A Nova Era – semana #126: jogando o Aurélio no lixo

O calendário de vacinação oscilando mais do que PETR4 em época de eleição, a nova rodada de mentiras e contradições na CPI da Covid, os problemas de Salles e o futuro tenebroso do Brasil.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #126 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-25 and may-31


Hora de contratar um polígrafo

O depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro (ou Capitã Cloroquina) trouxe novas mentiras para o Senado, algumas verdades que foram negadas pelo ex-ministro e general Eduardo Pazuello e rola. Sim, isso mesmo, rola (pênis (piroca)).

A grifter política de baixa qualidade deu nova data para o dia em que o ministério da Saúde soube sobre a falta de oxigênio em Manaus (AM) e afirmou que um estudo de baixa qualidade orientou a criação do aplicativo que só sabia mandar pessoas tomarem remédio ruim para covid — mas que o Pazuello jura que não existe. Por sinal, ela tentou usar a desculpa do “foi um hacker” com base em um relatório de perícia feito por um perito que não é perito.

Isso tudo antes da hora do cafezinho. Após a hora do cafezinho, ela também afirmou que o governo federal não deveria ser obrigado a seguir recomendações de organismos internacionais para a gestão da pandemia. Ela também tentou colocar a República Tcheca no meio da CPI da Covid — mas alguém viu que ela estava de conversinha.

Vem aí

Diante das falas da Capitã Cloroquina, a CPI da Covid decidiu reconvocar o ex-ministro da Saúde e general do Exército Eduardo Pazuello para prestar um novo depoimento. Os senadores também pretendem ouvir o ministro Queiroga outra vez. Seria mais fácil convocar todo mundo junto e ver quem é que mente menos.

Para provar que pau que bate em Chico também bate em Francisco, a CPI também decidiu convocar alguns governadores (a maioria bolsonarista, mas é detalhe). Mas tudo deve ficar apenas na parte das intenções: O Supremo Tribunal Federal deve anular a decisão por saber a função das Assembleias Legislativas.

Não se esqueçam de mim

Enquanto isso, na terra das ideias boas e das ideias novas, o atual ministro da Saúde afirmou que a culpa pela crise da covid não é o governo, mas sim do Sistema Único de Saúde gerenciado pelo Ministério da Saúde (com recursos entregues pelo governo federal). Queiroga disse à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara que as UTIs lotadas e as unidades sucateadas impulsionaram os resultados negativos do Brasil durante a pandemia.

Talvez se o Guedes tivesse proposto a realização de um crowdfunding no começo de todos os anos para arrecadar verba ao SUS (e que fosse focalizado nas pessoas que ganham mais de 22 mil reais a cada 12 meses) isso não tinha acontecido, não é mesmo?

Para ficar de olho

A CPI da Covid recebeu mais documentos que comprovam a existência de um gabinete paralelo do Ministério da Saúde. Os membros da organização secreta teriam realizado ao menos 24 reuniões focadas nas estratégias de apoio do governo ao coronavírus.

As provas também apontam que o presidente sabia da existência do grupo e que participava das reuniões antes de tomar decisões. Renan Calheiros está de olho. Haia estará um dia?

Dia da soneca

Outro grande depoimento prestado à CPI da Covid foi o do diretor do Instituto Butantan. Dimas Covas afirmou que o Brasil poderia ter sido a grande vitrine da vacinação mundial e que Bolsonaro recusou ao menos três ofertas da Coronavac em 2020. A resposta às ofertas evitaria ao menos 80 mil mortes.

Enquanto fazia os senadores descobrirem o limite de café que conseguem ingerir em um único dia de trabalho, Covas também afirmou que os ataques de Bolsonaro e seus amigos à China prejudicaram a chegada de insumos no Brasil. Entre acertos e escorregadas, o diretor do Butantan aumentou o número de provas de que o Planalto cuidou da pandemia como um genocida cuidaria e que a covid-19 pode ser a nossa nova dengue.

Vai dar merda e a gente vai rir

A tia do tarot mandou avisar que o futuro do ministro do Meio Ambiente não deve ser muito bonito. A Polícia Federal enviou ao STF um documento informando que já tem provas de que o presidente afastado do Ibama, Eduardo Bim, teria cometido crimes de facilitação ao contrabando e advocacia administrativa. As provas foram obtidas na Operação Akuanduba e devem atingir Ricardo Salles.

As investigações também descobriram que a madeireira suspeita de exportação ilegal fez ligações a autoridades europeias de dentro do Ibama, algo absolutamente normal. As chamadas tinham como objetivo garantir que o material exportado fosse liberado no exterior.

O mal educado Salles também é investigado pelo Ministério Público paulista. A apuração quer entender se o salto de R$ 7,4 milhões no patrimônio do ministro foi dentro da lei.

Enquanto isso, na PGR, Augusto Aras tentou retirar a investigação (agora pública) dos braços do ministro Alexandre Moraes. Sem conseguir o que queria, a Procuradoria-Geral da República pediu que um novo inquérito fosse aberto contra Ricardo Salles, que agora ficará sob a responsabilidade da ministra Cármen Lúcia.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

O ninho de mamateiros tem vários mamateirinhos

O futuro do general e ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, está decidido (por hora): mamata.

Após o depoimento do general na CPI, cresceram as pressões para que ele fosse para a reserva. Mas Pazuello estava decidido a somente pendurar as chuteiras após o fim dos trabalhos da comissão.

O general que ficou à frente do Ministério da Saúde no pior momento da pandemia temia que a ausência da farda poderia deixá-lo mais próximo da cadeia. Senador, tal qual piranha, é voraz.

Os problemas aumentaram após o general ter participado de um ato político com o presidente. As regras das Forças Armadas proíbem esse tipo de manifestação. Em resposta, o general avisou que estar presente em um ato político enquanto o presidente faz discurso político não é uma manifestação política.

Bolsonaro reconheceu o gesto e ignorou os generais que tentaram convencê-lo a dar uma punição a Pazuello. O presidente foi além e, enquanto o blog fechava esta edição, deu um cargo comissionado ao general. Atitudes que parecem crime, no Brasil, compensam.

A semana da covid-19

Segue forte a indústria nacional

A covid-19 teve uma semana de trabalho agitado na sua luta para acabar com a população brasileira. A média móvel diária de novas infecções manteve a sua taxa de crescimento. Estamos assim há duas semanas e os hospitais já apresentam novo sinal de colapso.

Em Porto Ferreira (SP), uma nova variante do Sars-Cov-2, chamada P.4, foi identificada. Ela já circula em pelo menos 21 cidades do interior paulista. Novamente a indústria nacional deixa claro a sua habilidade de inovar diante das ameaças do produto estrangeiro.

Falando em produto estrangeiro, o paciente com suspeita de estar contaminado com a variante indiana da covid-19 foi de Guarulhos (SP) a Campos dos Goytacazes (RJ) sem seguir protocolos adequados. A cidade fluminense, por sinal, suspeita que outros 15 moradores que chegaram da Índia possam estar doentes.

O índice de contágio do Brasil voltou a passar de 1, ou seja, a doença está se expandindo. Quem ficar doente (e conseguir atendimento), além de todos os problemas que a doença já causa, também terá que lidar com um novo risco: a crescente possibilidade de ser infectado com o “fungo preto“, que mata 50% dos infectados e pode mutilar o 50% restante.

Fazendo pouco, mas fazendo errado

E Bolsonaro? O presidente virou alvo de uma nova representação no Ministério Público Federal por não usar máscara em eventos públicos. A acusação agora se refere a aglomerações ocorridas no Maranhão. As tentativas anteriores não tiveram sucesso.

Para comemorar, o presidente apresentou ao STF uma ação contra governadores que instituíram medidas de restrição social durante os momentos críticos da pandemia. O alvo são os decretos feitos pelos governadores do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraná. Todos usaram como base a lei sancionada por Jair Bolsonaro no último ano.

Pequenas Empresas, Grandes Negócios

As prefeituras seguem ampliando os grupos de pessoas que podem ser vacinados. Em São Paulo o comprovante de residência se tornou obrigatório após identificarem que 17% dos imunizados vinham de outros municípios.

A decisão tem sido recebida com alegria pelo setor de crimes de baixa periculosidade. Os empreendedores da venda de vacina falsa estão de olho nos novos cronogramas e já preparam uma mudança de rumo nas suas empresas. Os novos lotes de atestados falsos de comorbidades devem ficar disponíveis na próxima semana com as adaptações de segurança necessárias.

Curb your enthusiasm

A Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, anunciou que a Copa América ocorreria no Brasil. O anúncio veio após Colômbia e Argentina se recusarem a sediar a competição por motivos de protesto e crise da covid (respectivamente). Agradecimentos efusivos e à distância foram feitos ao presidente.

Enquanto isso, em Brasília, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, desmentiu a Conmebol. Segundo Ramos, a realização da competição ainda não está certa. Ao que tudo indica, nenhuma tratativa oficial foi realizada até o momento e o problema é mais da CBF do que do governo.

O Brasil é o segundo país com mais mortes e terceiro com mais casos da doença.

A voz mascarada das ruas

Após quase meio milhão de mortos, alguns vacinados e boa distribuição de máscaras PFF2, a primeira grande rodada de manifestações contra o presidente durante a pandemia aconteceu. Em mais de 200 cidades e liderados por movimentos que esquerda (que não incluíram o PT, a CUT e o MST oficialmente), manifestantes se reuniram para criticar o combate à pandemia.

Em Recife a barbárie foi a regra. Dois homens que não estavam se manifestando foram atingidos por balas de borracha e perderam a visão em um olho. Além disso, a vereadora Liana Cirne (PT) foi agredida com spray de pimenta.

O governador Paulo Câmara (PSB) afirmou que a ação não foi autorizada, que os envolvidos foram afastados e que a violência policial será investigada. Se for verdade, o governador se revelou fraco e incapaz de conduzir as forças policiais do seu estado. Se a afirmação for mentirosa, Câmara é conivente com o uso excessivo de força.

Sentiu? Sentiu

Bolsonaro disse que a manifestação só tinha gente de esquerda (exagerado), que o PT foi às ruas (inconsistente) e que “faltou erva” para mobilizar a oposição (falso). Na internet, seus apoiadores deixaram mais claro que sentiram o golpe.

Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara também acusou o golpe. Barros afirmou que os atos antecipam a eleição (até aí, Bolsonaro também tem feito isso) e que o presidente não pode mais ser criticado por aglomerações. A frase até faria sentido, mas o plot das aglomerações promovidas por Bolsonaro é “vá sem máscara e preparado para morrer”, o que é bem diferente do plot dos atos de domingo (“vá com máscara e procure não morrer”).

Hoje será menos ruim do que amanhã

E para fechar o post da semana, o blog te dará motivos para comemorar o dia de hoje. Tenha certeza, ele será melhor do que amanhã. Ou semana que vem.

O governo federal está prestes a publicar uma portaria que permitirá a contratação de usinas térmicas (obrigado, FHC). A medida é um dos esforços para tentar evitar um racionamento de energia nos próximos meses: os reservatórios das hidrelétricas estão prestes a atingir um nível tão baixo que nem a rede auxiliar conseguirá dar conta do recado.

A energia já está mais cara, afinal, temos que pagar os boletos da geração de energia à combustão que estão ali na esquina. Os apagões já são realidade para alguns brasileiros, o que é uma ótima notícia para quem quer ver o presidente fora do governo, mas uma péssima notícia para quem não pode sair do trabalho mais cedo por falta de luz.

A crescente inflação deve ser pressionada pelo novo aumento da conta de luz. Mas, se pensarmos bem, quem fica sem carne e sem teto por não conseguir lidar com o maior aumento do aluguel em 25 anos não precisa se preocupar com a conta de energia, não é mesmo?


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Erros, comentários ou críticas devem ser apontados diretamente no Twitter do blog.

A Nova Era – semana #125: de Brasília, com amor

Bolsonaristas se sacrificando pelo chefe na CPI da Covid, os rolos internacionais de Ricardo Salles e mais uma semana de sucesso da covid na sua luta contra o brasileiro.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #125 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-18 and may-24


A voz trêmula do templário

A CPI da Pandemia finalmente sentou para ouvir o 4-chanceler. E, para a surpresa de poucas pessoas, a tratativa foi um grande spoiler do que aconteceria nos próximos dias: um discurso muito bem estruturado para proteger Jair Bolsonaro e seu filho de serem punidos pelos seus atos (e se sobrar tempo, Filipe Martins).

O ministro, em específico, foi cobrado pela sua ação direta nas negociações com a China para a compra de vacinas. Quem acompanha o blog com cuidado lembra que o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, acusou o ex-4chanceler de atrapalhar o diálogo com representantes do país asiático. A prioridade naquela época, como já sabemos, era comprar medicamento ineficaz contra covid.

Quando questionado sobre o que fez no verão, na primavera, no outono e no inverno passado, o ex-chanceler afirmou que a estrutura do seu ministério foi sim utilizada para comprar medicamento que não funciona para a covid (com o apoio do presidente). Mas, segundo ele, a culpa não deveria ser direcionada ao morador do Palácio do Planalto e sim aos ex-ocupantes do Ministério da Saúde. Why not both?

Jair Bolsonaro falando em vachina? Dizendo que o vírus é chinês? Que não compraria imunizante feito na Ásia? Tudo absolutamente normal e incapaz de gerar algum tipo de impacto para a nação, segundo o especialista em diplomacia.

O grande destaque do passeio de Ernesto Araújo no Senado foi o momento em que ele teve que encontrar a senadora Kátia Abreu (PP-TO). A feminista que melhor manuseia uma motosserra do país lembrou ao “negacionista compulsivo” que ele é uma bússola que não aponta para o norte, mas para o caos. Araújo não se abalou e seguiu a sua sequência de mentiras em um nível de mitomania tão elevado que nos faz pensar que o nome dele, na verdade, é Joaquim.

Coincidências do destino

Enquanto Ernesto era comido em cadeia nacional pela senadora Kátia Abreu, Bolsonaro estava preocupado com uma das suas únicas três preocupações. Diante das ameaças de que o seu filho Carlos seja convocado a depor na CPI, o presidente avisou que rebateria a convocação com a publicação de um decreto para usar as Forças Armadas contra qualquer medida de isolamento social.

A defesa da convocação do vereador federal começou com a afirmação, por parte do executivo da Pfizer, Carlos Murillo, de que ele esteve presente em reuniões do governo federal com o laboratório. Sem validar ou não a legalidade da ideia presidencial, o senador Omar Aziz (PSD-AM) acalmou os ânimos de todos os envolvidos e disse que não há necessidade de um depoimento do filho de Bolsonaro (ainda).

Sem farda, sem medo…

O segundo ex-ministro a falar na CPI da covid na última semana foi Eduardo Pazuello. O general, que ficou à frente da Saúde na época em que a pasta executou obras sem licitação no valor de R$ 28,8 milhões de reais, chegou a ganhar o direito de ficar calado. Mas, para todos os efeitos, ele falou muita mentira e o que mais fosse necessário para proteger Bolsonaro.

Pazuello negou que o presidente interferiu nos assuntos da sua pasta (mentira), afirmou que as manifestações de Bolsonaro eram “coisa de internet” (também mentira), que o TrateCov foi obra de criminosos (meia verdade) e que a compra de vacinas da Pfizer demorou graças a pareceres do Tribunal de Contas da União (outra mentira). Apesar de tudo, o general, ao contrário de outras pessoas, não correu o risco de sair do Senado e ir para a delegacia mais próxima, mas virou escala para piada da parte de Renan Calheiros (MDB-AL).

O primeiro dia de depoimento de Pazuello foi interrompido após ele passar mal, mas o ex-ministro também negou que isso fosse verdade.

… e sem verdade

Em seu segundo dia de depoimentos, o general Eduardo Pazuello foi tão consistente quanto Esteban Ocon durante a sua primeira temporada na Formula 1 em 2017. O problema é que dessa vez os senadores estavam tão preparados para estragar a sua sequência de mentiras quanto o circuito de Interlagos estava preparado para acabar com a sequência de corridas sem abandonos do piloto europeu. Dessa vez as suas mentiras não passaram batido (ou contrário do carro de Ocon, que se envolveu em batida naquele final de semana).

Pazuello não conseguiu sequer manter em pé as afirmações do dia anterior. E olha que nesse caso nem precisou de um senador para ser desmascarado. Em outros casos, a sua mitomania foi tratada com escárnio por Omar Aziz.

Em outras palavras, a interrupção da oitiva serviu para que os senadores recebessem mais relatórios de internautas que sabem utilizar o Internet Archive. Isso ajudou todo mundo a rebater melhor as contradições e mentiras do ex-ministro. Vitória para o Senado e vitória para o presidente, que agora pode reforçar mais as suas narrativas com a sua rede de apoiadores.

Ai ai esse general é brincalhão d+

Para reforçar os elogios e demonstrar para todo o país que o presidente está do seu lado, Pazuello resolveu fazer de conta que não é obrigado a seguir nenhum tipo de lei. O general se uniu ao presidente no último domingo em um “memorável” e bem caro passeio de bicicleta no Rio de Janeiro. Com custo de quase meio milhão de reais, o bate perna presidencial foi uma ótima forma de colocar o Rio na liderança dos novos casos de covid em duas semanas.

No Twitter, o novo petista general Santos Cruz criticou a ação. A cúpula do Exército acompanhou o ex-ministro e ameaçou aplicar uma punição pesada para Pazuello (aposentadoria precoce com remuneração integral). Já Bolsonaro correu para calar a boca institucional de qualquer representante das Forças Armadas.

Ô pega ele, Renan

A lista de vítimas da CPI da covid não para de crescer. Um dos nomes que podem ser ouvidos é o ex-assessor da Presidência, Arthur Weintraub. Ele é acusado de coordenar uma sucursal não oficial do Ministério da Saúde e até o momento não saiu do país para deixar de encarar os senadores por estar muito ocupado apagando seus rastros na web.

Outra que deve ser ouvida é a infectologista Luana Araújo. Ela deixou o cargo de secretária de Enfrentamento À covid-19 dez dias após ser nomeada. Com sorte sobra até para o confiável e grande representante do liberalismo brasileiro Hélio Beltrão.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Uma tragédia de vários atos

O currículo (verdadeiro, não o falso) de Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente, é de dar inveja a quem não gosta do meio ambiente. Ele já adulterou mapas para beneficiar mineradoras, loteou cargos de comando entre policiais da Rota e deu poder a gente que autorizou exportação de madeira sem documentação no Pará.

Nos finais de semana, impede servidores de órgãos ambientais de fazerem o seu trabalho e abre mão de dinheiro de multa ambiental. Nos dias úteis, garante que o país registre o maior desmatamento em um mês de abril em dez anos e o número de espécies da Mata Atlântica que foram extintas continue a crescer.

Na última semana, ele ganhou uma nova conquista: recebeu uma visita da Polícia Federal.

Ato I: intimidação e lobby para suposto criminoso

As suspeitas da PF são graves. As investigações levaram os policiais a acreditarem que Salles intercedeu a favor de madeireiros paraenses que derrubaram madeira nobre na Amazônia ilegalmente. Tudo isso, segundo a PF, com a devida remuneração.

O caso envolveu afrouxamento da fiscalização ambiental, emissão de autorizações retroativas, o FBI e a Inglaterra, como explica o Intercept. A Polícia Federal brasileira entrou na história após a polícia estadunidense enviar um zap zap para os seus companheiros tupiniquins. Com o apoio do ministro do STF, Alexandre Foucault de Moraes, a ação foi deflagrada.

Ato II: toca pra cadeia

O ministro Alexandre Vigia&Pune de Moraes autorizou a coleta de documentos e provas nos endereços de Salles, além da quebra dos sigilos fiscal e bancário dele e de outros envolvidos no caso, como o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, afastado do cargo por ordem da justiça. Essas medidas devem dar à PF a liberdade para verificar se o ministro e seus homens de confiança cometeram crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação ao contrabando.

O trabalho de Moraes também suspendeu o despacho do Ibama que ajudaria os madeireiros acusados de fazer a extração de madeira ilegal a venderem o seu produto no mercado internacional. Salles negou que cometeu crimes.

Ato III: normal isso

Para demonstrar o seu interesse em colaborar com a Justiça e provar que não tem medo, o “excepcional ministro” visitou a superintendência do órgão em Brasília acompanhado de um assessor armado para tirar satisfações sobre o inquérito (Salles achou que a PF é uma unidade do Ibama?). À tarde, foi ao Planalto se reunir com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça.

O ministro da Justiça é responsável por coordenar as ações da PF. Entre as suas últimas medidas, está a proposta de reestruturar o órgão. Se ele conseguir o que deseja, delegados perderão a autonomia para investigar autoridades com foro especial, como é o caso de ministros do Meio Ambiente.

A semana da covid-19

A falta de insumos para a fabricação da CoronaVac fez com que o número de brasileiros com a segunda dose da vacina atrasada triplicasse em pouco mais de um mês. Para piorar a situação, a China mandou avisar que o volume de insumo farmacêutico ativo (IFA) do imunizante que será entregue amanhã será reduzido em 25%.

Já a Fiocruz recebeu da China uma remessa de IFA para retomar a produção da vacina AstraZeneca. Em nota, o Ministério da Saúde anunciou que os insumos vieram “do exterior”. Após ironia do embaixador Yang Wanming, o Itamaraty agradeceu a China adequadamente.

Em São Paulo, três cidades do interior voltaram a decretar lockdowns em função do aumento do número de casos. O governador João Dória (PSDB-SP) respondeu anunciando uma nova flexibilização das regras de isolamento para o próximo mês. Em nota exclusiva para o blog, o Sars-Cov-2 informou que está preparado para transformar a oportunidade de se propagar em uma nova variante.

Falando em nova variante, a indiana já está em território nacional. Ele pegou carona em um navio de bandeira de Hong Kong que foi fretado pela vale para transporte de minério de ferro. Cem pessoas tiveram contato com infectados com a variante.

Nem tudo é horrível, porém. Filhos de mães que receberam a CoronaVac estão nascendo imunes a doença. O aleitamento é uma das medidas que podem ser adotadas para reforçar a imunidade contra a covid.

O ministro da Saúde reteve 3 milhões de testes de covid-19. Parte deles foram entregues a São Luís nos últimos dias. O ministério não informou se também entregou mascaras chinesas com suspeita de falsificação no evento, mas deixou escapar que entregou comprimido que não trata covid-19 para indígenas tratarem covid-19.

Queiroga negou que corremos risco de uma terceira onda. Especialistas discordam. O país atingiu 450.000 mortes pela covid-19 na última semana e já estamos prestes a entrar no top 10 de média de mortos por 100 mil habitantes.

New phone who dis

A CPI da Covid nos permitiu conhecer em detalhes o que o governo não fez para comprar as vacinas da Pfizer. Entre agosto e setembro de 2020, dez e-mails foram enviados ao governo oferecendo entre 30 milhões e 70 milhões de doses do imunizante. As mensagens não foram respondidas.

Os e-mails mostram que a empresa insistiu em ter o apoio de um Planalto que não pensava duas vezes antes de deixar de comprar vacina. O governo só respondeu em dezembro. A mensagem, segundo ele, foi bloqueada por um vírus.

As novas ideias ruins de Paulo Guedes

Paulo Guedes segue mostrando para todo mundo que há muito espaço no liberalismo brasileiro para ideias ruins e apoio a políticos autoritários. A eleição de 2022 vêm aí e o ministro da Economia está, novamente, prometendo vender terreno na lua e usar a verba para ajudar pobre a pagar o seu curso técnico (pois faculdade é coisa para rico, todo mundo sabe).

O ministro terá que afinar o discurso caso queira manter o apoio do grande empresariado. O ex-presidente da Fiesp e acionista da Klabin, Horácio Lafer Piva, não esconde o seu pessimismo. Motivo não falta.

Lulinha paz e amor

Lula quer mesmo fazer o grande megazord contra Bolsonaro. Jean Wyllys migrou para o PT e o ex-presidente reuniu com o único tucano que conseguiu derrotar o petista em eleições. O cardápio dos seus almoços? Reconciliação e democracia.

Os tucanos ficaram irritados com a ação de FHC, enquanto os petistas ficaram animados. A raiva do tucanato faz o blog refletir se um senhor com 9 décadas de vida deveria se importar com gente que não se importa tanto assim com ele. Quem vê até pensa que o ex-presidente é inocente.

A caravana de Lula envolveu o mercado financeiro, as igrejas evangélicas, José Sarney e até Romero Jucá. Pode-se dizer que tem sido tempos difíceis para quem brigou com a família durante a queda de Dilma Rousseff (PT).

Lula poderá ir aos debates falando que, no seu tempo, indígena não morria de desnutrição, que sobrava dinheiro para comprar uma picanha no final de semana e que as pessoas tinham vacina. Enfim, que o brasileiro tinha motivos reais para ser otimista. E Bolsonaro avisou: se o brasileiro não gostar do cenário atual, pode abraçar o petista.


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A Nova Era – semana #124: sentando em cima da bola

Ameaças de prisão na CPI da Covid, o acúmulo de provas de que o governo Bolsonaro teve comportamento semelhante ao de uma gestão genocida e o desastre ambiental e educacional que é realidade no país.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #124 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-11 and may-17


Esse trator aí é de que?

O tratoraço está ganhando menos atenção em comparação à CPI da Covid (mais sobre isso adiante), mas não deixa de ser um ótimo escândalo. O presidente, por exemplo, já mostrou que não está muito feliz em todo mundo saber que existe um “orçamento secreto” de R$ 3 bilhões para os seus amigos. Falar sobre o tema, que pelo visto envolve uma cifra de R$ 20 bilhões, virou coisa de canalha.

Como aqui no blog ninguém se coloca como portador da moral e dos bons costumes, falaremos sobre o tema. Começando pelo pelo fato de que o senador Roberto Rocha (PSDB-MA) entrou com um pedido de CPI para investigar o caso. Rocha é aliado do Planalto e tem apadrinhados na empresa pública usada no esquema, o que é um claro sinal de que o governo deveria ter pago um boleto maior para ele.

E a Procuradoria-Geral da República? Ficará na dela enquanto a situação política e a disponibilidade de uma vaga no Supremo Tribunal Federal forem alinhadas com o desejo de Augusto Aras de trabalhar no STF. Em outras palavras, o [CENSURADO]-geral da República seguirá exercendo o seu trabalho de [LIMITADO PELO DEPARTAMENTO JURÍDICO]-geral da República.

Olho no lance

Em pleno clima de democracia e alegria, a Polícia Federal encaminhou ao STF um pedido de abertura de inquérito para investigar supostos pagamentos ao ministro Dias Toffoli em troca de decisões favoráveis. A solicitação partiu da análise da delação premiada de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro.

Cabral afirmou que Toffoli recebeu R$ 4 milhões para favorecer dois prefeitos em processos quando era presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Toffoli, obviamente, negou as acusações. A delação não foi homologada, mas o inquérito contra Toffoli foi barrado.

Governo técnico, destruição de credibilidade técnica

A CPI da Covid foi animada. Durante o depoimento do diretor-presidente da Anvisa, o senhor Antônio Barra Torres, Jair Bolsonaro foi criticado com o rigor técnico de quem exerce um cargo técnico com indicação política. Coisa linda, linda. Teve até pedido de desculpas pelos erros do verão passado.

Torres criticou as falas e ações negacionistas do presidente e confirmou que o governo queria mudar a bula da hidroxicloroquina para indicar que ela é capaz de tratar a covid-19 (não é). Alteração de bula por decreto é ilegal, mesmo que seja apoiada (supostamente) por médica bolsonarista. Em resumo, o depoimento foi mais uma oportunidade de registrar, nos anais do Senado, o que já se sabia pela imprensa.

Quem tem cu, tem medo?

O grande depoimento da semana foi o de Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação do Planalto. Após atribuir em cadeia de imprensa nacional o atraso na compra de vacinas à incompetência do ex-ministro Eduardo Pazuello, a CPI o convocou para explicar exatamente o que ela já sabia. Infelizmente, Wajngarten não estava muito disposto a fazer isso.

As falas de Wajngarten foram compostas por muita mentira, contradição, confusão e ameaça. Na parte da verdade, Wajngarten admitiu que uma carta com ofertas de vacinas da Pfizer ao Brasil ficou por ao menos dois meses na gaveta do governo em 2020.

A carta trazia, entre outras coisas, a proposta de transformar o Brasil em uma vitrine mundial de vacinação. O governo recusou as propostas todas as vezes em que elas foram feitas. Todo mundo sabe que somos párias, não imaginávamos que também nos colocaríamos voluntariamente na posição de nação que não curte um soft-power diplomático.

Saiu barato

Após afirmar que abandonou esposa e filhas em São Paulo para servir ao país, Wajngarten foi pego na mentira. Renan Calheiros e outros senadores pediram a prisão de Wajngarten, mas o senador Omar Aziz (PSD-AM) entregou apenas um pedido de investigação de crime de falso testemunho ao Ministério Público.

A medida fez a entrevista dada à revista Veja e a briga com Markinhos Show custarem um pouco menos do que um pedido de prisão, mas não o bastante para dizermos que a mentira do ex-chefe da Secom saiu barata. Em todo caso, o alerta foi dado: senadores não aceitarão que depoentes e convidados tratem a casa do povo como um grupo de Whatsapp bolsonarista.

Bagunça gostosa

A CPI ainda pretende quebrar os sigilos de Wajngarten e dos integrantes do “gabinete do ódio” para saber se houve dinheiro público na propagação de notícias falsas sobre a pandemia. Que houve dinheiro público na propagação de campanha contra as medidas de isolamento por parte do governo, a gente sabe. O Wajngarten até tentou dizer que não, mas todo mundo sabe que houve.

No apagar das luzes, vendo que a situação do governo estava pior do que o esperado, o senador Flávio B. (Republicanos-RJ) invadiu a CPI para chamar Renan Calheiros de “vagabundo” e mandá-lo “se foder“. Renan lembrou que F. B. também tem os seus B.O.s com a Justiça e ficou tudo por isso mesmo. Por enquanto (o Renan Calheiros tem memória boa).

Em notas não relacionadas, o Ministério da Saúde apagou links que prescreviam remédio ineficaz para cuidar da covid-19 de seu site. Não se sabe, ainda, se Wajngarten passou pelo departamento de TI do ministério antes que a remoção dos dados fosse executada.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Vitrine quebrada

Retomando à história do Brasil ajudando a vacinar o mundo com muito samba, cerveja ruim (todas) e mulheres com pouca roupa sambando no aeroporto, o gerente-geral da Pfizer na América Latina afirmou que o governo recusou ao menos cinco ofertas de vacina em 2020. A primeira oferta incluía a entrega de 4,5 milhões de doses do imunizante fabricado pela empresa, o bastante para evitar algo próximo de 5.000 mortes.

O relato é mais um dos depoimentos que mostram como o governo foi negligente na condução da pandemia e na compra de vacinas (para bater papo com cantor ruim). Ele também adiciona um fato novo aos anais da comissão. O vereador federal Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, participaram das reuniões com os representantes do laboratório.

Alguém aí falou em ingerência externa nos assuntos da União? O blog está falando em ingerência externa nos assuntos da União.

A semana da covid-19: the good

A média móvel de mortes por covid-l9 atingiu, pela primeira vez em 55 dias, um número abaixo de 2 mil óbitos diários. Ele ficou em 1.980. O número é uma redução de 17% em comparação com o período anterior.

A aplicação de vacinas segue claudicante. O Ministério da Saúde suspendeu a aplicação da vacina da AstraZeneca em grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz e tenham comorbidades, inclusive da segunda dose. A medida foi tomada após a morte de uma gestante que recebeu o imunizante no Rio de Janeiro, mas ao contrário de muitos de seus maridos, as grávidas ainda preferem as vacinas à morte por covid-19.

O Ministério da Saúde também anunciou o segundo contrato para compra de 100 milhões de doses da vacina da Pfizer. A quantidade é a mesma do acordo anterior e os insumos só devem chegar em setembro. O prazo não incluiu os atrasos que acontecerão após alguma fala horrorosa do presidente.

Na fileira de boas notícias da Saúde, o ministério também anunciou o lançamento de uma campanha de conscientização sobre o uso de máscaras e pela vacinação. As peças publicitárias, segundo informações exclusivas do blog, mostrarão a melhor maneira de usar máscaras de crochê e a proteção menos adequada para ver o presidente falar absurdo em protesto golpista. No que se refere às vacinas, os roteiros devem indicar os melhores cuidados a serem adotados quando a segunda dose ficar atrasada em função da inabilidade do presidente manter a boca calada.

A semana da covid-19: the bad

O governo admitiu que pode perder 2,3 milhões de testes de covid-19 nos próximos meses (na base do fogo e na base da inércia). Eles poderiam evitar o quase meio milhão de mortes que já registramos se tivéssemos um sistema de rastreamento de casos funcional. As vítimas, juntas, tornaram o país R$ 165,8 bilhões mais pobre (por enquanto).

Outra coisa que poderia ajudar o brasileiro a enfrentar a pandemia era um maior número de médicos trabalhando na rede de saúde, mas o Conselho Federal de Medicina tem dificultado a validação de diplomas estrangeiros.

Seria uma boa ideia se alguém avisasse o pessoal do CFM que nem todo médico estrangeiro veio de Cuba. Vai que isso ajuda a turma a ser mais aberta ao capital humano estrangeiro e mais fechada a ideias ruins.

A semana da covid-19: the ugly

O nível de isolamento dos brasileiros é o mais baixo desde o início da pandemia do coronavírus. O dado foi obtido pelo Instituto Datafolha e apontou que apenas 30% dos brasileiros adultos estão totalmente isolados. O resto sai de casa sempre ou quando é evitável.

Não se sabe se estas pessoas que saem de casa em nome da saúde mental e da ativação das zonas erógenas por terceiros fazem os seus passeios por se importarem com as opiniões do presidente, mas é fato que todos são considerados muito espertos por Jair Bolsonaro. Querer viver é coisa de gente idiota.

Colocando a bola no nosso pé, na frente do gol

Por razões que o blog é incapaz de compreender, o preposto do presidente Joe Biden para assuntos de meio ambiente, John Kerry, acredita que o Brasil tem responsabilidade em liderar a busca por uma solução para a crise climática. Se o leitor não entendeu, o blog repete: os Estados Unidos acreditam que o Brasil deve retomar o papel de liderança ecológica global que perdeu, nos últimos anos, para os Estados Unidos.

Kerry também está disposto a cooperar com o governo Bolsonaro sem recorrer a sanções desde que o governo tome “medidas imediatas para reduzir significativamente o desmatamento em 2021”. Para demonstrar a disposição da nação em voltar ao seu posto de destaque global, a Câmara dos Deputados aprovou um novo modelo de licenciamento que pode jogar todos os tipos de avanços dos anos anteriores no lixo. Exemplo importa, especialmente exemplo negativo.


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A Nova Era – semana #123: Igreja Remanescente Bolsonarista dos Primogênitos

Os primeiros grandes passos da CPI da Covid, novos sucessos do coronavírus em terras brasileiras e o presidente tentando desviar o foco da mídia. De novo.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #123 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-04 and may-10


A abertura da caixa de Pandora I

A CPI da covid iniciou a sua rodada de depoimentos de ex-ministros da Saúde com Luiz Henrique Mandetta. O terror das velhinhas prestou depoimento e reafirmou quase tudo o que já estava dito no seu livro. Ou seja, quem não gosta de ler poderá ver o filme (mas a duração é de sete horas).

A grande surpresa estava na carta enviada ao presidente ainda em março de 2020 e que foi tornada pública pelo ex-ministro. O documento previa o colapso do sistema de saúde (e foi ignorado pelo presidente). O texto será mais uma prova que poderá ser utilizada por aí para pessoas falarem que Jair Bolsonaro fez e faz cosplay de genocida com o povo brasileiro.

Outra grande surpresa (já confirmada pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antônio Barra Torres, durante o fechamento desta edição) foi a sugestão de um agente secreto (não literal) para incluir o tratamento de covid na bula de remédios sem eficácia contra a doença. A decisão chegou a ser apoiada por parte do Planalto, mas acabou sendo jogada fora após protestos de Barra Torres.

Para muitos, a situação é outro exemplo de que Bolsonaro cuida da saúde do brasileiro sem consultar especialistas em cuidar da saúde do brasileiro. Vai ver Bolsonaro é um desses liberais que acredita que faculdade não serve para nada e a gente não sabia.

O amigo do meu inimigo pode ser o meu amigo

O depoimento do ex-ministro foi bem morno. Quem conhece a história das nossas CPIs sabe que elas podem ser bem piores. Em alguns casos, dão até capa para revista de mulher pelada.

No geral, Mandetta procurou ser técnico nas respostas e driblou as armadilhas da minoria governista, chegando a provocar um momento de constrangimento. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, conseguiu entrar para os anais da comissão mesmo sem atuar no combate à pandemia diretamente: o ministro enviou uma pergunta a Ciro Nogueira (PP-PI) que foi feita a Mandetta no dia anterior ao seu depoimento.

Esse é o tipo de situação que faz a gente pensar que estamos sendo governados por pessoas que não sabem utilizar o telefone para coisas que não envolvam compartilhar mentiras, pornografia ilegal e memes de política no Whatsapp. Elas se juntará à descoberta de que o Planalto elaborou requerimentos de convocações e pedidos de informações, no hall de provas de que o governo não está preocupado com a CPI, só com a vergonha que passa graças ao Twitter @tesoureiros.

A abertura da caixa de Pandora II

O segundo depoimento de ex-ministro foi o de Nelson Teich. Ele também não trouxe muito de novo: afirmou que saiu da pasta por falta de autonomia e por ser contra a ideia de indicar remédio que não serve para tratar covid para tratar covid.

Teich evitou fazer críticas diretas ao presidente ou ao então secretário-executivo do ministério, o general Eduardo Pazuello, que viria a sucedê-lo. Suas tentativas de sair da CPI sem se queimar com geral irritou o presidente da comissão, o senador Omar Aziz (PSD-AM), mas não é como se o ex-ministro tivesse prometido grandes revelações ou um pirocóptero de absurdos para a comissão.

A abertura da caixa de Pandora III

Marcelo Queiroga, o atual ocupante do cargo de ministro da Saúde, também foi ouvido. Ele chegou à CPI com um novo acordo de compra de vacinas assinado com a Pfizer (com um valor de compra maior do que o original) e tentou utilizar a novidade como uma forma de aliviar a pressão na comissão. Sem sucesso.

Ao longo de seu depoimento, Queiroga deixou os senadores não governistas mais irritados do que o normal. O nível de teflon presente na sua língua era absurdo, mas não deve ser bom o bastante para impedir que ele seja reconvocado. Ao longo da sua fala, o ministro driblou todas as perguntas incisivas, ignorou o seu diploma, fez de conta que a descrição do seu cargo não existe e que não lembrava do passado.

G*******o

Em notas relacionadas, a secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, admitiu ao MPF que, por ordem de Pazuello, organizou a ida de uma comitiva a Manaus em nome do Ministério da Saúde. O objetivo do passeio foi a difusão de tratamentos ineficazes às vésperas de a cidade entrar em colapso.

O vice-governador Carlos Almeida Filho (sem partido) acusou o governador Wilson Lima (PSC-AM) de ter implantado uma política de “imunidade de rebanho”, que contou com o apoio de Bolsonaro e foi apontada como responsável pelo caos que atingiu os hospitais da capital do Amazonas.

Existe um nome não muito elogioso para quem faz experimentos de saúde em grandes populações sem o seu consentimento. Quem possui acesso a um dicionário consegue encontrar esse termo com alguma facilidade.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Fujão

E o ex-ministro Eduardo Pazuello, do Partido das Forças Armadas do Brasil? Alegou que não compareceria por ter tido contato com duas pessoas que podem ou não terem sido infectadas com covid-19 em algum momento da pandemia. É meio confuso, mas a desculpa foi essa.

Os governistas até tentaram fazer o general falar por vídeo (ótima alternativa para quem quer ser assessorado na hora do depoimento), mas o presidente da CPI remarcou o depoimento para a próxima semana. Com a decisão, o ex-ministro ganhou mais alguns dias para se preparar para falar coisas que não o coloquem na cadeia. Ou deixar de ser abandonado por Bolsonaro e pelos militares.

Pazuello protegeu os senadores, mas não protegeu os ministros do governo. Onyx Lorenzoni (DEM), que é o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, visitou o ex-ministro para ajudar na sua preparação. Pegou mal e houve quem pensou em realizar uma condução coercitiva do general para a CPI.

A semana da covid

O resumo de mais uma semana de pandemia é semelhante àquela época da F1 em que a Lotus fez um carro tão bom que utilizou o mesmo bólido em duas temporadas. O presidente continua apoiando a luta do vírus para acabar com a humanidade e segue sem tomar a sua vacina.

Enquanto isso, uma nova variante do vírus foi identificada no Rio de Janeiro. A notícia foi publicada no tempo certo para garantir a manutenção da liderança do Rio no ranking de Unidade Federativa mais desgraçada do país. Ao mesmo tempo, soubemos que:

Ficou para as semanas que vem

Lembra da reforma tributária que o Maia tocou quase que sozinho? Ficou para a semana que vem, graças a Arthur Lira (PP-AL). O presidente da Câmara acabou com a comissão mista de deputados e senadores que era responsável por analisar o texto apoiado pelo deputado do DEM. Se aprovado, o parecer recomendaria a união de cinco tributos sobre o consumo.

Lira disse que a decisão foi tomada pois ele percebeu que o prazo para a comissão tinha esgotado. O processo, agora, pode voltar à estaca zero. Sai feliz dessa história Paulo Guedes, que nunca gostou da ideia de Maia e prefere realizar uma reforma mais difícil de ter grandes impactos estruturais e de ser aprovada.

Meu trator, seu trator, nosso trator

O governo Bolsonaro tem um possível escândalo de corrupção para chamar de seu. Ou pelo menos um escândalo de imoralidade. Depende do bom humor do leitor com o chefe do Executivo.

Segundo o jornal Estado de S. Paulo, o governo Bolsonaro montou um orçamento secreto de R$ 3 bilhões em emendas para um grupo de parlamentares da base aliada. Os congressistas teriam indicado diretamente o destino de valores ao Ministério do Desenvolvimento Regional, atropelando leis orçamentárias. Entre os beneficiários estão o presidente da Câmara, Arthur Lira, o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), e a atual ministra da Secretaria de Governo, a deputada Flávia Arruda (PL-DF).

O carro chefe da planilha era a compra de tratores. Cerca de R$ 270 milhões foram usados com o tipo de veículo e há todo tipo de suspeita de superfaturamento. Algumas compras foram realizadas com um valor 259% maior do que o listado na tabela de referência do próprio governo federal.

O orçamento foi criado para comprar aumentar os incentivos técnicos e políticos para que parlamentares atuassem em sintonia com o governo federal. Essa verba deveria ter o destino estabelecido pelos ministérios com critérios técnicos. O governo, porém, utilizou uma “taxa de fidelidade” para definir a distribuição dos recursos.

Normal isso

Políticos de oposição e especialistas tratam o caso como gravíssimo. Há quem voltou ao passado para fazer um paralelo com o caso dos Anões do Orçamento. O Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas da União devem investigar o orçamento paralelo e até que ponto a planilha está dentro da legalidade.

A oposição está trabalhando, também, para a criação de uma CPI do Tratoraço (que não deve investigar só a compra de veículos). Há um pequeno problema: tem muita gente importante envolvida no possível esquema ilegal.

Se o presidente não tem o que temer, é fundamental que a CPI seja aberta por gente com muito rancor e o país entenda exatamente até que ponto a notícia do Estadão passa da imoralidade e entra na ilegalidade (provavelmente mais o último do que o primeiro). Na melhor das hipóteses, ela pode explicar muitas coisas que foram vistas, no passado, como má articulação política. Da diáspora no DEM ao ocaso de Rodrigo Maia, há mais coisas entre o céu azul e a terra vermelha de Brasília do que pode imaginar nossa vã filosofia.


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A Nova Era – semana #122: hoje, amanhã e depois

A importância da semiótica, o liberalismo de Paulo Guedes, a CPI da covid-19 e as derrotas do governo.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #122 do governo Bolsonaro.


The following takes place between may-03 and may-10


O novo som de Salvador: renanzei, renanzou

Renan Calheiros (MDB-AL) foi para a CPI da Covid pronto para cair na graça do jovem que deseja um fim doloroso ao governo Bolsonaro. O senador assumiu a relatoria da comissão pregando oposição ao negacionismo e aos que tentaram derrubar o seu brilho no passado.

Caminhos para o relator seguir não faltarão – mas o governo jura que está tudo bem. Uma das primeiras vítimas foi o ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde), que recebeu tiro de sal grosso antes mesmo de pegar um Uber para conversar com os senadores.

Pode ser que a CPI acabe dando em nada? Sim, como muitas deram no passado. Mas limão estragado para azedar a limonada de Bolsonaro tem para dar e vender.

Todo dia um 7×1

Independentemente do resultado da CPI, o despreocupado governo já tem alguns gols contra para chorar. O senador governista Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, votou no independente Omar Aziz (PSD-AM) para a presidência da comissão alegando a (falsa) promessa de imparcialidade do senador. Quem poderia imaginar que um político do centrão pensa mais na própria imagem do que no apoio ao governo da vez, não é mesmo?

As notícias ruins também envolveram a lista de nomes que serão ouvidos pela CPI nos próximos dias. O primeiro deles é o ex-ministro Henrique Mandetta, que promete utilizar o espaço da CPI para promover o seu livro de memórias e, eventualmente, galgar capital político para as eleições de 2022. Os outros ex-ministros da Saúde também serão ouvidos pela comissão e já estão preparando as melhores estratégias para promoverem as suas carreiras profissionais.

O senador governista Luiz do Carmo (MDB-GO) descobriu que estamos no meio de uma pandemia e pediu que os trabalhos da comissão só começassem em outubro (como se existisse alguma chance de o país estar vacinado até lá). Sem sucesso.

A situação ficou tão complicada que os senadores Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE) pediram ao Supremo que o relator e seu o suplente (Jáder Barbalho (MDB-PA)) fossem retirados da comissão, sob a alegação de que são pais dos governadores de seus estados. O pedido também não teve sucesso (e ainda irritou o presidente da comissão).

O ministro da Justiça também fez a sua parte em termos de ideias imbecis com resultados desastrosos (para o governo). Anderson Torres questionou se a comissão focaria apenas no governo federal ou também olharia para as verbas repassadas aos estados. Agora, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), quer ouvir o ministro.

Enquanto isso, o Planalto utilizava recursos do pagador de impostos para escrever pedidos de senadores governistas para serem utilizados na CPI da Covid. Já o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), chamou Pacheco de “ingrato” por ele não ter desobedecido o Supremo Tribunal Federal. Vai ver o presidente do Senado não ignorou o STF por saber que não tem um cabo e um soldado a tira colo.

Todo mundo pode tentar

Correndo por fora, um grupo de auxiliares de Bolsonaro tentou estreitar os laços do presidente com o Tribunal de Contas da União (TCU). A área técnica do órgão não deixou de registrar todas as falhas do governo no enfrentamento da pandemia. Bem utilizados, os dados do TCU podem ser uma bomba para o Planalto.

Para quem não se lembra, foi a ação do TCU que deu lenha para a fogueira do impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016. Então, ainda que o senador Ciro Nogueira tente negar o potencial da CPI em derrubar o presidente, é bom ficar de olho: Eduardo Cunha também jurou até o último minuto que não existiam motivos para abrir um processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

400.000 mortes

Pouco mais de um mês depois de registrar 300 mil vítimas pela covid-19, o Brasil registrou a marca de 400 mil mortes. Abril é o mês mais letal da doença (por enquanto). Sete em cada dez brasileiros conhecem alguém que morreu por causa da doença. Em cada 20 infelizes moradores do Brasil, pelo menos cinco perderam alguém próximo.

Em resposta, o Dia das Mães e os protestos de 1º de maio a favor do presidente (mais sobre isso adiante) prometeram trabalhar para quebrar o recorde do quarto mês do ano. A parceria firmada com as várias cepas de SARS covid-19 são apontadas como fundamentais no processo. O STF e a Câmara dos Deputados fizeram um minuto de silêncio pelas vidas perdidas enquanto o Planalto reafirmou que é central (para o sucesso do vírus).

O ministério da Saúde decidiu que as gestantes e puérperas serão parte do grupo prioritário de vacinação contra covid-19. Isso, é claro, se tivermos vacina para elas: em todo o país a aplicação do imunizante tem sido suspensa por prefeitos que não conseguiram a segunda dose (ou a primeira) dentro do prazo programado.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Paulo Guedes e seus amigos liberais are at it again!

O ministro da Economia (nas horas vagas) e participante de live de banco (em tempo integral) Paulo Guedes mostrou, de novo, novamente, que ascensão social e diplomacia não é lá muito a sua praia. Em uma semana, Guedes disse que:

Vamos lá. Além de nossa maior parceira comercial, a China é o principal fornecedor das vacinas e dos insumos utilizados para fabricar imunizantes ao Brasil. O aumento da expectativa de vida é um dos maiores indicadores de que o país está se tornando desenvolvido. Ao mesmo tempo, a presença de filhos de porteiro em universidades é um bom indicativo de que uma nação tem algum nível de mobilidade social.

Houve quem olhou para essa sequência de falas do ministro da Economia (você é ministro quando a sua caneta está sem tinta?) e disse que ela não representa o liberalismo brasileiro de verdade. Balela. Nunca faltou liberal com espaço na mídia dizendo coisas parecidas com mais elegância e moderação.

Enquanto o liberalismo for utilizado para dar sentido a vida de quem não gosta de pagar IPVA, esse tipo de fala será mais a regra do que a exceção. Pode-se até negar isso, mas essa alternativa envolve brincar de liberalismo sem encarar a plenitude do que é ser liberal no Brasil, um caminho que já foi tentado no passado e não deu certo.

Mais um dia comum no Brasil de Jair Messias Bolsonaro

Após tomarem a sua dose de vacina, o grupo de apoiadores mais aguerridos do presidente foi às ruas mostrar que os seus problemas são apenas mentais. A aglomeração do grupo de risco de covid-19, dessa vez, foi para dizer que o presidente está autorizado a fazer o que ele não pode fazer.

A manifestação em Brasília contou com o presidente utilizando helicóptero das Forças Armadas para insinuar que ele e a instituição apoiam a manifestação golpista. Semiótica importa.

Em duas semanas nós veremos o resultado da brincadeira. Spoiler: não envolverá Jair Bolsonaro fazendo cosplay de presidente de El Salvador.

Olho na safadeza

Falando em gente com aspiração golpista, a presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), Bia Kicis (PSL-DF), vem dando ênfase a projetos que reduzem a ação do STF. Um deles pretende proibir decisões monocráticas liminares em ADIs (ações diretas de inconstitucionalidade) e ADPFs (arguições de descumprimento de preceito fundamental). Já outro quer vetar ações que se baseiem em questões de princípios da Constituição.

Às vezes o pessoal quer copiar o presidente de El Salvador e esqueceu de avisar a gente. O filho do nosso presidente apoia a ideia. A Constituição em vigor, porém, tem as suas dúvidas sobre a legalidade da aplicação da ideia em território nacional.

Bem-feito

Quem lembra do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul? E quem lembra dos vários alertas de que a postura ambiental do atual governo prejudicaria a iniciativa? O blog lembra.

Pelo visto, os parlamentares europeus estão dispostos a utilizar a nossa inabilidade em reservar dinheiro para manter árvores vivas, a nossa recusa em responder a críticas adequadamente e a nossa falta de humanidade como uma ferramenta para barrar a ratificação do acordo. O centro da disputa está em um anexo de compromissos ambientais adicionais que ainda deve ser negociado. Para quem não se lembra, apenas a parte comercial do acordo já foi assinada.

O ministro do Meio Ambiente pode reclamar de protecionismo à vontade. Mas enquanto o Brasil aparecer na mídia como o país em que os servidores públicos levam covid-19 para indígenas isolados, os parlamentares europeus terão todo o direito do mundo para não avançar com o acordo. Perdem eles? Sim. Mas nós perdemos muito mais.

Pede para sair (ou admite que gosta de ficar)

A ficha caiu nas Forças Armadas. Os militares notaram que emprestar o próprio prestígio para alguém como Bolsonaro e voltar ao centro do palco político pode não ter sido uma boa ideia. Para piorar, o dano à imagem pode ser de difícil reversão. Que coisa, hein.

O ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz disse que há “um número excessivo de militares no primeiro escalão” (a avaliação também pode ser aplicada ao segundo e ao terceiro escalão). A crise de identidade não impediu integrantes da ativa de publicarem milhares de tweets de conteúdo político ao longo dos últimos dois anos.

Então os usuários de farda precisam se decidir, de uma vez por todas, se o salário de cargo comissionado vale mais a pena do que ser associado ao número de mortes por covid-19 dos últimos meses. Assim a gente pode manter o debate político nacional mais às claras.

Luz no fim do túnel

Algumas notícias animadoras para terminar o post da semana:

  • O grupo técnico do Ministério da Saúde deve aplicar um sonífero em Bolsonaro e contraindicar o uso de cloroquina e ivermectina para pacientes internados com covid-19.
  • A vacina da Pfizer está chegando aos poucos no Brasil.
  • O Congresso começou a pressionar o governo pela continuidade do auxílio emergencial (ou um programa que substitua o auxílio).
  • Essa semana será menos ruim do que a semana que vem (já diria o tuiteiro).

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A Nova Era – semana #121: faz arminha para a casa de vidro

Os amigos do presidente, as brigas com quem não se deve tratar como inimigo e a destruição criativa da nossa biodiversidade. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #121 do governo Bolsonaro (ou seria do amigo de miliciano? Questões)!

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The following takes place between abr-20 and abr-26


A semana da covid

TL/DR: tudo o que estava ruim ficou um pouco pior.

Os grupos considerados prioritários para receberem as vacinas contra a covid-19 terão que esperar um pouco mais para ficarem imunizados. A nova previsão do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é a de que isso só ocorra em setembro. O cronograma inicial tinha uma previsão quatro meses mais curta.

Segundo Queiroga, não é motivo para sermos alarmistas e ficarmos “contando doses”. Resta a nós, portanto, contar o número de pessoas mortas por falta de vacina: ele é, nos primeiros quatro meses do ano, maior do que o que o número de mortes pela doença registrado em 2020.

Enquanto o Instituto Butantan retomou a produção de doses da CoronaVac, a vacina da FioCruz não tem cronograma ou contrato feitos. O instituto também não conta com plano B para caso de atraso, mas, até então, se você não tem cronograma, não tem atraso, não é mesmo?

Para piorar tudo, também ficaremos, por hora, sem a vacina russa Sputinik V. A Anvisa vetou a importação do imunizante alegando ausência de documentos que permitissem a avaliação da qualidade e eficácia do produto. Vamos ter que depender de outras alternativas para enfrentar um vírus que, no Brasil, já está até dirigindo Volvo.

E o presidente diante disso tudo? Disse que pode colocar o Exército na rua para impedir que prefeitos e governadores implementem medidas como toques de recolher. Os militares não gostaram, mas também não desembarcaram do governo como forma de protesto (6.000+ cargos comissionados pagam muito bem).

No começo da semana os EUA decidiram que exportariam insumos para a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca na Índia, diante dos recordes da covid-19 no país asiático. A União Europeia também se comprometeu a ajudar com insumos hospitalares. A medida deve ser ampliada a outros países com problemas e que, é claro, não são governados por Bolsonaro.

A CPI do fim do mundo

Bolsonaro não tem medo da CPI da Covid. Os seus apoiadores na Câmara, por outro lado, estão com o cu trancando. Só isso explica deputada federal indo atrás de Renan Calheiros (MDB-AL) na Justiça. Ou o monitoramento feito pelo governo sobre o que pode abater a sua imagem durante a CPI.

O Planalto está de olho nos documentos do Tribunal de Contas da União, do Ministério Público Federal, da Universidade de São Paulo e do próprio governo que podem ser utilizados contra Bolsonaro. A situação é tão complicada que nem o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) nega que o governo “perdeu o timing” para se blindar na CPI.

Restou ir para a Justiça fazer uma das coisas mais imbecis que um governo pode fazer (cutucar Renan Calheiros). A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) tentou impedir que o senador seja o relator da CPI.. Deu errado e agora nós teremos garantia de Renan sendo o herói que precisamos, não o herói que queríamos.

Terça-feira fraca

O trabalho de quem quer pegar o Bolsonaro no pulo não será muito difícil. O Planalto já preparou uma lista com as possíveis acusações que podem ser feitas pelos senadores durante a CPI. O documento se somará ao fogo amigo do ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação (Secom) Fabio Wajngarten contra o ex-ministro Pazuello (que, segundo ele, quase foi preso).

Jogar Pazuello debaixo do caminhão não é uma estratégia que inspira confiança para quem ainda está no governo, mas não dá para dizer até que ponto ela servirá para salvar o Planalto. É complicado defender um trabalho que, entre outras coisas, envolveu direcionar gasto com a pandemia para a promoção do agronegócio e não faz repasse para os estados combaterem a pandemia.

O Planalto, aliás, também preparou o ex-ministro da Saúde para falar todo tipo de absurdo na CPI da Covid. O mini-curso aplicado pelo governo incluiu o ensaio de todo tipo de discurso que pode demonstrar o compromisso da administração federal em não seguir a ciência e as melhores formas de contar uma mentira. Em troca, Pazuello ganhou elogios públicos do presidente.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Big stick strikes us

A Cúpula do Clima foi, para o Brasil, exatamente aquilo que ela indicou que seria (uma bela oportunidade de passarmos vergonha em escala mundial). Joe Biden mostrou que os EUA estão com novo desejo de liderar o mundo para uma economia mais sustentável. Bolsonaro mostrou uma foto do nosso meio ambiente amordaçado e pediu um resgate bilionário para salvar as nossas florestas.

O problema é que Biden não estava ouvindo quando o presidente passou o chapéu para pedir dinheiro para os principais representantes do globalismo internacional. Apesar de gravatinha verde, ninguém mais leva a sério as promessas do governo. Afinal de contas, histórico de más práticas na área ambiental é o que não falta para os que nos governam.

A nossa única alternativa aos slides de baixa qualidade do briguento ministro do Meio Ambiente é mostrar que conseguimos gerenciar os recursos que já temos para reduzir o desmatamento e os nossos indicadores de poluição. Usar referências que não funcionam lá fora é menos efetivo do que simplesmente jogar no lixo a política de meio ambiente das últimas 121 semanas. Não existe almoço de apoio ao ministro Salles que dobre a realidade.

A realidade bateu na porta e foi bem ruim o que ela viu

Falando em realidade, as demonstrações de que o país está empenhado em seguir as principais práticas de preservação do meio ambiente já começaram no dia seguinte após o fim da conferência internacional. Jair Bolsonaro oficializou um corte de R$ 240 milhões da pasta do Meio Ambiente. Ele afetará políticas relacionadas a mudanças climáticas, controle de incêndios florestais e fomento a projetos de conservação da nossa flora e fauna.

No Congresso, o governo resolveu bancar dois projetos de lei que dividiria em dois o Parque Nacional da Serra do Divisor (AC) e a privatização de seu território, abrindo caminho ao desmate, ao gado e à extração mineral. A medida acontece ao mesmo tempo em que a ausência de dados oficiais para a fiscalização da devastação ambiental volta ao noticiário. Depois não adianta dizer que estão torcendo contra o país.

A vida me ensinou a cuidar do que é meu

Quem acompanha o blog com carinho e amor sabe que o presidente e a sua família estão com muitos boletos a serem pagos diante da Justiça. E, como quem não quer nada, a família está trabalhando ativamente para se blindar a médio e longo prazo de qualquer condenação. A estratégia, é claro, envolve fazer aquilo que eles disseram que o PT faria se chegasse ao governo: colocar gente amiga nas cortes superiores e em tribunais estaduais.

O esforço tem sido realizado com o apoio de advogados, que ajudam os Bolsonaros na interlocução com juízes. O grupo já é chamado de “bancada jurídica bolsonarista” por parlamentares próximos ao Planalto. Eles só precisam garantir que os indicados não se transformem em algozes como foi o caso dos ministros indicados pelo PT durante o julgamento do mensalão.

É compreensível a atitude do presidente e de seus familiares. Quem tem cu, tem medo. Quem presta homenagem a miliciano, trabalha com amigo de miliciano, é mencionado em ligação de miliciano, é visto como capaz de proteger miliciano, precisa da ABIN para se proteger das acusações de desviar dinheiro público com apoio de parente de miliciano e chegou ao poder aparecendo em investigação de miliciano precisa mesmo ter medo.

Em um contexto como esse é bem difícil saber de onde é que pode sair um golpe fatal.


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A Nova Era – semana #120: ninguém vai ganhar ou perder

A pandemia fazendo uma banana para os otimistas, o governo trabalhando ativamente para se blindar na CPI da Covid e o Lula lá. Confira isso e muito mais no resumo da semana #120 do governo Bolsonaro.

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The following takes place between apr-13 and apr-19


O que estava ruim ficará ainda pior

Não há nada no Brasil que não possa sempre piorar um pouquinho mais. A expectativa de vida do brasileiro, por exemplo, caiu pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial. Apesar de as projeções terem indicado que a métrica chegaria a 77 anos em 2020, o resultado final foi de 75 anos. Em alguns estados, a queda atingiu três anos.

Se isso já era ruim por si só, fique tranquilo, que após a realização do Censo (um dia, quem sabe) poderemos montar um cálculo mais preciso e que tome como base os dados de 2021. Eles contarão, por exemplo, com o efeito das cinco mortes de pacientes que participaram de testes clandestinos com cloroquina nebulizada em Manaus. Os responsáveis pelo “experimento mengeliano” receberam por isso sem precisar trabalhar, afinal de contas, isso é Brasil.

A falta de suprimentos para cuidar dos doentes seguiu imbatível. Na ausência de remessas de kits do Ministério da Saúde, hospitais paulistas adotaram remédios antigos. Provavelmente o Ministério da Saúde estava muito ocupado indicando que mulheres não engravidassem para ler os alertas emitidos pelos responsáveis pela gestão da saúde pública nos níveis estaduais e municipais.

Os atrasos também atingiram a vacinação. Pelo menos 1,5 milhão de brasileiros estão com a segunda dose da sua vacina em atraso segundo os dados oficiais. Deixar de tomar a segunda dose prejudica a eficácia do imunizante e causa pouco impacto na saúde pública nacional (tome a sua segunda dose, caso você tenha acesso a sua segunda dose (nem todo mundo tem acesso a segunda dose)).

A noção de grupo de risco, no meio desse cenário, precisa ser atualizada. Agora, com a vacinação avançando entre os mais velhos e as novas variantes explodindo em número de casso, mais da metade das UTIs foram ocupadas por pessoas de até 40 anos. O vírus virou coisa de millenial.

Todo mundo pode tentar

A CPI da Covid colocou o governo e a sua base preparados para fugirem das suas responsabilidades. Só faltou combinar com a turma que pretende fazer da comissão o melhor lugar para colocar o Bolsonaro contra a parede.

A base do governo começou a sua ofensiva com todo tipo de requerimento que poderia atrasar a leitura do texto de abertura dos trabalhos pelo presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Sem sucesso.

Os planos das bancadas aliadas também envolveram a criação de uma CPI alternativa (bom para diversificar o debate público) e a pressão para que não sejam indicados membros que desagradem Bolsonaro. Sobrou até para o Renan Calheiros (MDB-AL). Também sem sucesso.

Houve quem, após passar meses concordando que a covid-19 é uma gripezinha, pensou em utilizar o Supremo Tribunal Federal (STF) para que a comissão fosse criada apenas quando a pandemia acabasse. Essa alternativa teve o mesmo nível de sucesso do que a tentativa de transformar o Senado em empresa de outsourcing das Assembleias Legislativas e Câmaras dos Vereadores de todo o país.

Tudo isso contribuiu para deixar o presidente com humor ruim e muita vontade de desrespeitar autoridade. Paciência. Na ausência de outras alternativas, os bolsonaristas terão apenas que contar com o uso de recurso público para encontrar dados que possam ser úteis para as suas narrativas.

Boas notícias

A Agência Nacional de Saúde (ANS) decidiu que os planos de saúde devem autorizar automaticamente a aplicação de testes RT-PCR contra covid-19. A aprovação, até então, poderia levar até três dias para ser feita.

O Maranhão foi autorizado a importar a vacina russa Sputinik V se a Anvisa não se manifestar sobre o tema até o próximo dia 28. A medida foi tomada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski e direciona toda a responsabilidade do procedimento para o governo maranhense.

Um estudo realizado por uma equipe síria concluiu que o leite materno de mulheres que foram vacinadas contra a covid-19 contém os anticorpos da doença. Não se sabe ainda o nível de imunidade que os filhos terão, mas é uma luz no fim da quarentena.

Enquanto isso, no Brasil, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) começou os testes em macacos da vacina que é produzida pelos pesquisadores ligados à instituição de ensino. A medida é um dos passos necessários antes que os testes em humanos comecem, algo que deve acontecer no segundo semestre de 2021.

Foda passar por isso

O Ministério Público do Amazonas entrou com uma ação contra o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e contra o secretário estadual da área, Marcellus Campelo. Ambos foram acusados de omissão na crise de falta de oxigênio em Manaus do início do ano. O general também é alvo de uma investigação criminal.

Já o Tribunal de Contas da União (TCU) indicou que deve punir Eduardo Pazuello por “omissões graves“. Entre a lista de decisões catastróficas feita pelo ministro, há a mudança do plano de contingência do ministério para tirar responsabilidades do governo federal sobre o gerenciamento de estoques de medicamentos, insumos e testes.

O documento, que também acusa o governo de abuso de poder, ineficácia e omissão, é um belo presente para a CPI da Covid. Ela deve começar com a investigação das quedas de Mandetta e Teich e, eventualmente, pode até apurar o que levou o Ministério da Ciência e Tecnologia a destinar R$ 2 milhões para um laboratório que não tinha relação com o combate a covid. Não é como se o presidente da comissão estivesse de bom humor com o Planalto.

Lula lá

Lula está cada dia mais lá do que cá (se cá for a carceragem da Polícia Federal em Curitiba-PR). Após o plenário do Supremo votar (sem necessidade) a liminar do ministro Edson Fachin que anulou os processos contra o ex-presidente em Curitiba, Lula voltou a ser livre para bater ponto no Palácio do Planalto (se os brasileiros assim quiserem).

A decisão colocou, após uma penca de anos, os processos contra Lula nas varas da Justiça adequadas (a sua vara é adequada, caro leitor?). Agora, graças ao trabalho porco de gente como Sergio Moro e a turma da Lava Jato paranaense, os processos podem prescrever antes de serem julgados. Não foi por falta de aviso e conhecimento técnico das partes envolvidas que chegamos aqui.

Há ainda a chance de Sergio Moro ser considerado parcial pelo plenário do STF. Tudo isso sem que os ministros tocassem nas mensagens da Vaza Jato.

Seguindo assim, Lula poderia chegar em debates eleitorais afirmando não só que é inocente, como também que foi julgado por um juiz que não estava fazendo o seu trabalho direito. E ainda poderá dizer que o presidente fez vídeo com condenado por corrupção para falar que não rouba, hein?

É melhor a turma do centrismo muito moderado e democrático já ir se acostumando com a ideia de uma grande derrota ou um baita abraço em Jair Bolsonaro. A escolha fica a cargo do freguês.

Outras pequenas notas do Quinto dos Infernos

O orçamento que foi com Deus

A bagunça do orçamento se encaminhou para um fim mais lamentável do que a votação do impeachment de Dilma Rousseff. Jair Bolsonaro tinha um impasse: se sancionasse o Orçamento da União como ele saiu do Congresso, cometeria crimes fiscais em sequência (tinha até problema no Plano Safra (ele mesmo)), se tirasse as jabuticabas do texto, criava graves problemas com o centrão em um momento em que não é bom ficar com problemas com o centrão.

Arthur Lira (PP-AL) foi paciente e deixou bem claro que vetos no Orçamento não seriam bem aceitos pela casa. Sobrou cortar despesas obrigatórias em favor de emendas parlamentares, estourar o teto ou perder Guedes. A primeira alternativa praticamente garantiria um impeachment, a segunda deixaria bem perto de um impeachment e a terceira não faria muita diferença para Brasília (ninguém faz segredo da insignificância de Paulo Guedes).

Em um determinado momento o Lira chegou a tirar onda com a cara da equipe econômica e sugeriu que um Projeto de Lei secundário corrigindo os excessos do Orçamento fosse enviado. Apesar de Guedes ter colocado o cargo à disposição (para a garantia de boas risadas pelos corredores mais poderosos do país), a ideia foi deixada de lado por medo de que o centrão não aprovasse o projeto diante da garantia de que as suas emendas não fossem jogadas fora.

O dilema se deu por findado com uma bela obra de engenharia. O teto de gastos virou uma laje e R$ 100 bilhões foram colocados fora da meta fiscal (e do teto) de 2021. A medida será acompanhada de cortes nos ministérios, algo que pode ser traduzido como “faltará dinheiro para o cafezinho, para o papel higiênico e para o censo, mas é detalhe”.

Rei do serrote strikes again

O ministro Ricardo Salles segue sendo uma das melhores representações do que é o governo Bolsonaro (uma mistura de discurso liberista com ódio ao que pode ser visto como de esquerda e pouco apreço pelos marcos civilizatórios do século XXI). Na última semana, porém, ele também se tornou suspeito de atividade criminosa.

Vamos pelo começo. Dias atrás, no Pará, a Polícia Federal realizou a maior apreensão de madeira supostamente ilegal da história (algo fácil em um cenário em que o desmatamento da Amazônia bateu recorde e se tornou o maior em seis anos). A atitude do ministro? Criticar a demora na investigação e defender os supostos criminosos.

A Polícia Federal não gostou de ver o seu (bom) trabalho jogado às onças. O superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, apresentou uma notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, no STF, acusando Salles de fazer o que ele parecia estar fazendo (obstrução de investigação de extração ilegal de madeira). Saraiva foi prontamente substituído do cargo pelo diretor-geral da PF, Paulo Maiurino.

Saraiva era citado como “alvo a ser abatido” pelos empresários que foram defendidos pelo ministro do Meio Ambiente. O agora ex-superintendente da PF não era visto como oposicionista do governo, muito pelo contrário. Mas no cenário atual, qualquer oposição aos queridos do presidente representa um risco aos funcionários públicos. Sobrou republicanismo da parte de Saraiva, faltou vergonha na cara da parte do ministro.

Batendo no teto (o social)

A pandemia subiu alguns andares da pirâmide social e ficou mais próxima da cobertura. A retração econômica (impulsionada pelas vacinas que o presidente não comprou) já atingiu as camadas médias da população. Os dados são da Pnad Contínua.

De acordo com a pesquisa, oito em cada dez famílias em que o rendimento mensal com emprego fica acima de cinco salários mínimos perderam renda no quarto trimestre de 2020 quando comparado com o mesmo período do ano anterior. Tudo isso considerando a inflação. As perdas ficaram entre 20% e 50%, sendo que 7% das famílias ficaram sem nenhum salário no período.

Não haverá auxílio emergencial para boa parte dessas pessoas. Os que tiverem carro poderão tentar a sorte em aplicativos de transporte. Os que só tiverem bicicleta e moto, porém, terão que recorrer aos de delivery enquanto a vacina não chega.

Deu ruim

E na série “notícias para usar com quem reclama que o governo fez tudo o que poderia ter feito para ajudar o dono de botica”, a equipe econômica e o Palácio do Planalto tentou barrar projetos de lei que poderiam servir de alívio a setores prejudicados pela pandemia. A ação foi contra os interesses dos pequenos e médios empresários de setores como os de eventos, turismo, bares, restaurantes e agricultores.

Os R$ 250 bilhões previstos seriam gastos com a isenção de impostos e refinanciamento de dívidas. As medidas aprovadas pelo Congresso terão impacto ao longo de cinco anos e afetam toda a cadeia da produção cultural e do turismo. Mas para se tornarem realidade, dependem da sanção presidencial.

Se a oposição conseguir montar o trabalho dela de maneira adequada e o governo continuar nesse ritmo, o brasileiro vai sim querer voltar a sofrer na mão do Lula. Na época do Lula tinha vacina e algum suporte a comerciantes em momento de crise.


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Escrito pelo Guilherme. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog.

A Nova Era – semana #119: toca pra direita

As coisas no Brasil seguem horríveis. Elas também seguem sem uma perspectiva de melhora. Veja isso e muito mais no resumo da semana #119 do governo Bolsonaro.

Não se esqueça de compartilhar entre amigos, inimigos, pets e familiares.


The following takes place between apr-6 and apr-12


Futuro delirante

O Instituto Butantan passou a tratar o mês de abril como um “mês dramático” em termos de mortes e casos de covid-19. Podemos fechar o mês com mais de 100 mil mortos em um período de 30 dias. Diante das previsões e alertas dos especialistas no tema e as ameaças dos não especialistas em epidemiologia, prefeitos e governadores fizeram o que é mais adequado neste cenário: flexibilizaram medidas de isolamento (de novo, novamente, mais uma vez).

Passado sombrio

Diante dos alertas, o governo federal manteve-se ocupado com coisas diferentes de impedir que número de 4.000 mortes diárias se torne rotina. O Ministério da Economia, por exemplo, continuou com a sua agenda direcionada para a participação em lives promovidas por bajuladores privados das suas atividades banqueiros e investidores da bolsa. No mundo real, 19 milhões de brasileiros passaram enfrentar a fome diariamente e uma outra grande quantidade de pessoas que não são funcionárias públicas estão sem emprego ou fechando as suas empresas por falta de apoio.

Para não esquecer: o Ministério da Saúde publicou o contrato de compras de vacinas da covid-19 com a Pfizer. A medida pode ser enquadrada como quebra de contrato e pode deixar o Brasil sem uma gota do imunizante fabricado pela empresa.

Presente tenebroso

Nos hospitais tudo parece igual ao que parecia na semana anterior: alta taxa de ocupação, pessoas morrendo nas filas de UTIS e insumos insuficientes. A não ser que você seja atendido pela rede que está sob os cuidados das Forças Armadas: após ganharem R$ 2 bilhões para cuidar apenas de servidores do Ministério da Defesa e pessoas correlatas, a taxa de ocupação se manteve em torno de 15%.

O Ministério da Defesa disse que não é bem assim. Independentemente do que for o caso, a instituição poderia utilizar o seu prestígio com negacionistas para mostrar como se combate uma pandemia: uso de equipamentos de proteção, regras de distanciamento e testes, lots of tests.

Olha o centrão indo

O centrão chegou no governo Bolsonaro como o blog esperaria que chegaria: com discrição e sigilo.

A deputada Flávia Arruda (PL-DF) assumiu o comando da articulação política do governo e passou a despachar de dentro do Palácio do Planalto. Ela está no primeiro mandato, é do centrão e é casada com um sujeito que tem como grande mérito da sua carreira ter sido o primeiro governador preso na nossa história recente enquanto estava no cargo.

A formalização da entrada do centrão na coordenação política do governo aconteceu a portas fechadas, sem presença da imprensa, sem transmissão pelos canais oficiais e com pouquíssimos convidados. Mas havia alguém muito adequado para prestigiar Flávia Arruda: em uma das cadeiras reservadas para autoridades, estava Valdemar Costa Neto, condenado pelo STF em 2012 pela participação no mensalão durante o governo Lula.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Olha o centrão vindo

Rodrigo Pacheco (DEM-MG) não queria fazer uma CPI da pandemia mesmo com as normas do Senado obrigando o presidente da casa a fazer uma CPI da pandemia. Então o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), falou que não era bem assim e avisou para Pacheco que era melhor seguir as normas legais adequadamente de boa vontade.

Foi o que Pacheco fez. Apesar de reafirmar que não era hora de punir gente que age de maneira que pode ser classificada como criminosa, os passos necessários para a abertura da comissão começaram a serem dados de verdade. Resta saber se ela conseguirá, nas próximas semanas, investigar tudo o que deve ser investigado.

O presidente do Senado avisou que não moverá “um milímetro” para impedir a atuação da CPI. Talvez ele estava muito cansado diante do esforço que já tinha sido empregado com esse fim. O fato é que o número de senadores declaradamente a favor do governo é pequeno diante daqueles que se dizem independentes ou de oposição, o que pode ser visto como um sinal de que eles terão uma boa vontade menor do que aquela que o governador mineiro tem com o presidente.

O ideal é que os senadores mostrassem ao presidente como a Constituição funciona (para ver se ele reduz o número de bobagens sobre o tema que são ditas semanalmente) e identifiquem por qual motivo gastamos R$ 125 milhões em Tamiflu mas nenhum tostão para distribuir máscara de qualidade para quem precisa. Cabem várias máscaras em R$ 125 milhões de reais.

Menção honrosa

Bolsonaro sempre disse que não tinha feito nada de errado no combate à pandemia, mas foi a CPI materializar-se que o presidente começou a fazer os seus esforços para melar os trabalhos e manter a base alinhada. Em conversa divulgada pelo senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO), o presidente disse que o correto era uma CPI que apurasse os erros do seu governo e dos executivos estaduais e municipais. A lei discorda.

Bolsonaro também disse, em uma conversa com um número de palavrões baixo o bastante para indicar que não foi realizada às escondidas, que a CPI deveria ouvir só quem é bolsonarista para evitar um “relatório sacana”. O presidente também pediu com jeitinho para o Supremo ser provocado para ordenar a abertura de processos de impeachment de ministros da corte. Sabe como é, CPI e impeachment de juiz são a mesma coisa.

Em sintonia com a fala do presidente, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) protocolou no sábado (10) um pedido para ampliar o escopo da investigação. Se aceito, o pedido faria o Senado se transformar em uma Contax das Assembleias Legislativas e Câmaras dos Vereadores de todo o país.

As tentativas de interferências não foram bonitas, mas dariam orgulho a quem gosta de um espetáculo político. Mas, ao fim e ao cabo, a comissão só servirá para dar mais poder ao Senado no futuro da carreira de Bolsonaro. Agora, além de comer na mão de Arthur Lira (PP-AL), o presidente também terá que falar fino com os senadores.

Quem é o dono da bola?

A gente pode até tentar esquecer a falta de republicanismo na mente do presidente, mas ele sempre está pronto para nos lembrar que ele gosta mais de Robert Filmer do que de Locke. Na cerimônia de posse de novos generais, o presidente Jair Bolsonaro voltou a usar a expressão “meu Exército” ao se direcionar às Forças Armadas.

No mesmo evento, porém, o chefe do Estado-Maior do Exército, o general Antonio Amaro, lembrou que a espada dele “não tem partido“. Apesar do péssimo histórico da instituição nessa área, ele também lembrou que os generais recém promovidos devem zelar pela hierarquia na tropa. Faltou conferir se Bolsonaro entendeu o que isso significa.

E agora para algo completamente diferente

Duas boas notícias. A Bio-Manguinhos, da Fiocruz, conseguiu produzir 900 mil doses da Covishield em um único dia. O material estará liberado para entrega após um processo de controle de qualidade que dura 20 dias.

Segundo um estudo feito em Manaus, a Coronavac é efetiva contra a P.1. Ainda não sabemos se o imunizante ajuda com outras variantes, mas o Brasil já está importando novas cepas do vírus para auxiliar nos testes. A indústria nacional também segue com um bom trabalho nessa área e já criou variantes que unem 18 mutações nunca identificadas no coronavírus.


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A Nova Era – semana #118: saldão de crime de responsabilidade

O troca-troca nas Forças Armadas, a piora dos já péssimos indicadores da pandemia e um orçamento pra lá de criminoso.

Tudo isso e muito mais no resumo da semana #118 do governo Bolsonaro.


The following takes place between mar-30 and apr-05


Mais uma semana de pandemia

Assim como a penúltima semana e a antepenúltima semana, a última semana de pandemia foi marcada pela explosão no número de casos, as filas nos postos de atendimento e outras cenas horrorosas. Ainda não estamos no nível “caminhão das Forças Armadas carregando caixão”, mas o vírus tem um futuro brilhante em um país que amarra os seus pacientes entubados por falta de sedativo.

Em São Paulo, o segundo maior cemitério da capital suspendeu novos enterros. O motivo? Falta vaga. E se o leitor tinha inveja da água com cocô do carioca, fique tranquilo: não demora muito e boa parte do país tomará água com chorume de morto.

E esse não é o único sinal de que a situação não ficará mais leve nas próximas semanas. Agora, além das variantes locais do Sars-Cov-2, temos também a sul-africana circulando em território nacional. Ela fará a festa nas UTIs nacionais, que já registram uma taxa de morte de 52,9% no SUS e 29,7% na rede privada.

Em Mongaguá (SP), o prefeito responde quase às lágrimas que tudo o que ele queria era ouvir do seu pai e do seu irmão, mortos por Covid-19, que ele queria ter sido o responsável pelo fim dos seus empreendimentos. O culpado é quem não comprou vacina quando era tempo, evita dar apoio financeiro aos empresários para que eles deixem de trabalhar e briga pelo fim do isolamento social.

O mundo mágico de Brasília

Em Brasília (DF), as coisas seguem funcionando dentro do esperado. A primeira reunião do comitê criado por Jair Bolsonaro para discutir medidas contra a pandemia de Covid-19 terminou com divergência. De um lado, os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defenderam as medidas de restrição social e recomendaram que as pessoas ficassem em casa. Do outro, Jair Bolsonaro falou que “as pessoas querem trabalhar” e que medida de restrição era semelhante a um estado de sítio (ele bem que queria que fosse o caso, né?).

Falando no governo federal, ele foi pego gastando mais de R$ 1,3 milhão para pagar 19 influenciadores digitais para fazer propaganda de medida ineficaz contra a Covid-19. Até o final desta edição, Paulo Guedes não foi encontrado pelo blog para apontar se o “investimento” conta ou não no cálculo do teto que obrigou o seu ministério a reduzir o auxílio emergencial.

O ministro da Saúde reduziu quase à metade a previsão de doses de vacinas que estarão disponíveis em abril. A culpa, desta vez, foi direcionada à Anvisa, que vetou a Covaxin e aos institutos Butantan e Fiocruz, que estão com a produção atrasada.

Burro, burro, burro

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques, resolveu ir contra o entendimento do Supremo Tribunal Federal e liberar a realização de cultos. A decisão do ministro a favor do direito do vírus de pagar o dízimo foi individual, enquanto a decisão do STF a favor do vírus fazer um pix para o pastor foi coletiva. Pegou mal.

Teve igreja que abriu, teve igreja que continuou fechada. Tudo dependeu da vontade do pastor/padre de colocar os fiéis um pouquinho mais próximos de Deus. Sabe como é, tem gente que quer muito ter a certeza de que Deus existe e só acredita vendo o cara frente a frente.

O prefeito de Belo Horizonte foi à Justiça tentar derrubar a decisão e avisou que, no que dependesse dele, a capital mineira não seguiria a ordem de Kassio. Kalil pode ficar tranquilo, pois a decisão do ministro já tem data marcada para ser derrubada: quarta-feira, 7 de abril.

Corta, corta, corta

O Farmácia Popular, aquele programa que distribui remédios gratuitos ou com descontos, virou botica popular nas mãos de Bolsonaro, especialmente durante a pandemia do coronavírus. A rede de farmácias teve uma queda, em 2020, de 1,2 milhão de beneficiados. Os dados são da Folha de S. Paulo.

O número de 20,1 milhões de atendidos é o menor desde 2014. O número de farmácias abertas também caiu para 30.988, o menor valor desde 2013. O Ministério da Economia pretende acabar com o programa e gastar o dinheiro em outras ações.

Entra e sai

Depois de colocarem o país com o cabelo em pé, Bolsonaro e os militares se acertaram (por hora) e a democracia segue funcionando. O troca troca de ministros, no final das contas, foi só mais um troca troca de ministros. A nova rodada, que teve só gente fina ganhando cargo bom, conseguiu ampliar para 50% a taxa de ministros que perderam o cargo desde 1 de janeiro de 2019.

Na área dos militares, eles seguem fingindo muito mal que gostam de democracia e a gente segue fingindo que eles precisam dar um golpe após conseguir mais de 6.000 cargos civils na máquina federal. Os novos comandantes das Forças armadas tem um perfil diversificado, mas que falha em uma coisa simples, porém fundamental: repudiar o que há de mais criminoso contra o estado democrático.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

Meia mea culpa

Uma parte da elite brasileira começou a brincar de mea culpa pela eleição do presidente. Aparentemente, o pessoal percebeu que o Bolsonaro queria mesmo fazer aquilo que ele passou 30 anos dizendo que era necessário ser feito para resolver os problemas do país (matar um monte de brasileiro). O problema é que a autocrítica chegou tão tarde que faz a gente se perguntar se ela viria se o PIB estivesse em recuperação (o blog aposta que não seria o caso).

171 orçamentário

O governo segue brincando com o fogo e se arriscando a entrar em situação de crime fiscal. Guedes se recusa a sancionar o texto do orçamento de 2021 (sim, estamos sem orçamento) que ele enviou ao Congresso e não negociou de tal modo que ele ficasse dentro da lei. Agora tenta sair por cima e ameaçar voltar para a iniciativa privada junto com os seus subordinados.

Com crime de responsabilidade ou sem crime de responsabilidade, a gente já sabe que a prioridade maior do governo é garantir que as pautas do bolsonarismo não pragmático ganhem força em 2021. No lugar de investimento em política ambiental, teremos política a favor de um modelo conservador de família.

O que a gente não sabe muito bem ainda é quem ganhará a guerra de braços para colocar o orçamento dentro da lei. O centrão não está muito disposto a perder dinheiro que pode ser utilizado para garantir a reeleição em 2022. Ao mesmo tempo, o Bolsonaro não está muito disposto a deixar de vetar pedaços do orçamento que podem manter ele livre de um impeachment por pedalada fiscal. O blog, por outro lado, está muito feliz em saber que, se não for por pedalada, tem outros troféu.

O auxílio miou

O novo auxílio emergencial vem aí. A partir do dia 6 de abril, brasileiros poderão sacar o benefício que corresponde a 15% do que foi gasto em 2020. Além de insuficiente, o benefício chega atrasado e com a garantia de que não causará um impacto profundo nos indicadores econômicos nacionais.

ENGELS & MARX (1848)

Se o leitor do blog pensava que o marxismo cultural estava presente só nas faculdades de humanas é melhor ele rever os seus conceitos. O Manifesto Comunista também é lido nas faculdades de enfermagem, digo, nos cursos de cuidadores de idosos.

Os investigadores da Polícia Federal que averiguam o caso da farra da vacina em Minas Gerais descobriram que a vacina, na verdade, é soro. A informação foi divulgada após a PF realizar busca e apreensão na casa da responsável por vender e aplicar o medicamento nos pilantras.

O Brasil, pelo visto, chegou em um estado tão lamentável que a elite mineira do Belvedere não pode sequer comprar uma vacina ilegal sem ser feita de trouxa. Horrível, horrível.

Vá com Deus

O Supremo pretende tirar um pouco do ranço da ditadura civil-militar que ainda existe na Lei de Segurança Nacional. O projeto de desmantelamento da lei começará pelos pedaços que o governo federal utiliza para perseguir opositores.

Enquanto isso, tem gente por aí na Câmara querendo acabar com ela por completo. O que parece muito belo e muito moral tem um grande problema: se a gente acabar com a lei e não colocar algo no lugar, gente que articula pelo fim da democracia voltará a articular livremente pelo fim da democracia. Melhor seguir o caminho do Supremo.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog ou até mesmo no meu Curious Cat.

A Nova Era – semana #117: bananismo republicano

O país com um futuro mais incerto que aposta na loteria, a saúde do brasileiro indo pelo ralo e a educação dos jovens sendo tratada como a cloroquina trata o coronavírus. Tudo isso e muito mais no resumo da semana #117 do governo Bolsonaro.

Não se esquece de compartilhar com o papai, a mamãe e o titio bolsonarista, hein?


The following takes place between mar-23 and mar-29


A semana da Covid-19

Assim como as notícias sobre a saúde da nossa democracia, as notícias sobre a saúde dos brasileiros seguem horríveis. Na última semana o país conseguiu atingir a marca de 3.000 mortes registradas em um único dia. Até o momento, somente os Estados Unidos haviam passado por este cenário (no distante 11 de janeiro).

O resumo do nosso caos sanitário pode ser feito lembrando que já passamos pelas situações de corpos de pessoas no chão de hospitais, dentistas sendo convocados para atuar na linha de frente e doentes com Covid morrendo em alta velocidade nas UTIs. O pesadelo é tamanho que os médicos agora precisam lidar com pacientes acordando durante a intubação por falta de sedativo.

Em Camaquã, no Rio Grande do Sul, três pessoas morreram após serem nebulizadas com hidroxicloroquina diluída em soro. Dias antes o presidente Bolsonaro tinha recomendado a ação em uma rádio local. Enquanto isso, o Conselho Federal da categoria se recusa a rever o aval do uso do medicamento no tratamento da Covid-19.

A contagem de mortes chegou a ter risco de subnotificação após o Ministério da Saúde mudar o modo como os registros são feitos. A medida foi revogada após secretários de saúde afirmarem que o novo processo era inviável.

Mas para não dizermos que tudo está horrível, o presidente Bolsonaro deu posse de maneira discreta ao quarto ministro da Saúde no período pandêmico. O presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) afirmou que novos erros não serão tolerados e que medidas drásticas serão tomadas caso eles aconteçam, como a divulgação de notas de repúdio em outdoors e correntes de Whatsapp.

Vivendo sempre no mundo da Lua

Enquanto isso, no Planalto, todo mundo segue tratando o prédio feito pelo Niemeyer como a Ilha da Fantasia. O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a noite de terça-feira (23) para dizer que 2021 será “o ano da vacinação” e que o seu governo combateu a pandemia com muito cuidado com a vida do brasileiro. A mentira foi desmentida em texto, vídeo e gráfico.

Enquanto panelas eram batidas de cabo a rabo, Bolsonaro prometeu que, assim que as nossas atenções migrarem para notícias piores, ele ignorará todas as recomendações da OMS e fará de conta que a ciência só é boa se validar as suas ideias. O Ministério da Saúde revisou a previsão de entregas de vacina para baixo mesmo com o ministro prometendo 1 milhão de vacinas sendo aplicadas diariamente no país (o que é basicamente uma terça-feira fraca para o SUS).

Pra inglês ver

Para não dizerem que Jair nada faz, o presidente finalmente reuniu no Palácio da Alvorada os presidentes dos Três Poderes, seus ministros e um grupo de puxa sacos travestidos de governadores (sim, o vendedor de liquidificador da Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves estava lá) para criar um comitê anti-Covid. O grupo será responsável por coordenar as ações contra a pandemia. Segundo fontes do blog, a ação pretende liberar espaço na agenda do presidente para que ele possa conversar com Osmar Terra e encontrar novas formas de sabotar as ações apoiadas pela ciência.

Pílulas de esperança e desespero

Se a entrada de Queiroga foi discreta e no sigilo, a saída de Pazuello foi digna de performance na Paulista. O agora ex-ministro disse que foi alvo de boicotes (dos integrantes do ministério, não do presidente) e que ministros interessados num “pixulé” fizeram pressão ao longo da sua gestão. Ele também afirmou que identificou oito “ações orquestradas” contra a sua gestão (nenhuma delas será formalmente denunciada para os órgãos responsáveis por averiguar este tipo de questão).

O novo ministro da Saúde também avisou ao Senado que pedirá aos hospitais privados que tirem os seus pacientes da rede pública. Após esta medida de grande efetividade, ele também fará uma campanha pelo uso racional de oxigênio nos hospitais. “Respire dia sim, dia não”, diz uma das peças obtidas com exclusividade pelo blog.

Por outro lado, a Anvisa autorizou o Instituto Butantan a testar em seres humanos um soro contra a Covid-19. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes anunciou um auxílio emergencial para 900 mil pessoas no município.

Governadores e prefeitos em todo país já não sabem mais o que fazer para tentar manter pessoas em casa. Tentando diminuir a circulação de pessoas indo e voltando do seu emprego, muitas cidades e alguns estados decretaram feriados prolongados. Aproveitando as restrições para ir ao trabalho, os brasileiros foram às praias brincar de transmitir Covid-19 para desconhecidos.

Enquanto isso tudo acontecia, João Dória (PSDB-SP) mostrou que é ótimo em vender evento para empresário e péssimo em fazer marketing político. O governador com mais potencial para virar presidenciável anunciou o desenvolvimento de uma nova vacina para o coronavírus. A pesquisa, que foi feita sem que o Planalto tomasse conhecimento, foi divulgada de tal maneira que o que era para ser um trampolim para a presidência virou motivo de chacota.

Tucanos precisam aprender que eles só chegam ao poder após resolverem uma grande crise do país e capitalizar rapidamente em cima dela. Se anúncios positivos só servem para o governo federal controlar as narrativas, melhor optar pela discrição mesmo.

Foda passar por isso

Os mais desavisados já devem ter se esquecido, mas na última terça (23), a segunda turma do STF (Supremo Tribunal Federal) declarou o juiz Sergio Moro parcial na condução do processo da Lava Jato que levou à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá (SP).

A votação foi marcada por um voto bem mela cueca do ministro Kassio Nunes Marques, que focou em coisas que não estavam em debate para se convencer da tese lavajatista. Os ministros divergentes rebateram falando que não era “hora de covardia”, questionando se alguém “compraria um carro usado de Moro” e afirmando que o argumento de Marques não era garantismo “nem aqui nem no Piauí”. Brincadeira, quem falou isso tudo foi o Gilmar Mendes, o usuário de alemão de primeira ordem e maior garantista do país.

Graças a anulação da sentença no último dia 8 de março, o caso do tríplex voltou à estaca zero. Além de ser mais uma derrota para a derrotadíssima Lava Jato, a decisão também sepulta um pouco mais a moral do ex-ministro, ex-bom falador de francês e ex-juiz Sergio Moro. Quem poderia imaginar que misturar o Poder Judiciário com a política daria errado, não é mesmo?

O Sergio Moro, aliás, disse que está convicto sobre as suas decisões. Ele não pode dizer o mesmo sobre as chances de chegar um dia ao STF ou ao Planalto, mas bem que gostaria.

Pequenas notas do Quinto dos Infernos

País deseducado é país sem democracia

Lembra quando o Ministério da Educação era focado em educar pessoas? O blog lembra e não é uma memória criada após 31 de dezembro de 2018. Nos últimos dias o grupo de especialistas responsável pela renovação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal avaliação nacional da qualidade da educação, foi dissolvido pelo MEC. Quem cuidará do indicador, agora, será a Secretaria Executiva da pasta, uma parte política do órgão.

Enquanto uma única pessoa cuidava de todos os repasses do Fundeb em uma planilha do Excel (e cometia erros na casa dos milhões de reais), o MEC também abriu um edital para contratar profissionais no mercado em um processo com cara, cheiro e gosto de mutreta. O objetivo? Achar pessoas para fazer um trabalho que os técnicos do Inep já fazem, mas utilizando uma metodologia que só conservador gosta e ignorando a prova que já está formulada.

Se a desgraça já não era o bastante, o péssimo orçamento que o governo enviou ao Congresso teve R$ 1 bilhão de reais em cortes de receitas na área do ensino superior. Como as instituições devem manter o ritmo de aula à distância até 2022, a falta de papel higiênico não será tão sentida desta vez.

O Brasil é um país em que a chance de um filho repetir a baixa escolaridade de sua família é o dobro da de um aluno americano. Se considerarmos fatores de raça e renda, as chances de mobilidade educacional ficam ainda piores. Considerando que a prioridade do governo federal é legalizar ensino doméstico, é pouco provável que a próxima versão deste tipo de estudo entregará um resultado diferente.

Brincando de fazer a coisa certa

Nas vésperas da conclusão do primeiro terço de 2021, o Congresso aprovou o Orçamento da União para 2021. O texto final está com mais inconsistência e tecnicalidade problemática do que um trabalho escolar feito por um bêbado. Para quem deseja apoiar um impeachment nos próximos meses, ele está um prato cheio de oportunidades.

Se sancionado como está, o presidente Jair Bolsonaro poderá entrar em situação de suspeita de crime fiscal. Quem esteve vivo nos últimos 10 anos sabe que não cumprir as normas fiscais do país é algo que pode até passar por debaixo dos panos por alguns anos, mas no contexto certo, pode ser a desculpa perfeita para tirar alguém do Planalto na base do tapa. Mas para que isso ocorra, é claro, alguém tem que puxar o bonde do impeachment.

Não é muito difícil colocar o presidente em uma situação complicada diante do TCU. Basta deixar o Paulo Guedes e a sua turma soltos pelas ruas de Brasília por umas duas semanas. Uma boa forma de pensar se isso vale a pena ou não é respondendo a seguinte pergunta: se o governo pode nos tirar a chance de fazer o Censo, por qual motivo não poderíamos nos dar ao direito de tirar o governo?

Entra e sai I

Eduardo Pazuello não foi o único que saiu do governo na última semana. O 4chanceler Ernesto Araújo conseguiu afundar a diplomacia do país e caçar confusão com o Senado a um nível tão grande que ele se viu forçado a pedir demissão do cargo. Vamos ao recap.

Primeiro, o ministro foi alvo de uma sabatina no Senado que abriu espaço para que todos os presentes destruíssem a moral do agora ex-chanceler. Até mesmo o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aproveitou a chance para bater no cachorro morto.

Após conversar com presidente da Câmara, o 4chanceler ganhou confiança e foi atrás de uma das piores pessoas do Legislativo para se caçar briga, a senadora Kátia Abreu (PP-TO). Obviamente a insinuação de que a senadora era lobista da Huawei não deu muito certo: a sua resposta veio por meio de uma nota chamando Ernesto de mentiroso e marginal.

Junto com a cartinha de 300 diplomatas contra o seu superior, a situação ficou tão complicada que mais um olavista foi demitido por Bolsonaro (para ser trocado por um olavista moderado). Não foi o maior especialista em fazer gestos fascistoide de Brasília, mas é menos um na conta dos imbecis que fazem parte do governo e trabalham para normalizar simbologia fascista diariamente.

Entra e sai II

O entra e sai continuou nas últimas horas da segunda-feira. A Folha trouxe um resumo de quem saiu, quem ficou e quem entrou. É gente com histórico político de baixa qualidade, fiel às ideias do presidente e com algum trânsito no Legislativo. Se isso for uma tentativa de ganhar tempo com o centrão, ela pode não dar muito certo.

Os três comandantes das Forças Armadas colocaram o seu cargo à disposição do governo [UPDATE: eles se demitiram enquanto este pedaço da edição era editado (sem brincadeira)]. A desculpa foi a mesma ventilada em alguns veículos para justificar a demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva: resistência dos representantes de instituições com histórico de 100 anos de golpismo escancarado nos últimos 131 anos de história republicana a embarcar na aspirações golpistas do presidente.

A demissão do general Fernando Azevedo e Silva acompanhada dos gestos dos comandantes das Forças Armadas pode ser o primeiro passo de um futuro horrível ou apenas mais um passo em direção a um futuro muito ruim. O saldo, até o momento, é uma versão piorada do que tivemos nas últimas semanas: um presidente que faz de conta que faz alguma coisa, um centrão que finge que fiscaliza o governo e um monte de militares que fingem que gostam de democracia por saberem que não precisam acabar com ela para dominar uma parte significativa do governo federal.

E o Guedes? O Guedes está por aí molhando os sonhos de investidores internos que ignoram a pressão de agentes externos e a situação lamentável deste país. Prioridades.


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Escrito pelo Guilherme e revisado com a ajuda da Ninna. Qualquer erro pode ser apontado diretamente no Twitter do blog ou até mesmo no meu Curious Cat.