corrupção pode matar e que vacina, teste e combate à desinformação são melhores do que remédio para malária na hora de combater um vírus.

Um joguete de palavras aqui

Falando em gabinete paralelo, o ex-assessor da Presidência Arthur Weintraub afirmou em live que a história estava mal contada. Ele realmente falou com pesquisadores (que não são especializados em epidemiologia), intermediou contatos com Bolsonaro e atualizou o presidente das principais mentiras que circulavam no Whatsapp sobre a covid-19.

Após apresentar um cenário que tinha cara, cheiro e gosto de gabinete paralelo, Weintraub disse que não existiu um gabinete paralelo e chamou Bolsonaro de burro. No final de semana, o jornal Metrópoles mostrou imagens publicadas nos canais do governo com a atuação do gabinete paralelo, pois esconder safadeza é coisa de otário.

Uma urinadinha no pé da Justiça ali

O ministro do Meio Ambiente resolveu colaborar com as investigações que pesam contra ele. Três semanas após uma operação de busca e apreensão tentar encontrar o aparelho celular de Ricardo Salles, o ministro resolveu entregar o seu dispositivo para a Polícia Federal. O blog acredita que a demora se deu pois Salles estava organizando a sua caixa de entrada de e-mails em pastas para tornar a análise do conteúdo mais fácil.

Vejamos pelo lado bom: o ministro demora, mas pelo menos cumpre ordens judiciais. Podemos considerar um avanço diante das ameaças do líder do governo na Câmara.

Uma mentirinha cá

Já o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o Tribunal de Contas da União (TCU) criou um relatório indicando que 50% das mortes atribuídas à covid-19 no ano passado foram causadas por outras doenças. O TCU desmentiu o presidente no mesmo dia.

Antes do fechamento desta edição, a Revista Crusoé descobriu que o texto foi escrito sim por gente do tribunal, enfiado no sistema do TCU e, ainda assim, não era baseado na realidade. O auditor é conhecido bolsonarista, amigo da família presidencial e chegou a ocupar uma diretoria no BNDES em 2019.

Um tapinha na nossa cara acolá

Reafirmando o seu compromisso com o controle civil das suas atividades, O Exército impôs um sigilo de 100 anos sobre o processo administrativo contra o general Eduardo Pazuello. A medida contraria o princípio constitucional da Transparência e entendimentos anteriores da Controladoria-Geral da União (CGU).

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Tá caro

A vacina da Pfizer foi considerada cara pelo governo brasileiro. Os US$ 10 dólares (dez dólares americanos) por dose que a farmacêutica cobrou de nós eram metade do que foi cobrado dos governos dos EUA e do Reino Unido. A afirmação saiu da boca do ministro da Saúde enquanto ele dizia a razão de ter ignorado 53 (cinquenta e três) e-mails com ofertas da empresa.

Testando a panela

Bolsonaro foi à cadeia nacional de rádio e TV dar motivos para a população amassar a lataria das suas panelas e arranhar a garganta. Em discurso posicionado após o Jornal Nacional, o presidente repetiu as críticas ao isolamento feitas nos últimos pronunciamentos. Para quem só reclamava de más notícias, Bolsonaro afirmou que todos os que estiverem vivos até o final do ano poderão sonhar com vacina em seu braço.

A semana da pandemia

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou o uso emergencial para maiores de 18 anos da CoronaVac, vacina desenvolvida pela chinesa SinoVac e fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan. A notícia foi recebida com felicidade nos Jardins e outras áreas nobres das cidades brasileiras: a aprovação permitirá que brasileiros possam sentir de novo um friozinho em London.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou com a AstraZeneca o contrato de transferência de tecnologia para produzir no Brasil a matéria prima da vacina desenvolvida pelo laboratório britânico. Hoje todo o material é importado. Com o acordo, ficaremos mais imunes a problemas diplomáticos causados pela boca suja do presidente.

O Brasil recebeu seis milhões de doses entregues pelo Covax Facility, que foram doadas pelo governo dos EUA. Elas se adicionam às remessas que a Pfizer começou a descarregar no território nacional. Para comemorar, o Ministério da Saúde tirou folga prolongada no feriado.

E para fechar com chave de ouro uma semana com mais boas notícias do que o normal, a Anvisa autorizou a importação emergencial do imunizante Sputnik V, que será feita com regras muito limitadoras e com público-alvo de escopo limitado. Governadores do Nordeste não gostaram, mas como diria o embaixador chinês no Brasil, é melhor do que nada.

Normal isso

O ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, derrubou o sigilo do inquérito que investiga os atos golpistas em Brasília (aqueles que foram realizados por apoiadores do presidente e vez ou outra contaram com a sua presença). A Polícia Federal descobriu que um empresário bancou material de campanha de Bolsonaro em 2018 sem declarar à Justiça Eleitoral. Após a peripécia, ele ajudou a pagar pela aglomeração antidemocrática.

Outra fonte de financiamento veio de um funcionário terceirizado do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ele ajudou a pagar pelo aluguel dos carros de som utilizados nos atos.

O Jornal Nacional obteve acesso ao relatório feito pela Polícia Federal e descobriu que os golpistas tinham uma caligrafia muito meia boca. No centro das investigações, está Alan dos Santos, que anotou em papel tudo o que desejava fazer (em resumo, golpismo e esculhambação com o apoio de deputadas e deputados federais). A Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento do inquérito.

Uma nova cultura nacional

Ricardo Alvim está muito feliz no buraco em que se enfiou. Após a Educação ser dominada por cruzados protestantes e o Itamaraty ser desmoralizado com o 4chanceler, a Secretaria da Cultura está fazendo aquilo que o cosplayer de nazista queria realizar à frente da pasta. A última trincheira olavista do governo Bolsonaro conta com projetos empacados, interferências em assuntos estranhos à pasta e muito, muito, muito suco do pior que o conservadorismo brasileiro pode nos dar.

Um dos exemplos é a Fundação Palmares. Sérgio Camargo tem dedicado o seu dia a causar desgraça à memória de qualquer pessoa que não seja alinhada ideologicamente com o governo. A última vítima foi Carlos Marighella: os documentos relacionados ao escritor, político e guerrilheiro foram excluídos do acervo da fundação.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Erros, comentários ou críticas devem ser apontados diretamente no Twitter do blog.